Ferramentaria moderna: Setor aposta em melhores resultados no próximo ano

O otimismo prevalece entre os representantes das ferramentarias quando questionados sobre o desempenho esperado pelo setor no próximo ano. Não se trata de entusiasmo exagerado. A expectativa é de obter resultados um pouco mais positivos do que os deste ano. Em 2013, os negócios não decepcionaram. Também não arrancaram suspiros. Duas características contraditórias sobressaíram. Por um lado, as empresas do ramo tiveram volume de trabalho satisfatório. Por outro, lutaram contra o arrocho dos preços imposto pelos clientes.

O cenário é resumido por Alexandre Fix, presidente da Câmara Setorial de Ferramentaria e Modelações da Abimaq e da Polimold, fabricante de porta-moldes e padronizados e de aparelhos para controle de temperatura dos ciclos de injeção, entre outros itens. “O setor, em sua grande maioria, vendeu bem. Não faltaram encomendas. O problema se encontra na queda de rentabilidade, na grande pressão exercida pelos clientes para a redução dos preços”, reclama.

Além disso, muitos clientes estão com dificuldades para honrar as dívidas e arrastam os pagamentos. Para Fix, esses problemas acabam prejudicando até mesmo quem compra. “As dificuldades financeiras desmotivam as ferramentarias, elas deixam de investir na melhoria de suas estruturas”, diz.

Faltam estatísticas confiáveis e o dirigente não arrisca dar um palpite sobre o desempenho do setor em 2013. “Nosso mercado é muito pulverizado, temos centenas de ferramentarias de todos os portes, com especialidades variadas, é difícil chegar a um número”, explica. Enquanto algumas ferramentarias se mostram muito felizes, outras reclamam. “Quem atende de maneira preferencial um segmento da economia que vai bem se dá melhor do que quem tem foco para um setor que está mal. A indústria automobilística está melhor do que a de brinquedos.”

Para o ano que vem, a perspectiva do presidente da Câmara Setorial da Abimaq é de otimismo moderado. Uma conquista do setor, a inserção das ferramentarias no programa Inovar-Auto, que prevê benefícios fiscais para as montadoras que lançarem modelos de automóveis com elevado índice de nacionalização de peças, gera perspectivas positivas. Mas não o suficiente para os empresários do ramo “soltarem fogos”.

Existem obstáculos a serem superados. “O crescimento da indústria tem sido bastante pífio nos últimos tempos, é preciso que a economia cresça de forma mais vigorosa”, reclama o presidente da câmara setorial. Outro tormento continua a tirar o sono dos empresários brasileiros. São os moldes vindos da China, com seus preços para lá de competitivos. A desvalorização do real ocorrida este ano amenizou um pouco a situação, mas a zona de conforto está longe de ser atingida.

Termômetro, parte I – O fato de existirem centenas de ferramentarias Brasil afora, a grande maioria das quais de pequeno porte, dificulta a geração de estatísticas confiáveis sobre o desempenho do setor. Um termômetro, no entanto, pode ser usado para se chegar a números próximos da realidade. As vendas de porta-moldes dão uma boa ideia de como vão os negócios.

“Não existe um número grande de empresas fornecedoras de porta-moldes. Se extrapolarmos os resultados obtidos por elas nós conseguiremos calcular a tendência do mercado com exatidão”, reconhece Fix. O dirigente analisa o desempenho da Polimold, de São Bernardo do Campo-SP. A empresa conta com em torno de um milhão de combinações de porta-moldes disponíveis. Caso o cliente queira, é possível agregar serviços ao produto, como a realização de operações de usinagem extras.

“Nossas vendas de porta-moldes este ano refletem bem o que se diz por aí sobre o setor. O volume de vendas foi bom, mas a rentabilidade do negócio está muito baixa. No fim das contas, o resultado foi razoável”, informa. A empresa espera fechar o ano com crescimento do faturamento de 9,6% em relação a 2012. “O resultado está 1% acima do que tínhamos orçado.” Apesar dos números parecerem bons, o dirigente faz ressalvas. “O faturamento cresceu, mas nossas despesas também. A inflação está alta, na casa dos 6% e nossa folha de pagamento sofreu reajuste de 8%. Não dá para comemorar muito.”

A maior novidade da Polimold este ano não foi na área de porta-moldes. Foi o lançamento do minicontrolador de temperatura de câmaras quentes MS, com tamanho 60% menor do que o modelo anterior. “Apesar de menor, ele tem mais recursos.” Um dos diferenciais é a possibilidade de, partindo de um primeiro módulo, gerenciar os demais módulos presentes em uma planta.

Negócios oscilaram – As vendas da Tecnoserv foram bastante instáveis durante o ano. “Tivemos um primeiro semestre muito bom. No segundo, as vendas oscilaram. Em outubro, por exemplo, foram ótimas, em novembro, nem tanto. Ainda não tenho os números de 2013 fechados, mas acredito que devemos crescer um pouco em relação ao ano passado”, revela Wilson Teixeira, gerente técnico. A empresa instalada em Diadema-SP é fabricante de porta-moldes e representa no Brasil marcas internacionais de câmaras quentes, controladores de temperatura e produtos químicos para ferramentarias, entre outros itens.

De acordo com Teixeira, não houve um segmento econômico a ser destacado pelo número de encomendas. Houve equilíbrio. “Em determinado período, a indústria automobilística ficou em alta, depois veio o segmento de utilidades domésticas e outros. Ocorreu alternância.” Ele constatou certo entusiasmo dos clientes em relação ao futuro graças ao programa Inovar-Auto. “A indústria de linha branca, por outro lado, se mostra um tanto saturada. Ela vendeu muito nos últimos tempos”, avalia.

O gerente notou outro comportamento do mercado. “Muitas ferramentarias fecharam as portas, enquanto surgiram algumas novas.” Ele também detectou outro motivo de queixas generalizadas: “Os clientes não estão focados em qualidade, estão pressionando muito os fornecedores por preços.” Ele credita esse fenômeno à concorrência dos moldes chineses: “Eles são muito competitivos.” Um problema tem atrapalhado os importados: “Os transformadores brasileiros têm reclamado dos problemas de manutenção e da falta de assistência técnica.” A alta do dólar ajudou um pouco os fornecedores nacionais. “Com a desvalorização do real, voltamos a fabricar manifolds e outros acessórios para moldes no Brasil”, exemplifica.

Termômetro, parte II – Outros fornecedores especializados no fornecimento de porta-moldes e componentes padronizados também falaram sobre o desempenho obtido em 2013. Há 56 anos no mercado, a Miranda, de Suzano-SP, é bastante conhecida no setor. “Em relação ao mercado de porta-moldes nós trabalhamos com o ‘arroz e feijão’, deixamos outros produtos para ferramentarias e projetos mais sofisticados para outras empresas”, explica José Miranda Neto, diretor comercial. Para o executivo, o ano de 2013 ficou em patamar de negócios estável quando comparado com o desempenho do exercício anterior. “Acho que nossas vendas devem ficar muito próximas das de 2012, talvez um pouquinho menor.” A maior decepção, na opinião dele, ficou para o desempenho do segmento de autopeças. “A indústria automobilística foi um destaque negativo, acho que o Inovar-Auto ainda não gerou os efeitos desejados.”

Outra empresa focada no mercado de porta-moldes e componentes padronizados, a Três-S, de Guarulhos-SP, também é bastante conhecida. É verdade que ela mudou um pouco seu perfil de atuação. Graças a um acordo firmado com a fabricante nacional de câmaras quentes Delkron, a empresa passa a oferecer soluções completas para seus clientes.

De sua seara, as notícias são alvissareiras. “Não podemos reclamar, foi um de nossos melhores anos. Nossos números ainda não estão fechados, mas acredito que fecharemos 2013 com crescimento em torno de 15%”, comemora Claudir Sandro Mori, gerente comercial. Vale ressaltar que a parceria com a Delkron não tem qualquer peso nesse resultado. “Na prática, o acordo só passa a valer a partir do ano que vem.”

Para Mori, os números positivos são consequência dos fortes investimentos realizados na linha de produção. “Aplicamos entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões na aquisição de equipamentos de usinagem automáticos de última geração”, ressalta. Dessa forma, a Três-S conseguiu oferecer porta-moldes a preços mais competitivos e em prazos menores. Além disso, passou a oferecer serviços de usinagem por encomenda, agregando valor aos produtos comercializados. “Atendemos à demanda do mercado”, resume. A estratégia deve prosseguir no próximo ano. “Estamos trabalhando para obter ainda mais melhorias.”

Mori confirma as dificuldades impostas pelas importações dos moldes chineses. Ele, no entanto, lembra que os transformadores brasileiros andam cada vez mais ressabiados com a qualidade das matrizes asiáticas. “Nossos clientes têm relatado muitos problemas de manutenção.” A falta de assistência técnica adequada piora ainda mais a situação. “Isso é bom para as empresas nacionais.”

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