Máquinas: Variação cambial assusta compradores de importados

As coisas não estão fáceis para ninguém. Não só os fabricantes nacionais enfrentam momento delicado. Para os importadores, o momento também é duro. “O ano foi bastante complicado para toda a indústria. Acredito que a queda no número de máquinas importadas em 2015 deva ficar entre 17% e 18%”, informa Christopher Mendes, diretor financeiro e responsável pela comissão para máquinas de plástico e papel da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei).

Plástico Moderno, Mendes: tributar equipamentos torna obsoleto o parque fabril
Mendes: tributar equipamentos torna obsoleto o parque fabril

No período de janeiro a outubro, a importação de bens de capital ficou na casa dos US$ 32,4 bilhões. No mesmo período do ano passado, ela havia movimentado US$ 40,2 bilhões. “Esses números se referem a todos os tipos de máquinas. Não temos estatística específica para o segmento do plástico”. Para o segmento, as injetoras são as máquinas mais adquiridas. Sopradoras e extrusoras também são procuradas, mas em número menor. “Não tenho o número exato das máquinas vendidas por tipo”. Ele também não conta com informações sobre os países de origem. “O maior percentual é de máquinas chinesas. As alemãs, bastante sofisticadas, são vendidas em número menor”.

Para Mendes, o grande problema tem sido o ambiente econômico e político confuso pelo qual passa o país. A economia vive uma recessão e as indústrias, muitas delas com capacidade ociosa, desistem de investir. O que para os fabricantes nacionais foi um bálsamo em momento delicado, para os importadores atrapalhou muito. Com o valor do dólar alto, as máquinas importadas perderam competitividade.

O pior, para o dirigente, não é só a desvalorização do real. A flutuação cambial atrapalha mais. As variações bruscas e imprevisíveis das cotações impedem os compradores de se planejar. “Todos se assustam ao saber que uma máquina que eles financiaram por um determinado valor em moeda forte pode, no espaço de três meses, estar custando 20% a mais. Ao efetuarem a compra, eles querem saber o quanto vão gastar”, exemplifica.

O diretor da Abimei também se queixa da carga tributária enfrentada pelas máquinas importadas. “O Brasil está há anos-luz de outros países, no exterior há muito mais incentivos para quem adquire equipamentos”. Ele dá um exemplo. “Na China, as empresas podem comprar um centro de usinagem com zero de imposto. No Brasil, no mínimo, é preciso pagar 14%”. O apetite fiscal atrapalha. “A indústria perde competitividade, utiliza equipamentos mais antigos”.

Como não poderia deixar de ser, Mendes faz propaganda da ótima oportunidade que os dias atuais oferecem para as empresas adquirirem equipamentos mais modernos. “O momento está muito interessante para quem deseja substituir equipamentos antigos por outros que proporcionam maior produtividade e economia de energia elétrica. Muitos transformadores de ponta estão aproveitando”.

Entre os clientes de máquinas importadas, alguns dos mais ativos no momento são os produtores de embalagens de cosméticos e produtos farmacêuticos, calçados e brindes. As indústrias automobilísticas e de linha branca são as que mais reduziram os investimentos. “Nos últimos três meses, a procura de equipamentos pelos fabricantes de linha branca praticamente parou”, enfatiza.

O dirigente garante que a estrutura montada pelas marcas internacionais no Brasil atende inteiramente a necessidade dos clientes. “Elas oferecem assistência técnica e contam com estoques de peças adequados. Conseguem competir de igual para igual com os fabricantes nacionais”. Também destaca os prazos de entrega muito rápidos. “As máquinas são fabricadas com sistemas de montagens eficientes, isso quando as empresas não contam com os modelos em estoque”.

Projeto adiado – No campo da injeção, no qual a concorrência entre nacionais e importados é a mais intensa entre os equipamentos para transformação de plástico, são muitas as marcas internacionais com escritórios no Brasil. Alguns profissionais responsáveis pelas vendas dessas empresas explicam a situação pela qual estão passando nos dias de hoje.

Plástico Moderno, Tederic cogitou fabricar a série J no Brasil
Tederic cogitou fabricar a série J no Brasil

Representante do país que disputa a participação do mercado nacional de forma mais acirrada com os brasileiros, a Tederic é a quarta maior fábrica da China. De 2011 a 2014, alcançou resultados excelentes por aqui. Tanto que na Feiplastic, no último mês de maio, divulgou a possibilidade de inaugurar uma fábrica em 2016 no estado de Santa Catarina – o estado catarinense concorria com a possibilidade de a planta industrial ser instalada no Uruguai.
A ideia era ter uma base local para atender o mercado sul-americano, em especial o brasileiro. Com a fábrica nacional, a empresa poderia proporcionar aos clientes de suas máquinas os financiamentos mais vantajosos oferecidos pelo BNDES. No início, a estratégia seria a de montar máquinas até 500 toneladas de força de fechamento com vários componentes importados. Com o tempo, haveria progressiva nacionalização dos itens presentes nas injetoras.

“Com a fábrica, estávamos pensando em atingir os pequenos transformadores, os que compram máquinas mais simples, de reduzido ticket médio”, explica Emanuel Lopes Martins, gerente do escritório brasileiro. Ocorre que, esse ano, com a crise econômica, a venda desse tipo de equipamentos caiu em torno de 50%. “Em junho decidimos adiar o projeto, vamos voltar a pensar no assunto em 2017”.

Apesar da forte queda verificada nesse nicho de mercado, o gerente não se mostra tão decepcionado com os negócios fechados esse ano. “Houve crescimento de 20% na venda de máquinas especiais, aquelas que fornecemos em regime turn-key, cujo projeto inclui moldes, robôs e outros acessórios”. Esse crescimento, apesar de apresentar escala percentual menor, equilibra os números dos resultados, pois envolve equipamentos com maior valor agregado. “Nosso movimento financeiro deve fechar o ano com crescimento”.

Martins explica que a alta do dólar atrapalhou os negócios. O pior, para ele, no entanto, é a instabilidade da cotação da moeda, fator que afugenta compradores. “A flutuação gera insegurança”. Ele vê um lado positivo nesse fenômeno. A alta do dólar alavanca a nacionalização de peças. “Isso vem ocorrendo, por exemplo, na indústria automobilística”.

A Tederic tem modelos de 40 a 4 mil toneladas de força de fechamento, com funcionamento hidráulico, híbrido e elétrico. Em termos de novidades, a empresa acaba de trazer para o Brasil dois modelos da série J. Com capacidade de força de fechamento de 2,1 mil toneladas, as máquinas contam com tecnologia de fechamento de duas placas e injeção por acúmulo (extrusão-injeção). “Essa é uma tecnologia pouco utilizada no Brasil que permite a injeção de grande quantidade de plástico por ciclo. Com os dois modelos, os transformadores podem obter peças de grande peso, normalmente fabricadas em máquinas com 4 mil toneladas”, explica. Elas são indicadas para fabricantes de pallets, lixeiras, e outras peças.

Razoável – Para a multinacional Wittmann Battenfeld, que se apresenta como única empresa do mundo a fornecer sistemas completos de injetoras e periféricos, o ano foi menos ativo do que o esperado. A empresa atua no nicho de máquinas mais sofisticadas. “Toda a conjuntura política e econômica que enfrentamos interfere de alguma forma no andamento das negociações”, explica Reinaldo Carmo Milito, diretor geral no Brasil. O dólar afetou diretamente o custo de aquisição de máquinas e equipamentos. No entanto, ainda que o mercado sinta as dificuldades da alta abrupta, quem se programou manteve os investimentos, em maior ou menor grau.

Plástico Moderno, Alimentador: Wittmann Battenfeld oferece máquinas e periféricos
Alimentador: Wittmann Battenfeld oferece máquinas e periféricos

Apesar dos pesares, o ano não chegou a ser péssimo. “Os negócios não estão parados, muitas empresas têm o intuito de estarem preparadas para novas demandas. A retomada da atividade econômica pode demorar um pouco, mas virá, não podemos parar de trabalhar”, informa. Por conta disso, o dirigente informa que o percentual de vendas em relação ao ano anterior permaneceu estável. “Os principais projetos que desenvolvemos neste ano foram para o setor de embalagens e de peças automotivas”.

Uma das estratégias da Wittmann Battenfeld para incrementar os negócios é a maior aproximação com o mercado e a divulgação de novas tecnologias. Cada vez mais, as indústrias procuram produtos que atendam a necessidades específicas. “Elas querem o desenvolvimento e aperfeiçoamento de máquinas e soluções direcionadas a cada etapa do processo produtivo”.

Milito acredita que a conscientização sobre as vantagens da tecnologia é cada vez maior entre os transformadores. Tanto que, sua sensação é de que na última década a defasagem no parque de máquinas nacional foi reduzida. “Na maioria das vezes, o empecilho é financeiro e não em relação à solução”. Ele ressalta que o ganho de um equipamento moderno, se comparado aos modelos antigos, proporciona rápido retorno, mas precisa ser avaliado com cuidado. O rendimento de uma linha de produção faz parte de um conjunto, ele está ligado a vários fatores, como tipo do molde, matéria-prima utilizada e outros. “Quando um molde apresenta falhas, toda a célula de automação pode ter perdas”, exemplifica.

Na última Feiplastic, a atração principal da Wittmann Battenfeld foi uma máquina da linha SmartPower, à época formada por modelos de 25 a 120 toneladas de força de fechamento. Em outubro, na feira Fakuma, realizada na Alemanha, a empresa apresentou os modelos da linha com força de fechamento de 350 toneladas. Toda a série está à disposição do mercado brasileiro. Também na Fakuma, foram apresentados novos periféricos, como robôs, alimentadores e outros.Podia ser melhor – “O ano foi fraco, acho que essa é uma sensação de todo o mercado. Nossas vendas caíram por volta dos 50%”, queixa-se Christoph Rieker, gerente geral da multinacional Sumitomo Demag. A empresa produz injetoras hidráulicas, híbridas e elétricas. O lado positivo, de acordo com o dirigente, se resume a alguns aspectos. “Não houve cancelamentos e nem estamos enfrentando problemas de inadimplência”.

Para Rieker, o resultado se deve à situação política do país. “Isso atrapalha muito”. Outro problema vem do câmbio. “O dólar alto prejudica a importação, mas o pior é o receio provocado pela instabilidade da moeda. Se o empresário sabe quanto será a valorização do dólar ele absorve o aumento do preço, mas a incerteza assusta, todos pensam duas vezes antes de investir”.

Com sua experiência de vários anos de atuação no mercado brasileiro, Rieker apresenta alguns números que surgiram das conversas com colegas de profissão. “Não são dados oficiais, apenas estimativas”, faz questão de esclarecer. O cálculo é que, em 2015, o mercado nacional de injetoras, que nos últimos anos ficou na casa de 1,2 mil máquinas por ano, caiu para de 800 a 850. O número de importadas vendidas, na média na faixa entre 400 e 450, esse ano deve ficar em torno de 300.

Para o gerente, entre as importadas, as vendas se retraíram mais entre os modelos mais simples, procurados por transformadores de menor porte. “As mais sofisticadas, por proporcionarem melhoria de produtividade e economia de energia, sofreram menos”. Apesar do mau momento, ele acredita que no próximo ano as coisas vão melhorar. “Existem muitos projetos encaminhados que foram paralisados, espero que a qualquer momento possam ser retomados”.

Entre os modelos oferecidos pela empresa, um dos destaques é a linha Systec SP 280, máquina hidráulica dotada com servobombas indicada para aplicações com ciclos rápidos, estrela da empresa na última Feiplastic. Na feira, um modelo de 280 toneladas de força de fechamento produziu potes de 1,2 litros com sistema in mould labeling. Para o próximo ano devemos apresentar novidades no mercado de máquinas hidráulicas. Uma tendência que merece ser citada ocorreu na participação da empresa em Fakuma. “Na Europa tem crescido de forma importante a procura por máquinas elétricas”, ressalta.

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