Embalagem – Diálogo entre designers e transformadores permite inovar

Mais Eficiência

Uma embalagem sofisticada apresenta muitos aspectos positivos. Pensando nos consumidores, ela chama a atenção nos pontos de venda, conforme o caso se torna atraente por ser funcional, e em determinadas aplicações ajuda a aumentar a vida útil do produto.

Outras vantagens nem sempre são visíveis para o público final. Um design bem projetado, por exemplo, facilita o envasamento, transporte e armazenamento das mercadorias.

Por outro lado, a sofisticação nem sempre é possível, pois o luxo tem seu custo.

“Não podemos ficar atentos apenas à beleza, precisamos estudar qual a relevância da embalagem para o fabricante do produto e o consumidor. Todos precisam sair ganhando”, explica Gisela Schulzinger, presidente da Associação Brasileira de Embalagens (Abre). Para ela, como recomenda o manual do bom senso, o que vale é a ótima relação custo/benefício.

Chegar à conclusão de qual a solução mais indicada caso a caso não é nada fácil. O estudo envolve profissionais de três atividades distintas: os fabricantes do produto, agências especializadas em comunicação e design, e a indústria responsável pela fabricação das embalagens.

Nesse último segmento se encontra, entre outras, a indústria do plástico, cuja importância dispensa maiores comentários. O plástico responde por cerca de 40% da verba movimentada pelo setor.

A Abre defende que quanto maior o diálogo entre essas três partes envolvidas, melhor será a solução final. O entendimento fica ainda mais rico se dele participar o consumidor. “A Abre está iniciando uma pesquisa para aprofundar o conhecimento sobre o pensamento dos consumidores”, informa Gisela. Esse trabalho começou há um mês e as informações a serem colhidas são consideradas muito úteis. “Precisamos saber o que as pessoas pensam sobre temas cruciais para nós, como a sustentabilidade”.

O processo de criação – Um quebra cabeças.

Dessa forma pode ser definido o trabalho para se chegar à embalagem ideal de um produto. Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Abre, explica que tudo começa com a definição do público-alvo, do canal de varejo pelo qual será vendido e qual o valor esperado pela sua comercialização.

Em seguida aparecem muitas questões. Podemos citar algumas.

  • O produto pertence a uma categoria nova ou a alguma já existente?
  • Como chamar a atenção no ponto de venda, seja o produto inédito ou não?
  • Como proteger melhor o produto?
  • Ele vai precisar de barreiras à luz ou aos gases?
  • Algum aspecto funcional pode atrair compradores?
  • Quais equipamentos de envasamento o fabricante tem à disposição?
  • Quais as matérias-primas indicadas para fabricá-las?

No quesito matérias-primas, os plásticos aparecem como excelente opção.

Plástico Moderno, Azanha: vantagens do uso de plásticos garantem seu avanço
Alvaro Azanha – Engenheiro de Alimentos  – BRF

“Eu vejo claramente o avanço do plástico em vários segmentos em que ele não atuava.

Sua versatilidade é incomparável. Tem boa resistência mecânica, pode ser transparente ou colorido, permite a adoção de barreiras a gases ou à luz, pode ser flexível ou rígido”,

define Alvaro Azanha, engenheiro de alimentos com mais de 25 anos de experiência no desenvolvimento de embalagens para esse ramo.

Ele trabalhou por longo período na BRF. Deixou a empresa há seis meses, quando ocupava o cargo de consultor de inovação, para abrir sua própria consultoria, a How to Pack.

Azanha ressalta que nem mesmo o aspecto no qual o plástico tem imagem mais negativa, a de causar danos ao meio ambiente, se justifica. A resina pode ser reciclada, na grande maioria das vezes. Além disso, as embalagens plásticas são muito leves, não há desperdício de material para sua construção.

E o menor peso proporciona redução do combustível necessário e da poluição gerada no transporte das mercadorias. “O impacto real é muito menor do que o alardeado, as pessoas são influenciadas pelo fato de que as garrafas PET boiam, enquanto os outros materiais vão para o fundo dos corpos de água”, defende. Ele acredita que a indústria do plástico precisa se unir para mostrar as vantagens do material, explicar o impacto real que ele gera na natureza.

De acordo com o consultor, a indústria precisa manter constante diálogo com os fabricantes de embalagens de plástico. É preciso estar em dia com as novidades proporcionadas pela tecnologia nas formulações das resinas e nas máquinas de transformação, o que pode gerar soluções inovadoras e com bom retorno de investimentos.

“Como saber se surgiu novo grade de determinada matéria-prima, se um equipamento mais moderno pode trazer vantagens de um método de transformação em relação a outro?”.

Azanha lembra que na indústria alimentícia, em especial, o projeto da embalagem é vital para o sucesso do produto. Ele precisa ir muito além da beleza, importante para chamar a atenção dos consumidores nos pontos de varejo.

Existem inúmeras particularidades a serem avaliadas. Muitos alimentos passam por autoclaves, exigindo resistência à temperatura. Outros precisam se manter crocantes. Alguns são oferecidos na forma de refeições prontas e precisam estar aptos a serem aquecidos em fornos de micro-ondas. Os alimentos nem sempre são consumidos totalmente depois de abertos.

A adoção de embalagens que permitam a conservação da sobra para futuro consumo é importante.

“As embalagens podem ser importantes até mesmo para melhorar a composição do produto final”, ressalta o consultor. Nos dias atuais, por exemplo, há forte tendência para a redução do consumo de sal como forma de preservar a saúde. “Caso um filme com barreiras seja usado para conservar o produto por mais tempo, pode-se reduzir o teor de sódio na sua preparação”.

Plástico Moderno, Costabeber: designers precisam estar por dentro das inovações
Costabeber: designers precisam estar por dentro das inovações

Estar por dentro das novidades tecnológicas apresentadas pela indústria de embalagens é crucial, reforça Rodrigo Costabeber, proprietário da recém-lançada agência de branding e design Wom.

O profissional tem mais de quinze anos de experiência na área, com projetos premiados em festivais nacionais e internacionais criados para marcas de grandes empresas, como Unilever, Pepsico, Nestlé, Cargill Foods, Bauducco, L’Occitane e outras.

Não por acaso, apesar de ser formado em cursos que pouco tem a ver com engenharia, por força de ofício ele tem boa noção das propriedades das resinas plásticas mais utilizadas em embalagens e dos equipamentos de transformação.

“Somos mais preocupados com o lado estético, mas o diálogo com especialistas em transformação de plástico é essencial para desenvolver os projetos”, afirma.

Costabeber explica que o diálogo com os fabricante dos produtos a serem embalados nem sempre permite total liberdade aos designers. “Isso ocorre mais com empresas de pequeno e médio porte.

As de grande porte contam com departamentos completos de pesquisa e desenvolvimento, cuidamos mais da criação da parte impressa”.

Plástico Moderno, Embalagem fosca de macarrão integral ressalta rusticidade
Embalagem fosca de macarrão integral ressalta rusticidade

Para exemplificar, cita o case no qual está trabalhando. A fábrica de massas Saudutti, empresa de porte pequeno do interior do Paraná, vai lançar em setembro sua linha de massas integrais.

O desenvolvimento total das embalagens está sendo tocado pela sua agência. “As embalagens vão reforçar as propriedades saudáveis e naturais dos grãos integrais”.

Por isso, os tons verde e bege e um tratamento mais rústico serão adotados.

“Ao contrário de utilizar o aspecto brilhante das embalagens das massas convencionais, essas terão tom mais fosco”, informa.

Pote complicado – Os transformadores de plásticos têm no mundo de embalagens ótimas oportunidades de negócios.

Participar desse nicho de mercado, no entanto, exige muito preparo. O mais custoso é investir em instalações compatíveis com as exigências do mercado. O setor é para lá de competitivo e um equipamento com tecnologia de ponta, capaz de aumentar a produtividade, pode ser fundamental para vencer as concorrências. Quem atende as indústrias alimentícias, por exemplo, fica sujeito a normas muito rigorosas de atuação, precisa investir em salas limpas e tomar uma série de outros cuidados.

Mesmo levando em conta que na maioria das vezes as peças a serem fabricadas já venham com esboço muito bem definido pelos clientes, adaptá-las às linhas de produção pode se tornar mais fácil com alterações de detalhes não percebidos pelos profissionais de criação. Para isso, é necessário ter poder de convencimento junto aos fabricantes do produto.

Também é conveniente tomar iniciativa, estudar tendências, desenvolver patentes, oferecer aos desenhistas dos clientes soluções capazes de alcançar sucesso no mercado por seu ineditismo.

A Jaguar Plásticos, de Jaguariúna-SP, trabalha com injeção de plásticos. Ela conta com três divisões: utilidades domésticas, produtos industriais (baldes, tampas, potes, etc.) e produtos dedicados. Nesta última, estão envolvidas as embalagens. Com esse foco, a empresa atua junto tanto com fabricante dos produtos quanto com as agências. A empresa procura atuar como braço de apoio, de forma a tornar a linha de produção mais eficiente e lucrativa para todos os envolvidos no trabalho.

“Para nós, o mercado de embalagens é um grande desafio, encaramos cada projeto como um sistema. Ao analisarmos uma peça pensamos em como ela vai funcionar em toda a cadeia, não só na sua eficiência para embalar um produto, mas também como será armazenada, transportada, guardada em estoque e distribuída”, explica Gilberto Pelicia, gerente de desenvolvimento. A empresa, independente de ser ou não solicitada, também procura desenvolver soluções para apresentar ao mercado.

Um case com o qual a Jaguar recebeu no ano passado o Prêmio Abre – prêmio anual oferecido pela associação e que em 2016 chegará a sua 16ª edição – é apontado por Pelicia como o mais complexo da história da Jaguar. Trata-se de um pote voltado para o iogurte grego salgado da Vigor, fabricado com uma colher dobrável embutida. Ele permitia ao consumidor saborear o produto em qualquer lugar, sem a necessidade de contar com colher avulsa. Em tempo: o iogurte grego salgado teve produção descontinuada.

O pote era totalmente reciclável e de fácil descarte. Foi fabricado todo em polipropileno, em três partes: o corpo, decorado pelo processo in mold label; a colher dobrável; e a tampa, na qual era acoplada a colher, levava um selo de alumínio, usado para evitar contaminações. O conjunto foi projetado para ter o menor peso possível – a colher pesava apenas 1,3 grama. A montagem era toda feita por robôs, sem contato manual, e em salas limpas. O conjunto era entregue à indústria de laticínios, que se responsabilizava pelo envasamento.

 

Plástico Moderno, Dedomenici mostra as tampas especiais que substituirão peças metálicas
Dedomenici mostra as tampas especiais que substituirão peças metálicas – Plásticos Regina

Tampa com patente

A Plásticos Regina, de Mauá-SP, tem no segmento de embalagens seu carro-chefe.

A empresa, especializada em injeção, atende clientes renomados, como a Nestlé, por exemplo, para quem participou em um projeto para viabilizar potes de 250 ml para substituir os de vidro, usados para papinhas para bebês.

Esse foi outro case vencedor do prêmio Abre de 2015. Além dos potinhos, a multinacional de alimentos também mostrou na competição para o mesmo produto embalagens em bolsas plásticas dotadas com bicos e tampas. As embalagens com bolsas são as que devem permanecer no mercado.

“Esta embalagem foi um desenvolvimento em conjunto com a Trading Marks, empresa que representa no Brasil a fabricante do pote, a espanhola EDV”, explica Bruno Dedomenici, diretor-industrial.

A Plásticos Regina fazia as tampas, que exigem extrema precisão. O potinho é termoformado, feito a partir de um laminado multicamada de alta barreira. A papinha é submetida a tratamento em autoclave após o envase.

Plástico Moderno, Tampas especiais que substituirão peças metálicas
Tampas especiais que substituirão peças metálicas – Embalagem

Atualmente, a empresa está trabalhando em dois projetos bastante inovadores. Um deles, cujos detalhes são mantidos em sigilo, prevê a substituição de uma embalagem hoje fabricada em duas peças por outra com apenas um componente.

O outro, em fase de lançamento, é voltado para a indústria de alimentos. Trata-se de uma tampa para aplicação em embalagens de vidro, composta por um anel plástico e um disco metálico.

Esta solução, protegida por patentes nacional e internacional, já havia sido lançada há alguns anos e recebido alguns prêmios de inovação, mas o projeto não foi levado adiante.

“Nós fomos apresentados ao idealizador da embalagem através da Braskem e firmamos uma parceria para aperfeiçoar o produto, além de investir na sua fabricação”, explica Dedomenici. O trabalho vem sendo desenvolvido nos últimos quatro anos, período em que foram realizados inúmeros testes e redesenhos. Os resultados dos estudos chegaram agora ao ponto considerado ideal.

“Essa tampa oferece várias vantagens em relação às de metal hoje muito utilizadas em potes de vidro”. O diretor garante melhor desempenho de vácuo final, seja o alimento tratado em autoclave ou em banho-maria. “Isso aumenta a vida útil do produto final”.

Além disso, ocorre a eliminação da necessidade de envase em câmara de pré-vácuo ou com injeção de vapor, menor tempo necessário de cozimento e mínima necessidade de ajustes nas linhas de preenchimento. Testes realizados junto a consumidores comprovam a maior facilidade de abertura da tampa pelo usuário final.

Cases premiados – Embalagem de Plástico

Apesar dos percalços e dos tempos bicudos vividos pela economia, muitos são os casos de embalagens criativas lançadas no mercado por aqui nos últimos tempos.

Os troféus oferecidos pelo Prêmio Abre de 2015 comprovam isso. Nesse contexto, a indústria do plástico está na linha de frente em inovação.Além dos já mencionados cases da Jaguar e da Plásticos Regina, outros chamam a atenção.

A Danone queria tornar mais atraente as embalagens on the go de seus iogurtes com a marca Dan’Up, destinado preferencialmente a jovens na faixa etária entre 18 e 24 anos.

Foi criado um copo com tampa que permite o consumo fácil.

Premiados – ABRE

Plástico Moderno, Três cases inovadores de embalagem premiados pela Abre no ano passado
Embalagens Premiadas – Prêmio Abre de Embalagem

As tampas, fabricadas pelo processo de injeção, para preservar as dimensões com precisão rigorosa, contam com orifício para facilitar o consumo da bebida. A identidade visual da marca foi modernizada e há a possibilidade da reutilização dos copos para diversos fins. O design ficou a cargo da agência Pande e os transformadores são a Bemis Latin America e a CCL Label.

A sustentabilidade está em alta e a Natura lançou o primeiro refil de perfumaria feito no mercado com plástico pós-consumo 100% reciclado – o frasco é de PET e a tampa de PP.

O produto é da linha Eko Frescores e apresenta redução de 72% na emissão de carbono na fabricação de embalagens em relação às dos itens regulares, segundo metodologia utilizada pela Natura para esse cálculo. O refil tem embalagem aproximadamente seis vezes mais leve do que a tradicional.

Plástico Moderno, Frasco feito de PET com tampa de PP reduz emissão de carbono
Frasco feito de PET com tampa de PP reduz emissão de carbono

Devido à variação de cor no material reciclado pós-consumo, foi feita uma pesquisa com consumidores para conferir sua aceitação.

O projeto é da Design: Chelles & Hayashi e a transformação está a cargo da Igaratiba e Global PET.

Para a marca do queijo Faixa Azul, a Vigor lançou um pote termoformado.

O corpo é feito de PET transparente, selado com filme de alta barreira que aumenta o shelf-life do produto e facilita sua armazenagem nos pontos de venda ou depois de abertos e usados parcialmente pelos consumidores. O design é da Design Up!. As empresas responsáveis pela fabricação da embalagem são Rhossprint, Bemis Latin America, Penha e Waco Thermoforming Solutions.

Três cases inovadores de embalagem premiados pela Abre no ano passado

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