Ferramentaria moderna: Prognóstico do mercado do aço traz incertezas

Representantes dos fornecedores de aços para moldes se mostram inseguros ao dar prognósticos sobre como será 2014 para o setor. O atual cenário, para esses profissionais, lembra a velha história do copo cheio pela metade. Agrada ou desagrada, conforme o humor de quem faz a análise. Entre essas empresas, altamente dependentes do desempenho das ferramentarias, a torcida é grande para um ano repleto de alegrias para os clientes.

Plástico Moderno, Açoespecial abastece o setor com novidades
Açoespecial abastece o setor com novidades

Quanto maior o número de matrizes produzidas no mercado interno melhor o cenário para as empresas, como a Villares Metals, fabricante nacional de aços; e a Açoespecial, que distribui produtos desenvolvidos por ela e fabricados por parceiros, e representa no mercado brasileiro a multinacional luxemburguesa ArcelorMittal, detentora da marca Industeel, e Böhler-Uddeholm, com escritório de vendas no Brasil das marcas alemãs Böhler e Uddeholm.

Para melhor entender os problemas dos fornecedores da matéria-prima, vale fazer uma pequena retrospectiva do desempenho do segmento de moldes. Nos últimos quinze anos, a despeito da demanda do mercado ter crescido, a produção interna caiu, afetada pelas importações, em especial de matrizes chinesas. Outros obstáculos, como o ritmo tímido do crescimento da economia e o chamado “custo Brasil” são motivos de queixas há muito tempo.

A situação difícil promoveu inédito movimento entre empresários ligados ao ramo. Eles lutaram e conseguiram que o governo brasileiro tomasse importantes decisões para a reação do mercado interno nos últimos três anos. Podemos citar, entre outras conquistas, o aumento da alíquota de importações de ferramentas e o ingresso das empresas do ramo nos programas Inovar-Auto, voltado para incentivar a nacionalização dos modelos de automóveis produzidos no país. O Inovar-Auto, diga-se, é visto por muitos especialistas do setor como possível alavanca para a recuperação do mercado ferramenteiro nacional nos próximos anos. A expectativa é para na prática ele confirmar a teoria.

“Há uma tendência razoável dos moldes menores e médios passarem a ser fabricados no Brasil”, avalia Paulo Ribeiro, diretor da Açoespecial. Isso se deve, na opinião do dirigente, aos problemas de manutenção gerados pelos importados, aos impostos de importação e a outros infortúnios. O cenário gera otimismo, mas com ressalvas. “Os juros estão voltando a subir e o desempenho da indústria não está sendo dos melhores”, lembra.

O lado otimista da análise é reforçado por Dominik Schmidt, gerente comercial da Böhler-Uddeholm. “A perspectiva para 2014 é muito boa”, defende. Para o gerente, empresas que durante os últimos anos vinham comprando moldes prontos da China estão voltando a investir nas ferramentarias brasileiras. Ele credita a mudança de comportamento aos problemas de qualidade e também às dificuldades comerciais ligadas às compras das matrizes asiáticas.

As perspectivas positivas do programa voltado para incentivar a indústria automobilística são destacadas por Andrea Zajicek, analista de mercado da Villares Metals. “A indústria de moldes para plástico é conectada ao setor automotivo, o que indica grande potencial para o futuro”, analisa. Para Andrea, a vontade das montadoras de passar a fabricar carros mais sofisticados irá gerar grande demanda para a indústria de moldes. “A variedade dos modelos de automóveis tende a aumentar e o ciclo de vida dos carros a diminuir.”

Uma observação precisa ser feita na hora de se traçar o panorama dos negócios que envolvem o setor de aço. A esperada redução na importação de moldes não significa o fim da ameaça representada pelos produtos asiáticos. A importação da matéria-prima produzida a preços para lá de competitivos no país de Mao Tsé-tung também incomoda. “Ela atrapalha, mas a qualidade dos aços chineses deixa a desejar”, ressalva Ribeiro. Fabricantes internacionais do primeiro mundo competem de forma dura com os nacionais no nicho de materiais mais sofisticados. A concorrência acirrada ocorre mesmo com a alta do dólar verificada nos últimos meses.

Grande importância – É enorme a diversidade dos moldes produzidos mundo afora. Alguns, por exemplo, são indicados para grandes produções de peças plásticas. Outros para peças com aparência diferenciada ou para pequenas escalas de produção. E por aí vai. Um exemplo ajuda a compreender o dilema. Para os menos avisados soa estranho, mas o molde de um pequeno pote de margarina, que precisa produzir centenas de milhares de peças, precisa de aço mais resistente do que o de um para-choque de caminhão. Apesar das dimensões da peça a ser injetada, os para-choques são fabricados em escala bem menor. Na hora do trabalho, só há uma única preocupação em comum entre os projetistas: obter moldes capazes de atender às expectativas do transformador que irá utilizá-lo.

A seleção do aço não é tarefa simples. Existem no mercado matérias-primas com formulações bastante variadas, escolhidas de acordo com a necessidade ou a verba disponível. A escolha depende de algumas variáveis. O preço da matéria-prima, é lógico, representa um chamariz bastante tentador. Os profissionais das empresas fornecedoras de aço, no entanto, são unânimes em reprovar tal prática. Para eles, a opção pelo “mais barato” pode representar prejuízos futuros. Eles defendem com veemência a escolha baseada apenas em critérios técnicos.

O principal argumento usado para defender a tese é a participação do investimento necessário para a aquisição da matéria-prima na construção do molde. Pelos cálculos dos especialistas, o custo do aço representa de 15% a 30% do projeto. Eles dizem ser uma porcentagem baixa, que não justifica equívocos em nome da economia. O restante é dividido entre realização do projeto, usinagem das peças e montagem. Eles lembram as vantagens proporcionadas pela qualidade do metal selecionado. Com um aço bom, por exemplo, é possível usinar placas menos espessas. A ferramenta fica mais leve e com menor dimensão e pode ser resfriada de forma mais rápida durante o ciclo. Em outras palavras, proporciona rapidez do retorno do investimento.

O quesito mais importante a ser levado em conta no processo de seleção do aço é a dureza. Os 1045 têm dureza até 30 HRC. São indicados, por exemplo, para ferramentas dirigidas a peças cujas exigências das linhas de produção não são tão rigorosas e que serão produzidas em número baixo. Entre 30 e 34 HRC estão os P20, os preferidos do mercado. Os de 38 a 42 HRC são imprescindíveis para matrizes nas quais uma maior resistência se mostra indispensável. São os casos, por exemplo, das ferramentas sujeitas à abrasividade dos plásticos enriquecidos com cargas ou aquelas voltadas para a produção de grande número de peças. Os aços acima de 42 HRC são usados em ocasiões extremas. Quanto maior a dureza, maior a polibilidade do aço, propriedade crucial para a obtenção de moldes de peças que necessitam de aparência impecável.

Cada fornecedor procura oferecer diferenciais nos produtos que comercializa. De acordo com o desenvolvimento obtido nas pesquisas realizadas em seus laboratórios, algumas características tornam a matéria-prima vantajosa em relação às concorrentes. Uma das preocupações, por exemplo, é a de tornar o aço mais fácil de ser usinado, fator importante para facilitar a vida dos ferramenteiros. Para se chegar aos melhores resultados, as fórmulas podem conter a adição de elementos químicos, como o níquel, por exemplo, ou serem submetidas a tratamentos térmicos mais adequados.

Outra preocupação unânime: prestar os melhores serviços. Uma opinião valiosa na hora da escolha e prazos de entrega compatíveis com a necessidade dos clientes são obrigações. Oferecer operações de usinagem que facilitem as operações necessárias para a confecção dos moldes é o recurso cada vez mais adotado para agregar valor ao produto oferecido.

Aço brasileiro – A Villares Metals é bastante conhecida entre os fabricantes nacionais de aços para moldes. Seu principal cliente é a indústria automobilística, mas a empresa também fornece para ferramentarias especializadas em trabalhos para outros segmentos da economia. “A liga da empresa mais vendida hoje é o VP20ISO, que traz resultados superiores para a aplicação em injeção de plástico”, afirma Andrea Zajicek.

A executiva informa que existem algumas variações desse aço, como o VP20IM, produzido com refino por refusão. “Outra variação é o VP20TS, que atende à exigência do mercado para blocos maiores, acima de 17 toneladas.” Esses blocos são bastante procurados pelo mercado automotivo, conhecido pela fabricação de peças de grande porte. “O VP20TS possui processamento diferenciado, que garante propriedades superiores”, diz.

Outra opção oferecida é o Vimcor, aço inoxidável martensítico de baixo teor de carbono. “Ele foi desenvolvido para aplicações como câmaras quentes, porta-moldes, placas de refrigeração e moldes de injeção de termoplásticos que requerem elevada usinabilidade e resistência à corrosão.” Entre as novidades, a Villares Metals apresenta o VP Atlas, indicado para moldes de injeção de plásticos não clorados e também matrizes para extrusão de termoplásticos não clorados.

Além dos citados, a Villares Metals oferece vários aços para moldes com diferentes durezas e adequados para diversas aplicações. Entre eles, o VP100, N2711M, VP20ISOF, VP20ISO-FS, VH13IM, VP50IM, VP80, VP420IM e o VP420. “A escolha do aço adequado é o primeiro e crucial passo para garantir a competitividade do processo do cliente. Com nossas equipes de engenharia de aplicação e vendas temos ótimas condições para entender as especificações técnicas, as aplicações e, consequentemente, atender o mercado com excelência” afirma sem qualquer falsa modéstia.

Muitas novidades – A Açoespecial apresenta muitas novidades ao mercado. No final de 2012, a empresa lançou a venda de placas já fresadas nas medidas corretas, prontas para serem utilizadas em porta-moldes. Elas são oferecidas em qualquer tipo de aço comercializado pela empresa. “Tínhamos muitas máquinas de usinagem CNC paradas e resolvemos agregar valor aos nossos produtos”, explica Ribeiro. O ganho se estende aos clientes. “As placas permitem ótima economia em relação aos padronizados.”

Neste ano, outra novidade relativa à oferta de peças usinadas. “Estamos abrindo alojamentos em placas a serem usadas como porta-cavidades”, informa. A usinagem é feita por meio de equipamentos de corte a água. “Isso proporciona economia em relação ao uso de máquinas CNC.” De quebra, a empresa passa a oferecer serviços de furação de canais de refrigeração e pré-furos para colunas.

Os lançamentos também atingem a linha de aços oferecida. “Vamos pular de oito para dez tipos de P20”, anuncia. A diversidade favorece os clientes com preocupações específicas, como necessidade de maior polimento, por exemplo. Os destaques da linha são o 2738 High Performance Machine 300 (HPM 300), com dureza média de 32 RC, 2738 HPM 330 (36 RC) e HPM 370 (40RC). “Todos têm presença de 1% de níquel em sua formulação, contra a média de 0,7% usada pela concorrência”, garante.

Na faixa intermediária entre os aços 1045 e P20, a empresa também conta com novos produtos. A ideia é oferecer aos fabricantes de matrizes uma alternativa para aplicações voltadas aos clientes que desejam boa resistência e preço mais amigável. “Tomamos por base o fato de que um molde feito com aço 1045 que injeta um brinquedo de PVC precisa sofrer manutenção depois de 40 mil ciclos, em média.” Com base nesse conceito, uma das novidades é o aço Protomolde, que em uma produção de peças similar precisará de manutenção entre 80 mil e 100 mil ciclos.

Outra é o Ecoplast, que nas mesmas condições exige manutenção depois do molde atuar entre 130 mil e 150 mil ciclos. Todos os lançamentos são desenvolvimentos feitos pela empresa. “Temos parceiros que fabricam os materiais para nós”. Ribeiro, também sem falsa modéstia, faz questão de ressaltar a preocupação da empresa com a excelência dos serviços prestados. A empresa também presta total consultoria técnica aos interessados em seus produtos.

Mercado importante – O grupo sueco Böhler-Uddeholm, bastante conhecido em todo o mundo, é um dos principais fabricantes internacionais de aços especiais. No Brasil, conta com escritório próprio de representação há décadas. O grupo participa de forma importante no mercado formado pelas empresas fabricantes de ferramentas para autopeças, produtos de linha branca e outros segmentos econômicos. “Trabalhamos com quatro grandes mercados, os de aços para trabalho a frio, aços para trabalho a quente, aços rápidos e aços para moldes plásticos. O de aços para moldes plásticos é bastante significativo para nossa empresa”, enfatiza Schmidt.

Prova da importância dada pelo grupo a esse nicho de atuação se encontra nos investimentos realizados no Brasil no último ano. A empresa, com escritório sediado em São Bernardo do Campo-SP, abriu filial comercial em Caxias do Sul-RS. Na unidade paulista, passou a oferecer serviços de usinagem e tratamento térmico.

As medidas resultaram em bons negócios. “A possibilidade de fornecer tanto o aço quanto o tratamento térmico para nossos clientes dá um diferencial à empresa perante os concorrentes. Tivemos expressivo aumento nas vendas de nossos aços para moldes de plásticos.” Isso justifica a ideia de expandir a prestação de serviços. “Visando ampliar a aplicação deste conceito, estamos em processo de instalação de nova unidade de tratamento térmico anexa à filial do Sul.” Ele garante que os equipamentos a serem instalados na unidade são de última geração.

O grupo possui departamentos de pesquisa focados no desenvolvimento de materiais para ferramentas de plástico na Áustria e na Suécia. Novos produtos chegam ao mercado de forma contínua. “Recentemente lançamos o Uddeholm Royalloy, aço inoxidável indicado especialmente para porta-moldes e câmaras quentes. Ele tem como principais características excelentes usinabilidade e estabilidade dimensional.” Outros lançamentos serão apresentados em breve.

Schmidt reforça que a empresa possui linha bastante completa focada neste segmento. “Possuímos desde os aços mais simples da linha do P20, com e sem níquel, até os refundidos de altíssima qualidade.” O gerente cita alguns exemplos. Entre eles, o M340, aço inoxidável voltado para aplicações em que há necessidade de elevada resistência ao desgaste e à corrosão. Ele pode atingir 58 HRC após tratamento térmico. O W360, aço refundido com polibilidade e tenacidade comparáveis ao material H13-ESR, pode atingir dureza de 58 HRC após tratamento térmico.

Outro destaque vai para a linha de aços inoxidáveis Mirrax/M333, refundidos e modificados para aumento de polibilidade e tenacidade. “A linha tem sua principal aplicação nos casos em que os materiais da norma AISI 420 não atingem os requisitos de polimento e/ou apresentaram trincas em processo. São bastante procurados no caso de moldes de grande porte.” O Nimax é um aço para moldes plásticos, com dureza em torno de 40 HRC. “Ele tem ótimas usinabilidade, soldabilidade, polibilidade e resposta à texturização.”

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