Ano começa com vendas em alta e desafios a superar

Os resultados do primeiro trimestre de 2014 foram positivos para a Braskem, porém não muito animadores.

A melhor notícia foi o aumento do Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização, ou seja, geração de caixa operacional) de janeiro a abril, em base recorrente (sem incluir a venda de ativos) de 9% em relação ao último trimestre de 2013, chegando a US$ 573 milhões.

Esse aumento da geração de caixa foi obtido sem que a companhia registrasse variação na venda física de resinas entre os períodos considerados, ficando estável em 901 mil toneladas.

Quando se comparam os primeiros trimestres de 2014 e 2013, verifica-se que a demanda nacional por resinas termoplásticas (os principais produtos da Braskem) chegou a 1,3 t, com alta de 3% sobre os três primeiros meses do ano passado.

Enquanto isso, as vendas da companhia caíram 2%. “Perdemos uma pequena participação no mercado, especialmente nos polietilenos e alguma coisa no polipropileno”, explicou Carlos Fadigas, presidente da Braskem.

“No PVC, conseguimos acompanhar a evolução do mercado nacional, pois estamos com planta nova em operação plena em Alagoas.”

A receita líquida trimestral alcançou R$ 11,8 bilhões, superando em 10% o dado do trimestre imediatamente anterior.

Fadigas atribuiu esse aumento à desvalorização da moeda local em quase 4% no período, combinado ao aumento dos preços das resinas plásticas no mercado global, cuja demanda se mostra em recuperação.

A variação cambial resultou em aumento de R$ 330 milhões nos custos operacionais do trimestre (compra de nafta e de gás natural, principalmente), mas foi superada pela elevação das receitas em R$ 438 milhões.

Plástico Moderno, Fadigas espera concluir o acordo da nafta no segundo trimestre
Fadigas espera concluir o acordo da nafta no segundo trimestre

“Essa diferença de R$ 108 milhões foi incorporada ao Ebitda”, explicou Fadigas.

Além disso, a venda dos ativos da unidade de tratamento de água de Triunfo-RS para a Odebrecht Ambiental rendeu outros R$ 277 milhões, elevando o lucro líquido do trimestre para R$ 396 milhões.

Com a inclusão da venda dos ativos, o Ebitda (não recorrente) sobe para R$ 1,6 bilhão, ou US$ 690 milhões.

A parada programada de manutenção da linha principal de produção da companhia em Triunfo-RS transcorreu sem problemas entre os meses de março e abril.

No entanto, algumas dificuldades operacionais imprevistas impactaram negativamente as áreas de produção de Santo André-SP e Duque de Caxias-RJ.

Com isso, o índice de ocupação de capacidades no trimestre ficou em 85%, abaixo da média anual desejada pela companhia, de 89%.

Fadigas informou que a unidade do ABC paulista, capaz de gerar 700 mil t/ano de eteno, encontrou uma falha no seu principal compressor, cujo desempenho se tornou instável.

“Perdemos com isso quase 2% da capacidade paulista e isso ficará assim até a parada de manutenção da unidade, marcada para setembro”, informou.

A unidade da Baixada Fluminense sofreu redução de suprimento de etano e propano por parte da Petrobras. A estatal, também acionista da Braskem (40%), prometeu resolver a questão, porém ela perdurava até a metade de maio.

O cenário internacional para produtos petroquímicos tende a apresentar ligeira melhora. Segundo Fadigas, a China deve obter um crescimento de 7,5% em 2014, enquanto o produto mundial ficará 3,6% maior.

As economias dos Estados Unidos e da Europa apresentam leve recuperação.

“A demanda global por eteno deverá apresentar crescimento médio anual de 6 milhões de toneladas entre 2014 e 2017, mas a oferta só superará a demanda global a partir de meados de 2016, com a partida de alguns projetos produtivos”, comentou Fadigas.

Esse número, no entanto, inclui algumas unidades chinesas a carvão, cujo prognóstico é ainda incerto.

A nova sensação do mercado global de petroquímicos, os Estados Unidos e seu mar de shale gas, está ampliando e construindo novos crackers, mas a adição de capacidades significativas só é esperada para 2017 e 2018, como explicou o presidente.

Passado o inverno no Hemisfério Norte, o preço do etano nos EUA começou a cair, mas a situação política da Ucrânia e seu relacionamento com a Rússia podem fazer disparar os preços do gás natural em todo o planeta.

Investimentos – Com base nesse cenário e nos seus planos de longo prazo, a Braskem manteve o ritmo dos investimentos.

No primeiro trimestre deste ano, a companhia alocou R$ 763 milhões, sendo a metade desse valor destinada à manutenção e melhoria de produtividade e confiabilidade dos ativos.

Quase 45% do total foi aplicado no projeto Etileno XXI, no México, em associação com o grupo Idesa, este com 25% do capital.

“O sistema tributário mexicano prevê o recolhimento prévio do imposto sobre valor agregado nos investimentos, para posterior devolução; os R$ 349 milhões investidos no trimestre devem retornar ao caixa da Braskem no futuro”, explicou.

Até meados de maio, o projeto Etileno XXI já havia sacado US$ 2,465 bilhões dos recursos obtidos no plano de financiamento.

O avanço físico dos trabalhos já passou de 66%, confirmando a expectativa de partir o complexo no segundo semestre de 2015.

A planta mexicana tem contrato de suprimento de etano de gás natural com preço atrelado ao do mercado norte-americano, embora sua produção se destine ao mercado mexicano, hoje importador de polietilenos.

Atualmente, o projeto está em fase de pré-marketing, usando resinas importadas das unidades da Braskem no Brasil, com suprimentos enviados pelos licenciadores das tecnologias de polimerização (Ineos e LyondellBasell) e também com material adquirido de distribuidores norte-americanos.

“No México, nossa prioridade atual não é ampliar volume, mas de fortalecer laços e entender melhor o mercado, saber quais os grades consumidos, estabelecer limites de crédito e estruturar a assistência técnica”, comentou.

Segundo Fadigas, o México ampliou a competitividade de sua indústria manufatureira, dispondo de mão de obra mais barata que a do Brasil, assim como energia e matérias-primas com preços baixos.

A ligação favorecida com os EUA e o Canadá por meio do Nafta também traz bons negócios aos mexicanos.

“Os Estados Unidos também reduziram o custo de mão de obra, porém pelo aumento brutal da produtividade, uma das que mais avançou no mundo”, considerou Fadigas.

O modelo de investimento no projeto mexicano foi considerado tão bom que deverá ser replicado nos Estados Unidos, aproveitando a disponibilidade de etano de baixo custo.

A Braskem estuda construir um cracker de porte idêntico ao mexicano, com downstream semelhante, pois já conta com as licenças e poderia usar a mesma engenharia básica, acelerando toda a operação.

A companhia elegeu a região da Virgínia Ocidental (West Virginia) para o projeto, denominado Ascent, fora da área usual dos projetos petroquímicos americanos, geralmente alocados no Texas ou na Louisiana.

“Ficaremos mais próximos do grande parque transformador de plásticos, situado nos estados mais ao Norte”, disse Fadigas.

Ele também espera contar com etano a preços mais camaradas, por ser um dos poucos consumidores locais – a área fica próxima do grande reservatório Marcellus de shale gas.

O projeto americano começa a ganhar corpo. A Braskem firmou em março um pré-contrato com a produtora de óleo e gás independente Antero para garantir o suprimento de 40% a 50% das necessidades de etano de Ascent, caso ele venha a ser efetivamente construído.

“A responsabilidade é deles, não nos comprometemos a comprar nada caso a companhia decida não tocar adiante o projeto”, salientou.

O preço acordado para o gás não foi revelado, mas seguirá os parâmetros do mercado norte-americano.

A intenção da companhia é de contar com vários fornecedores, incentivando a competição entre eles.

Por enquanto, a companhia não pretende usar o shale gas para a produção de propeno (via dimerização e metátese subsequente), necessário à produção de polipropileno.

A Braskem possui grande participação em PP nos Estados Unidos, resultado da aquisição dos negócios da Dow nesse material.

“Quase um terço de todo o PP consumido em aplicações automotivas nos Estados Unidos é produzido pela Braskem”, afirmou Fadigas.

Como tem vários fornecedores de propeno naquele país, a situação de suprimento é tranquila.

Apesar disso, possui um acordo para comprar o propeno a ser produzido pela Enterprise em sua futura linha de desidrogenação de propano, que deve iniciar a operação no segundo semestre de 2015.

Preocupação local – A principal prioridade da companhia para o segundo trimestre de 2014 é a renovação do contrato de suprimento de nafta para os crackers de carga líquida instalados no Brasil (as centrais petroquímicas, no modelo setorial antigo).

“O contrato firmado em 2009 foi prorrogado até junho, estamos em tratativas com a Petrobras e deveremos chegar a um acordo”, disse o presidente da Braskem.

No entanto, ele salienta que a estatal (uma de suas acionistas, por sinal) precisa considerar o impacto do shale gas nos preços mundiais de insumos e de produtos do setor.

O segundo ponto focal recai no relacionamento cada vez mais estreito com os clientes e os esforços empreendidos pela cadeia produtiva junto ao governo federal para melhorar a competitividade da indústria.

“O ambiente de negócios está ruim no país”, avaliou. Os números preliminares de vendas em abril já indicam um desaquecimento da demanda local. A companhia também apoia esforços dos clientes para ganhar mercado internacional.

Entre as grandes tarefas da companhia está a conclusão da compra da Solvay Indupa, em fase de avaliação pelos órgãos do governo argentino e de negociação com minoritários.

A Braskem estuda participar do projeto petroquímico do Comperj, mas aguarda definições sobre a disponibilidade, composição e preço da matéria-prima, o gás natural.

As tratativas se arrastam, mas o executivo acredita que cheguem a bom termo, diversificando a matriz de consumo da companhia, ainda muito dependente da nafta.

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