Economia Circular – Remover a tinta aumenta qualidade da resina

Resinas recicladas sem tinta podem valer mais

Equipamentos para destintagem

Também os fornecedores de equipamentos buscam oferecer soluções capazes de remover as tintas dos impressos plásticos.

Um deles, a Gamma, fabricante italiana de equipamentos para reciclagem e representada no Brasil pela By Engenharia, conta com o sistema Eco Clean que consegue, pela ação conjunta de escovas mecânicas e detergentes, remover até 99% das tintas de filmes monocamadas em bobinas, sejam elas tintas base água ou solvente, e mesmo com cura UV.

Ainda não há Brasil, informa Marco Gianesi, diretor da By, nenhum usuário dessa tecnologia que na Itália é usada por dois produtores de filmes plásticos.

“Esses fabricantes conseguem recuperar sua matéria-prima com um granulado com características muito similares às de uma resina virgem”, afirma Gianesi.

Uma tecnologia que combina banhos em solventes e escovação para remover as tintas de aparas industriais de filmes plásticos foi desenvolvida também no Brasil, por Julio Haas (profissional que atua desde 1998 na indústria do plástico).

Plástico Moderno - Economia Circular - Remover a tinta aumenta qualidade da resina reciclada ©QD Foto: iStockPhotos
Haas e a linha Rhaaplex que associa banhos e escovação para remover tintas

Denominada Rhaaplex, ela inclui um banho inicial para a remoção do grosso da tinta, três fases de escovação e outro banho, com centrifugação, do qual o plástico segue para a secagem e a moagem.

“O agente ativo é um solvente biodegradável, não inflamável e atóxico”,

destaca Haas, que em 2018 fundou a empresa Cristalsul para implementar e comercializar essa tecnologia.

De acordo com Haas, o sistema Rhaaplex extrai totalmente a tinta de filmes plásticos monocamadas feitos com qualquer resina – exceto laminados – e, salvo atrasos provocados pela pandemia, começaria a operar em março com uma primeira unidade capaz de processar 200 toneladas mensais de filmes, instalada em uma recicladora montada no município gaúcho de Venâncio Aires pelo próprio Haas.

Plástico Moderno - Economia Circular - Remover a tinta aumenta qualidade da resina reciclada ©QD Foto: iStockPhotos
Linha Rhaaplex que associa banhos e escovação para remover tintas

Ele já projeta a construção de uma segunda planta, com capacidade para 500 t/mês e até o meio do próximo ano quer ter quatro plantas.

“Mas também pretendo construir máquinas para outros recicladores, já estou em negociações”, diz Haas. “Grandes marcas têm interesse em plástico reciclado cuja tinta foi removida”, acrescenta.

Tecnologias que minimizam

O custo deve ser considerado nas análises relacionadas à conveniência ou não da destintagem de plásticos.

E ele não se restringe ao custo de aquisição, ou mesmo de operação das tecnologias, geralmente fundamentadas em solventes, ou em banhos em soluções, e assim potencialmente geradoras de efluentes que provavelmente necessitarão de tratamento, e mesmo de licenças de órgãos ambientais.

“Não sei se um reciclador tem condições de absorver todos esses custos”, observa Rafael Sette, diretor comercial do grupo composto pelas empresas MTEch e MMS Plásticos.

Para ele, é interessante retirar as tintas dos filmes plásticos, que geralmente são impressos com maiores percentuais de tintas aplicados em suas superfícies.

“A maioria das aplicações rígidas tem cores fechadas, nelas é difícil encontrar impressão direta e, quando a têm, o percentual de tinta sobre a superfície é menor”, observa o diretor da Mtech e da MMS Plásticos, a primeira, uma recicladora que mantém no Rio de Janeiro uma planta capaz de processar 80 t/mês de plásticos rígidos, cuja produção vai para a MMS produzir a camada interna das chapas extrudadas tri-camadas que fabrica em Guarulhos-SP.

A Mtech, ressalta Sette, recicla apenas plásticos rígidos (PE, PP, ABS, PS, PETG, entre outras resinas), dos quais não retira a tinta. “Temos um sistema de degasagem que retira os gases gerados pelos solventes; os pigmentos ficam na massa e o granulado sai tonalizado conforme a cor da impressão, mas perfeitamente adequado à minha necessidade”, detalha.

Mesmo com tintas, plásticos são 100% recicláveis, lembra Fábio Arcaro Kühl, diretor-executivo da Ecological, empresa que mantém em Cerqueira César-SP uma planta que processa BOPP proveniente de sobras industriais (apenas o BOPP monocamada revestido com tinta metalizada, não o filme laminado).

Plástico Moderno - Economia Circular - Remover a tinta aumenta qualidade da resina reciclada ©QD Foto: iStockPhotos
Kühl: reciclador pode adotar técnica se valorizar produto

A tinta é mantida nesse processo de reciclagem, que gera um granulado mais escuro, utilizado na produção de para-choques e utilidades domésticas, entre outras aplicações.

“As tecnologias para reciclagem de material com tinta, como BOPP, evoluíram muito nos últimos anos”, ressalta Kühl.

Com capacidade para processar 400 t/mês de materiais, a Ecological dispõe de bombas de degasagem para extrair os gases liberados pelas tintas, e de sistemas de filtragem das tintas desses gases, ambas tecnologias importantes para reduzir os impactos do acúmulo dos materiais provenientes das tintas nos equipamentos e da emissão de resíduos para a atmosfera.

“Mais complicado que remover a tinta é reciclar filmes multicamadas com estruturas de plásticos que não se compatibilizam, como poliéster com BOPP ou PE. É possível reciclá-los, porém com mais dificuldades e obtendo materiais ou subprodutos de baixo valor agregado”, relata o diretor da empresa.

Kühl considera importante o desenvolvimento de tecnologias de remoção das tintas, mas vincula seu uso tanto ao seu custo quanto ao valor obtido pelas resinas recicladas. “Na atual conjuntura de escassez de resinas e consequente valorização das resinas recicladas, talvez valha mais a pena investir nesse tipo de tecnologia”, pondera.

Talvez valha mesmo. Haas, da Cristalsul, estima que uma resina reciclada com a utilização da tecnologia Rhaaplex pode ter valor cerca de 50% superior ao de granulados reciclados sem a destintagem.

Essa tecnologia, ele reconhece, ainda não é barata para atual realidade do mercado brasileiro, mas com ela a resina reciclada poderá retornar à produção de filmes para embalagens (com exceção de embalagens para alimentos).

“Poderá ser utilizada em embalagens de materiais de construção, de utilidades domésticas, de fardos de bebidas”, enfatiza.

Mason, da Deink Brasil, garante: o plástico reciclado por sua empresa tem desempenho similar ao do material virgem, não apenas nas características visuais, mas também nas técnicas.

“Comprovamos isso nas linhas da Ambev, uma aplicação crítica, pois extremamente veloz, na qual apresentou desempenho equivalente ao da resina virgem”, ressalta.

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