Economia circular: Tecnologias valorizam reciclados

Tecnologias para triagem de resíduos valorizam reciclados

Ampliação da demanda gerada por grandes marcas de produtos de consumo; inclusão nos portfólios das petroquímicas; reivindicações por uma atuação mais sustentável da indústria do plástico: esses e outros fatores hoje impulsionam o interesse por resinas recicladas e elevam seu valor.

Mais ainda, estimulam a oferta de resinas recicladas de melhor qualidade, indispensáveis tanto para atender às necessidades das grandes marcas e das petroquímicas quanto aos apelos da sustentabilidade.

Simultaneamente, eles aquecem os negócios dos fornecedores dos equipamentos para automatização dos processos de separação e classificação dos materiais destinados à reciclagem.

Por enquanto, de forma não muito incisiva, mas em rota consolidada de expansão, com recicladores e empresas de triagem de materiais para reciclagem considerando essa tecnologia como fundamental para incrementar produção e produtividade, e ao mesmo tempo aprimorar a qualidade dos reciclados.

É o caso da Flacipel, detentora de uma central de triagem de resíduos em Guarulhos-SP, onde começam a operar mais dois separadores ópticos, compondo então um conjunto de onze equipamentos desse gênero.

“A tecnologia valoriza demais o processo, na produção – um separador realiza o trabalho de umas setenta pessoas – e na qualidade do produto final”, destaca Rubens Moreno Prinet, responsável técnico pela empresa.

“Graças à tecnologia, abrimos novos compradores, tanto por termos mais volume, quanto pela qualidade do nosso material, pelo qual podemos até cobrar mais que a média de mercado”, acrescenta o profissional da Flacipel, cujo parque de triagem inclui diversas tecnologias de automatização (detalhes no box adiante).

Além de propiciar maior volume e produtos de mais qualidade, a automatização da separação e triagem também reduz custos e padroniza o processo produtivo, ressalta Adriano Tanaka, diretor comercial da Raposo Plásticos, unidade componente do Clean Plastic, grupo composto por unidades de reciclagem instaladas em seis estados brasileiros, nas quais recicla mensalmente sete toneladas de plástico, contando com detectores de metais, leitores ópticos, sistemas de transporte por vácuo, entre outros recursos de automatização.

“Leitores ópticos já estão presentes em duas unidades do grupo e estamos adquirindo mais, para outras unidades”, detalha Tanaka.

O maior interesse por essas tecnologias de automatização é confirmado por representantes de seus fornecedores, como Daniel Ghiringello, diretor comercial da operação brasileira da Tomra, multinacional norueguesa fabricante de separadores por leitura óptica.

Economia circular: Tecnologias para triagem de resíduos valorizam reciclados ©QD Foto: Divulgação
Ghiringello: raio-X e laser complementam os sensores NIR

“A demanda está bastante alta, principalmente no segmento dos recicladores, que hoje percebem sua importância tanto para plantas novas quanto para agregar valor aos seus produtos”, relata.

E mais de um motivo pode explicar esse movimento.

“A reciclagem e o reaproveitamento de materiais constituem tendência mundial, impulsionada por questões ambientais, mas também financeiras”, observa André Galuppo, supervisor de projetos Latam da Stadler (fabricante de equipamentos de separação e reciclagem de resíduos, e integradora que desenvolve e implementa plantas de reciclagem nas quais incluir produtos próprios e de outros fabricantes).

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Galuppo: há tecnologia para separar qualquer material

“Isso contribui para expandir a demanda por processos em grandes escalas e automatizados que cresce ano a ano no Brasil”, acrescenta Galuppo.

Desfazendo gargalos – Assim como a demanda, evolui também a tecnologia de separação e classificação dos resíduos, visando superar lacunas, como a dificuldade de reconhecimento dos materiais pretos, que por não refletirem a luz são mais dificilmente identificáveis pelos equipamentos de leitura óptica, caso da tecnologia NIR (sigla inglesa para infravermelho próximo), que atua com base na reflexão da luz, e fundamenta boa parte de sua atividade.

A Tomra, diz Ghiringello, já disponibiliza tecnologias para identificar por raios laser plásticos pretos e outros materiais não identificados pela tecnologia NIR, como as borrachas.

“É uma demanda do mercado, há cada dia mais plásticos pretos”, justifica.

Recursos de inteligência artificial, prossegue Ghirigello, também vêm sendo integrados aos equipamentos da Tomra, para que eles “aprendam”, sozinhos, a inserir no processo informações que possam ser relevantes, por exemplo, a identificar tubos que embalam pastas de silicone, que embora sejam feitos de PE prejudicam a reciclagem dessa resina, e podem ser percebidos mediante informações como seu formato.

“Essa tecnologia aprende a identificar e apartar esses tubos, mesmo quando não estão inteiros”, afirma.

Economia circular: Tecnologias para triagem de resíduos valorizam reciclados ©QD Foto: Divulgação

Sistema Autosort identifica fragmentos de plásticos

Como padrão, especifica Ghiringello, os leitores da Tomra têm sensores NIR e tecnologia de espectrometria visual VIS, que no espectro visível reconhece cores de objetos transparentes e opacos.

Opcionalmente, podem trazer também, além dos recursos de laser e inteligência artificial, itens como raios-X para reconhecimento dos materiais com base na densidade atômica específica; sensores eletromagnéticos; tecnologia de fluorescência de raios-X, que reconhece os materiais por suas características atômicas, entre outras.

“Para separação de flakes temos também o recurso das câmeras RGB, que identificam a cor e transparência do material, trabalhando em conjunto com o NIR”, complementa Ghiringello.

E a linha Unisort – marca dos equipamentos de leitura e separação por sensores ópticos da alemã Steinert –, disponibiliza as versões Unisort Black e Unisort Black Eye, capazes, segundo Matheus Chianca Ferreira, gerente comercial da empresa, de detectar e separar plásticos pretos ou escuros (a opção por uma ou outra dessas versões depende de fatores como aplicação, granulometria, volume, tipo de plástico, entre outros).

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O UniSort Black separa plásticos pretos ou escuros

Outro integrante da linha UniSort, o Unisort Film, conta com uma tecnologia denominada Active Object Control, que possibilita identificação mais precisa dos filmes plásticos.

Economia circular: Tecnologias para triagem de resíduos valorizam reciclados ©QD Foto: Divulgação
Ferreira: aplicativo permite observar operação à distância

“Ela estabiliza os filmes na correia transportadora, permitindo uma triagem precisa”, explica Ferreira.

“E recentemente lançamos um aplicativo que permite acompanhar de forma remota a operação do equipamento, com informações relacionadas à produtividade, eficiência de separação e percentual de material separado, entre outras”, complementa.

Além da tecnologia NIR, ressalta Ferreira, os equipamentos da Steinert podem trazer recursos como sensores a laser que identificam características superficiais, como volume, área, rugosidade e brilho; câmeras de altíssima resolução que identificam cores; sensores indutivos, para detectar metais não ferrosos, ou mesmo plásticos com materiais condutivos ou suscetíveis à ação de um campo magnético, entre outros.

Condicionantes e vantagens – A expansão do uso dos recursos de automatização da separação e classificação dos resíduos, observa Galuppo, da Stadler, obviamente está associada a seu custo que, no caso das tecnologias avançadas, pode nem mesmo se justificar em plantas de menor capacidade.

“Mas oferecemos opções mais simples, nas quais a triagem automatizada fará apenas o trabalho pesado de peneiramento da fração orgânica, abertura de sacos e separação entre 2D, 3D e finos”, explica.

“Atualmente desenvolvemos processos de separação de resíduos que vão de 2 a 180 toneladas por hora.”

Estão hoje disponíveis, afirma Gallupo, soluções capazes de automatizar a separação de praticamente qualquer material:

“Mas deve haver tecnologia capaz de reciclar e reaproveitar esse material, senão a separação não fará sentido”, salienta o profissional da Stadler, cujo rol de produtos de fabricação própria contém alimentadores, correias transportadoras, tromels, separadores balísticos, entre outros itens (e que entre outros produtos de terceiros agregados aos seus inclui separadores ópticos, magnéticos, indutivos e de leves).

“Há muitas vantagens no uso dessas tecnologias de automatização: as mais importantes, o aumento expressivo da escala de processamento e a qualidade das frações finais”, ressalta.

Mas, comparativamente ao que há na Europa, ou mesmo em outros países sul-americanos, como o Chile, o uso dessas tecnologias apenas engatinha no Brasil, observa Ferreira, da Steinert.

“Mas também aqui a demanda cresce continuamente e recebemos quantidade crescente de consultas e pedidos, inclusive de recicladores de menor porte, que já começam a olhar mais atentamente para essas tecnologias”, aponta o profissional da Steinert.

Flacipel – Algo entre 250 e 270 t de resíduos chega diariamente à central de triagem da Flacipel, proveniente de outras operações do grupo Multilixo – ao qual está integrada –, que coleta resíduos em estabelecimentos comerciais, industriais, de serviço e condomínios de diversas cidades do estado de São Paulo.

Lá, esse material passa inicialmente por uma pré-triagem manual, na qual são retiradas as sacarias com resíduos diversos – depois separados por outros processos – e materiais impróprios para a separação automatizada, por exemplo, entulhos de construção, mas também materiais volumosos, como bombonas ou para-choques, que também irão para a reciclagem, mas podem obstruir ou danificar a linha de produção, além de aparas de filmes de maior porte, ali mesmo separados por qualidade, cor, tipo de material.

Economia circular: Tecnologias para triagem de resíduos valorizam reciclados ©QD Foto: Divulgação
Linha de triagem e classificação instalada na Flacipel

O material que permanece na esteira segue para separadores balísticos, que diferencia materiais por diferentes portes – como frações de papel e papelão, do papelão de grande porte –, enquanto as sacarias contendo materiais diversos passam por um equipamento rasga sacos, após qual são manualmente retiradas peças que possam comprometer a linha automatizada, como fitas, fitilhos e materiais de grande volume.

Posteriormente, esse material passa novamente por separadores balísticos, onde materiais planos são separados dos tridimensionais, além de ser extraída a carga de finos, que após a retirada de metais segue para compostagem.

Percorre então duas rotas: uma delas, destinada às peças planas, que são direcionadas para um conjunto de quatro separadores ópticos, onde filmes são separados de papéis, e ao qual está conjugado um sistema de sucção – denominado windshifter –, que retira materiais mais leves, como as aparas dos filmes.

Por sua vez, o material 3D segue para um conjunto com outros cinco separadores ópticos, no qual percorre duas trilhas.

Na primeira, são retirados PET transparente, PE branco, PP branco, PVC e eventuais resíduos de papel.

O material restante passa novamente pelos separadores, que distingue PET, PE e PP coloridos, PS, e eventuais resíduos de papelão (em diferentes etapas desse processo, sensores magnéticos e indutivos apartam metais ferrosos e não ferrosos).

“Os sensores ópticos são muito precisos na separação dos materiais”, diz Rubens Prinet.

“Peças como garrafas de PET com muito líquido dentro são detectadas, mas não são retiradas do processo, pois ficam pesadas para a ejeção. Pode-se aumentar a força de ejeção, mas nesse caso corre-se o risco de aumentar a quantidade de contaminantes que serão levados para a linha de qualidade”, acrescenta.

Na maioria dos casos, diz Prinet, a Flacipel remunera os espaços onde realiza a coleta pelos resíduos que lhe são entregues.

E não recicla nenhuma resina, destinando as que separa para o mercado da reciclagem.

O grupo Multilixo tem empresas que lidam com outros resíduos desse processo de triagem, como a produção de CDR, combustível derivado de resíduos para queima em fornos industriais, a compostagem e a reciclagem de madeira para geração de biomassa e energia, e a produção de agregados para a construção civil a partir de entulhos de obras e demolições.

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