Insumos caros e concorrência de importados tiram fôlego do setor

A alta dos insumos, como corantes, silicones, auxiliares químicos e das matérias-primas como fibras e fios afetou a produção da indústria têxtil nacional, uma vez que a maioria destes produtos é importada.

Embora não tenham sido os principais responsáveis pelo fraco desempenho apresentado pelo setor em 2018 – fatores conjunturais tiveram maior impacto – os insumos contribuíram para o resultado ruim.

Em dezembro, ao apresentar o balanço do ano e as projeções para 2019, o economista Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), disse:

“Os números de 2018 não foram bons.

Os melhores prognósticos indicavam um crescimento do PIB de 3%, mas infelizmente decepcionou fechando provavelmente em 1,3%, como deverá apontar o cálculo do IBGE no primeiro trimestre do ano”.

O dirigente, entretanto, observou:

“Para 2019, não conseguiremos recuperar o que perdemos no ano passado, mas se a economia apresentar sinais positivos, o setor dará sua contribuição para a retomada do emprego e da produção”.

Segundo ele, o varejo de têxteis e vestuário, com crescimento de 0,8%, manteve-se estável, mas a indústria têxtil fechou o ano com queda de 2% na produção, redução de 1,2% nas exportações, aumento de 5,7% nas importações e perda de 27 mil postos de trabalho.

Os dados da Abit também revelam que o custo de produção subiu, em média, 8,5%, com altas significativas nos preços de algodão, fibras e corantes, entre outros.

Pimentel: Brasil é o oitavo mercado têxtil do mundo

“Hoje, os insumos no Brasil seguem em forte alinhamento com o câmbio. Mesmo matérias-primas produzidas no país tem parametrização com valores internacionais, como já é feito com as commodities, como algodão, soja, ferro, etc. Com isso, o mercado sofre naturalmente os efeitos do dólar”, explica Pimentel.

Fatores conjunturais – Segundo ele, as razões pelas quais o PIB não apresentou o crescimento esperado pela indústria foram a greve de 11 dias dos caminhoneiros, iniciada no mês de maio, que afetou a economia; e a insegurança trazida pelo debate eleitoral.

Após as primeiras pesquisas eleitorais em agosto de 2018, (informa a Agência Brasil à época) o dólar acumulou valorização de 8,46%, a maior desde 2015.

A desvalorização do real tem efeito duplo no setor produtivo, pois se de um lado favorece as exportações por tornar os produtos brasileiros mais competitivos no exterior, por outro, encarece o preço de insumos e commodities precificadas em dólar.

Por isso, o câmbio sempre divide opiniões entre os empresários. De acordo com o IBGE, até os primeiros quatro meses de 2018, o câmbio girou em torno de R$ 3,19 por dólar.

“O câmbio, que iniciou o ano comportado, com uma cotação relativamente baixa, fez a nossa moeda depreciar, chegando a ficar entre R$ 3,78 e R$ 3,85 por dólar a partir de junho.

O nível de emprego, que nós recuperamos em 2017, depois da recessão de 2015 e 2016, e que acreditávamos no início do ano gerar entre 16 mil a 20 mil postos de trabalho, também não foi possível. Infelizmente, dada a queda na produção, fechamos no negativo”, acrescenta o presidente da Abit.

De acordo com o relatório Brasil Têxtil 2018 (ano base 2017) – produzido pelo IEMI – Inteligência de Mercado, com apoio institucional da Abit e do Senai Cetiqt – Centro de Tecnologia da Indústria Química Têxtil, a cadeia têxtil brasileira é constituída pelos segmentos de fibras e filamentos químicos e produção de têxteis, que envolve fios acabados, tecidos planos, malhas e não-tecidos, com cerca de 2.600 indústrias; e a produção de artigos confeccionados, que abrange 24.822 fabricantes de vestuário, artigos da linha lar, roupas profissionais e têxteis técnicos, num total de 27.422 empresas formais.

Porém, se levar em conta o número de confecções de pequeno e médio porte – exceto os microempreendedores individuais (MEI), existem mais de 70 mil produtores com atividade registrada na Recita Federal, mas segundo Pimentel, deste total, apenas 6.700, que estão no regime de lucro real e lucro presumido, respondem por mais de 70% do faturamento.

“Temos mais de 63 mil empresas dentro do Sistema Simples, sem contar os milhares que estão na categoria MEI, que respondem por aproximadamente 25% do faturamento, mas que por outro lado, são relevantes na geração de emprego e renda em todo o território nacional”.

Essa capilaridade e diversidade na produção coloca a cadeia têxtil e de confecção como o segundo maior empregador da indústria de transformação do Brasil, com cerca de 1,5 milhão de trabalhadores e faturamento (atualizado em outubro de 2018) da ordem de US$ 51 bilhões. Importante destacar que a produção média anual de confeccionados (vestuário, meias, roupa de cama, mesa e banho) foi de 8,9 bilhões de peças.

Plástico Moderno,

 

Desafios de mercado – Mesmo com todo parque fabril instalado no país, com empresas grandes e verticalizadas que produzem do fio à confecção, o mercado brasileiro recebe um grande volume de importações têxteis.

Segundo Fernando Pimentel, em 2018 houve um crescimento de 5,7% no volume de importados, atingindo mais de 1,4 milhão de toneladas.

As exportações,  por sua vez tiveram queda de 1,2%. “Na verdade, começamos o ano bem e, até abril, as empresas estavam relativamente satisfeitas. Mas a greve dos caminhoneiros mudou totalmente o panorama.

A retomada do crescimento foi lenta, com emprego de baixa qualidade, e isso também não motivou o consumidor. Diferentemente de 2017, quando o nosso varejo cresceu 7,6%, o consumidor não ficou de bem com o produto têxtil em 2018”.

Com relação ao consumo, o Fernando Pimentel reconhece que o setor “sofreu bastante com as importações”, especialmente a partir do primeiro trimestre do ano, que depois arrefeceram pela estagnação do varejo.

Por isso, ele acredita que o ritmo de retomada da produção não será tão rápido.

“Há estoques do que foi importado além da nossa capacidade de consumo e esses produtos deverão ficar nas prateleiras até por volta de março de 2019”.

O presidente da Abit disse ainda que houve um aumento de 11,18% (de janeiro a novembro de 2018) na compra de máquinas e equipamentos para o setor têxtil, somando US$ 404 milhões.

Mas esses investimentos foram basicamente voltados pra flexibilização da produção, sustentabilidade e reposição de máquinas que já não tinham mais condições de operar.

Informalidade e exportação – A Abit estima que pelo menos 35% do comércio de produtos têxteis e vestuário tem algum grau de informalidade no Brasil.

O cálculo do PIB informal no país, feito pela Fundação Getúlio Vargas, cresceu no ano passado para 17% do PIB formal, o que é uma característica de países em desenvolvimento, mas no Brasil, segundo Pimentel, “isso é uma epidemia, que sufoca o comércio legal”.

Segundo ele, o mercado ilícito passa também por uma outra questão que é o contrabando.

“Nossa equipe identificou, em São Paulo, um aumento de produtos ofertados com preços muito abaixo do que seria o mínimo razoável. Portanto, é uma cadeia de ilegalidade que se expande e que não encontra no poder público uma capacidade de ação”, reclama, acrescentando que o combate aos produtos ilegais não passa só pela repressão policial, mas principalmente, por cortar os vínculos destes “importadores” com os grandes fornecedores do varejo para que a concorrência não seja tão predatória.

Com relação às oportunidades dos produtos têxteis brasileiros no mercado externo, Fernando Pimentel reconhece que o Brasil não faz parte da cadeia global de suprimentos têxteis.

“Temos um megamercado, por isso a produção é basicamente voltada para o consumo interno. Estamos entre os cinco maiores produtores mundiais de têxteis e ocupamos a 8ª posição como maior mercado consumidor do mundo, mas somos pequenos na cadeia global, já que só 4% da nossa produção é exportada”.

Expectativas – Em meados de novembro, a Abit realizou uma pesquisa entre os associados e empreendedores do setor têxtil para saber qual é a expectativa com o novo governo.

O levantamento mostrou uma visão otimista, com mais de 65% das respostas, todavia Pimentel alerta que isso pode mudar caso o presidente Bolsonaro não consiga realizar as reformas como a da Previdência e a Tributária, as mais aguardadas pelos empresários.

Sobre medidas que as empresas pretendem adotar em 2019, 86,11% dos entrevistados disseram que planejam desenvolver os recursos humanos existentes nas empresas, 65,74% pretendem ampliar os investimentos e 60,91% afirmaram que irão contratar pessoal.

Apenas 17,27% disseram que vão reduzir o número de colaboradores e 6,36% admitem fechar unidades.

“A questão da capacitação profissional visa melhorar a produtividade que no Brasil está estagnada. Numa retomada forte da economia, as empresas que estão preparadas terão ganhos de produtividade, fundamental para o crescimento sustentável da indústria”, diz o dirigente, acrescentando:

“Espero que Brasil se reencontre de maneira mais harmônica e siga o rumo do crescimento e desenvolvimento de que o país tanto precisa”.

Química têxtil – Com crescimento de 6% ao ano projetado pelo relatório da Research and Markets, uma das maiores consultorias de pesquisa e análises do mundo, o mercado de corantes têxteis, hoje estimado em US$ 7,5 bilhões deverá atingir US$ 9,82 bilhões em 2022, impulsionado pela expansão da demanda por artigos têxteis e de vestuário, sobretudo nos países emergentes.

Por outro lado, os regulamentos ambientais rigorosos deverão restringir a produção de corantes, impactando os preços na indústria manufatureira dos países produtores, entre eles o Brasil.

De acordo com os pesquisadores, é provável que o consumo de corantes cresça a taxas mais baixas na China, devido ao aumento dos custos da mão-de-obra e as exigências ambientais, que resultaram no fechamento de muitas fábricas.

Nos últimos 30 anos, a China se tornou o maior produtor de têxteis do mundo, respondendo por quase 55% do consumo total mundial de fibras e agora representa de 40% a 45% do consumo mundial de corantes.

De acordo com as previsões, o consumo de corantes provavelmente continuará aumentando no Paquistão, Vietnã e Bangladesh.

O Paquistão é hoje um dos maiores produtores de denim do mundo, com grande demanda por tinturas de índigo.

Panorama brasileiro – A indústria química brasileira apresentou desempenho satisfatório em 2018, com crescimento de 5% na receita em dólar, e faturamento da ordem de US$ 127,9 bilhões.

Boletim divulgado pela Associação Brasileira da Indústria Química, Abiquim, no dia 7 de dezembro, informa, porém, que o déficit na balança comercial do setor chegou a US$ 29 bilhões em 2018.

A entidade não levanta dados específicos de produtos comercializados para o mercado têxtil, com exceção do segmento de fibras artificiais e sintéticas – dentro da categoria “Químicos de Uso Final” – cujos dados são fornecidos pela Abrafas, conforme a tabela 1.

O presidente da Associação Brasileira de Químicos e Coloristas Têxteis (ABQCT), Jefferson Zomignan, disse que 2018 não foi um bom ano para o setor têxtil e que o único segmento que apresentou bom desempenho foi a estamparia digital. Segundo ele, a estagnação foi consequência do ano eleitoral.

“Em razão da disputa política acirrada entre os candidatos, gerou-se um clima de insegurança sobre o futuro do país”. Zomignan observa que, nos últimos cinco anos, houve crescimento das importações de produtos químicos, especialmente tintas e produtos auxiliares para estamparia digital.

“Desde que os fabricantes têxteis chineses começaram e ser pressionados por órgãos ambientais, a produção têxtil e de vestuário tem migrado para países do Sudeste Asiático com Paquistão e Bangladesh, onde a fiscalização é precária e a mão-de-obra é mais barata que na China”, acrescenta.

Segundo ele, a produção e a venda de produtos químicos têxteis no Brasil, no geral, caiu 15% em 2018, com faturamento estimado em US$ 1,5 milhão de dólares.

“Atualmente, o Brasil concentra mais formuladores do que produtores de matérias-primas. Embora haja mais de 150 fabricantes de químicos têxteis espalhados pelo mundo, o fornecimento está cada vez mais concentrado em grandes multinacionais, controladas por grupos financeiros.”

Jefferson Zomignan diz que até 2000, o algodão predominava como principal matéria-prima têxtil no Brasil, mas hoje as fibras mistas, principalmente algodão/poliéster, dominam o mercado que também tem registrado o crescimento das fibras celulósicas como a viscose, cujo toque se assemelha ao do algodão.

Perfil – A indústria química têxtil brasileira é formada, em sua maioria, por empresas de médio porte, que trabalham com centenas de matérias-primas diferentes para formulações de auxiliares e acabamentos têxteis.

São aproximadamente 150 empresas químicas que atuam no beneficiamento, cerca de 80 lavanderias e 60 fabricantes de máquinas e equipamentos.

A maioria não está preparada para inserção na Indústria 4.0, que busca otimizar os processos de produção, atendimento sob demanda e integração à cadeia têxtil/vestuário.

“Muitos temem que seu negócio poderá desaparecer com o crescimento da estamparia digital ou de novos processos de beneficiamento eco friendly. Digo sempre que neste mercado é preciso se reinventar para competir.

No nosso segmento, os avanços acontecem quando há simbiose entre a indústria de máquinas e os produtores químicos.

Essa parceria resulta em novas soluções que cada vez mais devem ter a sustentabilidade como foco”, comenta o presidente da ABQCT.

Para a maioria dos empresários do setor, o câmbio que controla o preço da matéria-prima importada, responsável por 40% dos custos, é uma das principais preocupações.

“A perspectiva é que o novo governo mexa na carga tributária para que a indústria de transformação possa contrabalançar os custos, já que a matéria-prima é dolarizada.

Para se ter uma ideia, a composição de um auxiliar químico pode conter de seis a oito ingredientes diferentes”, comenta Zomignan.

Sustentabilidade – Químico de formação e atuando no mercado têxtil desde 1960, Agostinho de Souza Pacheco, secretário geral da ABQCT, é delegado do Brasil na FLAQT, entidade com sede em Buenos Aires, que representa as associações de químicos e coloristas têxteis da América Latina.

“A ABQCT é uma associação profissional de pessoas físicas, embora muitos associados também sejam industriais. Posso dizer que até setembro de 2018 o humor do setor era péssimo. As empresas alegaram dificuldades financeiras para tocar a produção e muitas pararam de produzir”, revela.

O beneficiamento têxtil – que inclui as etapas de preparação do tecido, tingimento e lavanderia – é a principal geradora de poluentes de água, solo e ar.

Não há sistema 100% eficiente que elimine completamente os danos, mas eles podem ser bastante reduzidos por meio de produtos biodegradáveis e processos otimizados. Muitas indústrias de produtos químicos já estão mudando a linha para biodegradável e a lista de químicos agressivos está sendo reduzida ao mínimo.

Um exemplo citado por Agostinho Pacheco é o tratamento a plasma antes da mercerização dos tecidos de algodão ou algodão/poliéster, utilizado em larga escalada na produção têxtil.

A mercerização é um processo químico que aumenta a resistência e o brilho das fibras, dando um aspecto sedoso ao tecido.

Neste processo, o tecido é submetido a uma solução de soda cáustica que posteriormente deve ser removida com várias lavagens.

A ideia do tratamento prévio com plasma visa acelerar a atuação da soda sobre  a fibra, tornando a operação mais econômica e menos agressiva ao ambiente.

Química e Derivados, Insumos caros e concorrência de importados tiram fôlego do setor e retardam atualização - Têxtil
Fibras artificiais e sintéticas

Há também a alternativa de implantar unidades de recuperação de soda caustica diluída, permitindo tratamento antes da descarga no efluente.

Mas é um processo caro para as pequenas indústrias. Segundo Agostinho Pacheco, a estamparia direta no tecido tende a crescer, mas ainda está longe de substituir o tingimento convencional.

“Para alcançar grande escala é necessário que as impressoras atinjam maior velocidade de produção e maior rentabilidade.

“Enquanto uma impressora digital estampa, em média, 50 metros de tecido por minuto, linhas de tingimento pad steam (impregnação, vaporização, lavagem e secagem) podem tingir cem metros por minuto. Para lotes menores e especialidades, a estamparia digital sem dúvida atende bem o mercado de moda, porém é um processo de maior custo, pois requer etapas de criação e preparação antes da impressão do tecido. Outro detalhe é que, não trabalhando com estoques, na estamparia digital é preciso produzir para faturar”, acrescenta o especialista.

Otimista, Agostinho Pacheco acredita que as próximas gerações verão uma indústria têxtil muito diferente.

A milenar técnica de fiar, tecer e tingir, que passou a ser mecanizada na Primeira Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII, seguirá em direção à digitalização da produção.

A manufatura avançada revolucionará métodos tradicionais e criará novos conceitos para atender a demanda, impulsionada por novos padrões de consumo, cujo mote é a personalização e a sustentabilidade.

“A indústria têxtil vai continuar existindo, mas enfrentará novos desafios. A química vai continuar transformando matérias-primas, mas vamos ter que inventar coisas que melhorem o mundo em que vivemos”.

Texto: Marcia Mariano

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