Embalagem: Mais econômico, plástico ameaça liderança do vidro

Plástico Moderno, Linha farmacêutica de frascos de PET, da Gerresheimer ©QD Foto: Divulgação/Sindusfarma
Linha farmacêutica de frascos de PET, da Gerresheimer

Também na indústria de medicamentos o plástico se consolida a cada dia mais incisivamente como principal matéria-prima das embalagens. Até porque muitos fabricantes de embalagens de cosméticos são também fornecedores de laboratórios farmacêuticos (que, aliás, com produtos como os dermocosméticos, aproximam-se cada dia mais do mercado da beleza).

Jair Calixto, diretor de Assuntos Técnicos e de Inovação do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo), aponta que o vidro ainda protege melhor os medicamentos contra as trocas gasosas. Mas fatores financeiros e logísticos potencializam o uso das resinas: “Comprimidos, por exemplo, quase todos vêm atualmente em embalagens plásticas ou blisters”, especifica.

Plástico Moderno, Calixto: farmacopeia determina especificações de embalagens
Calixto: farmacopeia determina especificações de embalagens

Na indústria farmacêutica, o vidro segue sendo mais utilizado em nichos como as ampolas destinadas a acondicionar medicamentos injetáveis, geralmente pouco estáveis (e que requerem proteção mais rigorosa pelo próprio modelo de introdução desses medicamentos no organismo dos pacientes).

“Mas já existem ampolas feitas de plástico, e há medicamentos antes embalados em ampolas de vidro agora fornecidos diretamente em seringas plásticas”, relata Calixto.

Polímeros são utilizados para produzir seringas que também embalam os medicamentos injetáveis pela Schott, multinacional sediada na Alemanha com presença direta em mais de trinta países, fabricante de ampolas, frascos e seringas, entre outros gêneros de embalagens e artigos destinados aos setores farmacêutico, de cosméticos e de análises clínicas (e que no Brasil mantém três fábricas).

O vidro é a matéria-prima mais utilizada pela Schott, mas o portfólio da empresa inclui também essas seringas – qualificadas como ‘prontas para encher’ –, feitas com COC (copolímero olefínico cíclico).

“É uma resina especialmente desenvolvida para esse gênero de aplicação, com elevada transparência, similar à de vidro, biologicamente inerte – não libera íons, nem metais pesados –, com superfície de contato não polar e excelentes propriedades de barreira à troca de vapor com o meio externo”, destaca Jayme Fagundes, gerente de produto da empresa na América do Sul.

Denominado Schott TopPac, essas seringas feitas em COC, além de servir para administrar os medicamentos, podem acondicioná-los por longos períodos.

“Elas oferecem propriedades ótimas de barreira contra o vapor d’água e permeabilidade ao oxigênio, compatíveis com os prazos de validade dos medicamentos, para uma vasta gama de produtos parenterais, como medicamentos à base de proteína e produtos com altos valores de pH”, ressalta Fagundes.

Também a Gerresheimer desenvolveu, com polímeros, sua linha de embalagens multicamadas capaz de acondicionar medicamentos injetáveis e oncológicos (por enquanto, gêneros de medicamentos majoritariamente embalados em vidro). Denominadas vial, elas combinam polímero de olefinas cíclicas e poliamida.

“Essas embalagens proporcionam eficiente barreira à permeação de oxigênio e vapor d’água, garantindo maior estabilidade do medicamento, isenção de contaminação por metais e estabilidade em larga faixa de pH”, ressalta Nelson Iatallese Filho, responsável pelas áreas comercial, marketing e suporte técnico da Gerresheimer no Brasil.

Multinacional sediada na Alemanha, a Gerresheimer produz no Brasil diversos gêneros de embalagens e acessórios para a indústria farmacêutica, sempre de plástico (em outros países trabalha também com vidro), entre eles frascos de PET, de blendas de PEAD e PEBD, e de PP; tampas em inúmeros diâmetros e formatos (normalmente fabricadas com PP e PE); gotejadores e batoques, acessórios como aplicadores vaginais de cremes, seringas e conjuntos de conta-gotas e cânula, entre vários outros.

Frascos em PET, especifica Iatallese, vêm ganhando bastante espaço nas embalagens primárias da indústria farmacêutica – aquelas que mantêm contato direto com os produtos –, nas quais substituem o vidro. “Os medicamentos de grande volume de vendas, como os xaropes, são hoje envasados em PET”, informa.

“O PE, por sua vez, tem larga aplicação para líquidos, como analgésicos, colírios, descongestionantes nasais, e também para medicamentos sólidos em comprimidos, drágeas, cápsulas, pastilhas e pós”, acrescenta.Inovação e investimento – Geralmente composto por uma face de PVC e outra de alumínio, o blister também se torna crescentemente relevante no rol de embalagens às quais recorrem os laboratórios farmacêuticos. “Mesmo medicamentos que há algum tempo eram vendidos apenas em frascos – vitaminas, por exemplo –, hoje são oferecidos também em blisters, comuns em analgésicos, antigripais, e outros tipos de medicamentos”, observa Alexandre Belizario, diretor comercial da Klöckner Pentaplast (empresa de origem alemã fornecedora de filmes plásticos para esse gênero de embalagens).

Três versões compõem o portfólio de filmes para blisters da Klöckner Pentaplast: PVC (simples), PVC com PVDC, e PVC com Aclar (um filme de PCTFE – poli-cloro-tri-fluoro-etileno). Em linhas gerais, essas versões podem ser qualificadas, respectivamente, como filmes de baixa, média e alta barreira a vapor d´agua e oxigênio.

E há, afirma Belizario, tendência de aumento do interesse por aquelas com PVDC e Aclar, capazes de proteger melhor os produtos farmacêuticos. “As legislações relacionadas a medicamentos estão continuamente evoluindo, tornam-se mais rígidas, e o Brasil, como país tropical, tem clima com elevadas taxas de umidade”, justifica.

Existem também, complementa Belizario, blisters com as duas faces feitas de alumínio; mas mesmo nesse caso geralmente há plásticos, em uma camada interna de PVC – para selagem – e outra de poliamida que auxilia na conformação das estruturas e evita fissuras no alumínio.

“Conhecidas como Alu-Alu, essas embalagens são utilizadas para medicamentos extremamente higroscópicos e possuem custos diferenciados relativamente aos filmes plásticos, seja por utilizarem mais materiais, seja porque sua produção – feita mediante um processo de termoformagem a frio, com molde, contra-molde e pressão – é mais complexa”, justifica o profissional da Klöckner Pentaplast.

Mas a Bemis, comenta Ponce, desenvolveu para o medicamento Doril Enxaqueca um tipo de blister que dispensa o uso de plásticos: batizada de Coldform, ela tem os dois lados feitos de alumínio e, em seu interior, um verniz responde pela termosselagem.

“Essa embalagem foi desenvolvida para produtos que necessitam de maior shelf life, pois protege mais contra luz e trocas gasosas”, destaca o profissional da Bemis (empresa que para a indústria farmacêutica fornece filmes de alumínio para blisters, sachês, stand up pouches, tubos laminados, entre outros itens).

Por sua vez, a Frascomar, cuja presença é mais intensa nos mercados de cosméticos, alimentos e químicos, estabeleceu no ano passado uma joint venture com a Farmaplast, fabricante de frascos e tampas em PE, PP e PET para a indústria farmacêutica.

“Além haver complementaridade entre os mercados cosmético e farmacêutico, essa joint venture permite que tenhamos acesso a todos os processos produtivos para fabricação das embalagens, como sopro convencional, injeção, injection blow, injection stretch blow, fabricação de tampas por compressão, decoração – silk-screen, tampográfica – e ferramentaria”, detalha Bellucci.

Segundo ele, até o meio deste ano, a Frascomar estará em nova sede, com área construída de 13 mil m², na cidade de Embu das Artes (suas atuais instalações, em Taboão da Serra, têm 6,5 mil m²).

“Ali unificaremos nossas duas atuais plantas, uma de injeção e outra de sopro, com ganhos logísticos e operacionais”, adianta o profissional da empresa.

A Gerresheimer ampliou sua plataforma de produção no Brasil com a inauguração, na cidade goiana de Anapólis, no final de 2017, de sua quarta fábrica brasileira.

“Também adotamos tecnologias de injeção que permitem a fabricação de frascos com melhor performance, por exemplo, promovendo nos últimos anos um contínuo processo de substituição das maquinas de EBM (extrusoras), pelas do tipo IBM (injeção e sopro)”, relata Iatallese.

O mercado farmacêutico, tanto por lidar com um valor básico das pessoas, a saúde, quanto pelas rígidas regulamentações que o regem, tem perfil mais conservador na seleção de embalagens. Mesmo assim, a Gerresheimer vem propondo a esse setor usar embalagens plástica inovadoras, como aquelas denominadas senior friendly – pensadas para a terceira idade –, com tampas mais facilmente manuseáveis por pessoas com limitações motoras.

“Também lançamos frascos plásticos para sólidos que trazem um compartimento para a bula e área externa suficiente para decoração ou rotulagem, dispensando a necessidade da embalagem secundária, geralmente feita de papelão”, finaliza Iatallese.

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