Resinas Estirênicas: Ampliando o Rol de Aplicações das Resinas

Fabricantes investem para renovar e ampliar o rol de aplicações das resinas

Em muitos mercados, as resinas derivadas do estireno angariaram um leque vasto e bem consolidado de aplicações.

Mais usual entre elas, o poliestireno, por exemplo, tornou-se matéria-prima de produtos de linha branca, embalagens, artigos eletrônicos, itens da construção civil, utilidades domésticas.

Em volumes menores, outros integrantes dessa família – como ABS, ASA e SAN – têm usos também estabelecidos e diversificados em setores como indústria automotiva, eletrodomésticos, equipamentos médicos, construção civil, embalagens de cosméticos.

Essa importante posição mercadológica não resulta, porém, em acomodação dos fornecedores das resinas estirênicas.

Pelo contrário: eles seguem investindo tanto na modernização de sua oferta, adequando-a aos preceitos da economia circular, quanto em novas possibilidades de uso para seus produtos, até para o tradicionalíssimo poliestireno, que este ano completa nove décadas de existência.

Atualmente, estima Marcelo Natal, diretor comercial da fabricante de poliestireno Unigel, cerca de 50% do volume total dessa resina se destina à produção de artigos de uso único, principalmente copos, e embalagens feitas de XPS (poliestireno expandido extrudado), utilizadas principalmente no acondicionamento de alimentos.

O restante vai para componentes de refrigeradores, embalagens para laticínios, componentes para equipamentos eletrônicos e utilidades domésticas.

Mas ele visualiza outras possibilidades de uso; entre elas, o isolamento térmico na construção civil.

Plástico Moderno - Estirênicas - Ampliando o rol de aplicações das resinas ©QD Foto: iStockPhoto
Marcelo Natal, diretor comercial da fabricante de poliestireno Unigel

“Para isso, o EPS é uma excelente opção já consolidada na Europa e que aqui poderia ser mais aproveitada, ao menos nas regiões mais frias”, diz Natal.

Há ainda a perspectiva de substituição por PS de outras resinas estirênicas.

“Já temos resinas homologadas para a produção de tampas de lavadoras em fabricantes que usualmente utilizam ABS nessa aplicação; o PS apresenta desempenho similar em brilho, com custo mais competitivo”, relata o diretor comercial.

Outra produtora de poliestireno, a Innova, também quer avançar no mercado do ABS.

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Andreia Ossig, coordenadora de Tecnologia & Desenvolvimento da Innova

“Ainda em outubro, devemos iniciar uma frente de trabalho que, por intermédio de mistura e blenda de grades com balanço otimizado de resistências mecânica, química e brilho, poderá ser uma boa opção para clientes que atualmente utilizam o ABS em aplicações da linhas branca e de eletrônicos”, ressalta Andreia Ossig, coordenadora de Tecnologia & Desenvolvimento da empresa, citando peças internas de refrigeradores e máquinas de lavar, e tampas traseiras de TVs, como aplicações em que pode ocorrer essa substituição.

Também a impressão 3D constitui um segmento promissor. “É um campo muito vasto para o PS na produção de peças com transparência, rigidez e flexibilidade”, enfatiza Andreia.

Outras estirênicas – O processo de realocação de resinas estirênicas no conjunto das diferentes aplicações pode beneficiar também o ASA, crescentemente utilizado, afirma Luiz Rocha, gerente de marketing e vendas da Toray, em aplicações do setor automotivo, a exemplo de grades e colunas de portas e janelas, tradicionalmente consumidoras de ABS, cujo preço subiu muito nos últimos tempos.

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Luiz Rocha, gerente de marketing e vendas da Toray

“O ASA tem propriedades muito próximas às do ABS, com a vantagem de oferecer maior resistência à radiação UV”, destaca.

Multinacional de origem japonesa com plantas localizadas na Ásia, a Toray comercializa no Brasil resinas de ABS, SAN, ASA e MABS (ABS transparente), além de blendas como ABS/PC e ASA/PMMA.

E projeta expansão do uso do MABS em aplicações como visores de eletroeletrônicos e artigos médicos, como cateteres e adaptadores dos sistemas de tubos.

“O MABS pode substituir materiais como PC e acrílico com processamento muito mais simples, que reduz significativamente o custo final”, enfatiza Rocha.

Fabio Bordin, diretor de negócios da Ineos Styrolution na América do Sul, prevê expansão do uso de resinas estirênicas nas quais haja conteúdo reciclado proveniente de resíduos pós-consumo, integrado aos grades pelas próprias petroquímicas, que garantem aos usuários maior confiabilidade no desempenho e nas características do material.

Apostando nesse movimento, a Ineos Styrolution lançou no ano passado a resina Terluran GP-22 ECO, com versões de 50% ou 70% de ABS reciclado, proveniente de parcerias com empresas da indústria eletrônica, que lhe enviam carcaças recuperadas por logística reversa.

Esse produto, diz Bordin, já está sendo testado no Brasil; em outros países, já é empregado em aplicações como embalagens de cosméticos e componentes de cafeteiras, entre outras.

O Terluran GP-22 ECO se diferencia pelo apelo da sustentabilidade e não por um preço menor.

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Fabio Bordin, diretor de negócios da Ineos Styrolution na América do Sul

Afinal, “a logística reversa para se garantir um reciclado de origem comprovada acaba tornando o produto ligeiramente mais caro que a resina virgem”, observa o profissional da Ineos Styrolution, empresa que no mercado brasileiro de resinas estirênicas atua com ABS, SAN e ASA, além de duas famílias, Styrolux e Styroflex, de copolímeros de estireno e butadieno (SBC) com aplicações especialmente na área médica (no segmento do PS, aqui a empresa apenas abastece clientes globais usuários dessa resina).

Sustentabilidade na pauta – Resinas estirênicas nas quais há conteúdo reciclado não constituem exclusividade da Ineos Styrolution: há cerca de dois anos a Toray lançou uma linha cujos produtos têm três diferentes percentuais – 40%, 60% e 80% – de conteúdo de ABS reciclado.

De acordo com Rocha, no Brasil essa linha está sendo testada em componentes de equipamentos de linha branca que demandam brilho e melhor aparência: molduras de telas, por exemplo.

“Mas ela foi desenvolvida para aplicações automotivas, nas quais as exigências são mais elevadas, e fora do Brasil já é utilizada também nesse setor”, ressalta.

A Innova colocou no mercado em 2019 sua linha ECO-PS, na qual há até 30% de conteúdo reciclado mecanicamente pela própria Innova.

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ECO-PS contém até 30% de poliestireno reciclado

Essa linha, informa Andreia, pode ser utilizada mesmo em peças técnicas, como aquelas empregadas na indústria de refrigeração.

“A natureza química estável do poliestireno faz com que ele não sofra perda de propriedades consideráveis, podendo ser reciclado sem sofrer reações de degradação ou necessitar de uma grande carga de aditivos, como acontece com as olefinas”, ela compara.

Conteúdo reciclado, enfatiza Andreia, não pode atualmente ser utilizado nas embalagens de alimentos, e ainda encontra algumas restrições nas aplicações que demandam padrões estéticos mais elevados.

“Mas já existe uma demanda importante pelo ECO-PS, inclusive em peças para refrigeradores e máquinas de lavar, itens de higiene pessoal (como nos barbeadores), réguas e canetas para o segmento escolar, entre outras aplicações”, detalha.

Na Unigel, a linha de PS na qual há até 30% de conteúdo reciclado recebe o nome de Ecogel. E, de acordo com Natal, excetuando-se aquelas destinadas ao contato com alimentos, ela pode ser utilizada nas mesmas aplicações dos grades virgens.

“Vai crescer a demanda por conteúdos reciclados, os grandes brand owners têm metas para uso desse conteúdo”, observa Natal.

É também possível, aponta, produzir poliestireno proveniente de biomassa (ao menos parcialmente); afinal, o PS do tipo cristal, por exemplo, é composto basicamente por 75% benzeno e 25% eteno.

E já há eteno de fonte renovável, como aquele proveniente de cana-de-açúcar e utilizado pela Braskem para fazer o PE verde.

“O problema é que não há oferta de benzeno de fonte renovável”, destaca o profissional da Unigel.

A Ineos já disponibiliza alguns produtos provenientes de fonte renovável: casos das versões ECO das famílias Styrolux e Styroflex, de SBC, que têm o estireno de origem fóssil substituído integral ou parcialmente por estireno com bioatributos, ou seja, obtido de resíduos de indústrias de celulose ou de material de pós-consumo reciclado.

“Também estamos desenvolvendo, com parceiros, cerca de cinco projetos de reciclagem química, que prefiro chamar de depolimerização, pois, de forma simplificada, revertem a resina ao monômero de estireno, que pode servir para a produção de resina virgem, mas também para outros produtos”, diz Bordin.

Temor de escassez – O poliestireno, especificamente, deve ser este ano comercializado no Brasil em volume 11% superior àquele registrado em 2020, projeta Marta Loss Drummond, especialista em inteligência de mercado de commodities da consultoria MaxiQuim.

Esse desempenho foi ruim no mercado dos descartáveis e, no segmento das embalagens, foi afetado pela queda na produção de alguns alimentos, como os iogurtes.

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Marta Loss Drummond, especialista em inteligência de mercado de commodities da consultoria MaxiQuim

“Por outro lado, cresceram bastante as embalagens para delivery, usualmente feitas de XPS. Nos eletrodomésticos, impulsionados por refrigeradores, o resultado também deve ser bom”, ressalta Marta.

“Favorecido pela construção civil, o EPS, no ano passado muito prejudicado pela pandemia, também deve apresentar algum crescimento”, acrescenta.

Fábio Meireles, gerente comercial de poliestireno da Innova, crê que o avanço mais consistente da imunização contra a covid-19 pode consolidar uma tendência de aumento do uso das diversas resinas, inclusive o poliestireno.

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Fábio Meireles, gerente comercial de poliestireno da Innova

Segundo ele, “ao longo da pandemia e mesmo nas suas etapas mais agudas, a Innova seguiu com seu plano de investimentos”.

E para Andreia, da área de Tecnologia & Desenvolvimento da Innova, “grades com alta resistência química e transparência como o R 940D e o Clear HIPS, respectivamente, apresentam grande capacidade de expansão em novas aplicações”.

Natal, da Unigel, visualiza potencial de maior demanda por novos grades de poliestireno, mais especificamente, de PS de alto impacto com resistência química superior.

“A tecnologia desses grades garante que os gabinetes plásticos internos dos refrigeradores resistam quimicamente tanto ao contato com a espuma de PU – que proporciona o isolamento térmico –, quanto com os próprios alimentos armazenados”, justifica.

No decorrer deste ano, estima o profissional da Unigel, o mercado brasileiro consumirá cerca de 380 mil toneladas de PS, volume similar ao de 2019, ano imediatamente anterior à pandemia.

“Mas a demanda está oscilando muito, pode variar 30% de um mês para outro”, relata.

Também persistem preocupações com a possibilidade de falta de algumas resinas: “Durante todo este ano tivemos problemas para adequar procura e oferta de ABS e de ASA”, relata Rocha, da Toray.

“A situação não está tão dramática quanto no final do ano passado e no início deste, mas acho que principalmente pela demanda não estar muito aquecida: por exemplo, na indústria automobilística, que não encontra chips eletrônicos para manter sua produção”, complementa.

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Peças feitas com Teluran ECO incluem ABS reciclado

No caso do ABS, os problemas de abastecimento talvez não perdurem por muito tempo. Afinal, lembra Bordin, nos próximos cinco anos aumentará consideravelmente a oferta global dessa resina, com a partida de várias unidades novas de produção localizadas na Ásia, uma delas da Ineos Styrolution.

De acordo com Bordin, no primeiro semestre deste ano, a demanda no mercado brasileiro pelos produtos da Ineos Styrolution esteve aquecida, impulsionada por setores como a indústria automobilística e a produção de linha branca.

Mas, nesta segunda metade do ano, essa demanda esfriou. Primeiramente, porque a falta de semicondutores afetou a produção desses setores.

Além disso, “os índices macroeconômicos de confiança do consumidor mostram pessimismo, ainda existe algum receio em relação à perda de emprego”, observa Bordin.

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