Moldes: Fabricantes buscam mais eficiência no conceito 4.0

Química e Derivados, Sistema de câmara quente Infinity, da Polimold, oferece alta versatilidade
Sistema de câmara quente Infinity, da Polimold, oferece alta versatilidade

O transtorno bipolar é caracterizado em pacientes pela alternância entre períodos de euforia e depressão. O diagnóstico é bastante compatível com o dia a dia dos empreendedores industriais. Entre eles, os ligados à fabricação de moldes de injeção. O raciocínio vale tanto para os ferramenteiros quanto para seus fornecedores.

Química e Derivados, Braga: apesar da crise, setor investiu em novas tecnologias
Braga: apesar da crise, setor investiu em novas tecnologias

A insegurança sobre os rumos da economia atrasa lançamentos da indústria, fato que afeta diretamente a encomenda de matrizes. “Os negócios no primeiro semestre foram mornos quando comparados com o mesmo período de 2017. Em tese, houve empate na evolução do faturamento”, informa Paulo Sergio Furlan Braga, presidente da Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

O dirigente mostra algum otimismo para os próximos meses. “Há perspectivas de possível aquecimento no segundo semestre”. O setor de ferramentarias é bastante pulverizado. Muitas empresas do setor são especializadas e dependem do desempenho dos segmentos aos quais atendem. Nesse cenário, um setor econômico muito importante se mostra em momento favorável e justifica o pensamento positivo do dirigente. “A indústria automotiva continua sendo a principal propulsora das vendas de moldes e a tendência para esse setor é positiva”.

Um pouco de números ajuda a entender essa constatação. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou no último dia 6 de julho suas expectativas para 2018. As previsões apontam para um crescimento da produção de veículos automotores e máquinas agrícolas na casa dos 11,9% em relação ao ano passado. A expectativa é de se chegar a 3,02 milhões de unidades fabricadas este ano. O estudo já leva em conta os efeitos da greve dos caminhoneiros. Antes da paralisação, a previsão de crescimento da produção era de 13,2%.

As ferramentarias que atendem outros segmentos vão depender do desenrolar do consumo. No caso das embalagens, as vendas de produtos como alimentos, de limpeza ou higiene pessoal não sofrem oscilações muito graves e as encomendas de matrizes se mantêm razoáveis, ainda que possa haver queda. Para quem atende o segmento da construção civil, as perspectivas não são as melhores. O mesmo acontece com as áreas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos.

Uma notícia não soou muito bem aos ouvidos dos empresários do ramo. Não é de hoje que a concorrência dos moldes vindos da Ásia incomoda as ferramentarias nacionais. Os preços praticados na China e em outros países são apontados como irreais, em especial no caso dos moldes mais simples. No final de 2010, o problema chamava muito a atenção e o Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex) atendeu apelos das empresas nacionais na época e elevou a alíquota do imposto de importação aplicada aos moldes de 14% para 30%. No último dia 05 de julho, o mesmo conselho revogou a iniciativa, e o imposto caiu de 30% para 14%.

Boa parte dos ferramenteiros nacionais garante que os clientes andam ressabiados com a qualidade dos produtos asiáticos. Para eles, os que chegam ao Brasil com preços muito baixos apresentam condições de operação aquém da expectativa e os de boa qualidade não têm preços tão competitivos em relação aos nacionais. Pelo sim, pelo não, resta acompanhar nos próximos meses as consequências da medida tomada pelo governo.

Tecnologia – A despeito das dificuldades, as ferramentarias mais avançadas se esforçam para se tornarem eficientes. Para tanto, adotam iniciativas voltadas para atender encomendas de moldes sofisticados. Algumas condições das linhas de produção atuais explicam a necessidade do maior rigor na qualidade dos projetos. Os equipamentos de injeção permitem a produção de peças em ciclos menores. A obtenção de peças mais leves, com paredes finas se tornou obrigatória.

São comuns os pedidos de cavidades com grande precisão dimensional e feitas de aços especiais submetidos a tratamentos térmicos diferenciados. Não raro, as peças plásticas são feitas com materiais sofisticados, em alguns casos enriquecidos com cargas em elevada porcentagem. Não bastassem as dificuldades técnicas, os prazos de entrega dos projetos precisam ser compatíveis com a pressa dos clientes.

De acordo com Braga, a resposta das empresas tem atendido as expectativas. “No setor de moldes houve investimentos com potencial ganho de produtividade. O setor gerou atratividade para o desenvolvimento de novos produtos no Brasil até 2020”. Ele informa que alguns fornecedores da cadeia produtiva de ferramentaria estão investindo na sofisticação, aplicando recursos em tópicos da indústria 4.0, na implantação de robôs e na aquisição de células de usinagem mais modernas. “Está havendo a conscientização empresarial da necessidade da construção de sinergias para atender a demanda”.

Os fornecedores de produtos para as ferramentarias também têm ajudado na busca por excelência. Na fase de projetos das peças a serem fabricadas e seus respectivos moldes, o uso dos softwares de CAE/CAD/CAM são praticamente obrigatórios. Com o avanço impressionante da informática, os fabricantes desses softwares oferecem produtos mais velozes e precisos a preços bem mais atraentes do que no final do século passado, quando a tecnologia começou a ser adotada.

Outra indústria a colaborar com a qualidade dos moldes é a de componentes padronizados. São encontrados no mercado porta-moldes com centenas de milhares (literalmente) de combinações, além de itens os mais variados, como buchas, pinos, parafusos, gavetas e outros que tornam mais ágil o desenvolvimento dos projetos. Um capítulo à parte vai para a oferta das câmaras quentes, cada vez mais requisitadas pelo mercado graças às vantagens que proporcionam às matrizes. Elas evoluíram e hoje são oferecidas em versões dotadas com tecnologia de ponta. “Podemos afirmar que a utilização de câmaras quentes continua forte nos moldes de baixa e alta complexidade”, resume Braga.

Moldes gigantes – O pulverizado mercado das ferramentarias conta com representantes de todos os portes, mas a grande maioria é formada por pequenas e médias empresas. Muitas são especializadas em determinados nichos de atuação. Um dos que chamam a atenção é o das capacitadas para produzir moldes para a transformação de peças de grande porte.

Química e Derivados, Molde de 40 t fabricado pela Matrizes Belga
Molde de 40 t fabricado pela Matrizes Belga

Ligada ao grupo português Durit, especializado em produtos de precisão feitos em metais, a Moldit, ferramentaria com atuação bastante importante em Portugal, conta com filial instalada na região de Camaçari-BA. A empresa possui capacidade instalada para construir moldes com até 30 toneladas. “A crise da indústria automobilística nos últimos anos atrapalhou nosso desempenho, mas conseguimos compensar com a conquista de clientes no setor de móveis, como os fabricantes de mesas e cadeiras, que existem em bom número aqui no Nordeste”, explica Joaquim La-Salete, técnico comercial da filial brasileira.

Com a diversificação, o executivo prevê um ano melhor do que o de 2017. “No primeiro semestre, os negócios da empresa cresceram na ordem de 30% a 40%”. O anúncio recente do lançamento de dois novos projetos da Ford, que mantém fábrica na Bahia, é outro motivo de otimismo. “Acredito que teremos bom volume de serviço nos próximos meses”.

Entre as últimas encomendas atendidas pela empresa se encontram matrizes com elevado grau de sofisticação. Entre elas, algumas voltadas para a injeção simultânea de dois materiais. Outros pedidos envolvem a tecnologia de injeção com compressão SMC, indicada para a produção de peças plásticas com reforço de fibra de vidro. Os últimos investimentos da empresa, realizados já algum tempo, foram para a construção de novo galpão e aquisição de máquinas injetoras alemãs voltadas para a realização de tryouts.

A Matrizes Belga, de Caxias do Sul-RS, produz moldes de tamanho médio a 40 toneladas. Conta com histórico de mais de cinco mil moldes fabricados para os segmentos automotivo, eletroeletrônico, eletrodoméstico, agricultura, construção civil, telefonia e outros. Para José Alceu Lorandi, diretor geral, o segmento de matrizarias é caracterizado pela sazonalidade de projetos e desenvolvimentos dos principais mercados atendidos.

Química e Derivados, Lorandi: sazonalidade dos projetos de moldes é habitual
Lorandi: sazonalidade dos projetos de moldes é habitual

Para o dirigente, os impactos de crise, pelas características do setor, não podem ser medidos com projeção segura. “O ano de 2018, comparado com os anteriores, não apresentará crescimento de vendas”, avalia. Ele acrescenta que a crise tem destacado as empresas estáveis e éticas perante clientes cada vez mais exigentes. “Acreditamos na necessidade de se reinventar constantemente no âmbito de gestão, treinamento humano, investimentos em máquinas e equipamentos, na ampliação estrutural e na regulamentação de processos”.

Embalagens – O segmento de embalagens é outro forte cliente de moldes dotados com tecnologia de ponta. A exigência dos compradores se deve ao fato de eles trabalharem muitas vezes em regimes de ciclos de injeção rápidos, não raro contarem com elevado número de cavidades e gerarem peças muito leves, com paredes finas. A Btomec, de Joinville-SC, conta com forte atuação nesse segmento. Uma de suas especialidades é a fabricação de moldes para tampas as mais variadas (para os setores de cosméticos, produtos de limpeza, alimentos, bebidas e linha farmacêutica).

Química e Derivados, Pavarini: clientes desejam fazer tampas ainda mais leves
Pavarini: clientes desejam fazer tampas ainda mais leves

A empresa também atende transformadores que utilizam moldes para peças com bi ou tri componentes, de produtos hospitalares e outros. “O mercado está bastante difícil, estava mais animado no início do ano, mas a greve dos caminhoneiros atrapalhou. Falta credibilidade para nossas autoridades, com as eleições não sei se haverá recuperação até o final do ano”, analisa o diretor Wiland Tiergarten.

Uma novidade da empresa foi o fechamento recente de acordos internacionais de transferência de tecnologia de ponta. “Os acordos nos permitem adotar técnicas diferenciadas, como a utilização de tratamentos térmicos e superficiais especiais e a obtenção de tolerâncias bastante rígidas”. As empresas com as quais a Btomec têm acordo são Plastisud (França), Formiteknik (Suécia), SKT (Alemanha), IPK Fraunhofer (Alemanha) e R&D/Leverage (EUA).

A partir da parceria com a ferramentaria norte-americana a empresa passou a oferecer aos clientes nacionais a montagem de moldes voltados para o sistema de injection stretch blow mold, que permite a produção de frascos de PET da injeção da pré-forma ao sopro do produto final. “Esses moldes podem ser para frascos de grande ou pequeno porte”.

“Estamos seguindo em frente, o ano está até razoável, devemos ficar próximos do ano passado”, informa Welington Pavarini, proprietário da WPlastic. A empresa é representante do grande contingente de ferramentarias de pequeno porte do setor, conta com seis funcionários. Nem por isso deixa de ser especializada. “Fazemos moldes para tampas de embalagens”. Ele ressalta que a tarefa não é simples. “Os clientes estão trabalhando com número grande de cavidades e querem tampas muito leves”.

Termômetro – As vendas das fornecedoras de componentes padronizados para moldes de injeção servem como termômetro bastante fiel sobre como andam os negócios relativos ao setor. A julgar pelo depoimento de alguns profissionais dessas empresas a situação parece de razoável para boa. Um depoimento bastante otimista é dado por Rodrigo Vizigal, um dos responsáveis pelo departamento de marketing da Polimold, empresa fornecedora de praticamente todos os itens presentes na estrutura das ferramentas. “Mesmo com as expectativas e desafios gerados para 2018, fechamos o primeiro semestre com resultados bem acima em relação ao ano passado”, informa.

Os dois principais produtos da empresa, porta-moldes e câmaras quentes, merecem destaques. Ambos contam com boa aceitação no Brasil e também são exportados com sucesso – a Polimold vende até para ferramentarias chinesas. “Em breve, vamos anunciar uma grande novidade para o mercado de porta-moldes”, assegura. No caso das câmaras quentes, a empresa conta com linhas apropriadas para moldes com características distintas. O lançamento mais recente é a série Infinity, projetada para ser mais versátil e com milhares de possibilidades de montagem.

Química e Derivados, Vizigal: exportações em alta e investimento na produção 4.0
Vizigal: exportações em alta e investimento na produção 4.0

As câmaras quentes Infinity são indicadas para matrizes utilizadas por indústrias distintas, como automotiva, de embalagens, eletrodomésticos e outras. “O produto tem feito muito sucesso no exterior. Com as parcerias firmadas recentemente, as exportações tendem a aumentar nos próximos anos”. A empresa também oferece a linha Multiplic, com propriedades específicas para ferramentas com muitas cavidades, e a Poliflex, que conta com bicos roscados no próprio manifold, entre outros diferenciais.

Produtos à parte, a Polimold tem investido em sua estrutura. “Já temos uma célula fabril com a aplicação dos conceitos da indústria 4.0 em execução e diversos investimentos em tecnologia e engenharia. Teremos grandes novidades em breve, com foco em 2020 quando completaremos 50 anos”, garante Vizigal.

Outra empresa do ramo prestes a chegar ao cinquentenário é a Três-S, fabricante de porta-moldes, sistemas de câmaras quentes, e vários componentes para ferramentas. A empresa comemorará meio século de atividade no próximo ano e promete para o aniversário um lançamento exclusivo, por enquanto um segredo guardado a sete chaves.

As vendas desse ano da empresa estão estáveis em relação ao ano passado. “Poderia estar melhor se houvesse estabilidade na situação do país”, lamenta Claudir Sandro Mori, gerente comercial. Ele destaca a boa procura por parte dos clientes das câmaras quentes, produto oferecido pela empresa há cerca de dois anos.

Um lançamento nessa linha é o sistema valvulado. “Ele apresenta vantagens como permitir menor cisalhamento da matéria-prima e redução da tensão residual que provoca deformações e manchas no produto final”. Com o sistema valvulado, os transformadores podem trabalhar em regime de pressão de injeção menor. “Ele facilita o preenchimento da cavidade, aumenta a vida útil do molde e reduz a necessidade de utilizar injetoras grandes, em especial nos produtos de parede fina”.

Química e Derivados, Carneiro: sistema de assinatura multiplicou o uso de softwares
Carneiro: sistema de assinatura multiplicou o uso de softwares

Crise? – Uma empresa há vinte anos no mercado brasileiro que no ano passado cresceu 35% e esse ano pretende alcançar um crescimento ainda maior? Parece uma façanha e tanto. Pois esse é o resultado informado por Mário Carneiro, gerente de vendas da Autodesk Brasil. A multinacional especializada no desenvolvimento de softwares traz para o país, entre produtos destinados a uma gama enorme de aplicações, linha completa de CAE/CAD/CAM voltada para a indústria de moldes de injeção de plásticos.

Alguns motivos explicam o ótimo desempenho. Além da disseminação da tecnologia no mercado nacional, fator indiscutível, a mudança do modelo de comercialização adotado pela empresa ajudou bastante. No passado, as empresas interessadas precisavam adquirir licenças perpétuas para a utilização dos softwares. Isso custava muito caro e, quando surgisse uma evolução com recursos mais avançados, o usuário precisava adquirir o produto novamente caso quisesse se manter atualizado com a tecnologia.

Há dois anos a comercialização passou a ser feita pelo sistema de assinaturas. A empresa interessada paga por períodos determinados para manter a licença de uso dos softwares. Carneiro aponta as vantagens para os clientes. “O preço caiu muito, de três a quatro vezes. E os usuários podem contratar o serviço em períodos de alta dos projetos e ficar sem a assinatura quando o nível do trabalho não exigir, o gasto é proporcional”. Outra vantagem. “Ao assinar, as empresas têm sempre à disposição a tecnologia atualizada”. A procura disparou. “As ferramentarias que antes não consideravam a possibilidade de usar os softwares passaram a considerar”.

Entre os produtos oferecidos, o gerente comercial destaca a linha de Moldflow, para implantação de tecnologia CAE. Ela permite o teste no computador do molde recém-projetado antes da realização do tryout no chão da fábrica. Podem ser conferidas a eficiência da ferramenta e a adequação da escolha da matéria-prima. Também podem ser calculados os ajustes necessários da injetora para o preenchimento completo do molde e adotadas correções de problemas, como a má aparência das peças. A simulação não substitui o tryout, mas a antecipação de muitas experiências no computador economiza tempo e reduz o estresse dos profissionais envolvidos.

Química e Derivados, Tela do Moldflow compara diferentes preenchimentos de moldes
Tela do Moldflow compara diferentes preenchimentos de moldes

A linha Moldflow possui bancos de dados minuciosos com as principais características das resinas mais demandadas pelo mercado. Entre as informações carregadas no computador que permitem verificar o comportamento exato da resina dentro do molde se encontram viscosidade, calor específico, condutividade térmica, coeficiente de expansão térmica e outras obtidas em testes feitos em laboratórios com equipamentos sofisticados, difíceis de serem encontrados no Brasil.

Outros softwares ressaltados pelo gerente para esse nicho de mercado são os de CAD Fusion/Inventor, que permitem ao usuário a total visualização nas telas do projeto em desenvolvimento. Por meio deles, o projetista visualiza qualquer seção da peça ou do molde onde será injetada, de maneira instantânea, com recursos como mudança de escala, utilização de cores, rotações, sombras e luzes, entre outros. Podem ser definidos, por exemplo, os ângulos mais apropriados para que a peça seja moldada com maior facilidade, ou as nervuras necessárias para se chegar aos níveis de resistência mecânica adequados às necessidades. Sempre levando em conta as características das resinas a serem transformadas.

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