Embalagem – Setor precisa investir mais na inovação de produtos

Plástico Moderno - Morangos embalados com poliéster Peelable, da Terphane
Morangos embalados com poliéster Peelable, da Terphane

Não está fácil fazer previsões econômicas, mas especialistas acreditam que até 2024 o segmento de embalagens no Brasil deve crescer em torno de 1,6% ao ano. A Associação Brasileira de Embalagens (Abre) não divulgou o resultado obtido pelo setor no ano passado, mas representantes do setor estimam ter havido crescimento em torno de 1%. Em 2018, de acordo com a associação, o setor movimentou R$ 78,5 bilhões. O plástico foi o material mais utilizado, respondeu por R$ 31,4 milhões do faturamento, em torno de 40% do total.

Em encontro promovido em fevereiro pela Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) sobre as tendências e desafios da indústria de embalagens, Luís Madi, diretor do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) do Estado de São Paulo, avaliou que esses números apresentam grande potencial de crescimento.

Para ele, o Brasil, para muitos visto como o celeiro do mundo, poderia se transformar em supermercado do mundo, passando a oferecer um número bem mais significativo de produtos processados. Essa evolução significaria avanço importante para a indústria de embalagens de alimentos e bebidas – fora o potencial de outros ramos industriais, como os de higiene e limpeza, de cosméticos ou o farmacêutico. Para exemplificar, o diretor cita o mercado de água mineral. “Nos Estados Unidos são engarrafados 52 bilhões de litros, no Brasil engarrafamos 15 bilhões, menos de um terço”. Madi constata os baixos investimentos feitos pela indústria brasileira em inovação, barreira para que objetivos mais ambiciosos sejam alcançados.

Esse obstáculo também foi comentado no evento por Renata do Nascimento, gerente de inovação da fábrica de alimentos Seara, empresa que nos últimos anos tem apostado em inovação para se sobressair no mercado. “Em uma lista de 129 países o Brasil ocupa a 66ª posição entre os países mais inovadores. Na América Latina estamos em apenas quinto lugar”, informou. Para amenizar o cenário, Renata lembrou que a indústria nacional demonstra grande agilidade na hora de absorver as novidades surgidas em outros países. “Nós conseguimos copiar as evoluções de maneira muito rápida”.

“A política de investir em inovação adotada há alguns anos mudou a percepção e a imagem da marca Seara, que passou a ser mais valorizada entre os consumidores”, revelou Renata. A gerente apontou os principais passos para adotar a estratégia. Tudo começa com a identificação de tendências.

“É preciso assimilar as mudanças de valores sociais, nos rumos adotados pela economia, no comportamento dos consumidores, estar atento às novas tecnologias”. Há algum tempo, por exemplo, a sustentabilidade tinha uma importância bem menor, hoje se tornou uma questão que pode influenciar uma compra. Também é preciso investir em pesquisa e desenvolvimento sem muita preocupação com os erros. “Nem sempre uma ideia chega ao resultado esperado, mas os erros devem ser considerados como oportunidade para gerar conhecimento”. Vale ressaltar que cada lançamento inovador requer tempo. “Os projetos precisam ser desenvolvidos, se possível, com dois anos de antecedência”.

Um case de sucesso foi o lançamento da linha de pratos prontos Seara Rotisserie. Esses alimentos podem ser armazenados em ambientes refrigerados, um diferencial em relação aos produtos congelados oferecidos pelas concorrentes. “Esse diferencial dá aos consumidores a percepção de estar adquirindo alimentos mais frescos”. A grande novidade da linha Rotisserie se concentra na tecnologia de embalagem Power Vac, patenteada pela empresa. Os alimentos são preparados dentro da embalagem selada, sem contato humano, e são conservados em atmosfera de vácuo.

Economia circular – Outro tema debatido durante o encontro promovido pela Abimaq foi a economia circular, nome dado ao conceito de esgotar as possibilidades de utilização dos produtos e de reaproveitamento ao máximo das matérias-primas. Ele está sendo difundido em todo o mundo e gera investimentos nos processos produtivos de inúmeros setores e no comportamento dos consumidores. O nicho de embalagens é um dos principais focos da estratégia. (Veja reportagem nesta edição)

Antes de apresentar projetos de marcas importantes, os debatedores fizeram questão de defender o uso do plástico. Para eles, falta conscientização por parte das pessoas sobre os benefícios proporcionados pelas embalagens plásticas. Elas prolongam a vida dos alimentos e combatem o risco de contaminação, reduzem desperdícios e permitem economia de combustível no transporte de produtos por serem mais leves. A crise atual do abastecimento de água potável no estado do Rio de Janeiro foi citada como prova da utilidade das combatidas garrafas de PET. “Alguém tem coragem de beber água da torneira no Rio?”, perguntou Madi, do Ital/SAA.

Para o especialista, os governos adoram proibir e não gostam de educar. “Seria muito mais útil esclarecer as pessoas sobre os benefícios de se fazer o resgate correto das embalagens usadas do que gerar clima negativo por meio da disseminação de notícias que nem sempre são verdadeiras”. Também não faltaram críticas ao pouco investimento feito pelos diferentes níveis de governo na hora de recolher o lixo. “Apenas 22% dos municípios brasileiros possuem sistemas de coleta seletiva”.

A Braskem, produtora de resinas, afirma ter na preservação da natureza uma de suas grandes preocupações. A meta da empresa é colaborar para que 100% das embalagens plásticas sejam reutilizadas, recicladas ou recuperadas até o ano de 2040. Fabiana Quiroga, diretora de economia circular, fez um resumo das atividades da empresa nesse sentido. O programa conta com atividades as mais distintas.

Entre elas, se encontra o desenvolvimento comercial de sua linha verde de resinas. Ela oferece polietileno e EVA fabricados a partir do etanol. Também fornece formulações de polietileno e polipropileno que contam com a utilização de reciclados pós-consumo, além de soluções em carbono neutro, obtidas por meio da combinação de resinas renováveis e recicláveis.

A empresa investe para adequar suas linhas de produção às práticas mais corretas, dá apoio aos fabricantes de embalagens para o desenvolvimento de designs mais adequados e patrocina várias ações de cunho social. “Colaboramos com cooperativas de catadores, ao todo beneficiamos mais de 8,7 mil catadores em todo o país”. Também são desenvolvidos projetos educacionais. Um exemplo é o Edukatu, desenvolvido em parceria com o Instituto Akatu a partir de 2013. O projeto leva educação ambiental e conceitos de sustentabilidade e consumo consciente a escolas de todo o país.

Vivian Guerreiro, especialista em sustentabilidade da Tetra Pak, informou que em 2019 foram recicladas 81 mil toneladas de embalagens produzidas pela empresa – elas contêm em torno de 20% de plástico. Esse volume corresponde a quase 30% do total produzido pela empresa. Ao todo, no país, há 32 recicladoras capacitadas para realizar a operação. Existem no Brasil mais de 5 mil postos de coleta seletiva que separam esse tipo de cartonados. “Damos aos recicladores toda a assessoria técnica e de equipamentos necessária”.

De acordo com Vivian, a atual capacidade instalada permite dobrar o número atual de recuperados com facilidade. “Falta melhor estrutura de coleta seletiva”, lamenta. Outro aspecto que ajudaria o crescimento da recuperação seria a maior divulgação das boas oportunidades de negócios geradas a partir da produção dos reciclados. A especialista garante que trabalhar em defesa do meio ambiente é questão irreversível para as empresas conquistarem a simpatia dos consumidores. “Uma pesquisa realizada pela Tetra Pak em 2019 constatou que 86% dos entrevistados se preocupam com o tema”.

Flexíveis – As embalagens plásticas flexíveis são as mais usadas, responderam por 38,7% do total de unidades de embalagens fabricadas em 2018, de acordo com a Abre. Em segundo lugar vieram as embalagens feitas de plástico rígido, com 29,5% do total. “O desempenho da indústria brasileira de embalagens plásticas flexíveis foi positivo em 2019. Estudo feito para nós pela Maxiquim mostra que a produção cresceu 2,3% em comparação a 2018, atingindo quase 2 milhões de toneladas produzidas”, informa Rogério Mani, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief).

O consumo aparente do setor mostrou alta de 0,6% e a balança comercial do setor se mostrou bastante positiva, com alta de 27% no volume exportado (130 mil toneladas) e de 7% em faturamento, que chegou a US$ 237 milhões. As importações caíram 8% em volume no ano. A pesquisa aponta que o PELBD segue na liderança, com participação de 978 mil toneladas nas 1,980 milhões de t utilizadas pelo setor de flexíveis no ano passado. Na sequência vem PEBD (475 mil t), PP (318 mil t) e PEAD (209 mil t). O segmento de alimentos foi o que mais consumiu flexíveis, com 776 mil t, seguido pelo industrial (390 mil t), de produtos descartáveis (226 mil t), bebidas (202 mil t), produtos de higiene e limpeza (196 mil t) e outros.

Para Mani, as qualidades das embalagens flexíveis explicam sua larga utilização. “Ela é vista pelo consumidor como moderna, conveniente, funcional, segura e que protege o produto, especialmente os alimentos, por oferecer barreira a oxigênio, vapor, gorduras e outros elementos”. Ele destaca, de maneira particular, o aumento do uso das embalagens do tipo stand up pouch (SUP). “As SUP apresentam baixo peso, flexibilidade de formatos e volumes, reciclabilidade, produtividade no envase e conveniência garantida por sistemas de abertura e fechamento, entre outras vantagens”.

A Abief revela preocupação e se mobiliza para a adoção de soluções sustentáveis. “Não entendemos que os resíduos plásticos sejam lixo, mas sim matéria-prima de grande valor quando se promove verdadeiramente a economia circular”. Para ele, é muito importante pensar no projeto das embalagens com cuidados que facilitem essa operação, como o uso de peças mono materiais ou de resinas recicladas.

A força do PET – “Foi um ano positivo para a indústria de PET, considerando um ambiente econômico estável, com PIB muito baixo e condições climáticas razoavelmente favoráveis para o consumo de bebidas”, informa Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet). A entidade ainda não conta com os dados consolidados de 2019, mas tem expectativa que o setor cresceu acima de 5%. “As margens em toda a cadeia produtiva foram extremamente baixas, tanto para fabricantes de resina como para transformadores e recicladores”, ressalta.

Entre os mercados mais atraentes para a matéria-prima, o segmento que mais cresceu nos últimos anos foi o de água. O desempenho de 2020 começou com demanda adicional para as empresas do setor, resultado da crise de abastecimento de água no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. “O consumo de água engarrafada no mês de janeiro de 2020 foi mais que o dobro no mesmo período de 2019”. Entre novos nichos, destacam-se o de sucos prontos para beber e o de matinais, como leite UHT e iogurtes.

Marçon aponta as características especiais da matéria-prima quando o assunto é sustentabilidade. “O Brasil é o país que mais desenvolveu diferentes aplicações para o PET reciclado, o que tem criado demanda consistente do material recuperado”. Como exemplo, a resina recuperada tem sido utilizada em componentes de automóveis (tapetes, para-choques, bancos de ônibus e outros), na construção civil (caixas d’água, tubos e conexões, sinalizadores para estradas e outros), na indústria eletroeletrônica (em celulares), na indústria em embalagens de produtos de higiene e limpeza, em tintas e vernizes e diversos itens domésticos, como mantas, cabides, tampos de pias, etc.

PP, PE e EVA – O mercado de embalagens tem papel fundamental para a Braskem. “O setor tem elevada representatividade em nossas vendas, temos equipes dedicadas e focadas na potencialização da nossa oferta de soluções”, explica Américo Bartilotti, diretor do negócio de embalagens e bens de consumo. Bartilotti destaca as muitas frentes de inovação relacionadas nas tendências de consumo e comportamento. “É isso que direciona para atender clientes, brand owners e consumidores”.

Plástico Moderno - Bartilotti: resinas amigáveis ao ambiente ganham mercado
Bartilotti: resinas amigáveis ao ambiente ganham mercado

O diretor cita alguns exemplos. As embalagens de 1 e 5 litros da brasileira Biowash, pioneira no desenvolvimento de produtos de limpeza naturais e 100% biodegradáveis, hoje são produzidas com a mistura de plástico renovável, feito à base da cana-de-açúcar (60% da composição), e resina pós-consumo (40%).

Outra linha de trabalho da empresa se concentra na parceria com clientes para o lançamento de embalagens monomateriais. “Elas favorecem a cadeia de reciclagem, pois facilitam o processo de separação dos materiais”, ressalta. Um resultado concreto se deu com o lançamento, por parte da Antilhas Flexíveis, de embalagens do tipo stand-up pouch monomaterial, com 100% de polietileno sem laminação. Outras aplicações, como embalagens para cereais e grãos, já estão em avaliação e testes de desempenho.

Filmes – Empresas que fornecem e transformam filmes para embalagens investem para modernizar seus produtos. A Terphane, do grupo industrial norte-americano Tredegar, fornece filmes especiais de poliéster biorientado (BOPET). Seus produtos são utilizados em vários setores industriais, com destaque para o mercado de embalagens flexíveis. Um dos trabalhos de destaque na área de pesquisa e desenvolvimento vem sendo o de lançar novos filmes com altíssima barreira a aromas, oxigênio e água. “Os produtos que antes necessitavam de folha de alumínio, hoje contam com embalagens de poliéster. A substituição reduz de forma considerável a pegada de carbono”, informa André Gani, diretor de vendas e marketing.

Plástico Moderno - EmbalagGani: poliéster substitui com vantagem as folhas de alumínio
Gani: poliéster substitui com vantagem as folhas de alumínio

Na planta brasileira, a empresa está investindo em nova linha de metalização, cuja instalação será finalizada ainda no primeiro trimestre. “Essa linha é a mais moderna para este tipo de aplicação nas Américas”. Um sucesso de vendas de empresa tem sido a linha Ecophane, lançada no ano passado. Ela é composta por mais de uma dezena de filmes PET fabricados com, no mínimo, 30% dessa resina reciclada. “Além de garantirem menor uso de matérias-primas virgens, os novos filmes da linha Ecophane estão inseridos no conceito de economia circular. O PET descartado na forma de embalagens ou outros itens é coletado, reciclado e volta a ser embalagem”. Uma versão da linha Ecophane é um filme biodegradável que em aterros sanitários se transforma em fertilizante natural. “A degradação completa acontece num período médio de quatro anos, sempre em condições anaeróbicas. O material já foi aprovado para contato com alimentos”.

Plástico Moderno - Bobina de Ecophane, filme com ao menos 30% de poliéster reciclado
Bobina de Ecophane, filme com ao menos 30% de poliéster reciclado

Os investimentos também ocorrem em transformadoras que utilizam filmes. Uma delas é a Embaquim, fabricante de bolsas de 800 ml a mil litros com diversas estruturas e várias opções de bocais e tampas para indústrias de alimentos, bebidas, químicos, cosméticos e farmacêuticos. A empresa adquiriu recentemente uma co-extrusora fabricada pela Carnevalli.

A máquina, já em pleno funcionamento na fábrica da empresa em São Bernardo do Campo-SP, tem capacidade para produzir 50 toneladas/mês de filmes com cinco camadas e garante aumento de 15% na capacidade produtiva de filmes. “Passamos a produzir nossos próprios filmes co-extrudados, antes comprados de fornecedores externos. Com isso, aumentamos a competitividade e a agilidade em atender ao mercado”, explica Renata Canteiro, diretora.

Equipamentos – Fornecedores de máquinas e equipamentos para transformação têm no setor de embalagens clientes muito significativos. Um exemplo ocorre com a brasileira Pavan Zanetti, fabricante de máquinas sopradoras e importadora de injetoras. No caso da linha de sopradoras, o segmento de embalagens responde pela maioria de suas vendas.

“Nos últimos três anos houve aumento nas vendas de nossa linha PET. No ano passado, elas responderam por, em números aproximados, 38% das vendas. Essa porcentagem veio aumentando ano a ano de forma constante, embora com taxas pequenas”, informa Newton Zanetti, diretor comercial. A linha PET da empresa engloba máquinas para produções de frascos até 2 litros e para garrafões de até 6 litros. “Temos versão também para frascos ovalados de até 500 ml, com capacidade de produção entre 4 mil e 6,5 mil unidades por hora”.

Entre os segmentos atendidos, os de bebidas (água mineral e sucos) e higiene e limpeza têm sido os mais promissores. “Muitos clientes nessa área migraram para o PET”. Os demais 62% das vendas de sopradoras foram destinadas a máquinas transformadoras de outras resinas. A linha da Pavan Zanetti é formada por modelos de diversos tamanhos, com sistemas de extrusão contínuos e de acumulação, inclusive as voltadas para a produção de galões de água em polipropileno. Em breve, a empresa promete mostrar ao mercado sua primeira sopradora totalmente elétrica, projetada em parceria com uma parceira italiana.

O setor de embalagens é o cliente principal do grupo multinacional Sumitomo Demag, fabricante de injetoras e com escritório de vendas e assistência técnica no Brasil. “A maior demanda vem de fabricantes de potes e tampas de paredes finas para sorvetes, requeijões e outros produtos, e de fornecedores de embalagens para cosméticos”, revela Christoph Rieker, gerente geral no Brasil. Um segmento que já viveu melhores momentos foi o de produtos descartáveis, caso dos talheres de plástico, por exemplo. “Os ambientalistas fizeram um trabalho forte contra o uso de descartáveis. O plástico não é o vilão que todos falam, é preciso fortalecer a indústria para recuperar esse mercado”.

A empresa oferece ampla gama de máquinas injetoras híbridas e elétricas adequadas para essa solicitação. De quebra, oferece soluções, com a ajuda de parceiros, para instalações de linhas de produção com o recurso in mold label, de uso crescente no Brasil. “São máquinas precisas e que trabalham com ciclos de injeção bastante curtos, características adequadas para esse tipo de aplicação”. Uma tendência tem sido observada por Rieker desde o ano passado. “Hoje, cada vez mais, os clientes estão procurando máquinas elétricas. Elas são mais econômicas em termos de energia elétrica, não utilizam óleo para os acionamentos hidráulicos e requerem manutenção baixa”.

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