Leveza e praticidade ajudam plásticos a crescer nas tintas – Embalagem

Embalagens para Tintas

A grande evolução da indústria do plástico nas últimas décadas se deve em grande parte à versatilidade da matéria-prima. As grandes indústrias químicas investem pesado na pesquisa e desenvolvimento de novas formulações de polímeros, tornando-os capazes de substituir outros materiais em produtos os mais distintos.

Um exemplo é a crescente utilização no mercado nacional de embalagens de polipropileno na substituição do aço nas embalagens para tintas. Vale ressaltar: o plástico só pode ser utilizado nas tintas à base de água, nas linhas com solventes o aço é a única alternativa.

Tal aplicação, comum no exterior há muito tempo, começou a ganhar força no Brasil de quatro anos para cá. A concorrência é muito forte. Por aqui, o uso de latas é tradicional nesse segmento de mercado. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), não existem números a respeito da participação de cada matéria-prima nesse mercado.

A associação diz ser inegável, no entanto, a tendência dos fabricantes de tintas em lançar linhas de embalagens plásticas. Elas são oferecidas ao mercado em diferentes formatos, com destaque para os com volumes mais comuns para esse produto, os baldes com 3,6 e 18 litros.

O polipropileno começou a ser usado para essa aplicação com maior intensidade pelos fabricantes de pequeno e médio porte da região Nordeste. A boa aceitação por parte dos consumidores chamou a atenção das marcas líderes de mercado, que começaram a adotar o plástico em determinadas linhas de produtos e hoje ampliaram de forma significativa a escolha por essa opção.

Qualquer ponto percentual de ganho de participação nesse nicho de atuação significa números grandiosos. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) informa que o Brasil é um dos cinco maiores mercados mundiais para tintas, aqui se fabricam produtos destinados a todas as aplicações.

No ano passado foram produzidos no país 1,535 bilhões de litros, valor que gerou faturamento próximo dos R$ 12 bilhões. Desse volume de produção, 83% são direcionados para uso imobiliário. Existem centenas de fabricantes de grande, médio e pequeno porte – os dez maiores respondem por 75% das vendas.

Cabo de guerra

As associações ligadas às indústrias do plástico e do aço travam um verdadeiro cabo de guerra na defesa de seus interesses. Cada uma delas exalta as vantagens das embalagens fabricadas com as matérias-primas com as quais atuam. Os argumentos são usados para tentar conquistar o coração da indústria de tintas, a responsável pela escolha sobre como embalar seus produtos.

Os primeiros pensamentos que vêm à mente quando comparamos dois produtos é o preço. Nessa disputa esse aspecto é deixado um pouco de lado. As duas partes garantem ser competitivas, o que demonstra haver certo equilíbrio entre os investimentos necessários para os usuários de uma ou outra opção.

A competição recai com maior força nas características das embalagens. Estudos realizados pela Abiplast apontam aspectos onde as vantagens do plástico em relação aos metais são apresentadas como indiscutíveis. Os baldes de polipropileno são em torno de 20% mais leves. O de plástico com volume de 18 litros, por exemplo, o mais utilizado para a comercialização de tintas, pesa 740 gramas, contra 980 gramas do de aço.

Tal diferença proporciona economia de combustível durante o transporte do produto. Se somarmos a esse aspecto o fato de os baldes em plásticos serem ligeiramente cônicos, o que permite empilhá-los quando vazios, a economia de combustível usado durante as operações de logística de entrega dos produtos aumenta de forma considerável.

Um estudo de análise de ciclo de vida do produto patrocinado pela Braskem dá ideia de tal economia. Pelos cálculos, se por ano forem substituídos 5% das embalagens de tintas em latas por baldes plásticos haveria a redução de emissão de dióxido de carbono equivalente à paralisação do funcionamento de todos os automóveis da cidade de São Paulo por uma hora.

O caráter funcional também é destacado pela Abiplast. Os baldes plásticos têm alças, o que em especial nas embalagens de 18 litros facilita muito o manuseio por parte dos pintores. O plástico é rígido, não amassa, e não sofre problemas de corrosão. É mais resistente aos impactos.

A abertura das tampas se dá de maneira muito mais eficiente, graças ao projeto cuidadoso dos lacres. O formato das tampas também permite maior praticidade, pode possuir design para facilitar a introdução de rolos de pintura e permitir o aproveitamento total do conteúdo.

Outra vantagem, ainda de acordo com a Abiplast, se encontra na possibilidade de reutilização dos baldes plásticos, muito maior do que os das latas. As pessoas gostam de reaproveitar as embalagens para utilizar em atividades domésticas, por exemplo. Além disso, eles são 100% recicláveis, operação feita com maior facilidade por serem feitos em monopolímero.

Podem ser transformados novamente em matéria-prima, voltando para a cadeia de produção de novos produtos, o que resulta na redução do uso de recursos naturais. A associação informa que está aprimorando programas de logística reversa para melhorar a eficiência e aumentar o volume de material recuperado.

No quesito aparência, o plástico também mostra suas armas. Os potes podem ganhar formas variadas sem muitas dificuldades e ser injetados em resinas coloridas ou transparentes, o que torna mais fácil a customização da aparência final. A rotulagem merece observação particular. Um processo bastante usado nesse mercado é o do in mold label, que consiste na colocação por meio de robôs de rótulos nos moldes durante o ciclo de injeção. Com essa técnica é possível fabricar baldes de uma mesma cor com apresentações completamente distintas apenas com a troca dos rótulos, sem qualquer alteração significativa na regulagem dos equipamentos.

O Sindicato Nacional das Indústrias de Estamparias de Metais (Siniem) conta com estudo realizado pelo seu vice-presidente e diretor da Brasilata, Antônio Carlos Teixeira Álvares, para divulgar as vantagens do aço. O dirigente destaca algumas propriedades das embalagens metálicas.

De acordo com ele, no Brasil, assim como acontece no Japão e na Coréia do Sul, a indústria metalúrgica é muito bem estruturada. Esses países são grandes produtores e exportadores de aço, o que os tornam competitivos mesmo no uso das embalagens de tintas à base de água.

Quando o assunto recai para a logística, o grande trunfo das latas é sua capacidade de empilhamento. Álvares explica que no caso das embalagens de 18 litros, podem ser empilhadas até nove camadas de latas, contra três dos baldes plásticos. Dessa forma, manter estoques de tinta nas latas requer espaço muito menor. Ele também destaca a elevada estanqueidade obtida com as tampas metálicas.

Quando o assunto chega às alças, um dos trunfos da indústria do plástico para ressaltar seus baldes, o vice-presidente do Siniem lembra que a introdução de alças nas latas é perfeitamente possível. No Brasil, inclusive, foi feita uma experiência pela marca Novacor, pioneira no uso desse expediente em latas de 18 litros. A estratégia não teve prosseguimento após análise da relação entre o aumento do custo e o interesse dos pintores.

Quando o assunto é a reciclagem, Álvares ressalta alguns aspectos positivos do aço. Como ocorre com o plástico, ele também pode ser 100% reciclado. Uma vantagem é a de que o preço da sucata do aço torna lucrativa a operação de logística reversa. No Brasil, mesmo com a operação realizada até hoje de maneira pouco organizada, o índice de reciclagem das latas de aço é de 47%. O sindicato tem projetos para melhorar esse número com o aprimoramento das operações de logística reversa.

Há um facilitador para os projetos de recuperação. Na hora da separação do lixo, as usinas podem se valer de eletroímãs para realizar a tarefa com maior eficiência. Nos casos onde a reciclagem não ocorre, a matéria-prima apresenta outra propriedade interessante. A degradação no solo ocorre em período de cinco anos, muito menor do que o da degradação do plástico. E as latas se transformam em óxido de ferro, substância não poluente.

Palavra de quem compra

Na condição de fornecedores de tintas que utilizam embalagens produzidas com os dois tipos de matérias-primas, alguns dos fabricantes de marcas com grande participação no mercado nacional não se sentem confortáveis para falar sobre a disputa. Procurados pela reportagem, preferiram não se manifestar.

A exceção ficou por conta da Tintas Iquine, com fábrica no polo industrial de Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife-PE.

Plástico Moderno, Souza: inovações tornaram os baldes plásticos mais atraentes
Souza: inovações tornaram os baldes plásticos mais atraentes

Alan Souza, diretor de marketing e vendas, apresenta a empresa como a quarta maior indústria de tintas do Brasil, a maior com capital 100% nacional.

“Estamos há 44 anos no mercado e atuamos em todo o território do país. Temos 6% de market share e ocupamos a liderança nas regiões Norte e Nordeste”, informa.

Em seu portfólio possui mais de 1,3 mil itens em produção. A empresa oferece seus produtos em embalagens fabricadas com os dois materiais.

Ela se encontra entre as pioneiras a adotar o plástico no mercado brasileiro.

“A Iquine mapeia constantemente as tendências de mercado e há anos incorporou uma cultura de inovação e preocupação com o consumo sustentável. Com isso, a introdução das embalagens plásticas, há mais de 20 anos, passou a fazer parte das opções de embalagens da empresa”, informa Souza.

O diretor reconhece algumas facilidades proporcionadas pelo plástico. “Observamos algumas vantagens, como facilidade no manuseio, facilidade na abertura e fechamento, evitando o desperdício de material. Além de possibilitar 100% de reciclagem, o que coloca a embalagem dentro do modelo sustentável”. Quando a questão recai sobre o preço, ele relativiza. “A economia varia considerando os formatos oferecidos”.

A importância da aparência dos produtos é reconhecida como importante instrumento de marketing e a Iquine se preocupa em atrair os consumidores pelo apelo visual. “A indústria de embalagens plásticas sofreu incremento tecnológico que permitiu maior excelência na litografia. Hoje, encontramos no mercado produtos com maior nitidez de cores, melhores acabamentos e possibilidades diversificadas para trabalhar”, ressalta. O fato dos usuários reaproveitarem as embalagens é considerado importante e motivo de atenção. “A Iquine contempla em todos os formatos informações referentes ao reuso e reciclagem, sejam em material plástico ou metálico”.

Palavra de transformador

Entre os transformadores com boa participação nesse mercado podem ser citadas Bomix (com matriz em Salvador-BA), Fibrasa (Serra-ES), Real Plastik (Gaspar-SC), Groupack (São Paulo-SP) e Jaguar (Jaguariúna-SP), entre outras.

Representantes dessas empresas defendem que o mercado de embalagens plásticas para tintas possui forte potencial e se mostram satisfeitos com o crescimento da procura por esse item por grandes clientes mesmo em época de crise econômica. Para eles, as vantagens proporcionadas pelo plástico são tantas que os usuários, na hora da escolha, não ligam muito para o preço, que é mais ou menos equilibrado com o das metálicas.

A Fibrasa foi criada há 46 anos e no início era especializada na produção de termoformados. Há 20 anos passou a fornecer baldes injetados. A empresa conta com duas unidades fabris, localizadas em Serra-ES e Abreu e Lima-PE.

“Somos a segunda maior empresa de transformação de polipropileno do país”, informa Paulo Bernardes, gerente regional de vendas.

O executivo reconhece a força do aço nesse nicho de mercado no Brasil.

Plástico Moderno, Bernardes: desenhos antigos de baldes desperdiçavam resina
Bernardes: desenhos antigos de baldes desperdiçavam resina

“O Brasil é forte produtor e a embalagem metálica se tornou muito tradicional.

Até quatro anos atrás havia muito pouca coisa de plástico”.

No exterior a coisa não funciona bem assim. “Nos Estados Unidos, na Europa e mesmo em vários países da América do Sul o plástico prevalece já há muitos anos”.

Para ele, esse quadro começou a se alterar por aqui a partir da iniciativa de empresas de tintas pequenas e médias das regiões Norte e Nordeste, que encontravam dificuldades para obter pequenos lotes de embalagens metálicas em condições competitivas. “Com o passar do tempo, a experiência mostrou que o consumidor prefere o plástico e as grandes empresas passaram a seguir o exemplo”.

A Frimesa hoje tem em seu portfólio de clientes praticamente todas grandes empresas do setor de tintas. “Atendemos Basf, Sherwin-Williams, Coral e várias outras. A PPG Renner hoje comercializa 100% de suas tintas a base de água em baldes de plástico”. A empresa também exporta para cinco países da América do Sul. Como exemplo de casos de sucesso da empresa, ele se lembra de um lançamento ocorrido no final de 2016. Na ocasião, para a Tintas Coral, a empresa passou a fabricar um balde de 20 litros. “A ideia do cliente era fazer uma promoção, o usuário comprava 20 litros e pagava por 18. A promoção fez tanto sucesso que várias outras empresas adotaram a mesma estratégia”, conta.

A Jaguar Plásticos, de Jaguariúna-SP, foi criada em 1978 como fabricante de utilidades domésticas. Em 1988, entrou no ramo de embalagens e em 1998 passou a fabricar baldes industriais. A empresa está entrando agora com maior força no segmento de tintas. “Antes precisávamos investir na linha de produção para nos adequarmos às necessidades da tecnologia in mold label aplicada em peças de grande porte”, explica Alexandre Calabria, gerente de vendas. A empresa foi uma das pioneiras na adoção da técnica de inserir etiquetas nos moldes durante o ciclo de injeção no Brasil, mas no passado a utilizava em peças de menor porte, caso de potes de alimentos com volumes reduzidos, por exemplo.

Calabria vê com bons olhos esse novo nicho. Para ele as vantagens do plástico são claras e o ritmo da substituição das latas deve ser intensificado à medida que ocorra a recuperação dos níveis econômicos. “As fábricas de tintas estão com bastante capacidade ociosa, mas os clientes estão atentos à modernização de suas linhas de produção. Estou visitando várias empresas que já começaram a migração para os baldes há algum tempo”.

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