Embalagens: Avanços tecnológicos melhoram o desempenho dos plásticos e ampliam sua presença no mercado

Plástico Moderno, Contêiner e tambor plásticos, da Greif
Contêiner e tambor plásticos, da Greif

Dividindo com o aço o espaço reservado às matérias-primas utilizadas na produção de embalagens industriais, o plástico, para ampliar sua competitividade nessa disputa, deve continuamente incrementar sua performance nas mais diversas vertentes mercadológicas: custos, sustentabilidade ambiental, qualidade para garantir a segurança no transporte de produtos perigosos, entre outras.

Plástico Moderno, Cunha: EVOH forma barreira para acondicionar produtos voláteis
Cunha: EVOH forma barreira para acondicionar produtos voláteis

Não há, importante lembrar, grandes variações nos processos básicos próprios dessa indústria, cujos produtos – ao menos em suas versões rígidas –, adotam o PEAD como resina hegemônica, e são construídos por máquinas de sopro (geralmente, com uma extrusão preliminar). Isso vale tanto para as embalagens rígidas menores – frascos, cuja capacidade máxima atinge um litro –, quanto para os grandiosos IBCs (Intermediate Bulk Containers), aptos a armazenar aproximadamente mil litros, passando por bombonas e tambores com capacidades geralmente situadas entre 5 e 200 litros.

Considerando essa relativa uniformidade de técnicas e matérias-primas, percebe-se quão importante pode ser para as empresas desse setor o investimento para aprimorar seu aparato produtivo. Ou, como observa Luiz Francisco da Cunha, CEO da Schütz Vasitex: “para conseguir ganhos qualitativos e de custos nessa indústria, é necessário investir em tecnologia de produção e processos”.

Ele cita, como tecnologia atualmente capaz de constituir diferencial relevante para os fabricantes de embalagens industriais, o sistema de controle de espessura das paredes denominado pela sigla PWDS, hoje presente nas máquinas com as quais trabalha a Schütz Vasitex. Controlando de maneira mais precisa essa dimensão, tal tecnologia permite sensível redução no peso dos produtos. “O mercado hoje homologa bombonas de 50 litros com peso médio de 2,3 kg, e em nosso caso esse peso médio é de 2,1 kg”, compara Cunha, cuja empresa produz, além de bombonas, também tambores e IBCs plásticos – na fabricação destes, utiliza apenas os equipamentos produzidos na Alemanha pelo próprio grupo Schütz.

Plástico Moderno, IBC feito com multicamadas aproveita tecnologia própria
IBC feito com multicamadas aproveita tecnologia própria

Na Greif – cujo portfólio inclui frascos, bombonas, tambores e IBCs –, as máquinas mais novas também são dotadas da tecnologia PWDS, conta Gustavo Melo, gerente de marketing na América Latina. Com isso, ele destaca, a Greif consegue reduzir de 1.150 g para 980 g o peso médio de uma bombona de 20 litros.

Em sua plantas, diz Gustavo, a Greif mantém máquinas dos mais renomados fabricantes de sopradoras – entre elas, as do fabricante alemão Wille Mille –, mas em suas atuais análises de investimento considera também a alternativa de aquisição de máquinas asiáticas, até há algum tempo associadas ao conceito de ‘baixa qualidade’. “Obviamente, avaliamos também se os fornecedores asiáticos atendem a requisitos de assistência pós-venda e peças de reposição, mas posso dizer que seus equipamentos hoje apresentam uma relação custo/benefício atraente”, enfatiza Melo.

Essa diversificação dos fornecedores de equipamentos pode ser interessante porque, de acordo com Jens Kienen, gerente de desenvolvimento de produtos da operação brasileira da Mauser e gerente da unidade mantida por essa empresa em Suzano-SP, cresce nessa indústria a demanda por PEAD com maior peso molecular, capaz de conferir às embalagens maior resistência a danos na superfície pela ação de produtos químicos (em termos mais técnicos, maior resistência ao environmental stress cracking, também designado pela sigla ESCR). “São necessárias máquinas desenhadas especificamente para trabalhar com PEAD de maior peso molecular, ainda inexistentes no mercado brasileiro”, afirma Kienen.

Além de maior resistência ao ESCR, uma embalagem industrial, complementa o profissional da Mauser, precisa também se tornar cada vez mais resistente ao empilhamento, característica diretamente relacionada à densidade do plástico com o qual ela é feita (considerando-se a mesma espessura de parede, quanto maior a densidade do plástico maior essa resistência). “O desafio da indústria petroquímica é oferecer bom balanceamento entre stress cracking e resistência; a Braskem, trazendo novos catalisadores, tem evoluído bastante no atendimento dessa exigência, especialmente nos últimos dois anos”, relata.

No Brasil, a Mauser disponibiliza frascos, bombonas, tambores e IBCs. Na fabricação desses dois últimos gêneros de embalagens, utiliza apenas equipamentos produzidos na Alemanha pelo próprio grupo.

Plástico Moderno, Renata: futuro exigirá reduzir complexidade das multicamadas
Renata: futuro exigirá reduzir complexidade das multicamadas

Composição de resinas – Redução do peso dos produtos via desenvolvimento de paredes mais delgadas é resultado atingido também no segmento das embalagens industriais obtidas via extrusão, como as bolsas plásticas – ou bags –, produzidas pela Embaquim com capacidades variando entre 800 ml e 1.000 l (nessa empresa essas bolsas são qualificadas como ‘sistemas de embalagens’, pois elas são utilizadas inseridas em outros gêneros de embalagens, como caixas de papelão ou madeira, embalagens semirrígidas e contentores de aço, entre outras).

Renata Canteiro, diretora técnica e responsável por P&D na Embaquim, conta que as espessuras dos bags feitos pela empresa em PE – carro-chefe de seu portfólio –, podem ser reduzidas em 20% a 30%, em comparação ao que havia se fazia há cerca de três anos. “Essa redução é obtida especialmente com blendas nas quais se combinam mais exatamente a linha de metalocênicos do PE com outros gêneros lineares desse plástico”, explica.

Mas, ao lado dos produtos simples de PE, a Embaquim hoje oferece também opções de bags multicamadas, compostos com mais de um gênero de plástico. Um deles, lançado há aproximadamente quatro anos, combina PE e PET metalizado, e é empregado em aplicações como o envase de adesivos utilizados em laminação (na qual pode substituir os tambores de aço).

Há ainda uma bolsa confeccionada com PET, PP e uma camada de alumínio – similar aos pouches nos quais são acondicionados alguns determinados produtos alimentícios –, utilizados para o transporte de adesivos poliuretânicos. “Temos também um produto com uma barreira de EVOH, empregado, por exemplo, para o acondicionamento de vinho”, especifica Renata.

Ela prevê: assim como já ocorre em alguns segmentos da indústria focada no consumidor final – caso da fabricação de alimentos –, também no mercado das embalagens industriais haverá um movimento de expansão das embalagens feitas com plásticos em multicamadas, capazes, segundo Renata, de substituir com vantagens as embalagens rígidas. “Têm, entre outras, vantagens nas questões associadas à sustentabilidade ambiental, pois relativamente ao aço elas consomem menos matéria-prima e seu descarte é mais simples, pois são colapsáveis”, justifica a profissional da Embaquim.

Porém, de acordo com Renata, em algum momento será necessário pensar na redução da complexidade das estruturas coextrudadas, com a simultânea busca por embalagens monocamadas com as mesmas propriedades. “A reciclagem das embalagens multicamadas é um processo caro, e energeticamente inviável com as tecnologias atuais”, explica.

Na Schütz Vasitex, o portfólio inclui um IBC de seis camadas com características antiestáticas, apto receber produtos com potencial explosivo (EX) e também dotado de uma barreira de EVOH, próprio portanto para produtos voláteis e que requerem maior proteção quanto a fatores como permeação. “Essa barreira é importante para produtos que precisam permanecer armazenados durante período maior de tempo, como os agroquímicos, ou não podem sofrer nenhum tipo de contato com o ambiente externo, como alimentos, cosméticos e componentes farmacêuticos”, detalha Cunha. “A tecnologia de IBCs EX e barreira EVOH com seis camadas é exclusiva da Schütz Vasitex no Hemisfério Sul, e do grupo Schütz em âmbito mundial”, afirma.

A Schütz Vasitex fornece também IBCs de três camadas com característica antiestática – decorrente de aditivação – e IBCs monocamada (single laye’). “O modelo single layer ainda é responsável pelo maior volume de vendas, mas vem crescendo o uso dos multicamadas, cada vez mais usados em substituição a tambores e contentores metálicos”, salienta o CEO da empresa.

Também a Greif oferece IBCs multicamadas antiestáticos, e no rol de suas embalagens multicamadas inclui também frascos e bombonas (até 20 litros), dotados de barreira interna feita de EVOH (álcool polivinílico) ou poliamida. O EVOH, explica Melo, é mais usado nas embalagens menores, por geralmente constituir barreira mais eficaz, enquanto a poliamida é integrada àquelas de maior capacidade, por apresentar melhor desempenho mecânico.

De acordo com Melo, essas embalagens coextrudadas são geralmente utilizadas para acondicionar agroquímicos produzidos com solventes aromáticos. “Nossos produtos monocamada ainda geram a maior parte das vendas, mas as embalagens CoEx são a cada dia mais usadas para esse gênero de produtos, pois evitam que eles reajam com o PE e possam danificar a embalagem”, diz o representante da Greif.

Plástico Moderno, Maddaloni: fios de PP condutivo reduzem risco de explosões
Maddaloni: fios de PP condutivo reduzem risco de explosões

Especificidades e possibilidades – No segmento dos big bags, um movimento relatado por José Maddaloni, diretor-geral da Topack, é o aumento do interesse por produtos dotados de um sistema interno de travas (assim como o próprio bag, também construído com PP). Essas travas, ele explica, evitam a deformação dos bags, facilitando o transporte e o armazenamento, e até conferindo melhores características estéticas. “Esses produtos vêm sendo muito utilizados por setores como agronegócios – para soja, por exemplo –, e pela petroquímica, para transporte de polímeros”, especifica o diretor da Topack.

De maneira geral, pondera Maddaloni, o big bag é um produto já “bem resolvido”, para o qual é difícil pensar em grandes inovações. É atualmente oferecido, inclusive pela Topack, em versões aptas a atender a diversas necessidades mais particulares. Por exemplo, com um liner interno feito de PE, com o qual ele se torna apto a receber produtos cujo valor exige a reduzir as perdas ao mínimo (casos, entre outros, de açúcares especiais e de determinados ingredientes farmacêuticos).

Há ainda, ele complementa, bags condutivos, concebidos para ambientes onde há risco de explosão. Neles, o fio comum de PP é combinado na trama com outro no qual esse polímero é extrudado com um negro de fumo especial, com capacidade condutiva. “Quanto mais próximos estiverem na trama esses dois tipos de fios, maior será a segurança. Mas não conheço quem já use isso aqui no Brasil, pois esses produtos são mais caros”, destaca Maddaloni.

Plástico Moderno, Desenho e construção dos big bags evoluem continuamente
Desenho e construção dos big bags evoluem continuamente

Já no segmento das embalagens rígidas, embora não seja possível alterar as dimensões convencionais dos produtos para não haver interferências nos sistemas de envases de seus usuários, muitos deles hoje automatizados, é possível pensar em evoluções de design capazes de resultar, por exemplo, em alterações nas estrias colocadas nas laterais das embalagens para ampliar sua resistência à compressão própria do empilhamento, e nos raios incluídos nos fundos e nos topos com a finalidade de aumentar sua resistência a quedas. “Entre outras, um design diferenciado pode significar estrias e raios maiores”, exemplifica Kienen, da Mauser.

A Greif, conta Melo, a partir de inovações no design desenvolveu bombonas coextrusadas – batizadas DoubleGreen COEX 10 litros –, que ao contrário de embalagens similares não precisam ser acondicionadas em caixas de papelão durante sua utilização logística, pois podem ser empilhadas umas sobre as outras. Tais bombonas, ele prossegue, podem opcionalmente ser confeccionadas com o PE verde (polietileno de cana-de-açúcar).

Além de posicionadas com os apelos da sustentabilidade ambiental – daí seu nome –, as bombonas DoubleGreen COEx, ressalta Melo, trazem a certificação da Organização as Nações Unidas para o transporte de produtos perigosos. E a Greif, ele complementa, hoje disponibiliza uma ferramenta, denominada Green Tool, com a qual é possível avaliar o ciclo de vida de seus produtos em todos os possíveis impactos ambientais: na pegada de carbono, no consumo de água, na acidificação, entre outros.

Mercado – Difícil, sem dúvida, encontrar em alguma empresa em operação no Brasil projeções de desempenhos muito favoráveis na complexa conjuntura econômica atual. Mais complicado ainda localizar tal gênero de perspectiva em mercados – como é o caso daquele composto pelas embalagens industriais – cujos negócios são realizados exclusivamente com a já há tempos castigada indústria nacional.

O dólar, agora mais valorizado perante o real, de alguma forma até pode ajudar um pouco essa indústria, seja diminuindo a competitividade da importação concorrente, seja dando-lhe algum alento na disputa por negócios em outros países. Em contrapartida, há a possibilidade de movimentos capazes de conter ainda mais o desenvolvimento dos negócios dos fabricantes de embalagens industriais.

Um deles é citado por Melo, da Greif. “Com o barateamento da energia nos Estados Unidos – pelo uso do gás de xisto –, a indústria química está realizando muitos investimentos naquele país e isso pode ampliar a importação de produtos químicos, que já vêm embalados”, ele lembra. “O dólar alto pode conter um pouco as importações, mas de maneira geral não deve haver este ano expansão dos negócios com clientes em setores como o químico e a indústria de lubrificantes. Talvez apenas os agronegócios sejam mais favorecidos pelo câmbio”, complementa Melo.

Plástico Moderno, Sacos aluminizados suportam exigências severas de clientes
Sacos aluminizados suportam exigências severas de clientes

Cunha, da Schütz Vasitex, também observa demanda contida em praticamente todos os principais mercados do setor: químico, petroquímicos, cosméticos (e, em menor escala, mesmo naqueles focados no atendimento de necessidades mais básicas, como alimentos e agronegócios). E há, ele acrescenta, uma causa adicional de inquietação: trabalhando atualmente com elevados índices de ociosidade, a indústria de embalagens instalada no Brasil começa a ser confrontada com problemas de inadimplência e com solicitações para a postergação de pagamentos. “É complicado atuar nessa situação quando se tem um único fornecedor matéria-prima”, ele ressalta, referindo-se à Braskem e seu PE.

Mas Cunha prevê ao menos uma expansão do uso dos IBCs, em detrimento das embalagens menores, pela atribuição aos fabricantes de produtos, pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, da responsabilidade também pela destinação das embalagens com as quais trabalham. E é, ele argumenta, mais fácil e menos custoso trabalhar essa logística quando se utilizam embalagens maiores, com as quais, além de uma distribuição menos pulverizada, há menos matéria-prima a ser reciclada. “Um IBC de mil litros utiliza 15,5 kg de PE, enquanto para 20 bombonas de 50 litros cada uma são necessários cerca de 55 kg”, compara.

Maddaloni, da Topack, também antevê 2015 como um “ano difícil”, mas percebe oportunidade de incremento do uso de big bags na indústria do cimento, onde as entregas de volumes maiores são geralmente realizadas com embalagens de papel, ou a granel, em caminhões especificamente adequados para essa finalidade, que precisam retornar vazios após a entrega, encarecendo assim o processo .

Também pode se estabelecer para os big bags um mercado de armazenagem de resíduos altamente tóxicos, que exigem embalagens com altíssima resistência, com características como elevado peso por área e tratamento anti-UV. A própria Topack começa agora a desenvolver big bags desse gênero para um cliente de um país do Cone Sul, que precisa lidar com um resíduo altamente venenoso. “Eles terão um liner interno muito resistente, e serão feitos com tecidos com peso médio de 550 gramas por m2: atualmente nossos produtos mais resistentes não atingem sequer metade disso peso, têm algo em torno de 250 gramas por m2″, detalha Maddaloni.

Além de disputar um mercado pouquíssimo aquecido, os fabricantes de embalagens industriais precisam lidar com novas composições em suas matrizes de custos: “Antes, a matéria-prima representava algo entre 70% e 80% dos custos de nossos produtos, mas agora esse índice está na faixa de 60% e 70%, pois subiram muito os custos relacionados a insumos como energia e água”, destaca Kienen, da Mauser.

Para se posicionar melhor nessa conjuntura, no ano passado a Mauser consolidou em sua planta de Suzano toda a produção brasileira de embalagens (antes, desenvolvida também em Belfort Roxo-RJ). “Simultaneamente, dotamos a planta de Suzano de oito sopradoras e altíssima performance”, finaliza Kienen.

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