Embalagem de congelados tem aumento na demanda

Aumento na demanda por comida congelada requer avanços em resinas plásticas e estruturas

Cresce rápida e continuamente o mercado de comida congelada, com velocidade acelerada ainda mais pela pandemia que, ao isolar as pessoas, estimulou-as a manter à mão um estoque de comida. Mesmo antes disso, o segmento registrava ritmo expressivo que, pelas estimativas dos analistas, deve permanecer por um bom tempo.

Com o apelo da praticidade e da conveniência na atribulada vida urbana, contribui para essa expansão também a incisiva aposta da indústria alimentícia, que disponibiliza gama cada dia mais vasta e diversificada de opções de comida congelada, na qual já é possível encontrar de alimentos em in natura a refeições prontas – até com a possibilidade de levá-las na própria embalagem diretamente do freezer para o forno –, passando por carnes e vegetais pré-preparados, tortas, comida vegana, produtos de panificação, polpas de frutas, sobremesas, além dos tradicionalíssimos sorvetes, entre inúmeras opções.

Plásticos embalam a grande maioria desses produtos: muito destacadamente, na forma de filmes flexíveis feitos de polietileno. Mas embalagens de congelados podem dispor também resinas como poliésteres (PET, por exemplo) e poliamidas. E, simultaneamente com o mercado da comida congelada, evolui também a tecnologia dessas embalagens.

Recentemente, a fabricante de embalagens Videplast produziu para o frigorífico Aurora, com resinas da Dow, uma embalagem de congelados PE cujas características de elasticidade e capacidade de retração permitem a aderência ao produto e a volta à forma original, sem a necessidade de aplicação do calor necessário ao processo de termoencolhimento, reduzindo o consumo de energia no processo. “É uma estrutura projetada para ser reciclável, e se adequa a diferentes tamanhos, reduzindo também o desperdício de alimentos e o consumo de água”, observa Verena Abrantes, gerente de marketing para o segmento de alimentos e embalagens flexíveis da Dow na América Latina.

Na indústria de embalagens para alimentos congelados, detalha Verena, o PE é matéria-prima tanto de estruturas mais simples, quanto de outras mais complexas. No primeiro caso, geralmente na forma de uma estrutura de PEBDL capaz de combinar resistência a perfurações e rasgos com boa selagem e processabilidade, é destinada a acondicionar legumes, frutas, pães, entre outros produtos.

Mas nas estruturas mais complexas, que embalam carnes de diversos tipos, é necessário obter resistência ainda maior porque os alimentos ficam mais rígidos quando congelados, sendo capazes de ocasionar perfurações, e pode haver a presença de ossos, além de ser mais agressivo o processo de envase. Em alguns casos, observa Verena, pode ser necessário incluir nessas embalagens camadas de poliamidas ou de PVDC. Isso é especialmente necessário quando se requer um tempo de vida maior, ou há uma operação logística mais complexa que interfere nas questões mecânicas, por exemplo, em produtos para exportação.

Embalagem: Aumento na demanda por comida congelada ©QD Foto: Divulgação
Verena: rigidez maior dos congelados pode furar filmes

A selagem, prossegue Verena, “muitas vezes é feita na presença de contaminantes, como os líquidos das carnes”.

A Dow disponibiliza grades de PE para atender a todas essas demandas; no caso da selagem, com opções como a linha de plastômeros Affinity, e uma versão para flexíveis do ionômero Surlyn, que protege a selagem também de óleos e gorduras.

Também vem sendo possível desenvolver filmes mais finos para as embalagens, especialmente pelo uso de PEBDL metalocênico, utilizado quando há necessidade de embalagens mais resistentes, informa Fábio Agnelli, líder da área de TS&D da Braskem (TS&D é a sigla inglesa referente a Serviços Técnicos e Desenvolvimento).

Embalagem: Aumento na demanda por comida congelada ©QD Foto: Divulgação
Agnelli: potes para sorvetes utilizam copolímero de PP

“Em alguns tipos de congelados cuja embalagem usa filme muito fino – hambúrgueres, por exemplo –, utiliza-se uma formulação com resina de maior densidade para a obtenção de um filme mais rígido”, ressalta.

Por sua vez, o PP, complementa Agnelli, no mercado das embalagens de congelados é mais usual em formatos rígidos, como bandejas e potes. “Potes de sorvete, por exemplo, até podem ser feitos de PE, mas migraram para o PP, que apresenta um balanço bem interessante de rigidez e peso para esse gênero de aplicação”, explica. “Para essas baixas temperaturas, a Braskem desenvolveu grades específicos de PP copolímero, que suportam essas condições e apresentam excelente resistência ao impacto. Grades comuns de PP – homopolímeros ou copolímeros não adequados – podem quebrar facilmente ou não suportar a aplicação em congelados”, destaca Agnelli.

Embalagem de congelados: Poliésteres e poliamidas

Filmes de poliéster têm diferentes aplicações em embalagens de alimentos congelados. Uma delas, em camadas internas de stand up pouches que acondicionam frutas e vegetais congelados. Também estão nas embalagens de comidas prontas congeladas, como lasanhas, nas quais aparecem tanto nos filmes que recobrem as bandejas quanto nas embalagens secundárias.

Para os filmes que recobrem essas bandejas, a Terphane disponibiliza uma linha de BOPET (PET biorientado) que, de acordo com André Gani, diretor de vendas e marketing do grupo Terphane, além da transparência que permite clara visualização do produto, proporciona excelente selagem, e é easy open, ou seja, permite fácil abertura. E apresenta diferenciais interessantes também no quesito sustentabilidade: permite aplicar filmes muito finos, de cerca de 25 micrômetros, e pode ser combinada com PET pós-consumo reciclado certificado para grau alimentício.

As embalagens secundárias desses alimentos são muitas vezes feitas de PE, mas podem, ressalta Gani, valer-se também de PET. Nesse caso, filmes de BOPET podem proporcionar dois diferentes benefícios: “melhoria da eficiência das linhas produtivas e excelente performance no quesito impressão”, detalha.

Agora, a Terphane tenta emplacar no Brasil o uso de uma solução denominada Ovenbag, que permite que alimentos sigam diretamente do freezer para o forno na própria embalagem de congelados. Em outros países, diz Gani, essa solução já é utilizada na embalagem de produtos como aves e cortes de carnes temperados, aplicações que no Brasil ainda utilizam dois tipos de plásticos: é feita de PE a embalagem externa, que além do alimento traz também um saco interno, este feito de PET, no qual o alimento deve ir ao forno.

Embalagem: Aumento na demanda por comida congelada ©QD Foto: Divulgação
Filme chub facilita o porcionamento de queijos

No Brasil, diz Gani, essa solução ainda não é utilizada, mas estão sendo feitos testes. “Trata-se de um PET especial, e ela exige também tintas especiais que possam ir para o forno”, justifica. Mas o poliéster, enfatiza o profissional da Terphane, é a resina naturalmente adequada a esse gênero de aplicações, pois aceita uma variação de temperatura da ordem de 240ºC (-30ºC no freezer a 210ºC no forno). “Todos os substratos sofrem nestas condições, não apenas os filmes plásticos, mas também os adesivos, tintas, resinas”, explica.

Também as poliamidas são utilizadas em embalagens de alguns alimentos congelados, como carnes e embutidos, entre outros, pois apesar de esses alimentos muitas vezes não necessitarem de embalagens com barreira ao oxigênio, pois o próprio ambiente de congelamento se responsabiliza pela preservação, elas contribuem para preservar ainda mais os alimentos, além de conferir maior resistência mecânica às embalagens.

E resistência mecânica, ressalta Murilo Tambolim, especialista técnico de poliamidas da Basf, é característica importantíssima nesse tipo de aplicação.

Tambolim: PA oferece maior resistência mecânica e térmica ©QD Foto: Divulgação/Basf – Arthur Calazans
Tambolim: PA oferece maior resistência mecânica e térmica

“Muitas embalagens de alimentos congelados, especialmente carnes e derivados de proteína animal e de laticínios, têm uma camada interna de poliamida”, salienta.

Além da resistência mecânica, prossegue Tambolim, poliamidas oferecem também resistência térmica adequada a essas embalagens (além de conferir barreira ao oxigênio, que ajuda a preservar os alimentos). “E há embalagens que além da camada interna têm também uma camada externa de PA, cuja resistência térmica é mais favorável à selagem”, complementa.

Império das resinas

Se há em determinadas categorias de alimentos e bebidas anúncios de intenção de trocar embalagens plásticas por versões em papel, no mercado dos alimentos congelados registrou-se nos últimos anos um movimento inverso: ao menos no importante segmento composto por empanados, lasanhas e outros pratos prontos, nos quais marcas de porte abandonaram as embalagens secundárias cartonadas e passaram a utilizar filmes plásticos flexíveis (o cartão revestido segue sendo utilizado nas bandejas que acondicionam alguns desses alimentos, como as lasanhas).

Em alguns segmentos – sorvetes, por exemplo –, até há alguma concorrência com o cartão, reconhece Agnelli, da Braskem. “Mas plásticos têm muito mais resistência à umidade e constituem um mercado muito maior”, destaca.

Embalagens de congelados, ressalta Agnelli, podem utilizar os mesmos grades empregados nas de alimentos destinados às gôndolas tradicionais do varejo, ou aos ambientes resfriados, mas variam as formulações das estruturas, pois enquanto uma embalagem de arroz, por exemplo, precisa de capacidade de selagem, para acondicionar congelados ela deve ter também resistência à perfuração em baixas temperaturas. “E há quem trabalhe com uma camada só, com três, com cinco camadas”, aponta. “Embalagem de comida congelada representa um mercado importante não apenas pelo consumo local, mas também porque grandes empresas hoje exportam quantidades importantes de carnes e outros produtos congelados”, diz.

Embalagem: Aumento na demanda por comida congelada ©QD Foto: Divulgação
Embalagem de camarão incorpora 60% de PP recolhido do oceano

Movido pela busca por praticidade e conveniência, segue se expandindo esse mercado, observa Gani, da Terphane. “Mas a indústria de embalagens é muito grande e não existe uma solução única que atenda a todas as necessidades”, ressalta.

Verena vê oportunidades para o uso da tecnologia denominada Phormanto, desenvolvida pela Dow, em embalagens termoformadas de alimentos que, inicialmente colocados nas gôndolas de refrigerados, podem posteriormente seguir para o freezer na mesma embalagem. “Essa tecnologia permite substituir, nas embalagens de carnes e aves, estruturas com PET ou poliamidas apenas por PE”, destaca. “E já há stand up pouches de PE para alimentos congelados: por exemplo, nos alimentos infantis da marca Papai que Fez”, aponta.

As mesmas poliamidas utilizadas em embalagens de refrigerados, diz Tambolim, da Basf, aparecem nas embalagens de alimentos congelados (ou que posteriormente serão congelados pelos consumidores). Fundamenta o processo de escolha pela melhor resina, além das propriedades desejadas, também o tipo de processamento: se for extrusão com balão convencional, por exemplo, o copolímero de PA 6/6.6 é mais recomendado; para extrusão cast ou com resfriamento a água, geralmente se utiliza o homopolímero de PA 6. “Nossos grades Ultramid são adequados para coextrusão de filmes flexíveis multicamadas para as mais diversas aplicações”, afirma.

Embalagem de congelados e os hábitos alimentares

Impactando os hábitos alimentares, fatores como o crescimento populacional, a urbanização e o ritmo acelerado do dia a dia, impulsionam em âmbito global a indústria de alimentos congelados, pondera Assunta Camilo, diretora do Instituto de Embalagens.

Embalagem: Aumento na demanda por comida congelada ©QD Foto: Divulgação
Assunta: consumidores querem baixar desperdício de alimentos

“As pessoas buscam cada vez mais a conveniência de alimentos congelados prontos para o consumo, que oferecem preparo fácil e rápido no forno de micro-ondas”, pondera. “E a popularidade das refeições congeladas de porções individuais, especialmente para consumo on-the-go (durante deslocamentos), impulsiona a demanda de embalagens plásticas flexíveis.”

É grande, enfatiza Assunta, o apelo das embalagens que reduzem o desperdício de alimentos – como as plásticas flexíveis com zíperes, que podem ser novamente fechadas após a retirada de uma porção –, havendo ainda espaço para inovações em quesitos como tamanhos controlados por porções e recipientes já adequados para micro-ondas. “Embalagens flow-pack, embalagens a vácuo e embalagens com atmosfera modificada também são utilizadas na categoria de alimentos congelados”, acrescenta.

Como exemplo de marca que utiliza as embalagens com zíperes ela cita a Swift, que se vale desse recurso para acondicionar carnes de frango, boi, suínos, peixes. Já as embalagens a vácuo são utilizadas em alimentos congelados como as pizzas da Bráz Pizzaria e os pratos prontos da Liv Up (marca que se posiciona como fornecedora de alimentos saudáveis).

A crescente demanda por sobremesas congeladas e salgadinhos individuais, prossegue Assunta, impulsiona a demanda por copos e potes, cuja capacidade de proporcionar fácil consumo e porcionamento atrai pessoas preocupadas com a saúde e entusiastas de sobremesas. “O chub film também é um formato explorado na categoria para embalar biscoito de corte pronto para assar, ou sorvete de corte”, especifica.

Também a busca pela sustentabilidade, lembra Assunta, norteia o processo de desenvolvimento das embalagens de congelados, e em um processo implementado pela Sabic em parceria com um transformador e uma marca norueguesa de alimentos, já gerou uma embalagem flexível para camarões congelados feita com 60% de PP certificado e reciclado pós-consumo proveniente dos oceanos. “A novidade foi anunciada na Interpack 2023”, relata Assunta, referindo-se à feira da indústria global de embalagens realizada a cada três anos na Alemanha.

Setor alimentício segue em evolução

  • Em 2022, as vendas da indústria brasileira de alimentos congelados totalizaram R$ 43,2 bilhões: crescimento de 55%, com média anual de 11,6%, relativamente aos R$ 27,9 bilhões movimentados em 2021*
  • Segundo a consultoria Kantar Worldwide, quase metade dos brasileiros (46,3%) consumiram algum tipo de prato pronto congelado em 2022**
  • Dados da consultoria Mordor Intelligence, indicam que o mercado global de alimentos congelados deve crescer quase 5% ao ano entre 2023 e 2028, atingindo a marca de US$ 432 bilhões ao final desse período.

*Inclui: vegetais (batata pré-frita, ervilha, milho, espinafre etc.), pratos prontos e semiprontos (à base de massas, carnes, pescados e vegetais), pizzas, pão de queijo, pães e massas, lanches, snacks e industrializados de carnes (hambúrgueres, marinados, empanados etc.) – Sorvetes não estão inclusos. Fonte: ABIA (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos)

**Informação publicada na revista Veja

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