Ferramentaria Moderna – Moldes para sobro enfrentam competição acirrada e demanda em recuperação

Até outubro do ano passado, as coisas iam muito bem. De lá para cá, o número de encomendas nunca mais foi o mesmo. O início do ano ficou aquém das expectativas. Passou o carnaval e os negócios começaram a dar sinal de reação. Para os fabricantes de moldes de sopro, o ano não deve ser muito melhor do que 2011, apesar de certo otimismo em relação à recuperação nos próximos meses.

Caso não seja superada, a temperatura morna da demanda por serviços dificulta a vida dos ferramenteiros. Como o setor é bastante pulverizado, conta com grande número de empresas, muitas das quais bem pequenas, a concorrência é bastante acirrada. Existem as especializadas em determinados nichos, é verdade, mas a grande maioria está apta a realizar os mais variados projetos de ferramentas, de sopro de extrusão contínua ou de pré-formas de PET.

O excesso de competição favorece os clientes, sempre interessados em barganhar preços até a exaustão. A pequena rentabilidade dificulta os investimentos necessários para a compra de equipamentos como modernos centros de usinagem, capazes de melhorar a produtividade e a precisão das plantas industriais.

Menos mal, para o setor do sopro, é a presença tímida dos importados. Ao contrário do que ocorre entre os fabricantes de moldes para injeção, os países asiáticos, em especial a China, não representam grande ameaça aos empresários nacionais no caso das matrizes mais simples. De acordo com os especialistas, os produtores orientais são menos competitivos, pecam pela qualidade inferior à dos produzidos aqui. Como os preços dos moldes de sopro são bem inferiores aos de injeção, os preços praticados pelos chineses são menos atraentes. Os prazos de entrega dos produtores brasileiros, mais curtos, também colaboram.

No caso de moldes sofisticados, a concorrência é mais forte. Como as economias dos Estados Unidos e dos países europeus vivem momentos negativos, empresas do primeiro mundo passaram a ficar de olho no mercado brasileiro, mais aquecido. Os importados apresentam tecnologia de ponta e o dólar desvalorizado torna as matrizes internacionais competitivas.

Em termos de tecnologia, as ferramentarias estão sendo cada vez mais exigidas pelos clientes. A sofisticação das máquinas periféricas, casos, por exemplo, das envasadoras e rotuladoras, requer a produção de peças cada vez mais precisas. E os moldes precisam acompanhar essa demanda, têm de trabalhar de forma que permitam uma rigorosa repetição das medidas projetadas.

Outras particularidades dificultam a vida dos ferramenteiros. Apesar dos moldes serem, no geral, mais simples do que os de injeção, o processo de fabricação é mais complexo, em especial no caso do sopro convencional. As máquinas injetoras contam com sistema de funcionamento similar. As sopradoras, não. As máquinas instaladas nos transformadores são muito distintas, contam com características diferentes. Para os fornecedores de matrizes, essa particularidade é outro desafio.

Também ao contrário do que ocorre na injeção, não há fornecedores de peças padronizadas para as ferramentas. Isso prolonga o período de fabricação e, no caso de necessidade de substituição, exige a produção de novas peças.

Embalagens – Com duzentos funcionários, a paulistana Moltec é nome bastante conhecido no setor de moldes para embalagens. A empresa, no mercado desde 1971, tem faturamento dividido ao meio entre moldes de injeção e sopro. “Às vezes, o mercado está um pouco melhor para o setor de injeção, outras vezes para o sopro. De forma geral, a receita é dividida”, esclarece Bruno Chagas, gerente de engenharia.

Vale uma ressalva: o preço dos moldes de injeção é bem maior. “Uma cavidade para injeção fica entre R$ 35 mil e R$ 40 mil, uma para sopro sai em torno de R$ 10 mil”, explica. Por isso, em número de cavidades, a produção para os transformadores de sopro é bem maior. A Moltec trabalha de duas maneiras. Ela recebe o design da embalagem da

Plástico, Bruno Chagas, gerente de engenharia, Ferramentaria Moderna - Moldes para sobro enfrentam competição acirrada e demanda em recuperação
Bruno Chagas: segmento de cosméticos pede moldes mais sofisticados

agência especializada e presta serviços da viabilidade técnica ao tryout ou atua desde a fase do design. “Nosso departamento de desenvolvimento conta com profissionais bastante experientes”, garante.

O ano de 2011, para a Moltec, não foi dos mais entusiasmantes. Este ano começou melhor. “Estamos trabalhando acima das expectativas”, diz. O lado negativo da notícia é o nicho do sopro. “A procura por moldes de injeção está muito boa, mas no caso do sopro anda em baixa.” A explicação para esse cenário? “Eu acredito que seja uma coisa passageira, os transformadores de sopro fizeram muitos lançamentos no ano passado e este ano estão em momento de acomodação”, avalia.

Entre os clientes atendidos, os de higiene e limpeza estão agora com demanda elevada. “Não é um segmento que inova muito nos formatos”, ressalta. Outro setor em bom momento é o de cosméticos. “Nesse caso há vários lançamentos de produtos com embalagens de design diferenciado, em geral os moldes são mais sofisticados”, explica. O nicho de bebidas, também bastante atendido, não se encontra em momento muito aquecido.

A exigência dos clientes por ferramentas de grande precisão é apontada pelo gerente de engenharia. “Prestamos serviços para linhas de produção muito automatizadas, que usam cada vez menos a intervenção humana, os moldes precisam contar com perfeição extrema”, revela. Trabalhar com tal nível de rigor não é fácil, em  especial no caso do sopro convencional, em que a operação depende da produção contínua dos parisons e de outras particularidades difíceis de serem controladas. A sofisticação traz uma compensação. “O nível de retrabalho é muito pequeno”, diz.

Um dos problemas é a falta de sopradoras para avaliações. “As máquinas injetoras são parecidas, podemos realizar testes na nossa planta antes de entregarmos os moldes. No caso das sopradoras, as empresas contam com máquinas de vários modelos, com características diferentes, não dá para termos vinte máquinas aqui para verificar o funcionamento”, lembra. A saída é acompanhar a operação dos tryouts nas fábricas dos clientes.

Concorrências internacionais – A Technical Blow Mould, ou TBM, como é conhecida no mercado, é uma ferramentaria diferenciada. Localizada em São Paulo, ela é totalmente dedicada ao sopro de peças técnicas. No mercado desde 1997, a empresa é bastante procurada pela indústria automobilística, para quem produz moldes para tanques de combustíveis e outras peças aproveitadas em condições críticas de desempenho.

Tais ferramentas exigem know how para serem projetadas e construídas. Algumas características são bem complexas. No caso das projetadas para os tanques de combustíveis, uma dificuldade é o uso de parisons coextrudados com até seis camadas de materiais. Outro desafio é projetar o perímetro mais adequado da linha de fechamento em peças não simétricas, comuns nesse nicho de mercado. Isso requer o uso de gavetas e postiços parecidos com os utilizados em moldes de injeção. A escolha dos materiais também é difícil. O alumínio, aproveitado na maior parte das peças, sempre segue rigorosas especificações técnicas.

O lançamento de automóveis é quesito bastante importante para os negócios da TBM. Em termos de novidades, as montadoras brasileiras têm sido pródigas, muitos automóveis novos chegaram ao mercado nos últimos tempos e outros modelos prometem invadir as concessionárias nos próximos meses. A necessidade por moldes, no entanto, nem sempre

Plástico, diretor técnico-comercial, Ferramentaria Moderna - Moldes para sobro enfrentam competição acirrada e demanda em recuperação
Manoel Paiva: tributação elevada atrapalha os negócios

significa encomendas. Nesse nicho de mercado são comuns as concorrências efetuadas entre os produtores brasileiros e os de países avançados.

Com a economia local em baixa, fabricantes franceses, canadenses e alemães, entre outros, lutam pelas encomendas de forma ferrenha e praticam preços para lá de competitivos. O diretor técnico-comercial Manoel Paiva se queixa de um velho problema para explicar a dificuldade de participar desse tipo de concorrência: o “custo Brasil”. “Temos que competir convivendo com uma carga tributária muito alta e juros estratosféricos”, exemplifica. O bom desempenho da economia amenizou as dificuldades de 2010 a setembro do ano passado. “Estávamos trabalhando de domingo a domingo”, conta. No último trimestre do ano passado começou o declive no número de pedidos.

Depois do carnaval, o diretor começou a sentir uma reação. “Devemos fechar o ano de 2012 com crescimento zero, não vamos ficar no negativo”, calcula. Com esses resultados, ficam difíceis os investimentos na compra de equipamentos. “Estávamos pensando em comprar um novo centro de usinagem em 2012, mas desistimos”, resume.

Em tempo: nos últimos meses a TBM decidiu dar um tempo na participação de concorrências com ferramentarias brasileiras. Para o diretor, quando há a disputa com empresas nacionais, aparecem vários paraquedistas, oferecendo preços abaixo da expectativa. “Quando os clientes optam pelo preço baixo, quase sempre se arrependem”, diz. Ele conta que muitos transformadores procuram a empresa para melhorar o desempenho de moldes mal construídos. “Em um caso conseguimos reduzir o peso de uma peça de 600 para 450 gramas”, exemplifica.

Sotaque catarinense – Há doze anos no mercado, a Tecnomoldes, situada em Herval d’Oeste-SC, conta com 42 funcionários e tem na fabricação de moldes de sopro o seu carro-chefe. A empresa, com participação nacional, também fabrica moldes para termoformagem. “O sopro representa 75% de nosso faturamento”, revela Luiz João da Maia, sócio-proprietário e diretor comercial. Das receitas obtidas com o sopro, em torno de 65% são de moldes para PET e 35% para sopro convencional. “Os moldes para PET são um pouco mais simples, não precisam dos parisons para trabalhar”, revela.

A Tecnomoldes faz matrizes de frascos pequenos a galões de 50 litros de volume. “A maioria das encomendas é para volumes pequenos”, informa. Entre os clientes, destaque para os setores de bebidas, limpeza e higiene, cosméticos e de alimentos. Para o dirigente, um dos diferenciais da empresa é o custo. “Somos uma empresa familiar, instalada em um centro menor, e conseguimos ter preços competitivos”, garante. Outra vantagem, para ele, são os prazos de entrega. “Fazemos um molde com duas cavidades pequenas em quinze dias, contra a média de 35 a 40 dias do mercado.” O segredo? “Estamos muito bem equipados e trabalhamos 24 horas por dia.”

Para Maia, depois de atravessar 2010 com negócios excelentes, o ano de 2011 foi bom até o início do último trimestre. “Fechamos com 8% de crescimento.” Depois o mercado esfriou. “Este ano a procura está parada”, lamenta. Ele, no entanto, não perde o otimismo. “A expectativa está no aquecimento do mercado. O governo está tomando medidas para a queda dos juros e isso deve ajudar”, justifica.

O dirigente se sente incomodado com a concorrência dos moldes importados. “Não do mesmo jeito que os fabricantes de moldes de injeção”, ressalta. Para ele, a competição não vem apenas dos países asiáticos. “Os europeus também são fortes no nosso mercado, eles estão enfrentando problemas na economia e passaram a participar do nosso mercado com preço e qualidade”, diz Maia.

Preços baixos, parte I– A Vath Moldes, de Indaiatuba-SP, há sete anos no mercado, produz moldes de sopro de extrusão contínua, PET e injeção-sopro. Com vinte funcionários, atende encomendas para moldes de recipientes com volumes pequenos, até cinquenta litros. A grande maioria dos serviços, no entanto, é para frascos menores, produzidos para os segmentos industriais mais compradores, como os de higiene e limpeza, cosméticos e alimentos. Os moldes de

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Moldes da Vath contam com centro de usinagem de tecnologia de ponta

extrusão contínua são os mais vendidos, os de PET representam entre 15% e 20% do faturamento.

“Nosso diferencial é oferecer prazos reduzidos e obedecidos de forma rigorosa”, garante o diretor Idevalte Nascimento. Outro aspecto da empresa ressaltado pelo dirigente é o elevado grau de informatização. “Temos três centros de usinagem com tecnologia de ponta”, orgulha-se. O atendimento eficiente é uma preocupação constante. “Somos muito ágeis e nos preocupamos com o pós-venda”, emenda.

Nascimento destaca os aspectos que considera essenciais na hora da construção dos moldes. Para ele, um ponto muito importante é a escolha de materiais de elevada qualidade. Outro quesito fundamental é o projeto do sistema de refrigeração. Com o crescimento do uso de múltiplas cavidades, a refrigeração ganha importância ainda maior. “Não existe regra, cada projeto exige muito conhecimento de projeto e do processo”, diz.

Sobre o mercado, as informações do diretor conferem com as de seus concorrentes. “De outubro para cá o mercado está flutuando, existe volume de encomendas, mas elas são mais

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Idevalte Nascimento: proclama agilidade e preocupação com pós-venda

para reposição, para os transformadores que trocaram de máquinas ou estão produzindo em moldes com maior número de cavidades. Os novos projetos estão em baixa”, revela. Para ele, os reflexos da crise internacional são os principais motivos da queda.

“No primeiro trimestre deste ano, atingimos as metas; no segundo, não sei”, antecipa. Apesar da flutuação dos negócios, a empresa cresceu entre 14% e 15% no ano passado, número que pretende repetir este ano. “No primeiro semestre talvez tenhamos um decréscimo, mas no segundo o mercado deve se aquecer”, avalia.

Para Nascimento, as importações não atrapalham o segmento do sopro. O maior problema é o excesso de concorrência no mercado interno. “Os pequenos prostituem muito os preços. Existem algumas ferramentarias no Sul que trabalham com valores inviáveis, não sei como eles conseguem esse ‘milagre’”, reclama. Na opinião dele, felizmente existem clientes que não se levam apenas pelo preço. “Muitos já ‘sofreram’ comprando moldes que não funcionam, sabem que o barato sai caro.”

Preços baixos, parte II – A prática de preços baixos também incomoda a Primolde, de São Paulo, empresa com doze funcionários que projeta e fabrica moldes para todos os tipos de sopro. A Primolde atende pedidos para peças com volumes de dois milímetros a cinquenta litros, sejam elas fabricadas pelo sopro convencional ou em PET. “Atendemos a indústria automobilística, de higiene e limpeza, cosméticos, alimentos e farmacêutica”, informa Diego José Ribeiro Silva, administrador.

A cantilena ditada pelo executivo é a mesma. “O mercado em 2011 foi bem interessante até outubro, quando houve uma queda na procura. Em janeiro e fevereiro, as vendas foram pequenas e houve uma pequena retomada depois do carnaval.” Apesar do momento um tanto negativo, Silva acredita no potencial do negócio. “Há muitos clientes no mercado”, avalia.

Ele também não se incomoda com a participação dos importados. “Não sentimos o problema que vem afetando boa parte da indústria.” Lembra que os prazos de entrega dos moldes de sopro são pequenos e isso ajuda os empresários nacionais. “Um molde aqui fica pronto em de trinta a quarenta dias, os importados demoram entre quatro e cinco meses”, calcula.

O que atrapalha mesmo, para ele, é o comportamento de alguns concorrentes. “Muitos estão oferecendo preços de 30% a 40% menores do que o razoável, eu não sei como eles conseguem. O problema é que os compradores estão se habituando a pagar esses valores”, critica. Esses preços dificultam os investimentos necessários para a aquisição de novas máquinas, em especial os caros centros de usinagem.

Apesar das dificuldades, ele garante que a Primolde está em dia com a tecnologia de ponta em todos os processos usados para a confecção de peças dos moldes. “Hoje só terceirizamos operações para realizar gravações ou confeccionar texturas”, diz.

Pequenina – A Alfa apresenta perfil semelhante a um bom número de ferramentarias existentes Brasil afora. É uma microempresa, com apenas dois funcionários. Nem por isso deixa de ser requisitada. Tanto que está no mercado há mais de um quarto de século. “Não estudei, não fui ao Senai, mas tenho muita experiência aprendida na prática durante muitos anos. Sei como fazer um projeto eficiente”, orgulha-se Marcelo de Oliveira, herdeiro do pai na administração da empresa. Como prova, ele destaca a fidelidade dos clientes. “Atendo encomendas em geral, de moldes para frascos variados a brinquedos, entre outros.”

O proprietário revela não ter o interesse de crescer, prefere continuar a contar com seus dois colaboradores de confiança, capazes de dar conta do recado, a aumentar sua equipe. Sua estrutura não é das maiores. “Tenho um torno, uma furadeira e duas fresas”, conta. Quando precisa usar centros de usinagem e equipamentos de eletroerosão conta com a ajuda de parceiros.

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Oliveira projeta moldes para sopro (esq.) de frascos variados

Ele garante que a terceirização não oferece qualquer prejuízo nos prazos de entrega. “Acompanho de perto as operações feitas fora daqui”, diz. A empresa produz, em média, de três a quatro moldes por mês. “O ano começou meio parado, mas depois do carnaval houve aquecimento.”

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