Moldes – Custos disparam e demanda se concentra em embalagens

Demanda também por itens de alta qualidade

O atual momento vivido pelos fornecedores de moldes e porta-moldes para injeção de plástico lembra um pouco a antiga cantilena do copo meio cheio.

Existem fatores positivos e negativos exaltados por vários participantes do mercado.

Os otimistas se baseiam no patamar de razoável para bom das vendas, impulsionadas pelos segmentos da economia que vivem melhor momento.

São os casos, por exemplo, das indústrias de embalagens, utensílios domésticos e produtos farmacêuticos; por sua vez, os fornecedores de moldes para a indústria automobilística amargam a crise do setor.

O lado pessimista do mercado aparece com os rumos tomados pelo desempenho da economia nos últimos meses, que geram falta de confiança para os empresários darem partida à retomada vigorosa dos investimentos.

As perspectivas para curto prazo são de crescimento pífio do PIB. A inflação anual voltou à casa dos dois dígitos e os custos de produção se elevaram muito. Some-se a esse cenário o clima político instável do país.

A realização de eleições no próximo ano gera ansiedade.

O forte crescimento da cotação do dólar também provoca altos e baixos no humor das empresas do setor.

O fator tornou os moldes nacionais mais competitivos perante os asiáticos, o que é muito positivo. Por outro lado, a valorização da moeda norte-americana prejudica a importação de insumos e equipamentos, o que não ajuda em nada. Um agravante sensível para o setor tem sido o aumento exagerado do preço do aço.

A forte alta do custo da energia elétrica, consequência de fenômenos climáticos, assusta.

Repassar esses aumentos de custos aos preços das ferramentas não tem sido tarefa fácil e os fornecedores se queixam por trabalhar com margens de lucro espremidas.

A reduzida rentabilidade não combina com a necessidade de investimentos em tecnologia.

A adoção dos conceitos da indústria 4.0 por parte dos transformadores exige moldes fabricados dentro de rígido controle de qualidade e precisão, e as ferramentarias necessitam investir em modernas máquinas de usinagem.

Esses equipamentos são caros e faltam recursos para financiamento, problema agravado pela política de elevação de juros adotada pelo governo.

Vale lembrar: não existem informações oficiais sobre o desempenho das ferramentarias no Brasil, setor bastante pulverizado e formado em sua grande maioria por empresas de porte pequeno.

Um bom termômetro de como vão as coisas para o setor se encontra no desempenho das fabricantes de porta-moldes, componentes usados na grande maioria dos moldes fabricados no país.

Esse é um mercado bem mais concentrado. Entre os fornecedores podemos citar as empresas nacionais Polimold, Tecnoserv e Três-S.

O fator aço – A elevação do custo de aquisição do aço tem sido uma dor de cabeça para as ferramentarias, onde a presença da matéria-prima responde pela quase totalidade da composição dos produtos.

De acordo com depoimentos dos compradores, de 2019 até hoje o aumento médio dos preços superou a casa dos 100%.

Uma saída tem sido importar aço da China – a despeito da alta do dólar, conforme o caso, compensa.

Outra perspectiva se encontra nas intensas negociações entre fornecedores e clientes para que se chegue a valores mais razoáveis da matéria-prima.

A crise do aço se iniciou com a chegada do coronavírus.

Em março e abril do ano passado houve redução no consumo mundial e, prevendo uma crise de grandes proporções, as siderúrgicas de todo o mundo desligaram altos-fornos e reduziram a produção.

Nos meses seguintes, o mercado começou a se recuperar, mas houve demora na retomada da produção. Os índices dos preços passaram a subir, obedecendo a lei da oferta e procura.

Mesmo com a volta da produção do aço aos patamares anteriores aos da pandemia, os preços permaneceram elevados e não há indícios de retornarem a patamares mais palatáveis em curto prazo.

O Instituto Aço Brasil, entidade representativa das empresas brasileiras produtoras do aço, em resposta à solicitação da Plástico Moderno, defende que a volatilidade nos preços do mercado do aço se deve ao boom mundial nos preços das commodities.

Para o instituto, quase todos os insumos e matérias-primas do setor tiveram elevação de preços, causando forte impacto nos custos de produção do aço.

Palavra de quem faz – Algumas empresas com nome reconhecido pelo mercado falam sobre o cenário atual.

Para a catarinense Btomec, cujo foco principal se concentra em moldes de múltiplas cavidades para embalagens de alimentos, cosméticos, de higiene e limpeza e área farmacêutica, os negócios estão melhores do que no período anterior à pandemia. Isso não significa que vão às mil maravilhas.

O diretor Wiland Tiergarten aponta as principais dificuldades.

Plástico Moderno - Moldes - Custos disparam e demanda se concentra em embalagens ©QD Foto: Divulgação
Wiland Tiergarten da Btomec

“O preço do aço nos últimos 12 a 15 meses subiu mais de 120%; esse aumento está muito acima de qualquer expectativa”, queixa-se. A desvalorização do real também é apontada. “Ela inibiu a importação de moldes, mas boa parte do que compramos são itens importados”.

Tiergarten fala sobre algumas exigências feitos pelos clientes nos últimos tempos.

No segmento em que a empresa atua, os transformadores trabalham com rígidos conceitos de qualidade.

É necessário atingir o perfeito funcionamento dos conjuntos de equipamentos presentes nas linhas de produção, nos quais os moldes têm importante participação.

“Os moldes precisam ser muito precisos, com rigor nas medidas muitas vezes na casa dos micrômetros.

Têm que contar com câmaras quentes e sistemas de resfriamento projetados de forma adequada”.

Tornou-se indispensável contar com forte know how na área de projetos para vencer os obstáculos surgidos nos últimos anos.

“Algumas tampas no passado fabricadas em ciclos de 15 segundos hoje são produzidas em ciclos de três segundos.

Há forte tendência para redução do peso. Muitas tampas que eram projetadas com 15 gramas, hoje pesam dez”, exemplifica.

Contar com equipamentos de última geração se tornou imperioso.

“Temos que adquirir softwares e equipamentos de usinagem”. Investir na automação da ferramentaria é outra estratégia adotada pela empresa, permite maior produtividade e redução no tempo da execução das encomendas.

“Com a automação podemos fechar na sexta-feira e deixar os equipamentos funcionando durante o fim de semana. Os trabalhos podem ser acompanhados pelo celular”, exemplifica. As compras mais recentes da Btomec foram quatro robôs, já integrados à linha de produção.

A gaúcha NTC desenvolve moldes para injeção de acordo com a necessidade do cliente, sejam eles projetados em aços tratados termicamente e com tratamentos superficiais, placas fixas e móveis, gavetas mecânicas e hidráulicas e outras especificações.

Os principais segmentos atendidos são o automotivo, agronegócio, defesa e segurança, náutico e petrolífero.

Plástico Moderno - Moldes - Custos disparam e demanda se concentra em embalagens ©QD Foto: Divulgação
Bernardo Shen da NTC

“As vendas esse ano estão 20% superiores às do ano passado, podemos dizer que voltamos aos níveis dos anos 2018 e 2019”, informa o diretor Bernardo Shen.

Ele se mostra surpreso positivamente com o resultado. “Visto que o cenário internacional enfrenta um sério gargalo de abastecimento, dólar em alta e aumento da demanda interna, podemos dizer que os negócios estão acima do esperado”.

Shen explica que o diferencial da empresa se concentra na possibilidade de entrega da solução completa aos clientes, do projeto do produto até a produção do molde e a retirada da peça final.

O projeto das peças prevê a análise de flow, o estudo de possíveis empenamentos ou rechupes e compensações de massa.

Conta com o auxílio dos softwares CAE para entender seu comportamento mecânico e reduzir os problemas de seus componentes. “Fazemos um texto completo virtual, antes mesmo do molde ser fabricado”.

Também são trabalhadas, de maneira integrada com o cliente, as fases de seleção dos materiais, processos, projeto e construção das ferramentas e tryout, além da injeção das peças.

De acordo com o diretor, o avanço da tecnologia de injeção fez as ferramentas se modernizarem. São necessárias novas técnicas de desenvolvimento e metodologias construtivas.

“É importante lembrar que os moldes são apenas uma variável do processo. A integração molde, injetora e monitoramento dos dados através da internet (inteligência artificial e internet das coisas) tem elevado os ganhos de produtividade de forma significativa e relevante”.

Termômetro – A situação dos fornecedores de porta-moldes reflete o momento vivido pelas ferramentarias.

“Nós estamos como todo mundo, não estamos funcionando a plena capacidade mas temos alcançado alguns resultados positivos”, resume Alexandre Fix, diretor da Polimold, empresa pioneira na fabricação desse produto no Brasil, além de contar com forte participação no mercado de câmaras quentes e vários outros dispositivos padronizados.

“O comprador encontra o que precisar. Fazemos porta-moldes especiais, nas dimensões e com as usinagens desejadas. Se preciso, o cliente fica apenas com a tarefa de usinar as cavidades”.

Fix se queixa bastante dos custos elevados para a produção de moldes no país. O empresário reconhece que o problema do aço é mundial, mas critica bastante o “custo Brasil”.

“É mais barato produzir um molde na Alemanha”. Ele tenta contornar o caso do aço fazendo importações. Além dos distribuidores europeus, a empresa está comprando da China.

“Temos funcionários na China para verificar a qualidade dos produtos comprados, até agora não tivemos problemas”.

Uma novidade da empresa no caso dos porta-moldes tem sido investir na exportação. “Estamos fazendo uma primeira tentativa”.

Para tanto, a empresa já conta com ampla estrutura de vendas em vários países da América, Europa e Ásia. “Exportamos muitas câmaras quentes. Queremos fazer desse fato nossa porta de entrada”.

“Nossas vendas de porta-moldes estão em alta”, revela Wilson Teixeira, diretor técnico da Tecnoserv, empresa nacional que atua no mesmo segmento de mercado.

Ele atribui boa parte dessa situação à desvalorização do real. “O dólar subiu, o euro subiu, há problemas mundiais de logística. Ficou mais difícil importar os moldes”. Por outro lado, Teixeira lembra que está difícil capitalizar a empresa.

“Os custos estão altíssimos, os preços do aço subiram demais e também sofremos com o câmbio, muitos equipamentos e insumos que adquirimos são importados”.

Repassar o aumento dos custos para os clientes não tem sido operação simples. Sem falar que os clientes também andam descapitalizados.

“Não há financiamento, somos obrigados a dar de sessenta a noventa dias de prazo para recebermos pelas encomendas, quando elas são pagas já não cobrem o aumento dos nossos custos”.

Outros custos incomodam “Precisamos elevar os salários dos colaboradores, a energia elétrica e os combustíveis estão muito caros. A inflação faz com que percamos as referências”.

A recente inauguração de nova fábrica no município de Cravinhos-SP é a maior novidade de outra concorrente nesse nicho de mercado, a Três-S.

Plástico Moderno - Moldes - Custos disparam e demanda se concentra em embalagens ©QD Foto: Divulgação
Claudir Sandro Mori da Tecnoserv

“Investimos também na renovação do maquinário e agora podemos atender os clientes com processos mais rápidos e a um custo menor”, explica Claudir Sandro Mori, gerente comercial.

Mori conta que as vendas da empresa já retornaram às do período anterior ao da pandemia. “Estamos no mesmo patamar, mas o mercado ainda precisa melhorar”.

Como todos, o preço do aço é motivo de infortúnio.

“Os porta-moldes são todos feitos de aço e somos obrigados a repassar esse custo. Os próprios clientes compreendem que não temos como segurar os preços, mas eles também enfrentam suas dificuldades”, resume.

Crise? Que crise? – Os problemas vividos pela economia desde a chegada da pandemia não afetaram a ferramentaria paulistana Technical Blow Mould, ou TBM, como é conhecida no mercado, voltada para a produção de moldes para o sopro de peças técnicas.

No mercado desde 1997, a empresa atende a indústria automobilística, para quem produz ferramentas para a produção de tanques de combustíveis, dutos com formatos complexos e outras peças técnicas usadas nos veículos. Além das montadoras nacionais, a empresa tem atuação destacada nos mercados do México e Argentina.

“Não fomos afetados pela pandemia”, garante Manoel Paiva, diretor técnico comercial. Nem mesmo os problemas enfrentados pela indústria automobilística nacional no último ano, que reduziram bastante o ritmo de produção dos veículos no Brasil, interrompeu o ritmo das encomendas.

O diretor explica o “milagre”. “Nós trabalhamos em projetos futuros e duas mudanças na legislação nacional estão forçando a troca de moldes de algumas peças para que as montadoras se adequem às novas normas”.

Uma das novas normas prevê que a partir do próximo ano todos os veículos fabricados no Brasil se adequem aos parâmetros necessários para a redução da emissão de gases prevista na fase P7 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automores (Proconve).

“As montadoras tentaram junto ao governo adiar a edição dessa norma por conta dos problemas econômicos gerados pela pandemia e não obtiveram sucesso”.

A segunda norma, prevista para ser adotada a partir de 2025, visa eliminar a emissão de gases durante o abastecimento dos veículos nos postos de combustíveis.

“Um tanque de gasolina cheio pela metade com combustível na outra metade fica carregado de gases. Ao abastecer o veículo, hoje, esses gases são soltos na atmosfera. A nova legislação impede essa emissão, o que acarreta novo projeto das peças automotivas envolvidas na operação”.

Para atender a demanda, a TBM precisa usar elevada tecnologia em seus projetos. Em alguns casos, por exemplo, as peças a serem fabricadas contam com tubos de seis ou sete camadas de materiais.

O investimento constante no aprimoramento da capacidade instalada é obrigatório. “Acabamos de adquirir uma máquina de usinagem de última geração”, exemplifica Paiva.

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