Ferramentaria moderna: Opiniões se dividem no setor de câmaras quentes

Alguns começaram o ano com as vendas aquecidas e se mostram otimistas em relação a 2014. Outros não fecharam negócios em volume satisfatório no primeiro bimestre e se mostram inseguros com os rumos da economia no ano. Nesse time, os motivos maiores da desconfiança são os grandes eventos a serem realizados no país: Copa do Mundo e eleições. De acordo com os ressabiados, esses acontecimentos podem provocar o adiamento de investimentos nas linhas de produção voltadas para a transformação de peças de plástico. A importação de moldes ou de peças prontas de países asiáticos é outro aspecto que provoca há muito tempo reclamações das empresas ligadas ao setor.

Plástico Moderno, Fix: Brasil adotou câmaras quentes como no exterior
Fix: Brasil adotou câmaras quentes como no exterior

Não há unanimidade entre os participantes do competitivo mercado de câmaras quentes para moldes de injeção. Participam dele fabricantes nacionais há muito tempo no ramo, casos da Polimold e da Delkron, e a recém-chegada Yudo, de origem coreana, no Brasil há dois anos. A norte-americana Incoe, a canadense MoldMasters e a neozelandesa Mastip, representada pela Tecnoserv, fornecem câmaras quentes dotadas com índice de nacionalização variado.

Os sentimentos otimistas ou pessimistas são baseados em experiências próprias. A falta de dados estatísticos sobre o setor no Brasil não permite análises aprofundadas. “Quem disser quantos moldes são fabricados por ano no Brasil está dando um grande chute. O setor de ferramentarias é muito pulverizado e difícil de permitir qualquer cálculo”, resume Alexandre Fix, presidente da Câmara Setorial de Ferramentaria e Modelações da Abimaq e também da Polimold, fabricante de câmaras quentes, porta moldes e itens padronizados para ferramentarias.

A dificuldade para calcular o número de moldes fabricados no Brasil, claro, se estende ao número de câmaras quentes comercializadas. Para os fornecedores, no entanto, uma percepção não deixa dúvidas: calcula-se que, nos países avançados, 70% das matrizes novas contam hoje com tal tecnologia. Por aqui, esse número não é conhecido. Mas o crescimento desse índice percentual nos últimos anos tem sido expressivo.

Isso se deve, de acordo com os profissionais do ramo, às vantagens oferecidas pela técnica. Os transformadores hesitam menos a cada dia em adquirir ferramentas dotadas com câmaras quentes, de olho no rápido retorno do investimento adicional necessário na hora da construção da matriz equipada com o recurso. A principal vantagem da tecnologia se encontra na ausência de galhos nos lotes de peças produzidas. Dessa forma, os transformadores que a adotam não necessitam de moinhos para reciclar refugos, o que gera economia de espaço, mão de obra e tempo em suas linhas de produção.

Os maiores avanços registrados na área se encontram nos elementos responsáveis pelo aquecimento da matéria prima, caso das resistências utilizadas, entre outros. Tem havido grande número de lançamentos também de controladores de temperaturas, imprescindíveis para o bom andamento das operações de injeção com câmaras quentes. Vários fornecedores apresentaram novidades nesses aparelhos nos últimos meses.

Plástico Moderno, Câmara quente fabricada pela Delkron
Câmara quente fabricada pela Delkron

Preço e inadimplência – O nicho de câmaras quentes é dos mais importantes para a Polimold. “Esse mercado está consolidado. O interesse por parte dos clientes tem aumentado nos últimos anos, acredito que hoje a porcentagem de moldes novos dotados com câmaras quentes é equivalente à de outros países”, avalia Fix. Entre os segmentos da economia, ele cita alguns nos quais o uso do acessório praticamente se tornou obrigatório. São os casos da indústria de autopeças e de cosméticos.

O aumento da procura não deve ser interpretado como vida tranquila para os participantes desse nicho de atuação. “Chegaram várias empresas internacionais, a concorrência está bastante acirrada”. Por um lado, o cenário ajuda a evolução tecnológica dos produtos oferecidos. Por outro, gera uma guerra de preços. “Existem empresas vendendo câmaras quentes a preços muito baixos”, queixa-se. De quebra, um problema inesperado. “Estamos sofrendo muito com a inadimplência. Ferramentarias pequenas e de porte médio estão sofrendo para receber dos transformadores e, por tabela, não nos pagam”.

Entre prós e contras, Fix não reclama dos resultados obtidos no ano passado. “Somos líderes nesse mercado e o ano passado foi muito bom”. Quando perguntado sobre o desempenho das vendas, nenhum dado concreto. “Prefiro não revelar o quanto crescemos”, despista. Em relação a 2014, o dirigente integra o time dos desconfiados. Ele não se mostra otimista em relação ao desempenho da indústria.

Fix garante que a Polimold sempre desenvolve modelos mais avançados, dotados com buchas e outros componentes de qualidade. “As novidades são constantes. Nossas câmaras quentes têm muitos itens padronizados e contam com peças específicas, desenvolvidas de acordo com as necessidades do cliente”.

Um dos recentes lançamentos foi anunciado na última edição da feira Feiplastic, realizada em 2013, na capital paulista. Trata-se do minicontrolador de temperatura MS. “O tamanho dele é 60% menor do que nosso modelo anterior”, conta o dirigente. Fix garante que tamanho não é documento. “Ele também tem mais recursos”. Um dos diferenciais é a possibilidade de, a partir de um primeiro módulo, gerenciar os demais utilizados na planta.

Plástico Moderno, Controlador de temperatura Yudo foi lançado na K
Controlador de temperatura Yudo foi lançado na K

Muita fome – Desde abril de 2012 com fábrica de câmaras quentes no Brasil, a Yudo chegou com apetite. “Temos a intenção de participar com força desse mercado, hoje dominado por uma ou duas empresas. Queremos nos tornar líder em um prazo de cinco anos”, revela Robson Gaspar, diretor comercial da região Sudeste. Para chegar ao topo, os investimentos têm sido pesados. “Hoje fabricamos 100% das câmaras quentes aqui. Nossa capacidade já é o dobro da que tínhamos quando iniciamos as atividades e estamos adquirindo novas máquinas para aumentar a linha de produção”. Também está nos planos da empresa entrar com força no mercado de porta moldes.

Os primeiros resultados obtidos no mercado nacional foram animadores. “Em 2012 batemos a nossa meta, passamos muito do que tínhamos imaginado”. No ano passado, a empresa se manteve dentro do planejado. E esse ano as vendas estão muito boas. “Queremos superar nossa meta em de 20% a 25%”. Ao longo dos anos, a expectativa é crescer entre 10% e 15% ao ano.

Em paralelo, a empresa pretende se consolidar também como fornecedora de controladores de temperatura. “Hoje já montamos os aparelhos no Brasil e usamos vários componentes fabricados aqui. As placas leitoras são fabricadas na Coreia do Sul”. O modelo mais recente da empresa foi lançado na última edição da megafeira alemã K, realizada no ano passado. Trata-se da linha Bold 3, com modelos capazes de controlar seis, oito ou doze zonas. “Temos um estoque de R$ 4 milhões de peças de reposição e equipe completa de assistência técnica”, emenda.   Acordo – No Brasil, a Delkron foi pioneira na fabricação de câmaras quentes. “Começamos em 1982, quando não se falava sobre essa técnica por aqui. Na época, ela era pouco utilizada até mesmo no exterior”, lembra o diretor de engenharia Ney Kaiser. Ele comenta o forte crescimento da aceitação da tecnologia por parte dos transformadores de plástico ao longo do tempo. “Há alguns anos somente 1% ou 2% dos moldes tinham câmaras quentes. Hoje no Brasil essa porcentagem cresceu muito”.

Uma das recentes notícias envolvendo a empresa foi o contrato firmado no ano passado com a fabricante de porta moldes Três-S. “Passamos a oferecer o conjunto de porta molde com câmara quente aos clientes interessados”, informa. O acordo é meramente comercial, as duas empresas continuam a atuar de forma independente. “A parceria está apenas se iniciando, acho que deve ajudar nas vendas quando o mercado estiver mais informado sobre o acordo”.

Outra novidade se encontra no lançamento de um sistema valvulado de injeção, que pode ser feito por meio de ar comprimido ou óleo hidráulico. “Caso o cliente optar pelo óleo, pode usar o óleo da própria máquina injetora”, diz. De quebra, a empresa apresenta nova linha de controladores de temperatura. “Eles são autoadaptativos, interagem com os moldes de forma inteligente. Ajudam na escolha dos parâmetros internos adequados aos ciclos e têm sistema de proteção capaz de detectar se houve algum tipo de problema durante a produção”.

Kaiser não se mostra muito animado com os resultados a serem obtidos em 2014. “Acredito em um ano conservador, a realização de eventos como Copa do Mundo e eleições não costuma trazer benefícios para a economia”. Eventos à parte, Kaiser se queixa da defasagem do valor do dólar, que considera muito desvalorizado perante o real. “O setor de moldes vem sofrendo muito com as importações, não só das próprias ferramentas como das próprias peças prontas”.

Plástico Moderno, Santos: ano começou bem para a Incoe
Santos: ano começou bem para a Incoe

Padronização – A Incoe, pioneira na tecnologia, lançou em 1958, nos Estados Unidos, os primeiros modelos de câmaras quentes para moldes de injeção do mundo. Hoje, com ampla atuação internacional, fornece câmaras quentes no mercado brasileiro com índice de nacionalização entre 60% e 70%. “Importamos apenas os elementos de aquecimento. Todos os manifolds são projetados e fabricados aqui”, revela William dos Santos, gerente geral, que está no time dos otimistas. “Tenho ouvido muitas críticas, mas para nós está ocorrendo o contrário. Esse ano começou muito bem, os primeiros meses estão me deixando bastante satisfeito”. Para dar uma ideia do bom momento, o gerente tinha a meta de crescer entre 8% e 10% em 2014. Muitos projetos dos clientes foram postos em prática. “No final de fevereiro revisei esse número para 15%”.

O executivo lamenta o fato de no Brasil não haver dados estatísticos confiáveis. Apesar da falta de informações, ele não tem dúvida do aumento percentual do número de moldes novos equipados com câmaras quentes. “Muitos transformadores ainda não usam, mas a procura tem crescido”. Para ele, o fim da necessidade de se usar moinhos para reciclar os galhos é o principal aspecto dessa mudança de perfil do mercado.

“Existem casos em que os ganhos representam 50% do peso da peça obtida depois do ciclo”, lembra. Em tal situação o retorno do investimento necessário para a câmara quente é muito rápido. “Tive um caso em que ela se pagou em um mês e meio”, garante. Isso sem falar nas aplicações onde as câmaras quentes são imprescindíveis, como ocorre com os stack-molds e as matrizes dotadas com sistema de injeção sequencial.

De acordo com Santos, a Incoe conta com produtos diferenciados. “Nossas câmaras quentes contam com elevado nível de padronização”, diz. Essa característica proporciona reposição rápida de peças. “Os clientes podem comprar um molde chinês dotado com uma câmara quente Incoe exatamente igual à que fornecemos no Brasil”. Ele informa que todos os bicos utilizados são fixados por roscas, o que reduz o risco de vazamento de resina. Outra vantagem, para o gerente, se encontra no nível de internacionalização dos componentes. A empresa também conta com linha ampla de controladores de temperatura.

Plástico Moderno, MoldMasters tem fábrica no Brasil
MoldMasters tem fábrica no Brasil

Custo/benefício – Convencer os clientes de que vale a pena pagar um pouco mais por uma câmara quente sofisticada, pois o retorno do investimento se dá de forma vantajosa, é o desafio enfrentado todos os dias pelos profissionais da MoldMasters, multinacional especializada em produtos para moldes. De origem canadense, a empresa foi adquirida em 2012 pela fabricante de injetoras norte-americana Milacron.

“Hoje temos instalações fabris de mil metros quadrados no Brasil. Nele fabricamos manifolds, fazemos a montagem de sistemas novos e prestamos serviços de manutenção”, informa Carlos Reinoso Garcia, gerente geral da unidade brasileira. A empresa fornece total assistência de engenharia para a realização do projeto mais adequado. “Nosso produto tem o mesmo nível dos comercializados na Europa e nos Estados Unidos”, garante.

Garcia reconhece que tem crescido o interesse dos transformadores brasileiros pelo uso de moldes dotados com sistemas de aquecimento. No entanto, ele acredita que o país ainda está defasado em relação ao que acontece nas economias avançadas. Um dos motivos do atraso, na opinião do executivo, é o fato do preço ser considerado fator muito importante na hora do projeto dos moldes. “Por causa do custo, os usuários deixam para trás a tecnologia”.

O gerente enumera alguns aspectos que considera importantes na hora da seleção, muitas vezes ignorados em nome da economia. “Temos estatísticas de desempenho de nossos produtos que comprovam as vantagens”. Entre as características prometidas, menor tempo perdido por manutenção dos moldes e trocas de cores mais rápidas nas linhas de produção. “Nossos manifolds são usinados de forma a evitar os pontos angulares, têm curvas que permitem o fluxo suave do material”, diz.

Garcia lembra com saudades do ano de 2011. “O dólar estava baixo e nossas vendas foram muito boas”. No ano seguinte, houve queda nos negócios. Em 2013, muitas consultas, muitos orçamentos realizados e poucos negócios fechados. “O ano de 2014 está bom, nós estamos satisfeitos”. Ele não tem certeza se as coisas vão prosseguir assim. “Espero que a Copa do Mundo e as eleições não atrapalhem o crescimento da economia”.

Plástico Moderno, Manifolds Incoe são projetados e produzidos no Brasil
Manifolds Incoe são projetados e produzidos no Brasil

Sem reclamações – A Tecnoserv, fabricante de porta moldes e fornecedora de itens diversos para ferramentaria, representa no Brasil a fornecedora neozelandesa de câmaras quentes Mastip. Para a representante da multinacional, o ano começou bem. “Não posso reclamar, estou bastante otimista. Este mercado tem crescido bastante”, revela Wilson Teixeira. Os bons resultados vêm de algum tempo. “O ano passado também foi positivo. O faturamento resultante das vendas de câmaras quentes cresceu em torno dos 16% em 2013”.

As vendas animadoras ajudaram a Tecnoserv a adotar estratégia diferenciada a partir do ano passado. “O aumento do volume das vendas exigiu resposta em relação a preços e prazos. Passamos a fabricar os manifolds no Brasil”, conta. A alta do dólar, é verdade, também deu importante colaboração para a adoção da medida. “Ficamos mais competitivos ao criar a linha de produção nacional”. Teixeira destaca a constante preocupação da Mastip em adotar soluções tecnológicas mais sofisticadas. Uma das novidades anunciadas é o lançamento de bicos de injeção indicados para maiores volumes de matéria prima. “Esses bicos têm maior capacidade, mas funcionam com a mesma força de atuação”, ressalta.

Outra novidade da empresa é a chegada ao mercado de novo controlador de temperatura, esse fabricado por um parceiro internacional mantido em sigilo. “O controlador atua em sistema de módulos”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios