Economia circular: Resinas recicladas pós-consumo

Demanda crescente valoriza resinas recicladas pós-consumo

Não faz muito tempo, a reciclagem parecia ser atividade dedicada apenas aos subprodutos e aos rejeitos com maior valor comercial da cadeia do plástico.

Mas ela se consolidou como um mercado bastante dinâmico, a cada dia mais competitivo, não apenas pela crescente profissionalização de suas empresas, mas também pela atuação das petroquímicas e dos grandes distribuidores de resinas, que hoje enfatizam de forma incisiva sua oferta de resinas recicladas.

Oferta, aliás, em processo de contínua expansão, como acontece na Braskem, que globalmente já disponibiliza mais de quarenta grades de PE e PP com resinas recicladas.

Como adiantou Paulo de Mattos Coelho, líder comercial na área de economia circular da empresa, a companhia no momento desenvolve outros quarenta grades do gênero.

Nessas resinas a Braskem aloca conteúdo reciclado proveniente de resíduos PCR, em percentuais que por volta de 30% ou 40% e podem chegar a 100%, fornecidos por recicladores credenciados para atender a desenvolvimentos realizados por ela própria; no Brasil, são seis recicladores credenciados, além de uma unidade própria de reciclagem inaugurada no início deste ano em Indaiatuba-SP (gerenciada pela recicladora Valoren).

Essas resinas, detalha Coelho, são utilizadas em inúmeras aplicações, das embalagens de produtos de higiene e limpeza a autopeças e tubos de irrigação.

“Temos hoje resinas recicladas mesmo em embalagens de produtos como fraldas e absorventes: não é uma aplicação simples para resinas com reciclados PCR, a gramatura é muito fina, há necessidade de impressão”, ressalta.

A Dow tem a linha Revoloop, que pode conter até 70% de PE de resíduos PCR. É uma linha global, porém produzida em parceria com recicladores locais (no Brasil, esse parceiro é a Boomera LAR).

Economia circular: Resinas recicladas pós-consumo ©QD Foto: Divulgação
Carvalho: linha Revoloop está crescendo em volume e tipos

“Essa linha está sendo muito bem aceita, especialmente pela indústria da limpeza doméstica”, destaca Marcus Vinicius Carvalho, líder de inovação e cadeia de valor para embalagens da empresa na América Latina.

No Brasil, a linha Revoloop é fornecida nas versões PEAD branco e colorido e, de acordo com Carvalho, está sendo expandida tanto no volume total de produção, quanto para oferecer também polietileno linear.

Estirênicas e poliamidas – Conteúdos reciclados aparecem também nos portfólios de produtores de resinas estirênicas, por exemplo, na linha Ecogel, da Unigel, já utilizada em componentes internos de refrigeradores.

“Estamos fazendo testes para seu uso em placas de XPS utilizadas na construção civil”, informa Marcelo Natal, diretor comercial da Unigel.

Essas resinas da Unigel contêm 30% de conteúdo reciclado, índice apontado por estudos como o ideal para a manutenção de características técnicas similares às das virgens, garantidas por quesitos como o controle das fontes do material reciclado, proveniente em grande parte da Termotécnica (maior fabricante de EPS do país) e em menor escala pelo programa Copinho Legal (que recolhe também copos de PP depois reaproveitados pela Braskem).

Por sua menor transparência, são comercializadas como PS alto impacto, não como PS cristal.

Por sua vez, a linha Terluran Eco, da Ineos, tem grades com 50% ou 70% de ABS pós-consumo reciclado, e na Europa já compõe caixas de ferramentas e pilares de automóveis, entre outros produtos.

Seu desempenho, destaca Fabio Bordin, diretor da Ineos na América do Sul, é muito similar ao das resinas virgens e no Brasil ela já é aprovada para embalagens de cosméticos.

Também a Ineos controla a fonte desse material reciclado, proveniente de programas de logística reversa de empresas como a Samsung.

E há planos para a expansão de sua produção, hoje concentrada na Bélgica.

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Bordin: Teluran Eco contém até 70% de ABS de pós-consumo

“Já há projetos para iniciar a produção também no México e na Ásia”, informa Bordin.

A Radici fornece poliamidas recicladas em duas linhas: uma delas, a linha Heramid, com reciclados provenientes de resíduos industriais gerados em sua própria operação têxtil – no Brasil, localizada em São José dos Campos-SP – e já utilizada em escala significativa pela indústria automobilística; outra, na linha Renycle, lançada ano passado, na qual o material reciclado provém de resíduos pós-consumo oriundos de autopeças e redes de pesca, entre outros materiais, em um processo gerenciado e implementado pela recicladora Zeta, recentemente integrada ao grupo.

Por enquanto, a linha Renycle chega apenas por importação ao Brasil, onde é utilizada por uma empresa do setor automotivo.

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Jane: projeto busca produzir poliamida PCR no Brasil

“Mas estamos desenvolvendo um projeto com a Robert Bosch para produzi-la aqui, a partir de carcaças de furadeiras”, diz Jane Campos, diretora-geral da Radici na América do Sul.

“Na Europa, ela já é bastante utilizada: talvez não pura, mas em composições”, acrescenta.

Horizontes mais amplos – A presença das petroquímicas no mercado das resinas recicladas, pondera Maurício Jaroski, diretor de economia circular e reciclagem da consultoria MaxiQuim, decorre de uma necessidade estratégica que visa tanto atender a crescente demanda, quanto expô-las como empresas com atuação sustentável.

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Jaroski: ESG provoca aumento explosivo da demanda por PCR

“As distribuidoras, hoje também nesse mercado, capilarizam esse posicionamento para o universo das empresas de menor porte”, complementa Jaroski (ver box sobre distribuidoras adiante).

Neste ano, diz o especialista da Maxiquim, “está explodindo” a demanda por resinas recicladas, especialmente de PET e PEAD, não porque falte resina virgem, mas pelas metas de sustentabilidade e ESG das empresas.

“Estou muito otimista com esse mercado que, além de se expandir rapidamente, profissionaliza-se bastante, pois os recicladores sabem que agora precisam oferecer reciclados de alta qualidade”, comenta.

“Ele hoje recebe muitos investimentos: petroquímicas compram empresas de reciclagem, surgem novas plantas e consolidam-se grupos de recicladores; bancos e fundos de investimentos nele buscam oportunidades”, acrescenta.

Um exemplo desse investimento é o anúncio, realizado no início do ano pela Braskem, de um aporte de R$ 67 milhões na instalação da planta própria de reciclagem mecânica instalada em Indaiatuba, capaz de fornecer anualmente 14 mil t/ano de resinas PCR.

“Ampliaremos nosso portfólio incluindo, até 2025, 300 mil t/ano de resinas termoplásticas e produtos químicos com conteúdo reciclado; até 2030, serão 1 milhão de t/ano desses produtos”, afirma Coelho.

A demanda por resinas mecanicamente recicladas deve crescer em ritmo ainda mais acelerado quando elas puderem ser utilizadas em aplicações para contato com alimentos.

Como já acontece com o PET que, impulsionado por essa possibilidade, no Brasil já atinge um índice de 55% de reciclagem de suas embalagens (dado da Associação Brasileira da Indústria do PET).

Tendo o PET reciclado de grau alimentício, informa a MaxiQuim, sido vendido nos meses de junho, agosto e setembro últimos a preços superiores aos do PET virgem.

A possibilidade de uso de reciclados em aplicações alimentícias começa a se tornar realidade também para outras resinas:

“Nos Estados Unidos já temos dois grades de PP com aprovação do FDA para contato com alimentos.

E a nossa operação mexicana está em processo de obtenção dessa aprovação para dois grades de PE”, diz Coelho, da Braskem.

Também já há, lembra Natal, da Unigel, tecnologia para o uso de poliestireno mecanicamente reciclado em novas embalagens alimentícias.

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Natal: linha Ecogel contém 30% de conteúdo reciclado

“Quando for à Feira K (que acontece neste mês de outubro), visitarei o fabricante dessa tecnologia”, adianta Natal, referindo-se à Gneuss, cujos equipamentos já são utilizados para produzir PS reciclado com grau alimentício em países como a Colômbia e é utilizado em copinhos de laticínios.

Custos e especificações – A trajetória de expansão do mercado das resinas recicladas ainda convive com alguns obstáculos, caso do custo da logística de coleta dos resíduos pós-consumo, que eleva os preços das resinas recicladas e agrega uma dificuldade adicional a sua comercialização.

Afinal, lembra Natal, muitas empresas ainda associam resina reciclada a baixo custo:

“Nossa linha Ecogel tem um custo de produção um pouco superior ao de resina virgem e é vendida por um preço similar. Há quem pague, mas são ainda poucas empresas”, relata o profissional da Unigel. E existe, ele lembra, tecnologia para a reciclagem química do PS: “Mas, pelo investimento e pela escala que exige uma planta de reciclagem química, considero a reciclagem mecânica até mais adequada para o atual momento”, pondera Natal.

Além dos preços decorrentes da logística mais complexa, a qualidade da matéria-prima composta pelos resíduos PCR também afeta esse mercado, e requer melhorias.

“Dependendo do PCR, ele impacta nas propriedades mecânicas da resina, limitando seu uso a determinada percentagens”, observa Carvalho, da Dow, cuja meta é chegar a 2035 colocando no mercado apenas produtos que permitam a produção de embalagens recicláveis ou reutilizáveis: atualmente, informa a empresa, esse índice está em 85%.

Para Jane, da Radici, o potencial de uso de resinas recicladas é inibido também porque determinados setores, como a indústria automobilística, superdimensionam algumas de suas especificações.

“Talvez nem todas as autopeças precisem das mesmas especificações, mas geralmente é estabelecido um patamar único, e isso prejudica um pouco o uso de resinas recicladas, que atingem performance muito similar à das virgens, mas podem apresentar pequenas variações em alguns quesitos”, destaca.

“Estamos discutindo isso com montadoras e elas estão abertas a essa discussão”, acrescenta.

No Brasil, prossegue a profissional da Radici, o mercado das resinas recicladas é prejudicado também porque são falhos os programas de logística reversa.

A coleta de poliamidas seria beneficiada por medidas como a obrigatoriedade imposta às seguradoras de recolherem e destinarem à reciclagem os veículos que retiram do mercado (como já ocorre em alguns países europeus).

“Também é muito caro o custo logístico no Brasil, e isso se reflete no custo da resina reciclada. Mas temos conseguido oferecer resinas recicladas com preço muito similar ao das virgens”, enfatiza Jane.

A Ineos, destaca Bordin, na mesma linha Eco na qual oferece grades de ABS com resinas recicladas pós-consumo, disponibiliza também diversas resinas (PS, ABS, SAN, entre outras) produzidas com diferentes teores de biomassa na cadeia.

“Pretendemos atingir um volume de vendas de 500 mil toneladas para a linha ECO em 2030, e zerar 100% das emissões até 2050”, ressalta. “E nossa planta piloto de reciclagem química de poliestireno deve ser inaugurada em 2023 na cidade de Wingles, na França” ressalta Bordin.

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Testes com frascos feitos de PEAD PCR no laboratório da Dow

Petroquímicas – A presença de grandes petroquímicas é positiva para o mercado da reciclagem, avalia Ricardo Mason, CEO da Plastimil, empresa que opera uma planta localizada em Vinhedo-SP, com capacidade para 24 mil t/ano para reciclar PE, PP, ABS e PS de resíduos pós-consumo e pós-industriais.

Ela contribui, justifica Mason, para derrubar possíveis restrições ao uso de resinas recicladas.

“E essas restrições vêm caindo dia a dia”, ressalta.

A concorrência das petroquímicas, observa Mason, também exige dos recicladores o investimento na qualidade de seus produtos; investimento, ele enfatiza, sempre prioritário na Plastimil, que no próximo ano completa meio século de existência, e é hoje credenciada como fornecedor global por empresas do porte do grupo Stellantis (que integra marcas como Fiat, Citroen e Peugeot, entre outras).

“Desenvolvemos resinas recicladas que possam substituir materiais virgens, hoje utilizadas em aplicações como autopeças, embalagens de higiene e limpeza, móveis, entre outras”, detalha Mason.

Há realmente, ele relata, quem hoje aceite pagar por resinas recicladas preços até um pouco superiores aos das virgens, como vem acontecendo no mercado do PET (no qual não atua a Plastimil).

“É certo que usuários de PET são geralmente grandes empresas, mas o mercado das poliolefinas também tem clientes de grande porte e um universo até maior de usuários”, avalia.

“Obviamente essa demanda não é infinita, as empresas também consideram o preço, mas precisam de resinas recicladas para suas estratégias de ESG e suas metas de sustentabilidade”, complementa o profissional da Plastimil que, sem revelar números, projeta que este ano sua empresa comercializará quantidade de resina reciclada superior à do ano passado.

Em futuro não muito distante será talvez corriqueira a venda de resinas recicladas por preços superiores aos de equivalentes virgens, prevê Marcos Guilherme, gestor comercial da Neuplast, recicladora de poliolefinas localizada na cidade paulista de Guarulhos.

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Guilherme: sustentabilidade puxa para cima preço dos PCR

“Obviamente, a resina reciclada precisará atender aos requisitos técnicos, e dispor de laudos e informações de rastreabilidade. Mas será vendida também pelo valor da sustentabilidade”, projeta.

Utilizando principalmente resíduos PCR, a Neuplast fornece resinas recicladas para setores como indústria automobilística, construção civil, agronegócios, entre outros.

Ocupa atualmente cerca de 70% de sua capacidade total, de 1,7 mil t/mês. E Guilherme elenca, entre os obstáculos para a elevação dessa taxa de ocupação, a dificuldade de obter matéria-prima para um reciclado de melhor qualidade.

“Ainda recebemos, por exemplo, PP com nylon ou com ABS”, diz. “Mas o mercado das resinas recicladas está em franca expansão, tanto pelas exigências da legislação ambiental quanto pela crescente consciência da sustentabilidade de empresas e consumidores”, finaliza.

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