Filmes: Setor se esforça para assegurar o desenvolvimento de embalagens com propriedades diferenciadas

 

Química e Derivados, Filmes multicamadas da Maquiplast garantem alta elasticidade e um leque extenso de aplicações
Filmes multicamadas da Maquiplast garantem alta elasticidade e um leque extenso de aplicações

Os filmes coextrudados estão cada vez mais presentes na indústria nacional. Há muito tempo, o avanço deste segmento vem derrapando; ora é o investimento, considerado alto demais, ora é a instabilidade econômica, que acabava engavetando os projetos. Mas toda a cadeia produtiva se mobilizou para plasmar um novo enredo. Os fabricantes de máquinas – nacionais e estrangeiros – incorporaram novas tecnologias aos seus desenvolvimentos; as resinas foram aprimoradas e os transformadores abriram o leque de aplicações dos filmes plásticos.

Química e Derivados, Angels: grandes convertedores possuem máquinas para 9 camadas
Angels: grandes convertedores possuem máquinas para 9 camadas

O mercado, de forma geral, rendeu-se à necessidade de ofertar maior eficiência e ampla combinação de materiais em estruturas multicamadas, assegurando, assim, embalagens com propriedades diferenciadas. Por isso, a produção de filmes monocamadas vem, ao longo dos anos, perdendo força perante a crescente demanda por mais desempenho e competitividade. Segundo Angels Domenech, da área de alimentos e embalagens de especialidades da Dow para a América Latina, grandes convertedores já possuem em seu parque industrial coextrusoras de até nove camadas, e operam com processos refinados como o estiramento de filmes.

Na opinião de José Boaventura, gerente de marketing da divisão de polímeros para embalagem e produtos de consumo da DuPont Brasil, o fato é que o mercado vem exigindo o desenvolvimento de embalagens com maior desempenho na proteção e na promoção dos produtos. “A conveniência, a abertura fácil e a maior segurança alimentar deverão impulsionar os negócios de polímeros especiais da DuPont por um longo período de tempo”, prevê.

As perspectivas são positivas também entre os transformadores. “Existirá, com certeza, um aumento expressivo nas vendas deste perfil de embalagens (coextrudadas)”, vislumbra Fellippe Brugin, responsável pela assistência técnica da Videplast, indústria de embalagem plástica flexível que abastece o mercado com filmes de três a nove camadas. Na Maquiplast, esse avanço é mais emblemático. Especialista na produção de filmes com barreira desde 1992, a empresa observa a ampliação do setor em relação à tecnologia dos materiais e às aplicações. “Alguns segmentos que não usavam barreira passaram a adotá-la, como é o caso do pescado congelado”, exemplifica Paulo Blanco, gerente comercial da Maquiplast.

Química e Derivados, Boaventura destaca como inovação embalagem para carne fresca e processada
Boaventura destaca como inovação embalagem para carne fresca e processada

São vários os exemplos. Um deles, por sinal, é notório: a substituição das embalagens rígidas pelas flexíveis stand-up pouches (SUP). A procura pelo filme multicamada Apex, marca do nylon-poli da Maquiplast, aumentou consideravelmente por conta, sobretudo, da adesão às embalagens pouches de setores como o de domissanitários e o de defensivos agrícolas. Aliás, nesta última categoria de produtos, a empresa vislumbra uma demanda ainda reprimida, porém na iminência de se efetivar. “Estamos tentando introduzir o conceito no país, mas é um processo longo por causa da legislação”, comenta Blanco. Para ele, a indústria de defensivos agrícolas teria muito a ganhar. Entre as vantagens da embalagem flexível multicamada, estão o uso de menos material (em relação ao rígido) e as facilidades para enfardar o produto após o seu consumo, o que beneficiaria a implantação da Logística Reversa.

Este não é um caso isolado. A DuPont tem vários projetos em desenvolvimento para a embalagem SUP, até mesmo em áreas nas quais a companhia já se consolidou com as embalagens rígidas, como na indústria de cosméticos. Segundo Boaventura, este segmento também tem demandado soluções inovadoras em embalagens flexíveis multicamadas.

A DuPont Packaging & Industrial Polymers, por sinal, oferece uma extensa variedade de adesivos, barreiras e resinas selantes para estruturas multicamadas. Destaque especial para o DuPont Bynel, um adesivo de coextrusão que promove adesão a diferentes tipos de polímeros, tanto em embalagens rígidas quanto nas flexíveis; e para a resina de barreira a gases DuPont Selar, desenvolvida para conferir mais segurança, frescor e extensão da vida útil do produto. Boaventura também ressalta as qualidades da DuPont Nucrel, uma resina utilizada como selante de estruturas laminadas e coextrudadas que resiste à falha da delaminação, mesmo em ambientes ácidos; e o DuPont Surlyn, um ionômero de copolímero de etileno que promove a resistência à perfuração, adesão proteica e soldabilidade das embalagens flexíveis, mesmo em situações de elevada contaminação na solda. 

Química e Derivados, Carnevalli: procura por estrutura coextrudada de cinco camadas aumentou
Carnevalli: procura por estrutura coextrudada de cinco camadas aumentou

Abertura do setor – Com o aval de quem foi responsável pela fabricação da primeira coextrusora brasileira de sete camadas, em 2004, a Carnevalli antevê boas vendas para o mercado de filmes multicamadas. De acordo com Wilson M. Carnevalli Filho, diretor comercial da empresa, a procura por estruturas coextrudadas de cinco ou mais camadas aumentou, de tal modo que hoje ele recebe consultas para a compra de modelos de nove camadas.

A transformação, seja no ramo alimentício – seu principal consumidor – ou não, enveredou-se para a produção de embalagens com barreira. Parece ser definitivo. “Busca-se a diferenciação, e agregar valor aos produtos”, diz Carnevalli. Para ele, o investimento não é mais considerado um empecilho, como no passado, sobretudo porque os juros são acessíveis, o que favorece o consumo deste tipo de tecnologia. As previsões apontam para um consumo maior, o que estimula o fabricante a lançar em breve versões mais modernas das máquinas para cinco e sete camadas.

O setor está em evolução. Mas, se comparada com os mercados dos países mais desenvolvidos, a participação dos filmes coextrudados nas embalagens plásticas flexíveis brasileiras é baixa. Em economias desenvolvidas, são escassas as vendas de filmes monocamadas, o contrário da realidade nacional. Estima-se que 35% da produção brasileira adote a tecnologia da coextrusão, enquanto na Europa a média é de no mínimo 80%.

“O mercado de monocamadas tende a acabar”, prevê Willi Müller, diretor para a América Latina da Windmöller & Hölscher. Esta estimativa, mais do que um prognóstico para a indústria nacional, revela um campo fértil para a fabricante alemã emplacar seus modelos por aqui. Especialista em soluções técnicas (tem condições de produzir máquinas para filmes de até trinta camadas – nanocamadas), a companhia está ávida por expandir a indústria da coextrusão no país.

Após sofrer um processo de reestruturação, que passou pelo fechamento da sua fábrica em Diadema-SP, em 2009, e pela vinda de Müller da matriz para comandar o escritório aberto em São Paulo, a companhia recobrou o fôlego para apoiar o crescimento do setor. A Windmöller & Hölscher diversificou seu portfólio, antes mais voltado para o mercado de ráfia, e decidiu intensificar o foco nos setores de impressão e extrusão. “Nós adequamos nossas máquinas aos mercados da América Latina e da Ásia”, comenta Müller. Hoje, essas áreas de impressão e extrusão representam 60% do negócio no Brasil.

A rota está traçada. Se depender das expectativas do diretor, em pouco tempo, o país se renderá a essa tecnologia, até porque, segundo ele, trata-se de uma questão de economia. Os filmes monocamadas exigem a incorporação de muitos aditivos para garantir as propriedades que os de três camadas contemplam facilmente, com menor custo. “O investimento para essa migração é pequeno”, anuncia Müller. Aliás, o dinheiro empregado na coextrusão sempre foi considerado um obstáculo para o avanço dessa tecnologia no país. Estudos da fabricante alemã revelam que o custo mais alto na produção de um filme é o da resina. “A matéria-prima responde por 80%”, diz o diretor. Segundo ele, para ser mais competitivo, um caminho seria reduzir o uso das resinas e dos aditivos mais caros. Em outras palavras, investir em coextrusão. “O mercado brasileiro está crescendo de maneira lenta e gradual, mas hoje já se pensa em melhorar a performance dentro das empresas”, complementa o gerente comercial da Windmöller & Hölscher, Roman Foerster.

O Brasil, à sua maneira, galga seu lugar no mercado mundial. A sofisticação das estruturas coex no país serviu de berço para a Dow desenvolver o filme Diamanto. Esta tecnologia recente combina novos materiais e condições específicas de extrusão, o que garante filmes de PE com alta rigidez e transparência elevada. “Ela nasceu no Brasil e agora está sendo expandida para diferentes países na América Latina, atingindo mercados de massas secas, sachês, torção, e doces, entre outros”, comenta Angels.

A especialista atribui o aumento dos investimentos em filmes multicamadas, em parte, ao fato de que para certas aplicações do setor de embalagem não é mais possível atuar com estruturas monocamadas, como no empacotamento automático. “Esta tecnologia exige cada vez mais que se tenha uma performance elevada do ponto de vista da selagem e das propriedades mecânicas; e tal balanço só é alcançado em estruturas multicamadas”, explica.

Coincidência ou não, a Dow vislumbra o aquecimento da demanda das resinas metalocênicas das famílias Elite e Affinity, para laminados de alto desempenho. Isso porque a empresa tem observado a migração de estruturas monocamadas para as de três camadas com resinas metalocênicas. Em outras palavras, isso revela que entre as tendências do mercado está o crescimento das vendas de máquinas de empacotamento automático.

A combinação de novos materiais, como o PET em filmes multicamadas, também é uma tendência identificada pela Dow. Para abarcar este segmento, a empresa possui adesivos da linha Amplify para adesão de PET a PE e de PET a PA/EVOH. O seu portfólio, por sinal, abarca toda a gama dos polietilenos. “Inclui PE de ultrabaixa densidade, adesivos de coextrusão, e resinas barreira, para abertura fácil e para adesão com alumínio, além daquelas resinas que cumprem com os mais exigentes requisitos de selagem”, explica Angels. Em tempo, a linha Saran (PVDC), uma das mais tradicionais e conhecidas da Dow, destaca-se porque garante barreira ao oxigênio e à umidade, para acondicionamento de medicamentos, carnes frescas, queijos e produtos químicos, entre outros.
 

Química e Derivados, Maquiplast divulga desenvolvimento para leite UHT
Maquiplast divulga desenvolvimento para leite UHT

Novidades – A indústria nacional de filmes está em constante movimento. Há algum tempo, o mercado se esmera para oferecer filmes de espessuras cada vez mais finas. No entanto, em alguns casos, essa otimização está alcançando o seu limite, e, caso continue nessa toada, corre-se o risco de se negligenciar a qualidade. Pensando nisso, a Dow desenvolveu a tecnologia microfoaming. Segundo Angels, trata-se de uma nova alternativa para reduzir o uso de material, produzindo filmes mais leves, mas sem reduzir a sua espessura.

Neste caso, a espumação é feita na camada central de um filme coextrudado e pode ser por meios químicos ou físicos, atingindo entre 15% e 25% de redução de peso, com mínimo impacto nas propriedades do filme, segundo Angels. A espumação física é implementada pela Dow, que detém a patente requerida para filmes microespumados em parceria com a MuCell.

Outra amostra de inovação vem da DuPont. A empresa está envolvida no desenvolvimento de uma embalagem termoencolhível com alta barreira. Produzida pela Deltaplam, a embalagem é coextrudada em nove camadas (entre elas, as resinas Surlyn e Bynel), e comercializada na forma de sacos ou bobinas de filme. “Trata-se de uma grande inovação no segmento de filmes plásticos para embalagens de carnes frescas ou processadas e de queijos”, destaca Boaventura. A proposta do produto é criar barreira eficiente contra a penetração de oxigênio, aumentando a vida útil da peça embalada. Além disso, torna possível melhorar a aparência da embalagem, com mais brilho e transparência. “Ela contribui para reduzir a pegada ambiental dos clientes, por ser um produto reciclável e livre de cloro, demanda menos energia na produção e ainda reduz perdas ao longo da cadeia de valor”, diz Boaventura.

Química e Derivados, Conrado (esq.) e Paulo divulgam desenvolvimento para leite UHT
Conrado (esq.) e Paulo divulgam desenvolvimento para leite UHT

Novas aplicações também são anunciadas pela Maquiplast. Trata-se do desenvolvimento de embalagens coex para leite UHT – Ultra High Temperature, ou seja, temperatura ultra-alta. Segundo Conrado Blanco, diretor comercial da empresa, a novidade traz vantagens sobre o processo UHT convencional, que é envasado em ambiente estéril. A tecnologia desenvolvida pela Maquiplast está na embalagem, e dispensa a necessidade de esterilizar o produto durante o processo de envase. “A embalagem resiste a condições extremamente rígidas da autoclave”, comenta.

Na opinião dele, a ideia é oferecer às empresas de pequeno porte a oportunidade de atuar com o UHT. O investimento é baixo. Em fase piloto, o filme está sendo aplicado na produção de embalagens de 200 ml destinadas à merenda escolar. “A proposta tem um resultado social interessante. Neste primeiro momento, destina-se a um mercado regional”, diz o diretor. O filme tem cinco camadas, além da laminação, e assegura shelf life de 90 dias.

Esta criação resulta, em alguma medida, dos investimentos feitos pela fabricante, que, desde 2010, vem aprimorando sua produção. “Elevamos a qualidade da impressão e da extrusão dos filmes”, afirma o diretor. A capacidade produtiva também cresceu, hoje na marca de 200 toneladas/mês (antes girava em torno de 140 t a 150 t/mês). “Acabamos de colocar em operação uma coextrusora para filmes de cinco camadas. Hoje nenhum produto nos assusta. Depois das melhorias na fábrica, sobretudo nos processos de impressão, podemos fazer qualquer coisa”, ressalta Blanco.

A fabricante também tem investido em embalagens com formatos diferenciados e oferece uma linha extensa de filmes especiais. O destaque fica por conta do filme Apex (PEBD, adesivo, PA, adesivo e PEBD). Com alta elasticidade, o produto é indicado para embalar salsichas, bacon, pizzas etc., além de servir de fundo para termoformagem. 

Mais e melhor – As benesses oferecidas pela tecnologia multicamada não se restringem aos novos desenvolvimentos. Por definição, ela já garante vantagens, pois otimiza a estrutura e as necessidades superficiais do filme, ao mesmo tempo em que possibilita a redução dos custos com matérias-primas e permite uma gama mais ampla de aplicações dos filmes plásticos. 

As estruturas multicamadas permitem o uso racional de resinas de alto desempenho e favorecem o desenho de filmes para embalagem com propriedades únicas, mesmo que seja feito somente de um material, como as soluções de filmes 100% PE para embalagens stand up pouches (SUP) ou os termoformados flexíveis.

A tecnologia por si só é complexa. Investir na coextrusão significa muito mais do que aumentar a produção, simplesmente. Aliás, não dá para dizer que a produtividade de uma coextrusora é superior à de uma extrusora. São muitas as variáveis envolvidas. Uma coextrusora de matriz 400 mm tem a mesma produção de uma extrusora 100 mm com a mesma matriz.

“A maior produção depende de alguns periféricos”, comenta Carnevalli. Obviamente que uma coex tem capacidade produtiva maior. Segundo ele, um conjunto com três extrusoras de 65 mm pode produzir 660 kg/h; e uma extrusora de 65 mm, 220 kg. “O que determina, nesse caso, é o tamanho da matriz (diâmetro do cabeçote)”, explica. Em linhas gerais, pode-se considerar que o tamanho da matriz se assemelha à produção. A matriz é responsável pela largura do filme e é o espaço por onde passa o material. Uma matriz de diâmetro 400 mm pode produzir entre 350 kg/h e 450 kg/h.

Perfil nacional – A estrutura usual no país dos filmes coex é a de três camadas. Quanto ao material mais utilizado, de forma geral, o setor credita ao polietileno o maior consumo. “O PE continuará sendo o produto mais acessível em termos de custos, assim como possibilita uma enorme gama de aplicações”, afirma Brugin, da Videplast. Hoje, para embalagens com barreira, a estrutura mais comum é composta por uma camada externa, que permite a impressão e garante proteção; uma camada no meio, que funciona como barreira a gás (PVDC, EVOH, PET/PEN etc.); e uma camada interna, como PE ou PVA, para garantir uma selagem hermética. Vale ressaltar, porém, que estruturas multicamadas podem também ser usadas com várias resinas de um mesmo material como, por exemplo, o polietileno.

Na opinião de Boaventura, os polímeros especiais, tais como os polietilenos-metalocênicos, os copolímeros de etileno (EVA, EMA, EAA) e os ionômeros, devem apresentar taxa de crescimento superior à dos polímeros mais comuns. “Essa tendência é notada, principalmente, em embalagens flexíveis que exigem maior barreira a gases, “hermeticidade” e velocidade de selagem, mesmo na presença de contaminantes como pós, óleos e produtos ácidos”, explica. No entanto, ele ressalta que os polietilenos convencionais, assim como os filmes de polipropileno (CPP, BOPP) e de PET, continuarão a ser a base para a produção de filmes mono e multicamada.

A indústria de alimentos possui uma grande variedade de aplicações e requisitos de embalagem. Até por este motivo, ela ainda lidera o consumo da tecnologia de coextrusão no país. Mas, conforme observam alguns profissionais da área, as indústrias de produtos para animais, higiene pessoal e limpeza, químicos e farmacêuticos também endossam as vendas cada vez mais. Um caso curioso é o de pet foods, segmento que vem avançando. No caso específico de comida para gatos, migrou dos filmes de três camadas para os de cinco. O animal é exigente quanto aos odores.

Para a indústria alimentícia, sobretudo, é um imperativo investir na coextrusão. “Cada vez mais é necessário o uso de filmes especiais, por causa do tipo de aplicação”, comenta Müller. Um exemplo típico é o segmento de cárneos. No passado, a carne era comercializada fresca, hoje, precisa garantir shelf lifes cada vez maiores. Novos tempos, novas exigências.

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