Mudanças na geografia do refino impactam atividade petroquímica

Perspectivas 2023

O mercado mundial de etileno e seus derivados passa por uma fase de superabastecimento, causado pela entrada de novas e grandes capacidades produtivas nos Estados Unidos e Canadá, que devem ser absorvidas pelos consumidores até 2027, quando em que capacidades novas e importantes entrarão em operação no Qatar e nos Estados Unidos.

“Neste momento de superoferta mundial, os produtores da América Latina devem defender seu mercado regional”, avaliou Pablo Giorgi, diretor executivo global de olefinas da Chemical Market Analytics, da Opis, empresa do grupo Dow Jones que adquiriu a emblemática consultoria IHS Markit.

“Passada essa fase, abrem-se novas oportunidades, mas isso exige contar com gás natural barato, seja do pré-sal ou de Vaca Muerta (Argentina).” Entre 2023 e 2027, a previsão é de que os crackers voltem a apresentar uma taxa de ocupação de 85%, mais adequada ao negócio.

Giorgi aponta que os próximos grandes projetos petroquímicos serão alimentados a gás natural e instalados no Oriente Médio e na Ásia, pois os Estados Unidos já ergueram grandes capacidades recentemente e a Europa está reduzindo sua produção rapidamente.

“Saliento que os europeus não querem sair do mercado e, por isso, estão investindo na construção de grandes plantas em outras regiões, como o Oriente Médio e a Ásia”, explicou.

Entender a mudança geográfica da indústria exige avaliar a disponibilidade de matérias-primas de baixo custo.

 Mudanças na geografia do refino impactam atividade petroquímica ©QD Foto: iStockPhoto
Giorgi: América do Sul precisa investir para usar mais etano

“Desde o seu início, a petroquímica se dedica a produzir itens de alta geração de benefícios para os consumidores, porém com baixo custo final, o peso da matéria-prima é fundamental na composição de custo”, comentou.

O balanço mundial de oferta e demanda mundial de gás e derivados de petróleo mostrou desequilíbrios desde o início da pandemia de Covid-19, dos quais ainda há resquícios.

A demanda global por petróleo e seus derivados segue crescendo, mas a oferta sofrerá restrições políticas (caso da Rússia e do Irã) ou ambientais.

“Isso quer dizer que o petróleo tende a ficar mais caro, porque os custos de exploração ficarão cada vez mais elevados”, comentou.

Nos EUA, a produção de petróleo de fontes não convencionais, como o tight oil e o shale oil, especialmente na Bacia Permiana do Texas, estão crescendo, porém, segundo Giorgi, a sua composição apresenta participação cada vez maior de gás e líquidos leves, contendo propano e butano, por exemplo.

“Embora os americanos tenha instalado mais sondas, a produção de petróleo não aumentou na mesma proporção, chegou à média de 12 milhões de barris/dia no ano passado, deve ir a 12,4 milhões neste ano e talvez chegue a 12,8 milhões em 2024”, ressaltou.

“A maior disponibilidade de etano é excelente para a petroquímica americana, mas é ruim para a América do Sul, que usa mais nafta nos seus crackers, uma produção mais cara”, explicou.

Segundo o diretor, nos EUA 85% da carga dos crackers é composta por etano, os 15% restantes consomem cargas líquidas obtidas de operações integradas de refino de petróleo ou recebem propano/butano.

Além disso, é preciso observar que 2022 foi atípico para o refino.

“Faltou capacidade de produção para suprir a demanda e os preços da gasolina e do diesel dispararam em todo o mundo; os spreads ainda estão altos no diesel e no querosene de aviação, mas já recuaram na gasolina”, comentou.

Com as refinarias rodando cheias, aumentou a disponibilidade da nafta, um coproduto cujo preço recuou.

“A nafta chegou a ficar descontada em US$ 60 por barril em relação ao petróleo, hoje esse desconto está perto de US$ 10, enquanto a média histórica é de US$ 3 por barril”, explicou Giorgi.

A capacidade de refino dos EUA está se reduzindo há anos. Algumas refinarias sofreram acidentes e foram descontinuadas, outras se converteram em terminais logísticos e outras passaram a produzir combustíveis renováveis, como o biodiesel.

“E a tendência é cortar ainda mais essa capacidade, acompanhando o avanço dos carros elétricos e dos alimentados com renováveis, pois a descarbonização está sendo muito estimulada pelo governo”, apontou o especialista. A Europa segue a mesma tendência.

Em compensação, o parque de refino asiático está em pleno crescimento. “Há grandes refinarias entrando em operação a partir deste ano na China e nos países do Sudeste Asiático, isso reduzirá a margem dos derivados em todo o mundo”, informou Giorgi.

 Mudanças na geografia do refino impactam atividade petroquímica ©QD Foto: iStockPhoto
TAXA DE OCUPAÇÃO GLOBAL DOS CRACKERS PETROQUÍMICOS

China – O mercado petroquímico chinês tem suas particularidades.

“A produção de eteno, feita a partir de nafta, está nas mãos de estatais puras ou em joint ventures com empresas privadas e há incentivos para manter os crackers rodando sempre cheios”, apontou Giorgi.

Além disso, 80% dos crackers de nafta chineses são integrados ao refino de petróleo, que rodou a plena carga em 2022, produzindo muita nafta que precisava ser consumida pela petroquímica. “Mesmo que a margem do eteno fosse baixa, a lucratividade dos derivados de refino compensaria a operação”, disse.

Quando se fala no propeno, a situação muda de figura, pois as companhias que produzem a olefina são em maioria privadas.

“Elas modulam a produção conforme a demanda, evitando grandes excedentes de propeno; a produção de derivados já atende o mercado e há pouco espaço para aumentar o consumo de derivados”, disse.

Giorgi verificou que a China já voltou ao nível de produção e consumo anteriores à eclosão da Covid-19 e deve iniciar uma fase de elevação geral de demanda por bens de consumo e duráveis.

O Ano Novo Chinês, um feriado de longa duração na última semana de janeiro, registrou número de viagens acima do registrado em 2019, um indicador de mercado aquecido.

Tecnologias e custos – Segundo a CMA, o menor custo de produção de eteno do mundo está na Arábia Saudita, nas linhas de processamento de etano.

Em seguida aparece a produção dos EUA, também com etano. A Europa aparece depois, teve pico de preço de gás natural em janeiro de 2022, pelas retaliações russas ao apoio europeu à Ucrânia, mas depois houve uma acomodação.

“Entraram coprodutos de baixo custo na composição da carga, isso reduziu o custo, mas ainda ficou bem acima dos americanos”, avaliou Giorgi. Os produtores asiáticos têm custos mais elevados, pois usam predominantemente cargas líquidas.

Apoiada em cargas líquidas, a América Latina apresenta também custos elevados de produção de eteno. “Se o continente quer ser relevante, precisa usar mais o etano; a Argentina tem Vaca Muerta; o Brasil, o pré-sal que reinjeta 45% do gás nos poços, um absurdo; México e Venezuela precisam ainda se definir”, salientou. “O potencial da região existe, mas requer investimentos em infraestrutura e vai levar um tempo para realizá-los.”

No propeno, ele aponta a entrada em operação de grande capacidade de produção no mundo, cerca de 12 milhões de t/ano. “Os EUA estão investindo em projetos de geração on purpose, antes disso, era preciso contar com os coprodutos de cracking de nafta ou do refino”, explicou.

“Tem muito propano nos EUA, ele é até exportado.” A Enterprise vai inaugurar a PDH 2, grande unidade de desidrogenação de propano para oferecer mais propeno ao mercado, suportando o aumento da produção de resinas de polipropileno.

A China também está ampliando sua capacidade de produção, operada por empresas privadas que devem operar com baixa ocupação. Nesse cenário, a taxa de ocupação global das unidades de propeno caiu de 80% para 74%.

A China opera também com a tecnologia carbon to olefins (CTO, de carvão para olefinas) há anos. “Esse tipo de operação depende muito do preço do carvão; com a guerra na Ucrânia, as cotações internacionais do carvão subiram muito e a rentabilidade do processo caiu”, avaliou.

Giorgi explicou que o CTO exige investimento elevado para implantação, com custos fixos altos, mas custos variáveis baixos. “É um processo que emite muito CO2 e consome muita água, duas características que a China não aceita mais, por isso não há nenhuma tendência de investimentos adicionais em CTO”, explicou.

Na avaliação de Giorgi, as PDHs devem dominar o cenário das ampliações da produção de propeno no mundo.

O Oriente Médio segue investindo em novas capacidades petroquímicas, contando com matérias-primas de baixo custo.

“Esse países têm o objetivo de valorizar o óleo e o gás mediante a sua industrialização e consumo local de produtos, além das exportações de resinas, uma vez que sua população é pequena e tem baixo poder aquisitivo”, avaliou.

Indústria em transformação – O complexo industrial que envolve petróleo, gás natural e petroquímica está iniciando uma fase de profunda transformação que precisa conciliar aspectos econômicos, sociais e ambientais. A começar pela necessidade premente de ampliar a reciclagem de materiais plásticos.

“A reciclagem e o reuso de plásticos vão crescer muito mais, exercendo forte pressão sobre o setor”, apontou Giorgi.

Estudos da CMA avaliaram os cenários com maior e menor participação de reciclados até 2050 e verificaram que, mesmo no máximo aproveitamento de materiais pós-consumo, a demanda por resinas plásticas ainda apresentará crescimento considerável no mundo, embora seja impactada pela concorrência dos reciclados.

Como explicou Giorgi, a reciclagem mecânica ataca diretamente a produção de resinas plásticas, disputando o mercado diretamente. Por sua vez, a reciclagem química compete com as matérias-primas de uso petroquímico, mas não impactam a produção de resinas. “É uma fonte alternativa de insumos para os crackers”, comentou.

Dados os aspectos econômicos e ambientais, a indústria petroquímica precisará tomar novas feições. “As companhias que atuam no refino de petróleo vão investir cada vez mais na produção de químicos e menos em combustíveis”, apontou.

Como explicou, a integração refino/petroquímica é intensiva em carbono, ou seja, é antagônica às metas de descarbonização.

Assim, é preciso investir em novas tecnologias cada vez mais eficientes e menos agressivas ao ambiente. Isso inclui os crackers elétricos – já há um desses no Canadá, com emissão zero, como indicou Giorgi, além de processos diretos de petróleo para olefinas, sem passar pelo refino.

Há também os plásticos verdes, que partem de fontes renováveis de hidrocarbonetos. É o caso do polietileno verde da Braskem, feito de etanol. “A Braskem já anunciou que produzirá polietileno verde e polipropileno verde nos Estados Unidos, além do Brasil, onde já tem processo bem estabelecido”, comentou.

Giorgi informou que a gasolina reformulada dos EUA exige um conteúdo mínimo de 10% de etanol, um volume gigantesco, abastecido pelo processamento de milho.

No caso do propeno, ele pode ser obtido pela dimerização de eteno verde seguida de metátese. Além disso, pode-se obter propeno da glicerina decorrente da hidrogenação de óleos vegetais para a produção de biodiesel, que também é crescente nos EUA.

As mudanças na regulamentação da gasolina também interferem no negócio petroquímico.

“O mercado está pagando cada vez mais caro para aumentar a octanagem da gasolina porque as leis ambientais exigem redução de enxofre e de olefinas, além de limitar muito a presença de aromáticos no combustível”, explicou.

Ainda se utiliza cumeno e etilbenzeno como melhoradores de octanagem, mas há uma tendência a usar mais o isoctano.

“Este pode ser produzido pela oligomerização do eteno, substituindo os alquilados de refino na gasolina, e o mercado de combustíveis sempre paga mais que a petroquímica”, observou.

A CMA oferece uma gama ampla de estudos em vários setores da atividade econômica além do químico e petroquímico, como mineração, siderurgia e outros.

 Mudanças na geografia do refino impactam atividade petroquímica ©QD Foto: iStockPhoto
Fortes: escritório no Brasil facilita contato com clientes

“Oferecemos análises e informações amplas e atualizadas, além de estudos específicos”, comentou Pedro Discacciati Fortes, diretor de contas da América Latina da CMA, instalado em São Paulo. Contar com escritório local facilita o contato com os clientes no Brasil e na região.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios