Moldes: Fabricantes buscam reduzir custos

E investem para ampliar especialização de serviços

O setor de ferramentaria voltado para moldes de injeção de plásticos é pulverizado e formado por empresas com especialidades e modelos de negócios distintos – a maioria delas de pequeno porte.

Não há dados estatísticos oficiais sobre o número dessas empresas nem sobre quanto movimentam em termos financeiros.

Entrevistadas de maneira aleatória, elas declaram resultados que variam caso a caso. Umas se mostram satisfeitas com o ritmo das vendas alcançadas esse ano, outras se dizem decepcionadas.

Um bom parâmetro para se ter ideia do desempenho do setor como um todo é a análise feita por fornecedores das ferramentarias.

Um exemplo se encontra entre as que comercializam componentes padronizados, itens presentes na grande maioria dos moldes produzidos no país.

Como são poucas as empresas do ramo, seus dirigentes têm profundo conhecimento de como anda o mercado.

Um dos fornecedores desses produtos é a Tecnoserv, fabricante de porta-moldes, câmaras quentes e revendedora de outros itens para ferramentarias.

De acordo com o diretor técnico Wilson Teixeira, profissional que atua há muitos anos no segmento, o momento é difícil. Neste ano, não está acontecendo a recuperação esperada com a redução dos efeitos da pandemia.

O dirigente enumera alguns fatores que atrapalham o setor.

O principal se concentra nas dificuldades enfrentadas pelos transformadores.

Boa parte dos fabricantes de peças injetadas ligados aos mais variados segmentos da economia estão com linhas de produção trabalhando com capacidades ociosas acima do desejado. Inflação elevada e perda do poder aquisitivo da população são os principais responsáveis por essa situação.

“Com esse cenário, lançamentos de projetos que resultam na construção de novos moldes muitas vezes são postergados ou cancelados”.

Para Teixeira, até alguns dos mercados que mais investiram na aquisição de ferramentas nos últimos tempos apresentam retração. Um exemplo acontece com o de cosméticos.

“As vendas caíram e a procura por moldes para tampas e potes esfriou. Não dá para as pessoas passarem creme no rosto com a barriga vazia”, avalia.

O problema se estende a outros itens populares, como o de utilidades domésticas.

O diretor da Tecnoserv apresenta algum otimismo onde menos se espera.

A indústria automotiva tem sofrido, além de queda nas vendas, com a falta de componentes, em especial de semicondutores.

Várias montadoras já tiveram que realizar paralisações em suas fábricas, dando férias aos funcionários, por não terem peças para tocar as linhas de produção.

Apesar da crise, há esperança de progresso nos negócios junto às montadoras nos próximos meses.

“Algumas marcas estão estudando o lançamento de novos modelos”.

Outros problemas ocorrem em paralelo.

O preço do aço, matéria-prima essencial para a fabricação das matrizes, desde o início da pandemia apresentou aumento assustador.

A guerra entre Ucrânia e Rússia não ajudou em nada.

“Uma das grandes usinas de aço da Ucrânia foi bombardeada e deixou de produzir, causando impacto no preço internacional”.

Importar aço da China, expediente utilizado por empresas do setor para reduzir custos, é operação que passou a enfrentar novos obstáculos: alta do dólar, aumento significativo do preço do frete cobrado pelas transportadoras internacionais e prazos alongados para receber as encomendas.

Um lado positivo dessa situação tem sido a redução da concorrência dos moldes chineses.

“Com o lockdown promovido na China para combater a pandemia está muito difícil viajar para realizar tryouts com os moldes chineses, o que favorece os fabricantes nacionais”.

A falta de disponibilidade de financiamento para quem quer investir é outra barreira a ser superada.

“Os ferramenteiros estão descapitalizados. Muitas vezes estou trabalhando como se fosse um banco, facilitando e dividindo os pagamentos”, diz Teixeira.

“O problema é que quando recebo pelos trabalhos realizados meus custos já aumentaram”.

Todas essas questões alteraram o perfil das vendas dos porta-moldes da empresa.

Embora elas estejam mais ou menos estáveis em número de pedidos em relação ao ano passado, houve redução das encomendas com maior valor agregado.

“Há algum tempo fornecíamos muitos porta-moldes pré-usinados, as ferramentarias se responsabilizavam apenas pela produção das cavidades”.

Como estão trabalhando com elevada capacidade ociosa, muitos clientes passaram a comprar os porta-moldes sem qualquer preparação.

“Eles estão fazendo as operações de pré-usinagem em casa para não deixar os equipamentos parados”.

No caso das câmaras quentes, como são customizadas, não houve alteração no perfil das vendas.

“O número de encomendas está próximo do verificado no ano passado”.

Perfil do setor – As ferramentarias costumam ser especializar em serviços diferenciados.

O tamanho dos moldes é um dos diferenciais.

De acordo com o maquinário que possuem, podem trabalhar com matrizes bem pequenas, voltadas para a injeção de peças que pesam alguns gramas, a outras que pesam toneladas e são usadas para fabricar peças de porte grande, como móveis ou para-choques de veículos pesados.

Outra divisão pode ser feita entre as fabricantes de moldes para peças que não exigem grande rigor dimensional e as que atuam no campo técnico, no qual os clientes exigem elevado grau de precisão.

Há os especialistas em moldes com uma ou poucas cavidades e os com know how para ferramentas voltadas para injetar dezenas peças com grande velocidade de produção.

Os modelos de negócios também são distintos.

Muitos transformadores contam com operações verticalizadas, possuem ferramentarias voltadas apenas para o projeto e fabricação de moldes para uso próprio.

Em alguns casos, os transformadores contam com ferramentaria para uso interno e também fornecem moldes para outros transformadores – em alguns desses casos as ferramentarias trabalham como pessoas jurídicas independentes.

Existem também as que vendem projetos casados, fabricam os moldes para os clientes desde que esses assinem em paralelo um contrato de fornecimento de peças por determinado prazo.

Independente do perfil que possuem, as ferramentarias, para serem competitivas, precisam investir em tecnologia.

Recursos devem ser destinados para aprimorar todas as etapas de projeto e execução das matrizes.

Contar com centros de usinagem de última geração é para lá de desejável.

Sofisticados softwares de CAE/CAD/CAM ajudam a desenvolver os projetos de forma mais competente e ágil. Com eles é possível corrigir rotas, simular o desempenho e controlar a usinagem dos diversos componentes das ferramentas.

O uso de câmaras quentes está se tornando prática comum.

Desenhadas por fornecedores caso a caso, elas eliminam a necessidade dos galhos nos ciclos de injeção, tornando-os mais rápidos, eficientes e econômicos.

As câmaras quentes oferecidas pelo mercado estão cada vez mais sofisticadas.

Conforme as exigências das peças a serem fabricadas, algumas são dotadas com sistemas valvulados para controlar o fluxo da matéria-prima durante o ciclo.

Esses sistemas podem ter movimentos acionados por sistemas pneumáticos, hidráulicos ou elétricos.

Outra técnica hoje muito utilizada é a da impressão 3D para a produção de protótipos com grande agilidade.

As impressoras, desde o seu surgimento, se popularizaram e hoje são encontradas em vários modelos e marcas e a preços bem mais acessíveis.

Há também disponível no mercado grande variedade de matérias-primas com as quais as peças podem ser impressas.

Caso a ferramentaria não tenha interesse ou capital para adquirir uma impressora 3D, pode contratar bureaux especializados na prestação de serviços.

Moldes: Fabricantes buscam reduzir custos ©QD Foto: Divulgação/Belga Matrizes/Julio Oliveira – objetiva
Fer-Plastic produz moldes com peso até 4 toneladas

Especialistas – A região Sul do país conta com polos de ferramentarias especializadas em moldes de injeção reconhecidos pela excelência dos trabalhos oferecidos.

Alguns cases servem para exemplificar.

A Btomec, de Joinville-SC, no mercado desde 1985, têm como carro chefe a produção de moldes para embalagens. Wiland Tiergarten, diretor da empresa, diz que não pode reclamar do atual momento da empresa.

“No nosso caso, as vendas estão boas, temos sido muito procurados para a fabricação de moldes de múltiplas cavidades, como os voltados para embalagens e tampas de cosméticos, para a indústria alimentícia e farmacêutica”, informa.

Ele ressalta se tratar de moldes que exigem muita tecnologia e precisão para operar de maneira a não causar problemas para os transformadores.

Por isso, uma das preocupações da empresa tem sido a de investir de forma constante em equipamentos de ponta.

“No momento estamos investindo forte na compra de robôs. Com eles, além do ganho em qualidade, conseguiremos trabalhar 24 horas por dia, quando necessário”.

A Belga Matrizes, de Caxias do Sul-RS, fundada em 1979, atende transformadores dos mais variados setores da economia.

Seu diferencial é a capacidade de produzir moldes de grande porte, com até 50 toneladas.

Ana Paula Novello, líder de vendas, se mostra bastante otimista em relação ao mercado. Ela destaca os desafios econômicos e de gestão de pessoas em prol da saúde e segurança enfrentados durante a pandemia e ressalta haver uma demanda ampla no momento atual.

“Temos ótimas expectativas para o segundo semestre”.

Ela destaca os anúncios de investimentos em novos desenvolvimentos e tecnologias por parte dos clientes até 2025.

“A Belga possui estrutura completa de desenvolvimento de moldes desde o projeto preliminar até o fino ajuste dos componentes”, garante.

Ferramentas e injeção – Algumas empresas têm como estratégia vincular serviços de ferramentaria ao ato de produzir peças em suas linhas de produção.

É o caso da NTC, de Caxias do Sul, no mercado desde 1988.

“Fabricamos moldes para injeção de peças plásticas com foco em agregar clientes para nossa área de serviços de injeção”, explica o diretor Bernardo Shen.

A estratégia de fornecer moldes para clientes que utilizem terceiros para a injeção é utilizada apenas em casos muito específicos, quando há uma demanda técnica com a qual a NTC não atue, o que é raro.

Ou em projetos nos quais a produção de conjuntos de peças de um projeto é dividida – as peças mais complexas da operação são feitas pela NTC e as mais simples pelo maquinário próprio do cliente.

A empresa fabrica moldes com até 30 toneladas e atende em especial os segmentos automotivo, agronegócio, defesa e segurança e náutico.

“O papel da ferramentaria é essencial”, diz o diretor. Para ele, a integração entre as áreas de projetos e desenvolvimento agrega agilidade ao processo e dá à empresa status de fornecedora altamente competitiva, que enxerga a cadeia produtiva do início ao fim.

Ou seja, do design do projeto à produção de peças. “Atuamos de forma integrada com o cliente do projeto das peças ao trayout”.

Shen informa que não só na área de moldes, mas também de injeção, a NTC vem crescendo em média 25% a cada ano.

“A diversidade de mercados atendidos pela empresa faz parte do nosso plano estratégico e visão de futuro, permite um equilíbrio de demandas e um aumento gradual e controlado de capacidade produtiva”.

A Fer-Plastic, de São Paulo-SP, no mercado desde 1975, atua de maneira similar.

A empresa produz moldes para os clientes que a contratam também para o fornecimento das peças a serem injetadas pela matriz. Esses contratos, em média, têm duração de no mínimo dois anos.

Os moldes fabricados têm dimensões máximas de um metro de comprimento, 90 cm de largura e 60 cm de profundidade, com peso até 4 toneladas.

A empresa atua bastante com a produção de peças técnicas para as indústrias automobilísticas e de linha branca, entre outros segmentos.

Moldes: Fabricantes buscam reduzir custos ©QD Foto: Divulgação/Belga Matrizes/Julio Oliveira – objetiva
Ailton Macedo, gerente comercial da Fer-Plastic

“Com esse tipo de contrato conseguimos diluir os custos da ferramentaria e oferecemos aos clientes moldes em torno de 30% mais baratos”, explica Ailton Macedo, gerente comercial.

O momento vivido pela empresa não é dos melhores.

“Nossos clientes estão todos parados, muitos estão trabalhando com capacidade ociosa de 40% a 60%”. Para piorar, os preços dos insumos, em especial do aço, é motivo de muitas reclamações por parte do dirigente.

Desde 1985 no mercado, a Maximold, de São Paulo, é uma empresa coligada à Plano, transformadora especializada na produção de peças técnicas de elevada complexidade.

A Plano tem como clientes empresas nas áreas automotiva, eletroeletrônica, linha branca, entre outras, e possui mais de 50 injetoras com capacidades entre 20 e 360 toneladas de força de fechamento.

A Maximold, por sua vez, também fabrica moldes de injeção para terceiros.

“Produzimos moldes de altíssima precisão e durabilidade para peças de pequeno porte e grande característica técnica, que trabalharão com plásticos de engenharia”, revela Cristina Gallão, gerente de operações.

Cristina destaca os recursos tecnológicos da empresa, em especial os softwares e as máquinas de usinagem utilizados durante a execução, além da estrutura voltada para impressão 3D.

“O ano começou mais aquecido, mas sentimos certo declínio nas expectativas, apesar das cotações estarem bastante numerosas”.

Em relação ao ano passado, Cristina detectou melhora sensível das vendas. “Acreditamos que os próximos meses poderão ser impactados pelas incertezas eleitorais, desafiando os ânimos dos clientes”.

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