Embalagens para cosméticos – Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível

O mercado de embalagens investe alto em inovações, para acompanhar de perto o dinamismo da indústria de cosméticos, higiene pessoal e perfumaria. Os transformadores apostam em tecnologias diferenciadas e oferecem ao setor ferramentas capazes de garantir muito mais do que a proteção dos produtos, tornando-os mais atraentes e funcionais. Os termoplásticos reinam nessa função, por assegurar flexibilidade aos designers e apresentar desempenho superior a outros materiais. Até mesmo em aplicações pouco convencionais, como a de perfumes de luxo, as resinas têm boa penetração, graças aos novos desenvolvimentos da indústria.

As embalagens evoluíram muito em resposta aos cosméticos cada vez mais requintados e de altíssima qualidade disponíveis no mercado. E não se trata somente do aspecto visual. Além de seguir as mudanças na aparência dos produtos, as embalagens acompanham os avanços tecnológicos das formulações. Leda Coltro, coordenadora de um grupo de trabalho sobre embalagens para cosméticos do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea)/ Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), relata um exemplo: as composições para tratamento anti-idade requerem propriedades de barreira a gases para evitar a oxidação dos princípios ativos e para manter sua integridade na prateleira. “As embalagens mais sofisticadas são utilizadas para acondicionar produtos também sofisticados”, confirma. De forma geral, é preciso contemplar requisitos de proteção ao produto, ou seja, se o conteúdo for sensível à umidade, exigirá proteção ao vapor d´água, ou se frágil, solicitará resistência mecânica, e assim por diante. “Além disso, a praticidade de uso, a conveniência e o apelo visual estão sempre presentes no projeto das embalagens para cosméticos”, completa Leda.

Os aspectos intrínsecos às formulações do conteúdo a ser embalado também são determinantes em um projeto. Deve-se observar, entre outros, a viscosidade e o comportamento reológico, antes de se decidir por um pote ou frasco, ou entre o frasco e a bisnaga. As características físico-químicas do produto estão relacionadas com possíveis interações da fórmula com o material da embalagem. Exemplos ficam por conta dos sachês para cremes de tratamento de choque para cabelo, nos quais há a necessidade de estruturas laminadas com alta resistência química e barreira ao oxigênio, em virtude da alta reatividade desse tipo de formulação, o que é conseguido com estruturas à base de filme de poliéster, polietileno e alumínio.

Se a embalagem não for apropriada, pode estragar o seu conteúdo, por isso, a importância da barreira contra a contaminação em produtos cosméticos funcionais. Um exemplo fica por conta da embalagem de um creme anti-idade da L´Oréal, o Revitalift, composta de um duplo frasco que permite associar duas fórmulas exclusivas e complementares para o rosto e para o pescoço. “É um ácido retinóico com um veículo que só podem se misturar no ato da aplicação”, comenta Assunta Napolitano Camilo, responsável pelo Instituto de Embalagem e pela consultoria FuturePack – Estratégia e Inovação. Nesse caso, a embalagem de polipropileno (PP) clarificado é separada em duas partes, a fim de se evitar a união prévia do conteúdo.

De acordo com Leda, quanto aos aspectos reológicos, deve-se considerar tanto a etapa de enchimento (quanto mais viscoso o produto, mais difícil do mesmo fluir na máquina e encher a embalagem) como a etapa de consumo. “Não pode ser difícil de remover o produto da embalagem durante o uso, além de que um mínimo de produto deve restar na embalagem, quando o conteúdo for removido”, explica. Seguindo essa linha de raciocínio, estão as válvulas utilizadas em bisnagas plásticas para condicionadores de cabelo que permitem a inversão da embalagem sem que haja perda do conteúdo e cortam o fluxo do produto quando a bisnaga não está sendo comprimida.

A alma do produto – O projeto de embalagem para cosmético não admite muitas falhas. É uma forte estratégia de marketing, ou seja, mais do que algo para proteger o produto, funciona como uma ferramenta de comunicação. “A embalagem traduz a alma do produto”, afirma Assunta. Para Roberto Ribeiro, gerente de vendas – Plásticos Especiais e de Engenharia, da Eastman Chemical, a máxima “nenhum produto ruim é embalado em embalagens sofisticadas” ainda se faz notar no mercado. E quando a pessoa decide comprar um produto para resolver um “problema” estético, esta ideia se torna ainda mais verdadeira. “Digamos que se trate de algo para o rosto, alguém arriscaria comprar um produtinho qualquer para passar no rosto? Não, por isso digo: a embalagem também vende confiabilidade”, explica.

Também existem algumas tendências mundiais a serem consideradas num projeto de embalagem. A conveniência é uma delas. Um exemplo prático fica por conta de uma pulseira de polietileno (PE) para embalar protetor solar. O modelo é um desenvolvimento internacional que ainda não chegou ao Brasil, mas representa uma boa oportunidade para esse segmento, comenta Assunta.

“No cosmético, você não compra só o que precisa, e sim o que quer”, explica Assunta. Por isso, a embalagem assume um papel ainda mais determinante. Os profissionais da área são unânimes ao dizer que aspectos psicológicos estão associados a este tipo de consumo. Ou seja, nem sempre a pessoa opta por um produto em detrimento de outro somente por causa de sua função ou de uma necessidade. Muitas vezes, o status, a sensação de prazer imediato ou simplesmente a atração visual são decisivos.

Plástico Moderno, Assunta Napolitano Camilo, responsável pelo Instituto de Embalagem e pela consultoria FuturePack – Estratégia e Inovação, Embalagens para cosméticos - Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível
Assunta aposta em embalagens funcionais, práticas e dotadas de um design inovador

Pesquisa realizada por uma das maiores fabricantes de embalagens da América Latina, a Dixie Toga, apontou a preferência do consumidor por embalagens mais flexíveis, a fim de aproveitar o produto por completo, evitando o desperdício. Sobre os hábitos dos consumidores de cosméticos, foi constatado que a classe C associa o brilho da peça à qualidade do produto. O levantamento observou ainda a predileção, de forma geral, pelo prateado. Quanto aos formatos, a escolha recai sobre a possibilidade da embalagem estar de cabeça para baixo.

O consumidor final também está mais consciente acerca de questões legais, como ingredientes da formulação, data de validade e eficiência do produto, assim como está mais atento aos aspectos ambientais. E como a embalagem funciona como uma extensão do fabricante do produto, é preciso garantir coerência na mensagem transmitida. Não é à toa que a Natura utiliza 30% de polietileno tereftalato (PET) reciclado na composição dos frascos para óleos trifásicos da linha Ekos.

Plástico Moderno, Fabiana Wu, especialista em marketing – Embalagens & Polímeros Industriais, da DuPont, Embalagens para cosméticos - Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível
Fabiana apresenta ao mercado o Biomax TPS, termoplástico feito com material renovável

Cada vez mais, as pessoas prezam pela sustentabilidade das embalagens. Nessa categoria, o plástico perde um pouco, mas porque, segundo Assunta, a indústria e a sociedade não fazem a “lição de casa”. “O plástico não faz mal ao ambiente, e sim, seu mau uso”, completa. Ela reclama que todas as embalagens deveriam apresentar obrigatoriamente o tipo de material ao qual se refere, para facilitar na triagem, antes da reciclagem.

Com vocação para transformar tendências em prática industrial, a DuPont oferece ao mercado de cosméticos o Biomax TPS, um termoplástico à base de amido para embalagens. O produto se apresenta em forma de chapas, com 85%-90% de materiais renováveis em sua composição, e destina-se à termoformagem de bandejas e outros artigos. Resultado de uma parceria com a australiana Plantic, o Biomax TPS foi desenvolvido para igualar ou exceder, em termos de desempenho, os produtos derivados de petróleo e contribuir para o crescimento da DuPont na área de materiais sustentáveis para a indústria de embalagens. Um tipo de aplicação sugerido se trata das peças moldadas para os mercados de cosméticos e cuidados pessoais. “Pensamos em usá-lo em berços de caixas de perfume, por exemplo”, comenta Fabiana Wu, especialista em marketing – Embalagens & Polímeros Industriais, da DuPont.

Leda sai em favor das embalagens feitas de termoplásticos. Para ela, existe uma distorção no fato de que após o consumo do produto, o que resta é a embalagem e, assim, as pessoas associam-lhe os prejuízos ao meio ambiente. Só se pode ter certezas com um estudo de Análise de Ciclo de Vida (ACV) do produto e de sua embalagem. “A tendência mundial é de que a ACV seja aplicada aos produtos, pois as embalagens somente existem porque precisam acondicionar os produtos e disponibilizá-los ao consumidor”, explica Leda.

Inovação – Dinâmico, esse mercado preza o quesito inovação. O Centro de Tecnologia de Embalagem destaca algumas novidades apresentadas na Interpack 2008, realizada a cada três anos, na Alemanha. O sachê Easysnap, para dose única, é um exemplo de embalagem inovadora da Easypack Solutions, fabricante italiana de máquinas para embalagem. O sachê tem uma das faces rígida, de PET ou de poliestireno (PS), enquanto a outra face é formada por um filme flexível impresso. De acordo com Leda, o sachê foi projetado para ser dobrado ao meio na forma de um “V”, com o auxílio de apenas uma das mãos. Uma vez que o sachê foi dobrado, o produto é expulso da embalagem por um orifício localizado na base do “V”. “O sachê não tem espaço livre, de modo que a ausência de ar permite uma vida de prateleira excelente ao produto”, reforça. Entre as possíveis aplicações, estão os cremes, os sabonetes líquidos, os xampus e os géis.

Na linha de higiene pessoal, ela destaca o desenvolvimento do Rexam, um sistema dispensador para a loção Prodígio, uma nova tecnologia para dispensar o produto que se baseia em um canal atuador fechado mecanicamente, que mantém o ponto de saída do produto limpo, impedindo o contato deste com o ar. A embalagem tem um pistão de PE, acoplado a um frasco de PP, que se desloca à medida que o produto é impulsionado para fora da embalagem, conservando-o livre da presença de ar e, portanto, da oxidação.

O plástico favorece a adoção de uma postura cada vez mais inovadora. A oferta de um toque diferenciado (efeito soft, por exemplo), as inúmeras possibilidades de cor e a flexibilidade de design são apenas algumas possibilidades. A transparência, que está em alta, também pode contar com o termoplástico. Visualizar o produto embalado transmite ao comprador a sensação de segurança. “O uso de embalagens transparentes, quando possível, é sempre bem recebido pelo consumidor”, reforça Leda, do Centro de Tecnologia de Embalagem. O polipropileno (PP) da família Luzz, da petroquímica Quattor, foi utilizado pelo O Boticário, na linha nativa SPA. De acordo com a Quattor, a família, que conta com a aditivação de agentes clarificantes da Milliken, Millad NX8000, traduz características de transparência, brilho, resistência ao impacto e a altas temperaturas, além de leveza.

Plástico Moderno, Alessandra Rodrigues Seitz, diretora-comercial da Neumann Packing, Embalagens para cosméticos - Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível
Alessandra: dispenser airless facilita aplicação e evita desperdício do conteúdo

Novidades – Muitos são os investimentos em novos desenvolvimentos promovidos pela indústria de embalagens para esse mercado. A Neumann Packing, de Piedade-SP, iniciou sua história com peças técnicas voltadas para o setor automotivo, passou pela indústria de alimentos, mas logo se especializou no segmento de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, hoje sua  maior área de atuação. “O cosmético nos dá a possibilidade de oferecer inovação e brincar com tecnologia e sofisticação”, diz a diretora-comercial da Neumann Packing, Alessandra Rodrigues Seitz.

Prova dessa vocação ao novo se revela no lançamento do dispenser airless, uma embalagem de alta tecnologia, com características capazes de facilitar a aplicação – por não ter pescante. O produto envasado também é 100% utilizado, pois não ficam resíduos nas paredes do frasco e, além disso, composta por oito peças plásticas injetadas (tampa, válvula, frasco, embolo e colar de PP; interno de válvula de EVA; fundo de PEAD, e mola interna de PE ou EVA), a embalagem tem o apelo ecológico de ser totalmente reciclável. “O inovador airless protege ainda formulações sensíveis ao ar e aos raios UV”, garante Alessandra. A fabricante sugere a aplicação em produtos que contam com uma porcentagem alta de ativos, porque não correm o risco de alteração de cor, oxidação e contaminação.

Um outro lançamento trazido da Alemanha pela Neumann se refere a uma embalagem air bag. A peça é coextrudada em seis camadas de PP, a fim de conferir barreira ao produto envasado. Uma de suas aplicações seria na chamada cosmecêutica (área de produtos cosméticos com funções farmacêuticas, ou seja, aqueles com penetração no organismo e com atividade biológica). “A embalagem não permite a contaminação entre o plástico e o seu conteúdo”, explica Alessandra. A Neumann também aposta em novidades no ramo de maquiagem. A empresa investiu em 50 moldes para peças injetadas destinadas a esta aplicação. O seu parque industrial conta com 15 sopradoras e 8 injetoras, além de três máquinas de silk-screen.

Novas aplicações – O mercado de embalagens para cosméticos está cada vez maior – a do tipo roll-on, que no passado se restringia ao ramo de antitranspirantes, hoje, ampliou sua atuação para outros produtos, como brilhos labiais e loções. Na Neumann, o roll-on é um dos carros-chefe, em volume de vendas. Com esfera e frasco de PP, a embalagem reflete outra tendência: o uso de monomateriais, para facilitar o processo de reciclagem, em detrimento das embalagens híbridas.

Regido pela beleza, o setor dos cosméticos se alimenta também de designs arrojados. Essa característica se revela nas frasnagas (bisnagas semirrígidas que competem com as bisnagas – peças com base redonda ou oval). Para falar de bisnagas, a Dixie Toga, uma das maiores fabricantes de embalagens da América Latina, é referência. A companhia tem apostado suas fichas no segmento, a ponto de programar para o segundo semestre vários lançamentos, a fim de alavancar sua penetração na área. “Temos metas bastante ousadas”, diz Márcia Rodrigues, do Marketing and Market Development, da Dixie Toga, de São Paulo, sem entrar em detalhes sobre os novos produtos. A unidade de tubo laminado deve representar cerca de 40% do mercado de cosmético da Dixie Toga. Hoje, a participação ainda é pequena.

Não são só os lançamentos, no entanto, que garantem o sucesso de um transformador do ramo. Segundo Juliana Batista da Silva, da área comercial de tubos laminados da Dixie Toga, a flexibilidade em lote de produção, por se tratar de um mercado muito segmentado; a rapidez na entrega e o serviço também são importantes. A Dixie Toga, de acordo com ela, atende a essas exigências e apresenta ainda soluções completas ao cliente.

Em substituição às bisnagas de alumínio ou do tipo coextrudadas, a empresa aposta nas bisnagas laminadas. Fabricado em PE, o tubo é oferecido de duas formas: com barreira de alumínio, para o mercado farmacêutico, ou de álcool polivinílico (EVOH), para o segmento cosmético. Juliana destaca algumas vantagens: a qualidade de impressão superior (a impressão é feita antes de formar o tubo), o baixo custo de produção e a possibilidade de melhorar o desempenho do equipamento de envase.

Plástico Moderno, Hermes Contesini, porta-voz da entidade e responsável pelas relações com o mercado, Embalagens para cosméticos - Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível
Para Contesini, PET se destaca por causa da sua versatilidade

A ideia é ampliar a aplicação dos tubos laminados para áreas ainda pouco usuais. Um exemplo seria a substituição do frasco dos protetores solares por este tipo de bisnaga. “É uma forma de reduzir o preço do produto, tornando-o mais acessível”, comenta Márcia. Além desse beneficio, há de se considerar a praticidade de aplicação. Outras utilizações do tubo laminado poderiam ser: cremes de tratamento capilar, para barbear e mãos, além de sabonetes líquidos e na linha dermatológica, de forma geral. Hoje, a bisnaga é usada em cremes dentais e em algumas peças específicas da categoria de farmacêuticos. O avanço da cosmecêutica pode ajudar a companhia a melhorar a aceitação de seus tubos laminados. Esse tipo de embalagem deve abocanhar a participação de mercado, sobretudo do frasco. De momento, o tipo mais consumido é a bisnaga de PE com barreira de alumínio. No exterior, há também bisnagas de PET, mas o que deve ser tendência mesmo por aqui é a embalagem de base PE.

Além das bebidas – De um modo geral, os plásticos predominam entre os cosméticos, apesar de o vidro dominar as embalagens para esmalte de unhas e perfumes. As resinas normalmente utilizadas nos frascos são: PP, polietileno de alta densidade (PEAD) ou PET, este último quando se deseja transparência. O polietileno de baixa densidade (PEBD) é usado nos tipos squeeze. O polímero de PET tem despertado forte interesse da indústria de cosméticos. Apesar de não possuir dados específicos sobre a penetração da resina no setor, a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet) observa o seu uso, cada vez maior. De acordo com o porta-voz da entidade e responsável pelas relações com o mercado, Hermes Contesini, as características do PET abrem as portas para este setor. Translúcida, de grande resistência a impactos, e com brilho intenso, a resina oferece, além da proteção, muitos ganhos de imagem ao cosmético, sobretudo em virtude de sua versatilidade. “O PET é capaz de envasar qualquer produto, desde água até molhos bem agressivos”, diz Contesini. Outro ponto salutar se refere à reciclabilidade do PET: trata-se do termoplástico mais reciclado no país. No entanto, apesar da importância dessa característica, o fator determinante ainda é o aspecto final da embalagem conferido graças às suas propriedades.

Em tempo: a Associação Brasileira de Embalagem (Abre) estima que o mercado de embalagem plástica em 2009 absorverá 461 mil t de PET, o que configura, por peso, o maior consumo entre as resinas. Apesar desse cenário anunciado, o PET ainda esbarra em alguns desafios antes de penetrar com força nos cosméticos. Julio César Leite, diretor-comercial da Amcor Packaging, uma das maiores empresas de embalagens do mundo, prevê que esse tipo de aplicação se volte mais para companhias de pequeno e médio portes, sobretudo porque as maiores têm interesses em altas produções, no caso, os setores de refrigerante, óleo comestível e água – as três categorias juntas somam mais de 90% do consumo brasileiro de PET.

Essa ideia embute outra questão: pelo menos por enquanto, as embalagens cosméticas estão fadadas aos processos de um estágio (ciclo quente), em que a máquina injeta a pré-forma, que é soprada em seguida. Os processos de dois estágios (ciclo frio – a pré-forma é produzida numa injetora e soprada em outra máquina) ainda não são usuais por parte da indústria de cosméticos. “Os volumes desse segmento são pequenos comparados aos do refrigerante, do óleo comestível e da água, além disso, trata-se de um mercado fragmentado”, explica Contesini. De qualquer maneira, tanto o mercado do PET como o do cosmético têm muito a ganhar com o fortalecimento dessa relação. Apesar do molde não ser barato e ser necessário justificar o investimento, o mercado cosmético, para Contesini, é de alto valor agregado. Ou seja, no caso de uma categoria de produtos premium, por exemplo, a embalagem pode ter um custo superior.

Plástico Moderno, Silvério Giesteira, diretor de vendas – América Latina na área de Embalagens e Polímeros Industriais da DuPont, Embalagens para cosméticos - Sofisticação e requinte ditam as regras do setor e impulsionam desenvolvimentos de alto nível
Giesteira: o plímetro Surlyn permite a fabricação de peças complexas, resistentes e leves

A Amcor PET Packaging, de Jundiaí-SP, atua em setores de grandes volumes. De alguma maneira, a empresa tem participação no mercado de higiene pessoal – vende para os líderes de mercado de antisséptico bucal e para a Johnson & Johnson (todos os frascos de PET da companhia são da Amcor). Para Leite, de forma geral, ainda há muitas oportunidades no mercado brasileiro. “O PET é uma das resinas mais atraentes entre os termoplásticos”, explica. Ele afirma também que ainda existe um preconceito injustificável acerca do impacto ambiental do PET, o que prejudica, no entanto, o avanço da resina. Outro aspecto a ressaltar se trata dos hábitos dos consumidores. Em outros países, as indústrias de alimentos e bebidas consomem muito mais PET do que no Brasil. “O mercado de cosméticos virá numa segunda onda de consumo, a primeira será de alimentos, como molhos, e bebidas, como suco e leite”, exemplifica. O PET conta com algumas características bastante convidativas: além daquelas já amplamente divulgadas, no caso da perfumaria, garante a não-oxidação da fragrância.

Sofisticação – Outras oportunidades para os termoplásticos nesse mercado estão despontando em áreas antes dominadas por outros materiais. De forma geral, o plástico está penetrando em redutos do vidro, como a perfumaria de alto padrão. Por isso ou por causa disso, a DuPont aposta as suas fichas no polímero Surlyn, da classe de ionômeros de moldagem e de extrusão, criados de copolímeros ácidos da própria DuPont. De acordo com a empresa, a partir de graus de copolímeros de peso molecular selecionado, como ácidos de etileno/metacrílico, a DuPont adiciona zinco, sódio, lítio ou outros sais de metais. A neutralização ácida resulta na formação de agrupamentos de íons (daí o termo geral “ionômero”) dentro da matriz do polímero resultante. Por isso, as resinas Surlyn incorporam muitas das características de desempenho dos copolímeros originais baseados em etileno, como a resistência química, a faixa de fusão, a densidade e características básicas de processamento.

A aparência é a do vidro, com a vantagem de ser leve e resistente. Além disso, possibilita a produção de peças com paredes grossas, sem bolhas e sem variações dimensionais. “Uma grande vantagem é que o convertedor pode fazer peças com formas bastante complexas”, afirma o diretor de vendas – América Latina na área de Embalagens e Polímeros Industriais da DuPont, Silvério Giesteira. A principal aplicação se vê em tampas, no entanto, um dos cases da companhia se refere ao pote de um produto da linha VitActive, para a linha anti-idade de O Boticário. O Surlyn foi desenvolvido, inicialmente, para agir como selante. A área de cosméticos é uma das mais recentes para a resina e hoje o produto é o carro-chefe do segmento para a DuPont.

A companhia ambiciona ampliar as aplicações do Surlyn para os frascos. A intenção tem um porquê. As embalagens em formato de frascos são as mais populares no mercado cosmético. “Pretendemos entrar nesse segmento no ano que vem, transferindo a elegância que existe na tampa para o frasco ”, exemplificou Giesteira. A ideia é expandir a participação no setor, hoje a DuPont cresce cerca de 25% ao ano no mercado de cosméticos.

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Ribeiro: conceito Glass Polymer oferece o luxo do vidro com benefícios

A Eastman Chemical também busca conferir sofisticação às peças, com as resinas Eastar, que transmitem o conceito Glass Polymer: de altas resistência e transparência, assemelhando a embalagem plástica ao vidro. Formado por famílias de resinas copoliésteres e celulósicas, o Glass Polymer é um conceito que propicia ao setor a produção de peças com espessuras altas, como, por exemplo, com 40 mm ou ainda mais espessas e com boa resistência química. “Este leque de características o habilita a ser aplicado em vários subsegmentos do mercado de cosméticos”, comenta o gerente de vendas Ribeiro. Para ele, outra vantagem salutar é a possibilidade de se produzir lotes econômicos, com custos bem menores do que os de vidro, considerando até mesmo a pigmentação das peças. Segundo Ribeiro, o Glass Polymer tem muito a oferecer, porém, até o momento, foi muito pouco utilizado.

A quebra de frascos durante a fabricação, se forem de vidro, pode acarretar às empresas grandes perdas e/ou prejuízos. Esse é um dos motivos pelos quais o Glass Polymer pode fazer a diferença, segundo a própria Eastman. A companhia possui projetos em andamento para lançamentos, em curto prazo no Brasil e no exterior, de produtos que imprimem o conceito. “Infelizmente, não poderemos dar maiores detalhes por razões de sigilo industrial”, explica Ribeiro. Algumas referências do passado demonstram a força dessa ideia: os laboratórios Lancôme, da L´Oréal, selecionaram o Glass Polymer para sua utilização em embalagem moldada por injeção do Secret de Vie, produto para cuidados do rosto. A marca de origem francesa Anna Pegova, por sua vez, usou a resina Eastman Eastar GN 046, integrante da família de produtos Eastman Glass PolymerTM, por meio do processo de sopro convencional, conhecido no mercado como EBM (Extrusion Blow Molding). A criação dessas embalagens passou pela possibilidade de fabricar produtos luxuosos, com detalhes que lembrassem estilhaços de vidro. No entanto, os frascos deveriam ter leveza e inércia química; por isso, o designer optou por utilizar a família da Eastman.

A sofisticação está em alta e rende diversos desenvolvimentos das indústrias de transformação. Apesar de não serem recentes, a MBF Embalagens (ex-Augros) tem alguns cases de sucesso, como a linha Fotoequilíbrio, da Natura. Trata-se de um item chamado bag on valve, que tem o conceito de spray contínuo. “É como no aerossol: enquanto mantemos o atuador pressionado, o produto permanece sendo dispensado e conserva o material puro dentro da lata”, explica a gerente de marketing da Aptar B&H Embalagens e MBF Embalagens, Fabiane Nunes. Segundo ela, para o envase, não são necessários cuidados tão especiais quanto os destinados ao aerossol, já que não tem o gás propelente como ingrediente.

Outra inovação diz respeito ao Sérum Akinésine Combleur Rides, da Anna Pegova. Trata-se de uma embalagem airless que protege o conteúdo, sem precisar acrescentar conservantes à formulação. “Essa embalagem mantém a pureza e a integridade da fórmula, além de oferecer maior eficácia ao resultado”, exemplifica Fabiane. Ela cita também alguns lançamentos que embutem o conceito de “solução completa”, como a tampa MBF e a bomba Aptar, desenvolvidas para os produtos Glamour (de O Boticário), Seda Serum (da Unilever) e Liiv Bothanicals (da Avon), entre outros.

Desde 2007, a Augros mudou de nome para MBF Embalagens, no entanto, sua história remonta outra época. A multinacional norte-americana AptarGroup adquiriu em 2006 a Augros do Brasil, a fim de oferecer uma solução completa ao mercado, junto à Aptar B&H Embalagens, a plataforma de serviços do grupo para as fábricas de dispensadores das marcas: Airless Systems, Emsar, Indigo, MBF Plastiques, Pfeiffer, Seaquist Perfect, e Valois. A AptarGroup, líder em design e na fabricação de sistemas dispensadores, possui um portfólio de cerca de 250 itens somente em bombas, válvulas e dispensadores, em geral, destinados às indústrias de cosméticos, perfumaria, higiene pessoal, limpeza e farmacêutica.

A companhia transforma resinas diversas: em injeção, PS, PP, PE, Surlyn, ABS e PCTA; e no sopro, PE, PP e PETG. O Surlyn, da DuPont, e a resina da família Eastar, da Eastman, são matérias-primas bastante utilizadas na MBF Embalagens. “O Surlyn é uma resina com uma transparência cristalina, toque aveludado, agradável e que permite total liberdade ao designer no momento da criação do produto, enquanto a resina da Eastman é um material pouco visto, desafiador, que traz transparência e elegância únicas ao produto”, comenta a gerente de marketing. O Surlyn é empregado em tampas de perfumes de luxo e a família Eastar, da Eastman, na fabricação de potes de tratamento da linha facial da Natura.

Balanço – Nem é preciso ser adepto da tradição budista para saber que tudo tem um lado bom e um ruim, portanto, representantes da indústria, como Silvério Giesteira, da DuPont, acreditam que a crise mundial pode representar boas oportunidades para os fabricantes nacionais de cosméticos. Para o diretor, o consumidor brasileiro vai evitar os importados, sobretudo porque a indústria nacional de cosméticos não deve nada para a estrangeira, em quesitos de qualidade e de inovação. Márcia, da Dixie Toga, também está otimista quanto aos novos rumos do setor. “Mesmo com a crise, o consumidor não para de comprar cosméticos, o que pode acontecer é preferir um produto mais barato”, ela afirma.

Esse mercado não se resume à beleza aparente de suas embalagens, pois embute também cifras numerosas. Em meio à crise econômica mundial, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos deverá, em 2008, apresentar faturamento 8,6% superior ao do ano anterior, o que totalizará R$ 21,2 bilhões. Apesar de essa indústria estar acostumada a avançar mais (no acumulado de doze anos, houve crescimento médio deflacionado de 10,9%), esses números estão acima de outros setores. De acordo com estimativas da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), esse mercado é o único do complexo químico – que inclui as indústrias de produtos de limpeza, farmacêuticos, tintas e fertilizantes – a apresentar superávit em sua balança comercial. O ano será encerrado com exportações no valor de US$ 650 milhões versus US$ 450 milhões em importações, ou seja, uma balança comercial positiva de US$ 200 milhões.

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