Indústria 4.0 exige investir em máquinas e formar pessoal

Plástico Moderno, Indústria 4.0 exige investir em máquinas e formar pessoal

Nos países avançados, a indústria 4.0 é tema obrigatório entre as empresas ligadas ao setor do plástico. No Brasil, o assunto vem sendo bastante discutido entre as empresas de ponta. Falta muito, no entanto, para se disseminar de forma abrangente por todo o mercado com o destaque que merece. Vale lembrar que o país possui em torno de 12 mil transformadores, sendo a grande maioria de pequeno porte.

Quem ainda não prestou atenção na revolução em curso precisa ficar atento enquanto o fenômeno é incipiente em todo o mundo. O descaso representa forte risco. A economia se encontra com elevado grau de globalização e a perda de competitividade por falta de investimentos em tecnologia pode causar o fechamento de muitas empresas. A advertência vale também para os responsáveis pela educação no país. É preciso formar profissionais com mentalidade adequada à nova realidade.

A indústria 4.0 pode ser definida como o uso das informações recolhidas pelos controles de todas as máquinas ligadas às linhas de fabricação de um produto para o contínuo aprimoramento do processo. Tais informações são trocadas, transmitidas via internet das coisas. O processo envolve a estrutura de equipamentos presentes no transformador (informações chamadas de verticais) e também nas dos fornecedores do transformador e empresas destinatárias dos produtos, passando pelos responsáveis pela logística de distribuição (informações horizontais). O aprimoramento do processo utilizado nas linhas de produção ocorre por meio, entre outros recursos, do uso de inteligência artificial.

O nome indústria 4.0 foi dado por esta evolução representar, de acordo com especialistas, a quarta “revolução” industrial. A primeira ocorreu a partir de 1712, com o surgimento das máquinas a vapor. A segunda em 1879, com o surgimento dos motores elétricos. A terceira em 1969, com o início da automatização de várias operações. Ela é considerada fenômeno sem volta, assim como ocorreu com os acontecimentos que resultaram nas “revoluções” anteriores.

Plástico Moderno, Roriz Coelho: empresário local ignora benefícios do conceito
Roriz Coelho: empresário local ignora benefícios do conceito

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) avalia a situação das transformadoras nacionais. Para ele, o setor é bastante heterogêneo. “Existem líderes em seus segmentos engajadas e atentas às novas tecnologias e como elas podem ser utilizadas para melhorar a produtividade e o posicionamento do mercado”. No outro extremo, a realidade é outra. “Temos muitas empresas em ‘postura de sobrevivência’, que gerenciam questões relativas a endividamento, dificuldade de acesso a capital, baixo investimento e ambiente de mercado ainda estagnado”.

Para Roriz Coelho, a realidade brasileira ainda está bem distante da enfrentada pela indústria de países como EUA, Alemanha e China. Para justificar, cita pesquisa feita pela consultoria Delloite. O estudo conclui que as percepções do empresário brasileiro sobre as oportunidades da indústria 4.0 e os impactos em seus negócios diferem das dos executivos do resto do mundo. “No Brasil ainda existe desconhecimento das oportunidades que as novas tecnologias podem proporcionar. Além disso, em âmbito institucional e governamental seria necessário ter um plano estratégico de desenvolvimento da indústria”.

O dirigente cita alguns números para explicar o que vem sendo feito no exterior. “Nos EUA, está previsto investimento da ordem de US$ 1,7 bilhão na industrialização com os conceitos de manufatura avançada e há em curso reformas tributárias para reduzir impostos e melhorar o ambiente de negócios. A Alemanha, país de origem do conceito indústria 4.0, prevê investir 200 milhões de euros e se consolidar como líder mundial no fornecimento de equipamentos. A China prevê aportes de mais de US$ 3 bilhões para migrar sua indústria para produção de bens de alta tecnologia e maior valor adicionado”.

Benefícios – Reduzir custos e obter maior produtividade, ter possibilidade de agregar valor a produtos e serviços, reduzir o tempo entre pesquisa e colocação de inovações no mercado, proporcionar maior integração entre a cadeia produtiva e identificação de oportunidades e desenvolvimento de novos modelos de negócios, permitir customização dos produtos de forma ágil, em especial com o uso de manufatura aditiva. Para Roriz Coelho, esses são os principais benefícios proporcionados pela indústria 4.0.

Plástico Moderno, Cardenal: automação reduz perdas e acelera inovações
Cardenal: automação reduz perdas e acelera inovações

Marcos Cardenal, engenheiro de vendas da Wittmann Battenfeld, fornecedora de injetoras e equipamentos para automação para plantas de plástico, cita alguns exemplos, tirados do dia a dia vivido pelas empresas de transformação, para dar ideia das vantagens obtidas com o auxílio da tecnologia. A redução significativa do tempo necessário para pesquisa e desenvolvimento de uma nova peça traz grande vantagem. Ela permite fazer simulações da peça projetada com um grade de resina desenvolvido de forma digital, de forma a determinar com precisão se seu desempenho atenderá as expectativas do projeto. Também permite simular o funcionamento do molde a ser utilizado para fabricar tal peça.

Na linha de produção a auto-supervisão proporcionada pela tecnologia 4.0 ocasiona inúmeros benefícios, reduzindo o número de refugos a algo próximo de zero. A regulagem dos equipamentos se torna muito mais fácil a partir de correções automáticas feitas pelos controles programáveis, capazes de corrigir parâmetros como temperatura e pressão de maneira precisa em cada situação. Sistemas de diagnóstico permitem ações preventivas ou corretivas muito mais ágeis durante as operações de manutenção.

No caso de uma fábrica que necessita produzir um número de peças que vá consumir determinada quantidade de matéria-prima, o equipamento pode constatar se o estoque existente na fábrica é o necessário. “Caso não seja, computadores do transformador e da fornecedora de matéria-prima se comunicam e a compra da quantidade que falta para a realização da operação se dá de maneira automática”, explica.

Outra situação comum no chão da fábrica. O fabricante de um tipo de poliamida aconselha que operação de desumidificação da matéria-prima antes do uso deve ser feita durante o período de quatro horas. Em uma fábrica estruturada, o próprio equipamento diagnostica o tempo necessário para deixar a matéria-prima presente no estoque nas condições ideais de uso. Conforme as condições em que foi armazenada, por exemplo, a poliamida pode ficar pronta após três horas. “Além de várias outras possibilidades que permitem ganho de tempo, uso mais racional dos equipamentos e economia de matéria-prima e energia elétrica”, informa.

Cardenal chama a atenção para o avanço que vem ocorrendo na “inteligência” presente nos comandos das máquinas. Para exemplificar aponta o controle B8, lançado recentemente e que equipa as máquinas injetoras da Wittmann Battenfeld. “Além de contarem com elevada capacidade de gerenciamento de dados, eles funcionam com tecnologia wi-fi, que dispensa o uso de fios”.

Passo a passo – Ao tomar contato com os parâmetros de funcionamento da indústria 4.0, empresários menos avisados podem levar um choque. Muitos acham impossível implantar tal tecnologia, acreditam ser necessários investimentos de grande vulto para suas empresas chegarem ao estado da arte do funcionamento. A impressão é um tanto exagerada. Por um lado, os preços dos equipamentos periféricos, como os robôs, por exemplo, e de outros componentes, caso dos sensores, ficaram mais acessíveis. Por outro, tal implantação pode ser feita por etapas. De quebra, existem incentivos fiscais importantes para as empresas interessadas em investir em inovação.

Plástico Moderno, Santos: conceito 4.0 pode ser implantado por etapas
Santos: conceito 4.0 pode ser implantado por etapas

“O primeiro passo, talvez o mais importante, demanda poucos recursos. É preciso entender qual o posicionamento da empresa no novo ambiente, estudar o planejamento estratégico da operação”, resume Paulo Roberto dos Santos, sócio-diretor da Zorfatec, consultoria de inovação criada em 2011 e que tem a indústria 4.0 como um dos principais focos de atuação. Santos conta com 28 anos de experiência, dos quais passou um quarto de século como profissional da Festo, onde atuou como responsável pela pesquisa e desenvolvimento e estratégia de produtos para a região América. “Só com a definição de um planejamento estratégico de qualidade, feita com investimentos modestos, as empresas já começam obter retorno favorável em período próximo de seis meses”, informa.

Os passos seguintes recomendados pela Zorfatec vão inserindo os clientes na nova realidade de maneira gradativa, de acordo com o fôlego financeiro da corporação. O segundo passo é projetar quais os processos são necessários para se atingir os objetivos. A etapa é necessária para se chegar a posterior integração de dados (horizontais e verticais), feita por softwares de gestão. Em seguida, a preparação prossegue com a preparação dos controles das máquinas para o processo. Ao final, o corre a digitalização completa da operação.

O fato de a tecnologia ser incipiente ajuda quem quiser adotá-la. “Tudo ainda é muito novo. Na Alemanha, onde foram realizadas as primeiras experiências da indústria 4.0, estima-se que as pioneiras vão ficar aptas para atuar totalmente dentro do conceito somente daqui a uns dez anos”, ressalta o consultor. Muito importante durante o processo é contar com mão de obra qualificada. Esse é um problema no Brasil, onde as empresas de pequeno e médio porte não têm, na maioria das vezes, o hábito de investir em pesquisa e desenvolvimento.

Termômetro – As empresas fornecedoras de equipamentos periféricos voltados para operações como alimentação de máquinas e transporte de materiais, secagem e desumidificação, dosagem e outras operações realizadas dentro das fábricas são excelentes termômetros para medir o grau de interesse das empresas nacionais em relação à indústria 4.0. Um bom grau de automação das plantas industriais, embora não suficiente, é necessário para a obtenção de bons resultados com tal tecnologia.

A Piovan, marca com sete fábricas espalhadas pelo mundo, entre elas uma no Brasil, é uma dessas empresas. “O conceito 4.0 na transformação de plásticos no Brasil está sendo digerido pelo mercado, com nível ainda tímido de aplicações em funcionamento. É natural que estejamos andando em velocidade menor que a Alemanha, por exemplo”, informa Ricardo Prado, vice-presidente da Piovan do Brasil.

Prado ressalta, no entanto, que conta por aqui com vários clientes que estão em fase de implementação da tecnologia em determinadas linhas de produção ou até na planta inteira. “É uma ferramenta fabulosa para melhorar os processos. Conforme os bons resultados destes pioneiros forem aparecendo, seguramente outros seguirão o mesmo caminho”, avalia. Para ele, se trata de trajetória sem volta. “É um processo de mudança cultural pelo qual todos vão passar, a evolução natural possível com a tecnologia hoje disponível”.

De acordo com o vice-presidente, os equipamentos com a marca Piovan possuem diversos sistemas de informação adequados ao uso da tecnologia. Ele destaca o Ryng, medidor gravimétrico de consumo de matéria-prima instantâneo para máquinas transformadoras. “Qualquer implementação 4.0 passa por saber exatamente quanto estamos consumindo de material em qual maquina e quando. O medidor se tornou item obrigatório a qualquer empresa que queira controle de seu processo dentro do conceito”.

Alexandre Brasolin Nalini, diretor comercial do escritório nacional da italiana Moretto, tem opinião bastante similar. Ele informa que vários clientes estão aderindo ao conceito 4.0 e cita o nome de empresas como Lorenzetti, General Motors, Emicol e Jeep, entre outras. “A adesão depende bastante da mentalidade do administrador da empresa. As geridas pelos filhos ou por pessoas mais jovens se importam muito, as dirigidas por donos mais antigos relutam um pouco mais em adotar a tecnologia”, avalia.

Todos os equipamentos fornecidos pela empresa – alimentadores, transportadores, secadores, etc – estão aptos a serem interligados de modo a trocar informações. O produto diferencial oferecido pela empresa voltado para a indústria 4.0 é o sistema de supervisão Mowis, projetado para garantir gestão integrada e total rastreabilidade dos processos, controle remoto dos sistemas em tempo real, controle multiutilizador, além de outras tarefas. “Ele permite fácil personalização de acordo com as necessidades do cliente”.

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