Especialistas em soldas para reparo de moldes

Especialistas em soldas para reparo de moldes batalham pela sobrevivência da atividade

Um molde de injeção, mesmo o mais simples, exige investimento considerável para sua fabricação. No caso de peças com design complexo, eles chegam a custar centenas de milhares de reais. O retorno é obtido com a sua utilização constante.

Por isso, ao ocorrer um problema de manutenção, o reparo precisa ser realizado de maneira rápida e eficiente. Quando a quebra ocorre com peças padronizadas, produtos de prateleira oferecidos por fabricantes especializados, a operação é fácil. São os casos dos pinos e buchas, conjuntos extratores e outros componentes encontrados com facilidade nas prateleiras dos fornecedores.

Se o problema atinge peças usinadas com formato específico, em especial as cavidades, a solução é mais complicada. A substituição é cara e demanda prazo longo. Nesses casos, realizar um reparo com solda aparece como alternativa para lá de razoável.

A técnica permite solução rápida e tem preço acessível. A solução vale também quando ocorrem problemas durante a usinagem de peças de moldes novos. E em moldes antigos em perfeito estado, nos quais os transformadores queiram efetuar ligeira mudança no design da peça a ser injetada.

Não faltam empresas especialistas em soldas candidatas a consertar as matrizes. Algumas são tradicionais, trabalham há muitos anos com essa prestação de serviços, como a Loten, Chaves Soldas, Laser Soldas e Armenio Soldas.

Também existem muitas microempresas criadas por profissionais com alguma experiência com a operação. Esses profissionais adquirem o equipamento necessário e passam a trabalhar por conta própria.

A prática tem irritado os representantes mais conhecidos do setor. Para eles, a soldagem é uma operação delicada e precisa ser realizada dentro de padrões de excelência. Isso nem sempre ocorre.

Muitos falam que com a pulverização do mercado, os clientes passaram a fazer leilões, a dar maior importância aos orçamentos do que à qualidade dos reparos. Os preços aviltados dificultam a sobrevivência dos prestadores de serviços sérios, que trabalham para garantir o reúso do molde por um período longo.

Empresas tradicionais também reclamam da concorrência asiática. Não é novidade para ninguém a chegada de muitas peças prontas, em especial da China, fenômeno responsável pela redução da produção de moldes e de dificuldades na indústria de transformação no Brasil.

  • Uma ressalva: quando, em vez das peças prontas, são importados os moldes, há um lado positivo. A má qualidade de muitas ferramentas feitas nos países asiáticos rende mais encomendas para reparos.

“Artesanato” – À primeira vista, a operação de soldagem para efetuar reparos em peças de moldes parece simples.

Na prática, no entanto, exige bastante destreza do profissional que a realiza, algo quase comparável a um trabalho artesanal. Um serviço mal executado pode deixar sequelas bastante negativas. Além de comprometer a durabilidade da ferramenta, corre o risco de provocar marcas indesejáveis nas peças a serem produzidas e outros efeitos colaterais negativos.

Dois são os processos de soldagem utilizados durante a realização da recuperação das ferramentas, o TIG (sigla em inglês de Tungsten Inert Gas) e a solda a laser.

Solda TIG

O primeiro, bem mais usado no Brasil, funciona por meio de um arco elétrico produzido sobre um eletrodo com ponta de tungstênio. A elevada temperatura obtida com a eletricidade ajuda a derreter um fio de metal, material depositado sobre uma cavidade a ser corrigida.

A operação é protegida pela presença de um gás inerte, o argônio. Como o argônio é mais pesado que o oxigênio, este é expulso do local a ser corrigido e evita-se a presença de umidade durante a execução do reparo. A solda TIG apresenta custo muito competitivo e é bastante versátil, resolve quase a totalidade dos problemas.

Solda a Laser

No processo de soldagem a laser (laser welding), o calor proporcionado pelo eletrodo com ponta de tungstênio é substituído pelo resultante da aplicação de um feixe de luz concentrado de alta intensidade. Na operação, também é usado o gás inerte como proteção.

O processo tem custo mais elevado, mas apresenta algumas vantagens, como a redução da temperatura com a qual é derretido o material a ser depositado. Por apresentar desempenho diferenciado, em determinadas aplicações é a única técnica compatível com as necessidades dos clientes.

Um grande desafio para os aplicadores de soldas é escolher o material adequado do fio de metal a ser derretido e depositado nas cavidades.

Esse material precisa ser compatível com a matéria-prima da ferramenta, de tal maneira que depois da execução do serviço o local apresente características similares às do material com o qual o molde foi construído.

 

Palavra dos usuários

Empresas transformadoras tradicionais do mercado atestam a eficácia da operação de soldagem em determinadas ocasiões.

A paulistana Cobrirel, na ativa desde 1972, atua nos dois lados da moeda. Com ferramentaria estruturada, presta serviços para clientes rigorosos, como os ligados à indústria automobilística, de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, entre outros.

Também atua como transformadora. Desde 1989, fabrica utilidades domésticas com ampla linha de produtos. Ao todo, trabalha com aproximadamente 180 moldes de injeção.

“Executamos internamente as operações de soldagem de nossos moldes e também prestamos serviços de soldagem para terceiros”, informa o gerente industrial Dagoberto Donato. Para tanto, a empresa treinou colaboradores e adquiriu o equipamento necessário. “Trabalhamos apenas com solda TIG. É raro, mas quando se torna necessário, contratamos uma empresa especializada em soldagem a laser”, diz.

De acordo com Donato, existem vários fatores responsáveis pelos danos ocorridos nas ferramentas. “Às vezes, uma peça prende e trinca o molde durante o fechamento. Também pode ocorrer falha do operador, mas isso acontece cada vez menos; os processos estão muito automatizados”, explica.

Ele diz que ocorrências do gênero não são muito comuns. “Estamos substituindo os nossos moldes mais antigos.” Garante que mais raros ainda são os danos ocorridos durante a construção de novas matrizes. “A tecnologia das máquinas de usinagem se desenvolveu muito nos últimos anos.”

A Plásticos Regina, empresa localizada em Mauá-SP, atua com força no segmento de embalagens para alimentos. Também produz, em menor escala, peças técnicas. No mercado desde 1957, conta com perto de 30 injetoras e abastece os equipamentos com algumas dezenas de moldes.

Bruno Dedomenici, sócio da empresa, não demonstra muito entusiasmo na hora de usar essa solução. Para ele, mais importante é contar com projetos de moldes bem executados. “Quando o projeto é bem executado, a incidência de quebras se reduz muito”, diz.

A empresa não atua somente com moldes próprios, muitos são dos clientes. Por isso, nem sempre pode opinar sobre a qualidade do projeto. Às vezes, torna-se indispensável partir para a solda. “Não é muito comum”, ressalta.

Para ele, no caso das ferramentas para embalagens, é solução paliativa, tomada para não parar a linha de produção em situações emergenciais. “A substituição da peça danificada se mostra mais recomendável”, sugere. A explicação para essa preferência é simples.

As embalagens produzidas precisam ter aparência perfeita e sempre há o risco de um molde reformado produzir peças com algum tipo de marca. “Nesse segmento, os reparos requerem maior exigência”, resume.

Quando o assunto recai na produção de peças técnicas, eventuais problemas com a adoção da soldagem também incomodam. É mais comum, no entanto, a empresa recorrer ao expediente na hora dos reparos. Não só isso. “Às vezes, o cliente precisa mudar o local de um ponto de encaixe ou outro detalhe na peça injetada e não quer investir na usinagem de cavidades novas.

Adotamos a técnica para fazer pequenas alterações nos moldes”, justifica. A Plásticos Regina, quando necessário, terceiriza o trabalho e contrata empresas especializadas.

Concorrência predatória

A Loten está no mercado há 23 anos e hoje é um dos principais nomes do ramo no país.

É especialista em reparos ou modificações em ferramentas de plásticos e estampos. “O setor de plásticos responde por cerca de 40% do nosso faturamento”, conta o diretor Aparecido de Almeida, conhecido no meio pelo apelido Duca.

A empresa tem sua sede na capital paulista, onde conta com equipe de doze profissionais de soldas, e duas filiais nos municípios de Diadema-SP (três soldadores) e São José dos Campos-SP (dois soldadores).

A Loten é especializada no processo TIG. “Por enquanto, não penso em investir na aquisição de equipamentos para solda a laser”, diz. O fato de a solda a laser ainda ser incipiente no Brasil e o elevado investimento necessário para adotar o método são fatores que não o entusiasmam. “Uma lâmpada de luz laser custa mais de R$ 3 mil e tem vida curtíssima”, lembra.

Para ele, os dois processos não chegam a concorrer com intensidade. “Na maioria das vezes, eles são complementares; a solda a laser é vantajosa em trabalhos mais delicados”, diz.

Isso não significa que bons resultados não possam ser obtidos com o uso da TIG. “Nós conseguimos trabalhar com sucesso em cavidades polidas e texturizadas”, garante. Ele destaca que nos casos em que há concorrência, a TIG se mostra muito competitiva. “O mesmo trabalho custa entre 30% e 40% menos”, diz.

Duca enumera as etapas de um serviço. “Primeiro fazemos um processo de higienização da peça, depois removemos as partes desgastadas”, conta. Em seguida, as peças são submetidas a tratamento térmico em um forno para aliviar tensões. “Nós temos três fornos para aquecer peças de até 600 kg.”

Depois vem a etapa da solda. A escolha do material a ser adicionado é importante. “Para cada tipo de aço usamos um metal com diferente composição química”, explica. É imprescindível que no final do serviço a peça apresente características próximas às suas originais.

Sem falsa modéstia, o diretor exalta a excelência alcançada pela empresa na hora de prestar serviços. Ele enumera alguns diferenciais. “Comecei minha carreira como projetista de moldes para injeção de plástico. Isso me ajuda a compreender os problemas enfrentados pelos clientes, conheço todos os detalhes dos projetos”, ressalta.

A estrutura da empresa também é enaltecida. “Temos capacidade de prestar serviços em nossas empresas ou na fábrica do cliente, quando necessário.”

Toda essa estrutura não tem trazido os resultados esperados. Segundo ele, o mercado está péssimo. Houve queda de 50% nos trabalhos voltados para a indústria do plástico. A concorrência predatória é a principal causa das dificuldades. “Os clientes não pensam na qualidade na hora de contratar os serviços de uma empresa de solda, preocupam-se mais em realizar um leilão”, reclama.

Para Duca, isso ocorre porque hoje em dia qualquer profissional com um pouco de experiência em solda compra uma máquina e sai por aí oferecendo serviços a preços aviltantes. “Do jeito que a coisa vai, daqui a alguns anos não teremos boas empresas no setor e aí os clientes que hoje escolhem os fornecedores pelo preço vão se arrepender”, dispara.

A importação desenfreada de produtos chineses, que tanto atrapalha a indústria brasileira, também não ajuda nada, reclama o diretor da empresa.

 

Diversificação

A forte pulverização do mercado também afeta a Chaves Soldas, especialista em solda TIG há vinte anos no mercado. A empresa, de São Bernardo do Campo-SP, aposta na diversificação para se manter saudável.

Além de prestar serviços para ferramentarias de moldes para plásticos e estampos, realiza trabalhos para empresas dos mais diversos segmentos econômicos e conta com atividade paralela, a construção de tanques de armazenamento para combustível.

O gerente comercial Ricardo Chaves se queixa muito dos profissionais que adquirem uma máquina e saem por aí prestando serviços de má qualidade a preços aviltantes. Ele dá uma ideia das dificuldades geradas pela concorrência desenfreada. “Até 2008, 80% de nosso faturamento vinha das ferramentarias.

Hoje este número está em 40% e a tendência é de em um futuro próximo chegar a 10%”, explica. Também fala sobre a queda de rentabilidade. “Em um trabalho para ferramentarias no valor de R$ 4 mil, nosso lucro é de R$ 1,5 mil. Quando fazemos um tanque de R$ 4 mil, lucramos R$ 3 mil.”

Além dos prestadores avulsos do ramo, ele se queixa dos problemas resultantes da importação desenfreada de produtos asiáticos. “A encomenda de moldes caiu muito, muitas ferramentarias da região do ABC paulista estão falidas”, diz.

De acordo com Chaves, o nicho que ainda sobrevive é o de reparo das ferramentas. Desta vez, muito graças aos produtos chineses. “Uma fornecedora do setor automobilístico adquiriu um lote grande de moldes da China”, conta. “As peças desses moldes não passaram pelo tratamento térmico adequado durante a sua construção e começaram a sofrer danos por desgaste; agora a empresa tem nos contatado para fazer a manutenção”, exemplifica.

O gerente também acredita que no futuro os clientes não terão mais como encontrar empresas de solda preocupadas com a qualidade dos serviços prestados. Faltam incentivos para elas continuarem investindo e uma boa estrutura custa caro. “Nós temos uma frota de catorze carros dotados com equipamentos e mantemos doze soldadores.

Dessa forma, conseguimos prestar serviços nas plantas dos clientes. Corremos risco, precisamos gastar muito com os seguros e a manutenção desses veículos”, diz.

Além disso, a empresa investe na formação de profissionais, forma os jovens para abastecer seu time de colaboradores. “Se não houver rentabilidade razoável, podemos tomar novos rumos; seremos obrigados a partir para outro empreendimento.”

Pioneiras – No Brasil ainda é incipiente a utilização de solda a laser.

Prestadoras do serviço começam a pipocar em regiões próximas aos polos ferramenteiros. No mercado desde 2008, a Laser Soldas, de São Bernardo do Campo-SP, autoproclama-se pioneira no Brasil no reparo de moldes com essa tecnologia.

Daniel Darri, responsável técnico, fala sobre a estratégia da empresa:

Divulgação
Daniel Darri – solda a laser garante menor distorção da peça

“Fomos criados para dar aos clientes a opção de recuperar moldes, evitando a necessidade de gastos com a confecção de peças novas.”

De acordo com o profissional, para atingir o objetivo, conta com profissionais experientes e equipamentos de ponta.

“Utilizamos equipamento a laser tipo YAG-1064. Fazemos trabalhos em moldes de diversos tamanhos e de todos os tipos de matéria-prima”, informa.

De acordo com Darri, a solda a laser oferece alta qualidade no reparo. Entre as vantagens, o processo não superaquece a peça e com isso não danifica a têmpera do material original e garante menor distorção da peça. “Efetuamos trabalhos com alta precisão, todo o processo é acompanhado por microscópio que aumenta dez vezes a visão da área”, emenda. Os trabalhos podem ser feitos em peças espelhadas e com textura química.

A Armenio Soldas Especiais nasceu em 2000, fundada pelos irmãos João, Celso e Gilmar Armenio. Situada em Joinville-SC, a empresa atende encomendas de soldas TIG, além de prestar uma série de outros serviços para setores diversos, e é pioneira na oferta de soldas a laser no estado de Santa Catarina, região reconhecida como importante fabricante de matrizes.

Divulgação
Armenio Soldas Especiais– Processo de solda a laser

“O mercado de ferramentaria de plástico é muito importante para nós, atendemos muitas empresas desse segmento”, explica Bruna Regina da Silva, analista de suprimentos.

De acordo com Bruna, o fato de oferecer as duas opções de serviços é uma vantagem da empresa.

Uma das estratégias é orientar os clientes para fazer o serviço mais adequado caso a caso. “Explicamos a situação e o cliente escolhe o caminho que quer seguir”, diz.

Ela reconhece que a solda a laser é mais cara, mas destaca alguns benefícios dessa tecnologia. “Com ela, o material a ser reparado aquece menos e permite acabamento melhor”, analisa.

Solitário – Antes só do que mal acompanhado.

Esse é o lema de Raul Correa, que sozinho administra a Soldas Leste, da capital paulista.

Há 27 anos no mercado, ele conta que sua empresa já teve oito soldadores contratados. Agora prefere trabalhar sozinho. Especialista na aplicação de soldas TIG, ele não se queixa da falta de encomendas. “Tenho clientes que confiam em mim”, justifica.

Apesar da situação particular na qual se encontra, ele reconhece os problemas vividos pelas empresas do setor, sufocadas pelo excesso de prestadores de serviços. “Tem muita gente que cobra muito barato, mas faz trabalhos de péssima qualidade.

Infelizmente os clientes preferem economizar alguns reais e com isso põem em risco ferramentas que custam muito caro”, avalia. Ele lembra que o soldador deveria ser comparado a um bom médico.

“Quando você quer fazer uma plástica não corre riscos, procura algum nome de nível, como o doutor Ivo Pitanguy. Na hora de consertar uma ferramenta, o cliente também deveria escolher alguém capacitado.”

 

2 Comentários

  1. CONCORDO EM NÚMERO GENERO E GRAU COM A REPORTAGEM, TRABALHO Á 20 ANOS REPARANDO MOLDES PLÁSTICOS, SOU QUALIFICADO PELO SENAI EM SOLDAS, FERRAMENTARIA, ETC. E ESTÁS QUESTOES LEVANTADAS COMO CHINA, QUALIFICAÇAO DOS PROFISSIONAIS, PROFISSIONAIS LIBERAIS QUE TRABALHAM SEM NOTAS FISCAIS, ATRAPALHAM QUEM TEM QUE PAGAR POR DOCUMENTAÇAO PARA MANTER A EMPRESA LEGALIZADA, DOCUMENTAÇAO DE SEGURANÇA POR EXEMPLO (EPIS), NORMAS DAS EMPRESAS CPMO, ETC, QUE SÃO CARAS,
    OBRIGADO PELO ESPAÇO

  2. Concordo plenamente com o argumento do site! Mesmo hoje, sendo um estudante de Tecnologia em Processos de Soldagem rumo ao mestrado, sei que muitos não levam o reparo em moldes a sério. Já trabalhei em uma empresa do sul do Brasil, que quase encerrou suas atividades devido ao mal uso do processo para reparos em uma cavidade de uma empresa multinacional. O soldador reparador não procuro nem saber qual a composição química do metal de base e nem do de adição. Muitos não percebem a gravidade de não estudar os procedimento e parâmetros de soldagem correto.

    Quem qualifica o “cordão” de solda? quais especificações (código) seguir e consultar?
    e a RQPS? as empresas exigem isso do prestador de serviços, que irá realizar o reparo?

    Os qualificados da área devem se unir, pois mesmo realizando simples reparos em moldes de injeção plástica carregamos vidas e empregos em nossas mão e consciência.

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