Negócios e Tecnologia: Especialista aponta desafios e oportunidades no horizonte da indústria química global – Perspectivas 2018

Albert Hahn
19 de Março de 2018
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    Plástico Moderno, Albert Hahn é sócio-diretor da Ecoplan Consultoria, de São Paulo, e senior partner da Ecoplan International, de Paris

    Albert Hahn é sócio-diretor da Ecoplan Consultoria, de São Paulo, e senior partner da Ecoplan International, de Paris

    Por volta de 1935 – já vai para um século – a DuPont lançou o slogan “Better Living Through Chemistry”, melhorando de vida graças à química. E, de fato, naquela época era a química quem dava as cartas, puxava o cordão, indicava o caminho para a sociedade melhorar de vida. Quem fez mais pela emancipação das mulheres do que as fibras sintéticas? Ou a pílula?

    Hoje essa colocação soaria ultrapassada. A química continua crescendo e inovando, mas quem compõe a comissão de frente da escola agora é a física. Aliás, já é assim há algum tempo.

    Em 1986, foi realizado um estudo sobre custo de geração e valor de tecnologia, onde a missão era arbitrar uma pendência triangular evolvendo um licenciador de tecnologia, sua licenciada brasileira e o INPI, que representava a síntese dos interesses do país. O licenciador, um dos grandes conglomerados químicos europeus, abriu não só os laboratórios e pilotos que tinham a ver com o assunto em questão, como também a contabilidade de custos de toda a atividade de P&D do grupo. A começar com a “pesquisa fundamental” – métodos analíticos, modelizações matemáticas – cujos custos eram rateados pelas divisões que as solicitavam – passando pelos pilotos (contínuos, altamente instrumentados), até chegar, na base da pirâmide, nas células de trouble shooting que estavam lá para solucionar problemas prementes da clientela.

    A empresa brasileira, além daquilo que havia pago pelo projeto e o know-how, continuava recebendo assistência técnica do licenciador, pela qual também pagava. Era esse o acordo que estava para ser prolongado por mais cinco anos, e que constituía o foco do trabalho.

    Entre os ensinamentos derivados desse contrato – às vezes parece que é o consultor que deveria remunerar o cliente – está a constatação de que 1985 havia sido o primeiro ano em que, dos recém-formados admitidos para trabalhar em P&D, o número de físicos havia excedido o de químicos. Poucos anos depois, aliás, os físicos eram 85% da turma de admitidos. A tal ponto que cabe perguntar se a física não estaria a ponto de perder essa liderança para outras ciências, as ditas “da vida” ou outras, que há pouco tempo nem tinham nome, e agora surgem no sulco da química do silício, no sentido mais amplo.

    Por enquanto, a química continua tendo seu papel incontornável e avança, sobretudo, em diversas frentes:

    Biotecnologia, sensu latu indo desde a produção em grande escala, por fermentação de biomassa, de intermediários até então obtidos por via petroquímica (ou até, inexistentes em escala comercial), até novas armas com quais combater o câncer. A diversidade de tarefas com que parece ser possível incumbir os micro-organismos parece não ter limites.

    Um exemplo recente, entre muitos, é o da metionina, ácido aminado utilizado no mundo em escala que se aproxima de 1 MM t/ano, obtido por uma síntese de várias etapas em que participam matérias-primas baratas, porém altamente desagradáveis, como acroleína, metilmercaptana e HCN. Pois não é que conseguiram criar um micro-organismo que se alimenta de um coquetel de nutrientes inorgânicos e de carboidratos, excretando metionina? E isso em teores de g/l de calda no fermentador que tornam o processo competitivo com a via sintética.

    Mas nem sempre o teor de produto no fermentador conta a história toda. A notícia de que a empresa californiana Verzyne estaria obtendo resultados altamente promissores com a obtenção, por fermentação, do ácido adípico faz relembrar um caso ocorrido aqui no Brasil há lá se vão bons 50 anos.

    O ácido adípico, matéria-prima do náilon 66, era (e ainda é) obtido por oxidação nítrica de cicloexanol. Não é preciso dizer que se trata de um processo altamente corrosivo e poluente, que exige o emprego de materiais nobres cujo custo é várias vezes o do aço carbono. Ao servir como oxidante, o nítrico concentrado é reduzido a vapores nitrosos, os quais precisam ser recuperados e reconvertidos em ácido, exigindo um investimento suplementar em aparelhagem anexa quase equivalente ao de uma unidade de ácido virgem Não é à toa que a obtenção de adípico por oxidação catalítica com ar ou oxigênio, era – é até hoje – um exemplo de Santo Graal da pesquisa.

    Vai daí que quando chegou na França a notícia de que no Brasil um grupo de pesquisadores da Rhodia estava, na moita, conseguindo fazer adípico sem nítrico e com excelentes rendimentos, a reação foi de consternação. Como é que esta turma de ferrabrases lá nos trópicos consegue algo que estamos há anos tentando sem sucesso?

    Mas diante dos resultados, foi autorizada a montagem de um piloto capaz de produzir quantidades suficientes para a avaliação do produto na fabricação de filamentos. E aí – decepção em Paulínia, talvez um certo alívio em Lyon – constatou-se que o produto simplesmente não iria servir: o índice de quebras de filamentos durante a estiragem, esteio dos economics de produção, era 10 ou 100 vezes o aceitável. De volta, pois, à bancada.

    Acontece que as análises das impurezas haviam visado aquelas especificadas para o adípico convencional, o “nítrico”. .E o produto “ao ar” passava em todas. Mas na oxidação com ar apareciam outras impurezas, até então desconhecidas, presentes algumas em teores da ordem dos ppm, para os quais nem existiam métodos analíticos confiáveis e que muito possivelmente seriam os culpados.


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