Indústria Química: Condições são favoráveis, mas falta garantir matérias-primas para setor voltar a investir – Perspectivas 2018

Olhando o problema de forma mais abrangente, o dirigente setorial reclama a elaboração de uma política industrial efetiva. “Não temos uma política industrial e ela nos faz muita falta, porque não há nada que norteie os investimentos, sem ela, o país não sabe o que quer ser no futuro”, disse. “Não somos uma economia tão livre que possa dispensar uma orientação geral.” Ele salientou que até a desenvolvida França está elaborando uma política industrial e que a próspera Alemanha tem a sua.

De Marchi salientou que o governo anterior adotou uma política de incentivos pontuais, criando as chamadas campeãs nacionais, com resultados desastrosos. “Esse modelo de incentivos pontuais acaba por distorcer o funcionamento de toda a economia, não é interessante para o país”, criticou.

Gás como matéria-prima – A indústria química só poderá fazer novos planos de investimento quando puder contar com suprimento garantido de gás natural a preços adequados. Hoje, o gás natural é a matéria-prima preferencial do setor em escala global, por ser mais econômico e de fácil aproveitamento. “A indústria química tem condições de consumir até 4% do consumo total de gás no Brasil, sem contar os fertilizantes nitrogenados, mas hoje consome apenas 1,8%, os maiores consumidores são os geradores termelétricos”, explicou.

De Marchi comentou que as petroleiras mundiais já perceberam que o consumo global de combustíveis automobilísticos deve atingir um pico nos próximos dez anos, para depois iniciar um período de redução acentuada. “A indústria petroquímica é uma saída segura e rentável para consumir derivados de petróleo e gás, sem aumentar problemas ambientais”, afirmou.

A Petrobras, como apontou, está em uma fase ainda difícil e precisa acertar seu caixa, mas precisa dar uma atenção estratégica para a demanda química e petroquímica. “As perspectivas da Petrobras e da ANP apontam para o aumento da produção brasileira de óleo e gás, o uso como matéria-prima pode ser importante para rentabilizar esse excedente”, defendeu.

Nesse ponto, a presença no Enaiq do ministro de Minas e Energia Fernando Coelho Filho foi considerada como essencial por De Marchi. “O programa Gás para Crescer passou a incluir um subgrupo para discutir o uso do gás como matéria-prima industrial, foi um grande avanço”, disse. O ministro, no Enaiq, disse que o país está no momento adequado para discutir os rumos do consumo de gás, cuja produção vai crescer muito nos próximos anos. Mediante a Portaria do MME nº 9, de 10 de janeiro de 2018, foi criado um Grupo de Trabalho no ministério para analisar e sugerir ações necessárias para incentivar investimentos em infraestrutura, especialmente em refino de petróleo e petroquímica.

Como explicou De Marchi, o uso do gás como matéria-prima foi instituído pela Lei do Gás, de 2009, mas a matéria nunca foi implementada. “O Conselho Nacional de Política Energética, órgão encarregado de disciplinar o tema, nunca se reuniu para discutir isso”, criticou. “Talvez agora seja possível.”

Em discurso no Enaiq, o presidente Temer reafirmou sua intenção de promover mais reformas, a começar pela previdenciária e, em seguida, a tributária, esta mais voltada para redução de dificuldades burocráticas. “Faremos uma simplificação tributária para aliviar o peso burocrático sobre as atividades produtivas”, prometeu.

Recuperação possível – Pelas estimativas da Abiquim, a ocupação de capacidades químicas no Brasil no ano passado ficou próxima de 80%. “Podemos aumentar a produção em 20% sem maiores investimentos e rapidamente, com vantagens para todos”, ressaltou. A atual taxa de ocupação não permite pensar em novas instalações e também se reflete em rentabilidade abaixo da ideal para o setor.

Com larga experiência na indústria, De Marchi explica que a ocupação plena das plantas de operação contínua é vantajosa não apenas pela diluição dos custos fixos, mas também pelo aumento da eficiência operacional. “Os índices técnicos de operação melhoram significativamente quando se roda uma planta cheia, o aproveitamento da energia é muito melhor, por exemplo”, explicou.

A redução da oferta chinesa de produtos químicos deve ser observada com cautela, segundo De Marchi. “Eles também importam produtos químicos, mas se há redução da produção chinesa, eles reduzirão essas compras”, alertou. “O impacto desse movimento chinês não é homogêneo para toda a cadeia química, alguns sairão ganhando, outros perderão alguma coisa.” De qualquer forma, isso não constitui uma janela de oportunidade para investimentos no Brasil, que sofre deficiências estruturais. “Basta ver que o consumo aparente de químicos no país cresceu perto de 8% em 2017, mas a produção local só aumentou em 1%, aproximadamente, o resto foi atendido por importações”, explicou.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos mantém o ritmo de seus investimentos petroquímicos, alicerçados em gás natural barato. “Os projetos deles estão maturando, deve entrar mais produto no mercado, mas por ora não há mudanças importantes”, avaliou.

A evolução dos preços internacionais do petróleo merece acompanhamento cuidadoso. Para De Marchi, as cotações devem se dirigir para um novo ponto de equilíbrio, mas não terão força para ir muito além dos US$ 60 a US$ 70 por barril, a menos que ocorra uma catástrofe. Preços altos aumentariam a produção não convencional (shale e tight oil/gas) que forçaria os preços para baixo. O petróleo barato tem a vantagem de melhorar o desempenho do setor petroquímico, mas é prejudicial para o desenvolvimento de processos biotecnológicos. “O período do óleo e gás baratos realmente desestimulou esse tipo de investimento, mas esse campo é inovador e terá um grande futuro, principalmente no Brasil”, prevê. Além da concorrência com as rotas sintéticas tradicionais, a biotecnologia também enfrenta dificuldades no campo regulatório que precisam ser superadas.

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