Nanotecnologia garante segurança das embalagens

A segurança das embalagens e de produtos embalados contra falsificação, contrabando e roubo ganhou em aliado importante, com auxílio da nanotecnologia.

A segurança das embalagens e de produtos embalados contra falsificação, contrabando e roubo ganhou em aliado importante, com auxílio da nanotecnologia.

A startup Ciclopack desenvolveu um sistema composto de marcadores, leitor específico e software de análise e gestão capaz de proporcionar muitos benefícios aos usuários.

Além de aumentar a segurança de fabricantes e consumidores, o sistema também auxilia as atividades de economia circular, além de permitir o acompanhamento de operações logísticas e estratégicas.

“A segurança é um ponto crítico, chama a atenção dos interessados e é o nosso primeiro mercado-alvo, mas há vantagens adicionais muito interessantes para vários segmentos de mercado”, explicou Leonardo Roriz, criador da Ciclopack e também diretor de startups da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A preocupação do mercado tem fundamento. Roriz citou dados do Fórum Nacional de Combate à Pirataria (FNCP) que indicam perdas de R$ 200 bilhões no Brasil, em 2019, provocadas por fraudes, falsificações e contrabando de produtos.

“Só na área de defensivos agrícolas, essas perdas somaram R$ 7 bilhões no ano passado”, comentou. “O valor recuperado mediante operações policiais ficou em apenas R$ 3 bilhões, é preciso investir mais em segurança, reunindo esforços públicos e privados.”

A situação vem se agravando nos últimos anos. Em 2014, essas perdas somaram R$ 100 bilhões. Em cinco anos, o valor duplicou, é um ritmo muito acelerado, que acompanha uma tendência global. No mundo, essas perdas são trilionárias.

Plástico Moderno - Roriz: sistema também ajuda a monitorar a reciclagem
Roriz: sistema também ajuda a monitorar a reciclagem

“O valor perdido em 2019 no Estado de São Paulo seria suficiente para gerar 90 mil novos empregos; em escala nacional, as perdas poderiam ser convertidas em investimentos, gerando até 2 milhões de novos postos de trabalho”, informou.

Atento ao problema, Roriz montou uma equipe para estudar possíveis meios de ajudar a controlar a circulação de produtos. Depois de um ano e meio de estudos, com apoio das unidades do Senai de São Bernardo do Campo-SP e São Caetano do Sul-SP, surgiu o sistema da Ciclopack.

“Já estamos atuando há mais de três anos e estamos prestes a fechar um contrato com uma grande empresa da área de bebidas”, informou.

O coração do sistema está no domínio da nanotecnologia, que proporciona a fabricação de partículas minúsculas, em nanoescala, que podem ser adicionadas a tintas, materiais plásticos e papéis. “Temos as opções de colocar esses marcadores nos revestimentos ou na massa das peças, esta opção muito indicada para peças ou filmes plásticos”, explicou.

Cada marcador é desenvolvido para cada cliente (ou para cada um de seus produtos, se desejado), com exclusividade. Sua identificação requer um leitor especializado, também desenvolvido pela startup de forma exclusiva.

“O leitor é portátil, usa a técnica de espectrofotometria na faixa do ultravioleta, e faz a leitura em alguns segundos”, disse Roriz. O leitor foi desenhado para isso. Segundo o empresário, a concentração média dos marcadores nos objetos se situa na faixa de 50 a 100 ppm, muito baixa. “Não é possível falsificar o marcador e também não se consegue identificá-lo facilmente sem o nosso leitor”, informou.

O custo do sistema depende, portanto, da massa de material que se quer marcar. “Calculamos o custo médio de R$ 0,10 a R$ 0,60 por peça ou embalagem tratada; o leitor UV portátil custa R$ 10 mil, mas pode ser vendido ou cedido em comodato, a depender da negociação”, salientou Roriz.

Uma vez marcado, o material carregará para sempre as partículas identificadoras. Mesmo após a reciclagem das peças plásticas, os marcadores continuarão presentes, porém em concentração menor que a normal, caso sejam misturados materiais não marcados. O sistema detecta essa redução quantitativa do marcador.

Essa permanência dá segurança aos clientes, que podem verificar a autenticidade de seus produtos a qualquer momento.

“No caso das embalagens de alimentos, os filmes marcados podem garantir a qualidade e também a origem do material embalado, uma característica importante para alguns mercados que vetam a importação de itens como soja e carnes produzidos na Amazônia, por exemplo”, apontou.

O sistema atual de controle, por meio de QR code, muito usado em alimentos orgânicos, não garante a segurança dos produtos e embalagens. “O QR code pode ser clonado com alguma facilidade”, afirmou.

Embalagens de defensivos agrícolas autênticas podem ser identificadas nos pontos de venda, impedindo a comercialização de itens falsificados ou até roubados.

“Os leitores operam on line, usando sistema de telefonia celular, transmitem imediatamente as informações coletadas para a Ciclopack que os transfere para as empresas contratantes do serviço”, disse.

“Esses dados ajudam a controlar a cadeia de suprimentos e também a identificar fraudes; fica a critério do cliente acionar as autoridades policiais, caso necessário”, explicou. Roriz salientou que os leitores são muito precisos e suas leituras geram laudos forenses, ou seja, têm valor de prova em ações judiciais.

No caso das bebidas, os rótulos recebem a marcação. Fiscais contratados pelos clientes podem ir aos pontos de venda, incógnitos, para verificar se o produto oferecido aos consumidores é autêntico, por exemplo.

“Estamos oferecendo o sistema para itens de alto valor, como bens de luxo (quadros, esculturas e outros), brinquedos, remédios e equipamentos hospitalares, bem como itens muito contrabandeados e falsificados”, salientou. Mas ele também aponta a possibilidade de evitar problemas de recall e indenizações indevidas, mediante a marcação dos produtos vendidos.

“Em fios e cabos, por exemplo, é comum que itens de vários fabricantes sejam misturados na mesma obra; no caso de algum problema na instalação, o sistema permite provar que uma determinada marca não apresentou defeito”.

Economia circular

Uma das maiores preocupações da indústria do plástico está em aumentar a reciclagem dos materiais transformados, fechando os ciclos produtivos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos instituiu um sistema de metas voluntárias de reciclagem, cuja comprovação é complexa, mas pode ser facilitada com os marcadores da Ciclopack.

“Os mineradores de lixo podem identificar com facilidade os produtos e embalagens mais nobres, enviando-os para reciclagem adequada”, exemplificou Roriz. Outra possibilidade é instalar um leitor na linha de triagem de resíduos, de modo a identificar e registrar quais materiais de cada fabricante estão sendo efetivamente reciclados.

Caminho da inovação

O caminho para a introdução de soluções inovadoras é lento e difícil. Roriz comentou que a Ciclopack já testou o sistema em vários fabricantes de produtos e embalagens no Brasil.

“Temos algumas homologações, mas ainda falta convencer os donos das marcas a adotar a solução”, afirmou. “O aumento do e-commerce facilitou as vendas de itens falsificados, pois os grandes portais não se responsabilizam pela qualidade do que está sendo vendido, apenas alugam suas plataformas.” A Ciclopack começou a oferecer seu sistema para empresas do exterior.

Plástico Moderno - Leitor UV portátil identifica marcador em alguns segundos
Leitor UV portátil identifica marcador em alguns segundos

O processo de inovação aberta, por meio de startups, é considerado pelo empresário como fundamental para o avanço tecnológico do Brasil. A Ciclopack é a quarta iniciativa de Roriz nessa atividade, as anteriores eram mais voltadas a softwares empresariais, uma delas foi vendida para controlar a distribuição de GLP de uma grande companhia nacional. “Conseguimos um ganho significativo de eficiência operacional mediante a aplicação da tecnologia da informação”, explicou.

No entanto, ele aponta fortes resistências no Brasil ao uso dessas iniciativas, ao contrário do que acontece no exterior. “O potencial de inovação é muito grande, as startups reduzem custos e não estão sujeitas à burocracia interna das corporações”, disse. A Fiesp, por exemplo, tem proporcionado a aproximação entre indústrias e startups por meio dos Desafios da Indústria, com escopo e remuneração bem definidos. “Não é um hackathon”, ressaltou.

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