Ferramentaria moderna: Fabricantes de moldes adaptam-se ao mercado e esperam novos projetos

Plástico Moderno, Moldes de sopro têm defesa natural contra importados baratos
Moldes de sopro têm defesa natural contra importados baratos

Mensurar com exatidão como avança 2014 para o setor representado pelos fabricantes de moldes de injeção de termoplásticos é tarefa difícil. Trata-se de um mercado extremamente pulverizado e carente de informações confiáveis. A palavra de líderes do setor hoje é a arma disponível para se chegar a uma conclusão mais próxima da realidade sobre o desempenho das ferramentarias.

“O ano foi razoável, um pouco melhor do que o ano passado”, avalia Paulo Braga, hoje vice-presidente e que em dezembro assumirá a presidência da Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações (CSFM) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e é presidente da APL Ferramentaria do Grande ABC, órgão cujo objetivo é estimular o desenvolvimento da indústria de moldes e estampos. Braga acredita que o pior já passou. “Acho que a tendência do mercado é de aquecimento, o ano que vem será melhor”. O otimismo moderado se deve ao fato de o próximo ano não apresentar nenhum evento extraordinário, como ocorreu em 2014 com a realização da Copa do Mundo e das eleições.

Como o número de empresas do ramo é elevado e seu perfil é heterogêneo, as entrevistadas apresentam resultados diferenciados. Algumas comemoram bom faturamento, outras permaneceram estáveis e existem as que se encontram em dificuldades. Depende, entre outros fatores, dos tipos de moldes por elas fabricados e se os seus clientes pertencem a algum segmento econômico em bom momento, ou não.

Um exemplo: a indústria de cosméticos, consumidora de moldes para embalagens, vive melhor fase do que a automobilística, importante cliente de quem fornece matrizes. Por falar nas montadoras, o Inovar-Auto, programa lançado pelo governo federal para estimular os lançamentos de automóveis com projetos brasileiros, ainda não “pegou” como o esperado, sofre com a falta de regulamentação. Para quem produz ferramentas, o ideal seria se o projeto decolasse.

Entre os problemas que atingem a todos, o mais grave é o atual momento da economia. O crescimento do PIB nesse ano será irrisório e a indústria é a maior responsável pelo desempenho pífio. O cenário reprime os empresários do setor, eles não se sentem seguros para investir no lançamento de novos produtos, o grande motor do desenvolvimento do segmento de moldes.

Em paralelo, as importações feitas dos países asiáticos, em especial no caso da transformação por injeção, continuam a representar concorrência para lá de incômoda. Os moldes de “olhos puxados” chegam aqui a preços muito baixos, mesmo tendo o governo tomado algumas medidas de proteção à indústria nacional.

O casamento da ausência de novos projetos com a competitividade dos importados provoca forte queda na rentabilidade dos serviços contratados. Quando surgem as encomendas, os compradores estão dispostos a “espremer” os preços ao máximo. Com tal quadro, fica difícil para as empresas investir em equipamentos de usinagem modernos, capazes de melhorar a produtividade.

Para completar o cenário não muito risonho, velhos questionamentos sempre apontados pelos empresários de todos os setores – não só os de moldes – são motivos de reclamações. São os casos dos elevados impostos cobrados por aqui, da infraestrutura ineficiente do país, dos juros cobrados pelas instituições financeiras e de outros tópicos que podem ser resumidos pela expressão “custo Brasil”.

Plástico Moderno, Concorrência internacional é maior nos moldes para injeção
Concorrência internacional é maior nos moldes para injeção

Milagre e santos – A análise individual de algumas ferramentarias que trabalham para o segmento de injeção ajuda a entender o quadro atual desse mercado. A paulistana Moltec, de porte médio, é fabricante de matrizes para injeção e também de sopro normal e de PET. Seus carros-chefes são os mercados de embalagens para bebidas, de produtos para higiene e limpeza e outros.

A empresa não se queixa do desempenho alcançado em 2014. O fato de termos tido um ano atípico por causa da realização da Copa do Mundo e das eleições, não atrapalhou muito. “O primeiro trimestre foi bom e no segundo registramos queda por causa da Copa. A partir do terceiro houve a retomada e estamos trabalhando em ritmo normal. Eu acredito que vamos fechar o ano com crescimento entre 5% e 10%”, informa Eduardo Cunha, diretor executivo.

Cunha não consegue precisar com clareza como é dividido o faturamento da empresa entre moldes de injeção e sopro. “Esse percentual varia de acordo com as encomendas e o fato de também fazermos moldes para máquinas integradas de injeção e sopro dificulta o cálculo”. Ele reconhece, no entanto, que o desempenho positivo da empresa se deve à boa aceitação no mercado dos moldes de injeção. “Não é que o número de encomendas de moldes para injeção cresceu, o importante foi termos conseguido nos manter competitivos nesse nicho de mercado”.

O dirigente revela o “milagre”. “Nós estamos trabalhando com parceiros internacionais para desenvolver os projetos”, explica. Dessa forma, a empresa conseguiu agregar tecnologia e passou a receber pedidos antes impossíveis de serem atendidos. “Passamos a fabricar moldes de bi-injeção para embalagens, de corpo, tampa e canudo de canetas e outros que nós não conseguíamos. Tudo dentro de padrões de qualidade de ponta”. Não revela os “santos”. “O nome de nossos parceiros é segredo”.

Prestação de serviços – A ferramentaria Moldit, ligada ao grupo português Durit, especializado em produtos de precisão feitos de metais, chegou ao Brasil em 2004. Instalou-se em Camaçari-BA, com o objetivo de servir a fábrica da Ford que funciona na região. Com o tempo, diversificou seus clientes e se transformou em uma das principais ferramentarias no Nordeste. Sua especialidade se concentra em moldes de médio e grande porte. Trabalha com ferramentas de três a 35 toneladas. Hoje, além de atender a indústria automobilística, o principal cliente, desenvolve projetos para a indústria de móveis e de outros segmentos.

Em relação aos trabalhos que presta para a indústria automobilística, a empresa conseguiu bons negócios. “O início do ano foi bom, pegamos encomendas de moldes para um novo automóvel, trabalho que está terminando agora”, explica Erasmo Farinhas, gerente comercial. No momento, as encomendas para moldes novos não estão muito animadoras. Para 2015, a expectativa é de um ano bom. “A Ford, a cada quatro anos, lança um carro novo”, justifica.

O executivo explica que, independente do lançamento de veículos, a empresa sempre conta com bom volume de serviços para esse segmento. É comum, entre as montadoras, contratar a empresa quando precisam alterar algum molde para fazer modificações no design dos carros há algum tempo no mercado. Também são requisitadas as operações de manutenção.

Fora do mundo dos carros, um nicho de mercado promissor apontado por Farinhas é o de cadeiras, banquetas e espreguiçadeiras. “Esses moldes no passado eram quase sempre feitos na Itália. Depois os chineses começaram a copiar e a fazer preço, mas os moldes deles não atenderam os requisitos de qualidade exigidos”. Os clientes agora estão se voltando para as ferramentarias nacionais. Nesse nicho, um importante cliente da Moldit é a Tramontina.

Farinhas ressalta o investimento feito recentemente na melhoria da estrutura da empresa, que duplicou suas instalações com investimentos iniciados em 2012. Entre as compras realizadas, dois centros de usinagem, de médio e grande porte. Também foram adquiridas duas injetoras da Krauss Maffei, com 650 e 1,3 mil toneladas de força de fechamento, utilizadas para a realização de try-outs.

Nenhuma saudade – Para a Btomec, de Joinville-SC, o ano de 2014 não vai deixar nenhuma saudade. “Foi um ano horrível, muito ruim. O primeiro semestre foi pior, no segundo houve uma pequena melhora apenas a partir deste mês”, resume o diretor Wiland Tiergarten. “Isso não significa que não existam projetos pensados pelos clientes. Estamos com a gaveta cheia de pedidos de orçamento, mas a decisão de efetivá-los são sai do papel”. Ele acredita que falta confiança por parte da indústria para colocar os planos em prática.

Para o dirigente, o problema maior se concentra no pequeno crescimento da economia. “Boa parte das empresas que atendemos estão com máquinas paradas, trabalham com capacidade ociosa”. Para exemplificar, cita a indústria automobilística. “As montadoras estão em mau momento, somente agora está surgindo uma ou outra coisa”. Outro setor é lembrado pelo diretor da Btomec, desta vez de forma um pouco mais animadora. “A linha farmacêutica está um pouco mais à frente”.

A Btomec é especializada em ferramentas sofisticadas. Um dos seus pontos fortes é o projeto e construção de moldes para grandes produções – entre eles, os com de 96 e 128 cavidades – e para bi ou tri componentes. Por conta de seu perfil de atuação, a empresa precisa sempre estar em dia com a tecnologia de ponta. Nos últimos anos, tem adquirido de forma regular equipamentos de usinagem modernos. “Não paramos, no início de novembro vou para um grande workshop na Alemanha sobre moldes de alto desempenho”, comentou.

Plástico Moderno, Lima: matrizes com câmara quente sempre geram encomendas
Lima: matrizes com câmara quente sempre geram encomendas

Tudo bem – A Lafer, empresa paulistana com quase vinte anos no mercado, atua como fabricante de moldes para injeção e também de peças injetadas com até 650 gramas de peso. Com duas vertentes de atuação, a empresa vive desempenhos distintos. “O nosso setor de ferramentaria está lotado, foi bom o ano inteiro. Já a área de injeção de peças plásticas anda um tanto parada”, informa Alcebíades Ferreira Lima, diretor.

O dirigente informa que a empresa tem feito, em média, para terceiros, em torno de três a quatro moldes por mês. Também confecciona as ferramentas usadas em sua área de transformação. Para ele, o bom número de encomendas da divisão de ferramentaria se deve em parte ao perfil dos compradores. “Atendemos muitos clientes do setor de brindes e também de descartáveis, como copos”. Outro setor bastante ativo é o de tampas para embalagens. Entre as encomendas do gênero, as mais comuns são as de dezesseis cavidades dotadas com câmaras quentes. “Esses segmentos econômicos estão bem, não param”, justifica.

Outra razão apontada pelo diretor é a qualidade dos moldes produzidos pela Lafer. “Conhecemos muitas empresas que importaram moldes da China, enfrentaram problemas e nos contrataram para refazer as ferramentas”. Lima lembra que a qualidade “duvidosa” não é exclusividade dos produtos asiáticos. “Recentemente fomos contratados para refazer quinze moldes fabricados no Brasil que também apresentaram problemas”.

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