Bom desempenho esconde as turbulências na petroquímica

Os resultados da Braskem em 2013 foram muito positivos: recorde na produção de eteno e de polietilenos, com aumento de 6% das vendas de resinas ao mercado interno.

Com isso, a receita líquida da companhia atingiu a invejável marca de R$ 41 bilhões, 13% acima da registrada em 2012. E o lucro, medido em Ebitda, cresceu 22%, perfazendo R$ 4,8 bilhões.

Dados tão animadores contrastam com as nuvens negras que se avolumam no horizonte petroquímico nacional ou, talvez, regional.

O shale gas norte-americano avança rapidamente e o cômputo dos projetos anunciados indica a entrada em operação de uma avalanche de crackers de etano, em volume capaz de inundar o mercado das Américas com resinas termoplásticas de baixo preço a partir de 2017.

Nesse contexto, a Braskem negocia com a Petrobras a renovação do contrato de suprimento para 70% da nafta que consome, sendo essa a principal carga dos fornos petroquímicos nacionais.

Estima-se que a nafta represente por volta de 60% dos custos variáveis de uma petroquímica, motivo pelo qual essa negociação tem importância capital para a companhia.

O contrato vigente termina em março.

Plástico Moderno, Fadigas não concebe a ideia de elevar as importações de nafta
Fadigas não concebe a ideia de elevar as importações de nafta

“Mantemos uma discussão permanente com a Petrobras sobre isso porque precisamos manter a competitividade global, evitando aumento de custos”, afirmou Carlos Fadigas, presidente da Braskem.

Ele salientou que é impossível manter uma indústria petroquímica sem um fornecedor local de matérias-primas.

No acordo atual, a companhia já importa 30% da carga líquida que consome.

“Esse volume já nos coloca entre os maiores importadores de nafta do mundo, seria muito difícil aumentar essa participação”, considerou.

Ao mesmo tempo, a Petrobras está ampliando o seu parque de refino de petróleo, devendo apresentar maior disponibilidade de nafta para a indústria em alguns anos.

Ocorre que, com o preço dos combustíveis automotivos submetidos a férreo controle do governo federal, a estatal precisa buscar remuneração melhor dos coprodutos, entre eles a carga líquida para a petroquímica.

“Talvez não seja possível baixar o preço atual da nafta, mas esse preço não pode subir”, disse.

No mercado internacional, a tonelada de nafta petroquímica está cotada entre US$ 900 e US$ 950.

Nesse patamar, Fadigas calcula que produzir uma tonelada de polietileno custa US$ 1,2 mil.

Esse custo cairia para US$ 300/t se fosse utilizado etano de shale gas.

“É preciso adicionar os custos de fretes, impostos e margem de lucro, entre outros, que acabam equilibrando um pouco o jogo, mas a diferença é gritante”, comentou.

Nesse sentido, o alívio da carga de Pis/Cofins incluída no Regime Especial da Indústria Química (Reiq) contribuiu para o resultado positivo da atividade no ano passado.

Em contrapartida, o setor sentiu a extinção, em 2013, do programa Reintegra, que devolvia 3,5% do valor exportado às indústrias, compensando a retenção antecipada de impostos na cadeia produtiva.

“O Reintegra gerava um impacto de R$ 200 milhões a R$ 300 milhões por ano para a Braskem, isso deveria ser mantido”, avaliou Fadigas.

Em 2013, a companhia petroquímica conseguiu manter em 90% a ocupação média de suas capacidades, apesar da parada programada para manutenção no site de Camaçari-BA.

Isso permitiu produzir 3,4 milhões de toneladas de eteno e 2,6 milhões de toneladas de polietilenos no ano.

A companhia apontou que a demanda brasileira por poliolefinas (polietilenos e polipropilenos) chegou a 4,1 milhões de toneladas em 2013, 7% a mais que o registrado em 2012.

Fadigas atribuiu a evolução ao desempenho dos setores automotivo, alimentício, construção civil e agronegócio e também à entrada oportunista de grande volume de resinas importadas.

Ao mesmo tempo, as vendas da Braskem para esses produtos cresceram 5%, chegando a 3 milhões de t, dominando 74% do mercado local.

Para tanto, a exportação dessas resinas caiu 15% em relação a 2012.

No campo dos vinílicos, a companhia respondeu por 50% do suprimento ao mercado interno em 2013, contando com a produção aumentada pela conclusão dos investimentos em Alagoas, tendo vendido 637 mil t no ano.

A demanda no país totalizou 1,3 milhão de t, 12% superior ao volume de 2012, crescimento puxado pelo setor de construção civil.

Essa posição de mercado tende a crescer.

A Braskem adquiriu a Indupa (vendida pelo grupo Solvay), produtora de soda/cloro e de PVC na Argentina e no Brasil, adicionando 540 mil t/ano às 710 mil t anuais de capacidade produtiva dessa resina.

A capacidade consolidada chega a 1.250 mil t/ano.

Fadigas salientou que ainda será preciso completar a negociação, mediante a aquisição por oferta pública dos 30% do capital da Solvay Indupa, em poder de investidores atuantes na Bolsa de Valores de Buenos Aires.

A subsidiária Braskem America, com fábricas de polipropileno nos Estados Unidos e Europa, beneficiou-se com a recuperação econômica nessas regiões, tendo produzido e comercializado cerca de 1,8 milhão de t em 2013, quase 3% acima da quantidade verificada no ano anterior.

A taxa de ocupação subiu de 89% para 91%, refletindo uma melhora na gestão dos ativos.

Ao mesmo tempo, a ocupação das capacidades de produção de PP no Brasil caiu de 84% para 82% em 2013. Segundo Fadigas, isso aconteceu por restrição de suprimento de propeno, que deveria ser importado.

A companhia está analisando um projeto a ser desenvolvido com um grupo de investidores para aproveitamento do shale gas nos EUA.

Com o nome de Ascent (Appalachian Shale Cracker Enterprise), o projeto permitirá produzir eteno na Virgínia Ocidental, na bacia de Marcellus.

“Ainda estamos estudando o projeto, mas já temos uma opção de compra de gás na região e a ideia é replicar a engenharia que estamos usando no México, opção que aceleraria as operações em um ano e meio”, comentou Fadigas.

Para ele, esse projeto deve ser bancado com recursos externos, pois o caixa da companhia e as fontes brasileiras de financiamento serão destinados a empreendimentos locais, como o Comperj petroquímico.

A decisão final de investir no Ascent deve sair em 2015.

Aliás, o projeto fluminense segue em marcha lenta.

“É improvável que tenhamos todos os parâmetros básicos para elaboração do estudo preliminar até o fim de 2014, isso adia a decisão de fazer ou não o investimento para 2015”, afirmou.

É preciso esperar pela definição das curvas de produção da Petrobras para se definir o volume disponível, a composição e o preço do gás natural que será consumido no cracker.

Expectativas animadoras – Confiante no bom andamento da negociação do preço da nafta, Fadigas aponta um cenário mundial menos turbulento para a atividade.

A recuperação econômica dos Estados Unidos e também da Europa deve redundar em aumento do consumo de petroquímicos.

A China revela dados de uma condução segura do seu desenvolvimento, embora abaixo dos dois dígitos, como era comum há alguns anos. “Até o Japão mostra bons números, com aumento de demanda”, comentou.

No Brasil, a desvalorização do real em relação ao dólar ajuda a indústria nacional a recuperar competitividade, tanto assim que o Ebitda de 2013 apresentou significativa melhoria.

“Os anos anteriores, 2012 e 2011, foram muito desafiadores, mas mantivemos nosso compromisso de aprimorar a operação dos ativos e obter deles a máxima rentabilidade, além de lançar as bases para o futuro da companhia, diversificando as matérias-primas e construindo unidades de maior porte”, afirmou Fadigas.

Ele trabalha com a hipótese de aumento do PIB de 2,2% em 2014, alicerçando o crescimento da demanda nacional de resinas termoplásticas entre 3% e 4%.

Em 2013, a companhia investiu R$ 2,7 bilhões, dos quais praticamente a metade foi direcionada para manutenção e melhoria dos ativos atuais e cerca de 40% para o projeto Etileno XXI, que constrói em Vera Cruz (México) em parceria com a Idesa.

O projeto mexicano já está com 58% do avanço físico concluído e deve dar partida em 2015, contemplando um cracker de etano e três linhas de produção de polietilenos, perfazendo a capacidade total de 1,05 milhão de t/ano de resinas.

Para o ano que começa, a Braskem vai investir R$ 50 milhões para converter uma de suas plantas de polietileno de alta densidade na Bahia para produzir polietileno de baixa densidade linear com catalisadores metalocênicos.

Com isso, quer atender melhor a indústria de fabricação de filmes plásticos.

Em 2013, a companhia lançou 13 grades de resinas plásticas, direcionados para aplicações inovadoras.

É o caso do polietileno para embalagens sopradas de agroquímicos e do PE de alta resistência para filmes encolhíveis de embalagem, consumidos pelas indústrias de bebidas, além do polipropileno específico para uso automobilístico.

“Obtemos 19% da nossa receita com produtos lançados há três anos ou menos”, salientou.

A companhia assinou com a Styrolution (uma das líderes mundiais em derivados estirênicos) um memorando de entendimento para criar uma joint venture no Brasil, na qual teria 30% do capital, para a produção de especialidades estirênicas e copolímeros ABS e SAN, atualmente importados para a fabricação de autopeças e eletrodomésticos.

“Esse projeto aproveitará a disponibilidade de acrilonitrila e estireno em Camaçari, produzidos por outras companhias, além do nosso butadieno, isso dinamiza o polo como um todo”, considerou Fadigas.

Ele também salientou que a produção dessas substâncias é feita com insumos oferecidos pela própria Braskem.

Embora sem citar os números de produção, o executivo afirmou que a produção de polietilenos verdes, no polo de Triunfo-RS, segue abrindo novos mercados e conquistando mais clientes em todo o mundo.

“Estamos estudando a produção de polietileno verde de baixa densidade por processo de alta pressão convencional, aproveitando uma unidade de polimerização existente em Triunfo”, comentou.

No entanto, como os polietilenos tendem a ser as resinas mais atingidas pelo fenômeno do shale gas, a companhia pretende direcionar seus esforços na linha do etanol para outras linhas de produtos, como o butadieno, obtendo melhor rentabilidade.

A expectativa da Braskem é de rodar as capacidades instaladas no Brasil com 89% de ocupação em 2014.

“Teremos duas paradas programadas de manutenção, a de Triunfo-RS em março e a de Santo André-SP em setembro; em 2011 também tivemos duas paradas e rodamos com 82% de ocupação anual”, informou.

A central de Camaçari parou pelo mesmo motivo no quarto trimestre de 2013.

Uma das linhas de investimento da companhia buscou tornar o site de Camaçari menos sensível aos apagões, que se tornaram frequentes.

“Registramos um apagão por ano no Nordeste desde 2011, no ano passado já conseguimos evitar uma parada brusca em agosto, colocando em operação os geradores”, comentou.

Mesmo assim, o apagão de agosto impôs uma despesa adicional de R$ 50 milhões na geração termelétrica.

Os polos petroquímicos paulista e gaúcho sofrem menos com as interrupções de suprimento de eletricidade, o primeiro por contar há anos com geração própria e o segundo por contar com um fornecimento mais estável de energia.

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