Gestão de resíduos proporciona benefícios para transformação

Plástico Moderno - Gestão de resíduos proporciona benefícios para transformação - Economia circular ©QD Foto: iStockPhoto
Embalagens defeituosas são reprocessadas na fábrica

Economia circular – Gestão de resíduos proporciona benefícios para transformação

Ao menos com as atuais tecnologias, em nenhuma atividade produtiva é possível zerar as perdas de matérias-primas que, na forma de aparas, rejeitos e borras, podem assumir proporções significativas nos processos de transformação de plásticos. Atendendo aos preceitos e aos benefícios da Economia Circular – não apenas ambientais, mas também financeiros –, transformadores trabalham cada dia mais cuidadosamente para reduzir essas perdas.

A Silgan, por exemplo, reaproveita quase integralmente rejeitos, aparas e borras resultantes das muitas toneladas de resinas que mensalmente processa em sua unidade de Mogi das Cruzes-SP, onde entre outros itens produz tubos laminados para artigos de cuidados pessoais e tampas para perfumes e cosméticos (no Brasil, a empresa de origem norte-americana mantém fábricas também em Valinhos-SP e Jundiaí-SP, nas quais produz dispensadores, tampas e embalagens para cosméticos).

Em Mogi das Cruzes, a Silgan tem injetoras que utilizam resinas como PEAD, PP, ABS e Surlyn para produzir as tampas e os chamados “ombros” dos tubos. A maior parte dos rejeitos e aparas gerada nesses equipamentos é reintroduzida no processo, de forma automatizada: em uma linha de produção de tampas, por exemplo, um braço do robô colocado na saída das máquinas retira as tampas prontas, enquanto outro braço conduz o material do canal de injeção (“galho”) a um moinho. Após a moagem e separação de pó, essa resina é reintroduzida no processo com o auxílio de dosadores automáticos.

Pequenas quantidades dessas potenciais perdas inevitavelmente escapam do processo produtivo normal, e seguem dois caminhos. Uma parte é novamente extrudada e depois reintroduzida no processo. Realizada internamente, essa nova extrusão, explica Richard Dantas, diretor da planta de Mogi das Cruzes da Silgan, é necessária porque esse material geralmente contém algum insumo decorativo, como vernizes e fitas de decoração, que deve ser retirado e talvez seja necessário aplicar nova dose de aditivos.

Por sua vez, o plástico pintado, ou proveniente de borra e portanto queimado e degradado, é retirado por uma empresa credenciada que o utiliza em aplicações como baldes e caixas, entre outras. “Toda a nossa matéria-prima é reaproveitada; a maior parte, internamente, e um percentual pequeno pela empresa credenciada por nós, que irá reaproveitá-lo”, ressalta Dantas.

Na fabricante de embalagens flexíveis Valpri, um trabalho de melhoria dos processos que tem a redução de perdas entre seus objetivos principiou pela contratação de duas consultorias: uma delas, do Sebrae, focada em gestão, e outra do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), mais voltada à adequação às propostas do conceito Indústria 4.0. Entre outros itens, esse trabalho incluiu a instalação de sensores nas linhas de corte e solda e de impressão. E vem gerando resultados bem palpáveis: “Antes, podíamos perder até 7% de nossa matéria-prima; agora, a média está em 2%”, relata Ivo Yoshida, diretor administrativo da Valpri. “Reduzir perdas é importante em vários aspectos: financeiros, de eficiência, pelas exigências ambientais e sociais”, enfatiza.

A redução de perdas, ressalta Yoshida, exige a geração de informações e o intercâmbio dessas informações entre as várias áreas da empresa. “Uma impressão feita com um pouco mais de tensão, por exemplo, pode ampliar a produtividade da linha de corte e solda. E a área de corte e solda precisa informar isso para a impressão”, exemplifica o profissional da Valpri, empresa sediada em Campinas-SP que processa mensalmente cerca de 70 toneladas de resinas, principalmente polipropileno, mas também um pouco de PEBD, e com elas fabrica embalagens para autopeças, brinquedos, alimentos, produtos de higiene e limpeza, entre outros itens.

Plástico Moderno - Gestão de resíduos proporciona benefícios para transformação - Economia circular ©QD Foto: iStockPhotoGestão ampla – O conceito de aparas deve ir além da simples sobra de matéria-prima no processo fabril, como observa Anderson Maia, coordenador de relacionamento com a indústria e marketing da Escola Senai Mário Amato. “Quando se pensa em perdas, todas as etapas do processo devem ser consideradas, começando pela escolha e armazenamento do material e chegando até a entrega”, explica.

Assim, recomenda Maia, um programa de redução de perdas deve abranger não apenas as diversas etapas do processo produtivo, mas todas as áreas da empresa. “Muitas vezes a equipe de vendas da empresa realiza um negócio, mas a área de compras adquire materiais que não são os mais adequados para o produto solicitado. Isso acarretará devoluções que se transformarão em aparas, que na melhor das hipóteses serão moídas e reaproveitadas nos processos”, ele justifica. “Nem sempre esse reaproveitamento é possível: resinas especiais, caso do PVDC e do EVOH, têm reaproveitamento complexo e, às vezes, inviável. É difícil até vender esse material, pois sua reciclagem também é diferenciada”, acrescenta.

“Muito eficiente na minimização de resíduos”, a metodologia de gestão Lean Six Sigma, afirma Maia, pode contribuir para a redução das perdas, que pode ser alavancada também pela digitalização dos processos. Mas a tecnologia, embora aliada valiosa, não é o único requisito: “Sensores geram mais informações, mas é preciso reagir a essas informações e isso depende de atitude humana, de profissionais qualificados”, pondera o profissional do Senai.

Entre as medidas que também ajudam a reduzir perdas ele lista ainda uma programação de produção que comece com os produtos mais simples e siga em direção aos mais complexos – por exemplo, das cores mais claras para as mais escuras –, pois isso ajuda na redução dos setups. “A maioria dos polímeros de engenharia requer grânulos com nível de umidade inferior a determinado padrão de referência; periféricos como secadores e desumidificadores são de extrema importância para manter bom nível de processabilidade do material”, diz Maia. “O maior controle de peso e volume com o uso de dosadores gravimétricos e volumétricos ainda é um desafio tecnológico para muitas empresas”, acrescenta.

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Plástico Moderno - Gestão de resíduos proporciona benefícios para transformação - Economia circular ©QD Foto: iStockPhoto
Mari: perdas são evitadas com parametrização dos processos

Bons moldes também são fundamentais para reduzir perdas nos processos de injeção, lembra Mari Katayama, coordenadora de programas do IPT. “O molde precisa ser bem desenhado, para que todas as suas cavidades sejam devidamente preenchidas”, ressalta. “Também é necessário trabalhar corretamente a limpeza na mudança de cores, por exemplo, para evitar contaminações que geram perdas.”

De acordo com Mari, um grande gerador de perda de matéria-prima, especialmente nos transformadores de menor porte, é a falta de conhecimentos sobre a correta parametrização do processo produtivo. “Ele deve ser corretamente parametrizado em quesitos como temperatura e velocidade”, explica. “Sensores permitem identificar e corrigir rapidamente alterações nesses parâmetros, mas em muitas empresas problemas e paradas de máquinas são anotadas em pranchetas e só muito mais tarde essas informações chegam a quem deve recebê-las”, destaca Mari.

Minimizando as paradas por quebras de máquinas, um bom programa de manutenção também contribui para reduzir perdas, observa Dantas, da Silgan. Pode ser também importante o uso de sistemas de câmaras quentes, presentes na maioria das máquinas da Silgan. Mas esse recurso, lembra Dantas, exige um investimento significativo, que deve ser analisado caso a caso. “Temos uma injetora que produz ombros em moldes com 64 cavidades: ela tem câmara quente, sem a qual o canal seria até maior que a própria peça. Mas, para algumas aplicações específicas, temos outra máquina que produz ombros em moldes com oito cavidades e ela não tem câmara quente”, descreve.

A Valpri, ressalta Yoshida, não reaproveita aparas e rejeitos em seus próprios processos, trabalhando apenas com resinas virgens. Como ainda é impossível eliminar totalmente esses resíduos, busca valorizar a matéria-prima – cerca de 2% do total – que de algum modo ainda escapa de seu processo produtivo. Para as aparas de PE, por exemplo, estabeleceu uma parceria com a empresa WX8 que com elas produz embalagens para e-commerce. “Começamos a comercializar essas embalagens há cerca de um ano e meio”, ele diz. “Já as aparas e rejeitos de PP, nós os revendemos para quem trabalha com injeção, já transformadas em grãos e aditivadas de acordo com as necessidades de cada aplicação”, finaliza Yoshida.

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