Exportação – Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas

Custo Brasil. Na opinião dos estudiosos no tema, esse é o “calcanhar de aquiles” responsável pelo desempenho negativo da balança comercial do setor de manufaturados plásticos. “Começa na matéria-prima, passa pela carga tributária, pelos juros/spread bancário. Enfrentamos a burocracia, o custo de energia. Também há a oneração da folha de pagamento e o setor plástico é intensivo em mão de obra. Entre outros problemas”, resume José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast. No quesito “outros problemas”, encontra-se o real valorizado. A cotação da moeda provoca a perda de competitividade de produtos nacionais.

Plástico Moderno, José Ricardo Roriz Coelho, Presidente da Abiplast, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Coelho: “custo Brasil” impede maior volume de exportações

Apesar das dificuldades, no ano de 2010 houve crescimento no volume das vendas realizadas pelas empresas nacionais do setor para outros países. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), a exportação de manufaturados de plástico no ano passado girou em torno de US$ 1,47 bilhão, contra US$ 1,18 bilhão em 2009. A evolução foi de 24,24%. Em termos de volume, o crescimento foi menor, na casa dos 10,59%. Em 2010 foram comercializadas para o exterior 309 mil toneladas de produtos, contra 280 mil no exercício anterior. O valor agregado das peças plásticas exportadas subiu 12,34%, de US$ 4.236,79 por tonelada em 2009 para US$ 4.759,68 no ano passado.

As regiões para as quais os fabricantes brasileiros mais exportaram foram as do Mercosul (35%), Aladi menos Mercosul (23%), União Europeia (20%) e Estados Unidos (9%). Entre os países, o principal comprador foi a Argentina (US$ 275 milhões), seguida pela Holanda (US$ 156 milhões),

Estados Unidos (US$ 85 milhões), Chile (US$ 72 milhões) e Paraguai (US$ 55 milhões). Os fabricantes de chapas e laminados são os principais exportadores (37%), seguidos pelos de tubos (23%), embalagens (18%) e utilidades domésticas (4%).

O desempenho não foi suficiente para melhorar os números da balança comercial do segmento. Longe disso. Os produtos internacionais chegaram ao Brasil em 2010 de forma acentuada. Foram importados US$ 2,8 bilhões, contra US$ 2,1 bilhões em 2009, crescimento de 34,55%. Em volume, o total foi de 616 mil toneladas, contra 469 mil toneladas no período anterior, com evolução de 31,24%. O valor médio da tonelada importada ficou na casa dos US$ 4,6 mil, 2,52% a mais do que os US$ 4,4 mil de 2009. O déficit da balança comercial ficou na casa dos US$ 1,3 bilhão, contra US$ 918 milhões em 2009, com crescimento de 47,86%.

Plástico Moderno, Paulo Dacolina , Presidente do INP, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Dacolina: participantes do programa exportam mais

As regiões de onde mais importamos foram: Ásia (32%), União Europeia (26%), Estados Unidos (17%) e Mercosul (16%). Os Estados Unidos foram os maiores vendedores de manufaturados para o Brasil (US$ 395 milhões), seguidos por China (US$ 358 milhões), Argentina (US$ 194 milhões) e Alemanha (US$ 191 milhões). Entre os produtos adquiridos, destaque para as chapas e lâminas (42%), embalagens (17%), tubos (10%) e utilidades domésticas (3%).

“Mãozinha” providencial – Na hora das dificuldades, uma ajuda sempre é bem-vinda. Pensando nisso, o Instituto Nacional do Plástico (INP) criou, no início de 2004, o programa Export Plastic, cujo objetivo é o de incentivar e apoiar os transformadores interessados em comercializar seus produtos em outros países. “O programa é uma iniciativa pioneira em nível mundial”, garante Paulo Dacolina, presidente do INP. Para desenvolvê-lo, houve a colaboração da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), órgão do governo brasileiro voltado para o apoio às exportações, e de grandes fabricantes nacionais de resinas, casos da Braskem e Quattor. “Garantimos a participação de toda a cadeia produtiva no processo”, diz. O programa gera serviços e ações direcionadas para empresas interessadas em começar a participar do mercado internacional e também para tradicionais exportadores. Os resultados têm sido positivos. Segundo Dacolina, as exportações dos participantes do projeto vêm crescendo em um ritmo maior do que as das empresas não associadas.

Plástico Moderno, Marco Wydra, Gerente executivo do Export Plastic, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Wydra: Export Plastic ajuda os transformadores em várias frentes

Marco Wydra, gerente executivo do Export Plastic, explica que o projeto se baseia em quatro pilares. O primeiro é o da sensibilização. “Procuramos arregimentar empresas nacionais com potencial para fazer parte do programa, mostrar aos transformadores os benefícios obtidos com a exportação”, revela. Hoje, estão associadas 71 empresas de doze diferentes estados brasileiros. O potencial de crescimento dos associados é enorme, o gerente acredita que esse número possa chegar a quatrocentos em um prazo não muito largo. No total, o Brasil conta com 11 mil fabricantes de manufaturados plásticos.

Outra etapa é a da capacitação. “Organizamos palestras para os associados com informações valiosas sobre o mercado exterior”, diz. O programa divulga os regulamentos adotados por outros países, as barreiras técnicas e tarifárias. São dadas noções sobre os preços adequados aos produtos e às operações de crédito, seguro e fretes. A terceira preocupação é com a inteligência e estratégia competitiva. “Nós compramos pesquisas, bancos de dados e estudos sobre o mercado externo e os disseminamos para os exportadores. Dessa forma, eles podem fazer análises competitivas e atualizar tendências internacionais”, conta.

O quarto pilar é o da promoção comercial e comunicação. O programa, por exemplo, facilita a participação dos associados em feiras internacionais. “Na Pack Expo 2010, evento realizado em Chicago, compramos um estande de cem metros quadrados, no qual doze associados marcaram presença com seus produtos em prateleiras e toda a estrutura necessária”, exemplifica Wydra. No evento, o programa investiu US$ 70 mil e gerou negócios de US$ 650 mil. Ele espera que os contatos feitos na exposição possam gerar US$ 8 milhões de negócios para as empresas nacionais no prazo de um ano. Durante os eventos, estas podem participar de rodadas de negociações patrocinadas pelo programa nos locais onde são realizados. Também são promovidos eventos de caráter comercial no Brasil, com a presença de potenciais compradores de outros países convidados pelo projeto.

Plástico Moderno, Ariane Xavier da Silva, Supervisora de exportação, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Ariane: Jaguar quer marcar presença no exterior

Mil e uma utilidades – Várias são as empresas, e diversificadas as suas especialidades, com capital totalmente nacional com bons resultados em suas incursões no mercado externo. Um dos segmentos de crescente sucesso é o de utilidades domésticas. A qualidade das peças e a excelência do design são algumas das características apreciadas nos produtos brasileiros. Entre as fabricantes do ramo, a Jaguar Plásticos, empresa fundada em 1978 no município de Jaguariúna-SP, tem investido de forma consistente em exportações nos últimos tempos. A empresa, com quase 800 funcionários e equipada com oitenta máquinas de injeção, é fabricante de utilidades domésticas e embalagens industriais diversas, além de atender a projetos especiais.

“A Jaguar já exporta há alguns anos, mas iniciou um trabalho realmente estruturado para o mercado externo em 2009”, revela Ariane Xavier da Silva, supervisora de exportação. O processo se iniciou com a criação de um departamento focado no desenvolvimento das vendas internacionais e a associação da empresa ao programa Export Plastic. Os primeiros resultados são animadores. “Hoje exportamos para dez países”, informa. São eles: Bulgária, Angola, México, Cuba, Porto Rico, Colômbia, Peru, Argentina, Uruguai e Paraguai. Entre os produtos exportados, encontram-se linhas para a cozinha (como potes, formas de gelo e outros), lavanderia (bacias, baldes e cestos) e para bebês (canequinhas e outros itens). “A boa aceitação se deve à qualidade, design e diversidade dos manufaturados”, avalia. Para um cliente específico, com nome não revelado, a empresa vende baldes industriais.

Com o trabalho desenvolvido, em 2011 as vendas externas devem chegar a 5% do faturamento. “Pretendemos ampliar cada vez mais esse percentual, chegando aos 25% no futuro. Existe forte empenho e estão previstos investimentos para atingir esse objetivo”, diz a supervisora. No momento atual, o dólar desvalorizado atrapalha. Por outro lado, o fato de a economia interna estar aquecida serve de suporte para a realização de metas. Um primeiro objetivo é o de estabelecer maior parceria com os clientes lá de fora. A estratégia se desenvolve de maneira independente das vendas internas. “Não temos a mentalidade de exportar o excedente, e sim a intenção de conquistar presença constante no mercado externo”, resume.

Plástico Moderno, João Paulo Rodrigues da Cruz, Diretor administrativo e financeiro, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Cruz: matéria-prima importada ajuda a enfrentar real valorizado

Laminados – O mercado externo representou 6% do faturamento da Felinto Embalagens Flexíveis em 2010. A previsão de crescimento das exportações no ano que se inicia é ambiciosa. A empresa pretende dobrar o volume de negócios feitos com outros países. No mercado há 45 anos e com mais de quinhentos colaboradores diretos, a Felinto está instalada na cidade de Campina Grande-PB. Sua especialidade é a produção de embalagens flexíveis monocamadas, laminados e filmes especiais de alta barreira com até sete camadas de proteção. Na linha de produção, conta com três extrusoras de filmes especiais, quatro máquinas de rotogravuras, dez bobinadeiras, três gravadoras, três laminadoras, entre outros equipamentos.

“Há mais de cinco anos começamos a participar, com recursos próprios, de feiras internacionais”, informa João Paulo Rodrigues da Cruz, diretor administrativo e financeiro. Pouco depois, a Felinto se associou ao programa Export Plastic. Hoje atende clientes nos Estados Unidos, Caribe, América do Sul e, em menor escala, na Europa. Os itens mais procurados por outros países são os filmes laminados indicados para a indústria alimentícia, caso dos dirigidos aos fabricantes de café, biscoitos, farinhas e outros. “Vendemos os filmes já impressos e nos destacamos pela qualidade”, orgulha-se o executivo.

O otimismo demonstrado em relação aos resultados de 2011 não é afetado pela valorização exagerada na moeda nacional. A empresa tem bons motivos para não se preocupar com o problema. Uma boa porcentagem da matéria-prima usada para confeccionar os filmes é importada. Com o dólar desvalorizado, os insumos ficam mais baratos. “Também aproveitamos os benefícios fiscais previstos para os exportadores”, esclarece Cruz.

Plástico Moderno, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Schwanke: aposta na valorização da marca

“Tá limpo” – A Schwanke é uma empresa brasileira fundada em 1951, em Blumenau-SC. Hoje conta com 900 funcionários e ocupa área de 45 mil metros quadrados. Ao longo dos anos, passou a incorporar vários itens em sua linha de produção, entre os quais merecem destaque produtos para limpeza doméstica e automotiva, a maioria fabricada com não-tecidos. A empresa entrou na área de plásticos há apenas dois anos, com o lançamento de baldes, rodos, pás e outros utensílios. Para fabricá-los, conta com 11 máquinas injetoras.

“É a linha de produtos que mais cresce em termos percentuais. Queremos dobrar o número de máquinas até 2014”, informa Mauro José Pozzebon, diretor comercial. As exportações não são novidade para a empresa. “Há oito anos vendemos para o exterior.” No caso dos produtos de plástico, as vendas para outros países começaram há um ano e meio. Ao todo, são destinados para 23 países, quase todos das Américas. “Também atingimos Alemanha e Portugal e alguns países africanos”, emenda.

Os bons resultados obtidos têm algumas explicações. A primeira é o design dos produtos plásticos oferecidos. “Eles são ultramodernos, se diferenciam da concorrência até mesmo nas cores oferecidas e por suas embalagens”, garante Pozzebon. Outro “segredo” se encontra na forma de comercialização. “Nós trabalhamos com distribuidores, eles são clientes mais fiéis”, conta. A estratégia comercial também prevê a realização de ações promocionais nos pontos de venda. “Fazemos a abordagem dos consumidores no varejo local.”

Plástico Moderno, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Peças injetadas de polipropileno e poliestireno

As vendas para o exterior esse ano devem representar 6% do faturamento bruto da Schwanke. O real valorizado atrapalha, pois a rentabilidade se reduz. Mas não é empecilho. “Trabalhamos para agregar valor à nossa marca, nossos produtos têm preços mais altos, são valorizados”, segreda. A tática dá tranquilidade em relação às instabilidades econômicas. “Trabalhamos com certa folga, estamos prontos mesmo se o dólar cair até R$ 1,50.”

Pavios e embalagens – A Topack do Brasil nasceu em 1979 na cidade de Americana-SP e tem 650 funcionários. A empresa fabrica produtos como embalagens de grande dimensão para estocagem de produtos, componentes de estufas para usos agrícolas e cordéis detonantes (pavios) para explosivos. Equipada com linha de extrusoras voltadas para a produção de multifilamentos de polipropileno e estrutura completa de confecção, atua de maneira verticalizada.

“Há dez anos começamos a exportar insumos para embalagens e fios para explosivos”, conta o diretor André Reiszfeld. Hoje, os fios de explosivos continuam a ter importante participação nas vendas externas. “Os clientes de nossos pavios são extremamente fiéis. Trata-se de um produto com apenas dois grandes fabricantes no mundo”, informa o executivo. Além dos pavios, a empresa também tem exportado produtos da sua divisão de contentores flexíveis Bag Flex. Um exemplo são os big bags, sacos capazes de armazenar e transportar quantidades consideráveis de produtos sólidos em pó ou grãos, como alimentos e resinas termoplásticas, entre outros comercializados a granel.

Plástico Moderno, Henrique de Andrade, Assistente de exportação, Exportação - Burocracia, juros altos, dólar desvalorizado e matéria-prima cara atrapalham as vendas
Andrade: real valorizado não atrapalha rentabilidade

Hoje, as exportações representam de 7% a 10% do faturamento da empresa. Mas esse percentual já foi maior. O dólar valorizado e a burocracia, na opinião de Reiszfeld, atrapalham. Apesar das dificuldades, o objetivo é aumentar a participação das vendas externas. “Estamos nos esforçando para buscar novos compradores”, explica. Entre as armas para alcançar a meta, encontra-se a divulgação de outros produtos ainda pouco exportados e com bom potencial de mercado em outros países. Um deles é o bulk-liner, embalagem flexível projetada para forrar contêineres de aço. “Facilita o transporte das cargas, proporciona economia de mão de obra e uma série de outras vantagens.” Outro produto com potencial de mercado no exterior é o Ecobulk, indicado para aplicações como filtragem de materiais sólidos em locais onde corre água contaminada.


Pelas janelas – A venda de cortinas é a especialidade da Belchior, localizada em Santa Bárbara d’Oeste-SP. Com quase 180 funcionários, oferece kits nos quais se encontram suportes, argolas, hastes e outras peças injetadas de polipropileno e poliestireno. A empresa conta com dez máquinas injetoras. “Exportamos há cerca de três anos”, informa Henrique de Andrade, assistente de exportação. Uma das armas da empresa, de acordo com o profissional, é a qualidade e o design dos produtos. A empresa conta com clientes na Guatemala, Paraguai e Bolívia. “A exportação de acessórios de plásticos tem participação pequena no nosso faturamento, cerca de 3%. Mas pretendemos ampliar esse número”, diz. Para atingir esse objetivo, a empresa se associou ao Export Plastic e planeja aumentar sua participação em feiras e eventos internacionais. A estratégia é considerada positiva e o real valorizado não tira o ânimo de Andrade. “Perdemos com a atual queda do dólar, mas trabalhamos com boa margem de rentabilidade.” Para ele, vale a pena exportar mesmo que o valor das vendas apenas empate com o custo da produção. “Acumulamos créditos para abater os impostos e temos outros mercados para recorrer”, ressalta.

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