Reciclagem exige combinação de tecnologias

Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias

Bem estruturada empresarialmente, a indústria da reciclagem evolui também em tecnologia, começando a agregar a alternativa da reciclagem química à já tradicional reciclagem mecânica, bem como à reciclagem energética – ou recuperação energética, como dizem os profissionais desse setor –, ainda pouco utilizada por aqui, embora relevante em vários países.

Considerando-se as especificidades tecnológicas e os impactos ambientais de cada opção, surgem algumas indagações: para inserir o mais rápida e consistentemente possível a cadeia do plástico na economia circular, deve-se enfatizar uma, ou algumas dessas diferentes modalidades?

Quais, e por quê?

As respostas para essas questões não são simples. Afinal, embora prometam cumprir a premissa básica da circularidade – fazer retornar ao seu estágio inicial a matéria-prima já utilizada –, as tecnologias disponíveis parecem tornar a reciclagem química ambientalmente menos indicada em quesitos como consumo energético e emissão de gases (comparativamente à mecânica).

Sem contar que exige mais recursos, sem necessariamente aceitar todos os resíduos.

Mas a reciclagem mecânica tem ainda muitas limitações, especialmente quando precisa lidar com resíduos flexíveis e compostos por mais de uma resina, enquanto a energética é submetida por profissionais da cadeia do plástico a diversos questionamentos quando avaliada pelos parâmetros da circularidade.

Projeções indicam que, ao menos nos próximos anos, conviverão essas três modalidades de recuperação de resíduos plásticos. A química, até por partir de uma base de recuperação bem menor, cresce mais que a mecânica – com ritmo de expansão mantido –, e a energética ao menos deve manter seu atual espaço. Quem perderá participação será a destinação a aterros (ver Tabela 1). Além disso, também haverá uma redução da participação das resinas virgens na demanda total por plásticos (Tabela 2).

A reciclagem mecânica, além de seguir lidando com seus atuais materiais, deve ganhar mais relevância na medida em que a busca por design mais favorável à reciclagem permitirá que ela absorva outros tipos de resíduos, por exemplo, stand up pouches feitos apenas de PE que hoje substituem estruturas multimateriais, afirma Paula Leardini, analista sênior e líder de reciclagem nas Américas da consultoria Icis.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Paula: reciclagem química pode lidar com filmes multicamadas

“É um processo mais barato e emite menos gases”, argumenta.

Mas a reciclagem química se adequa melhor a materiais hoje considerados problemáticos para os processos mecânicos, como os filmes multicamadas. “E, dependendo das aprovações, materiais reciclados quimicamente podem ser utilizados para contato com alimentos”, destaca.

Reciclagem e Tecnologia: Complementaridade é a palavra


Até há algum tempo tida como solução capaz de sozinha solucionar quase todos problemas relacionados à sustentabilidade do plástico, a reciclagem química é hoje apresentada em tons mais comedidos, como instrumento até complementar à mecânica. Por motivos que não se limitam às considerações ambientais, nem aos vultosos recursos que exige, mas incluem também a existência de uma cadeia de reciclagem mecânica bem estabelecida, que talvez não seja interessante desmantelar.

Além disso, a reciclagem química tem ainda dificuldades para lidar com resinas como o PVC, que libera gases clorados, e o PET, que pode prejudicar o processo de pirólise, método mais enfatizado para a geração de poliolefinas via reciclagem química (porém, dentro de certos limites, pode-se trabalhar também com esses materiais).

Sem contar que está ainda em estágio inicial de consolidação como mercado, hoje composto principalmente por parcerias entre petroquímicas e fornecedores que anunciam alguma oferta. Caso da parceria estabelecida entre a Dow e a empresa britânica Mura, que deve inaugurar neste ano a sua primeira planta de reciclagem química, para a qual desenvolveu uma tecnologia própria que quebra os plásticos usando vapor em estado supercrítico. “Ainda em 2023 teremos produtos com matéria-prima circular oriunda dessa parceria”, afirma Giancarlo Fanucchi Montagnani, gerente de sustentabilidade da Dow.

A Dow tem presença também na reciclagem mecânica, por exemplo, com a linha Revoloop, que contém PE reciclado proveniente de recicladores locais das regiões onde atua.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Montagnani: reciclagem química trata os materiais complexos

“À reciclagem mecânica cabem os resíduos com perfil mais similar; é uma cadeia já estruturada, mas precisa de mais escala na coleta seletiva e na triagem. A reciclagem química aceita estruturas mais complexas, como os filmes com mais de um material, e aceita índices maiores de contaminação”, pondera Montagnani.

Por sua vez, a reciclagem energética, “embora não faça o material voltar para a cadeia, ainda é, e deve ser por algum tempo, um destino mais interessante que os aterros para alguns tipos de resíduos”, acrescenta.

Mas Luiz Falcon, responsável pela plataforma de reciclagem da Braskem, vê a recuperação energética como alternativa que, embora consiga reduzir a presença de resíduos em aterros, progressivamente perderá espaço, tanto por não reinserir as matérias-primas nos processos produtivos, quanto por sua elevada pegada de carbono.

A reciclagem mecânica seguirá crescendo, mas a química deve avançar mais rapidamente, até porque gradativamente a evolução tecnológica reduzirá, ou mesmo eliminará, a atual objeção ao seu elevado consumo energético.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Falcon: recuperação energética não devolve resinas ao mercado

“Já temos catalisadores que melhoram o rendimento da pirólise, baixando a temperatura e reduzindo o consumo de energia. Mas estamos desenvolvendo internamente um projeto de catalisadores que quebram eles próprios as moléculas e ainda geram energia”, relata Falcon.

Segundo ele, deve ser inaugurada no primeiro semestre do próximo ano a planta de reciclagem que a Braskem está construindo em Jaguariúna-SP, que lhe fornecerá 3 mil t/ano de óleo de pirólise. “A tecnologia de pirólise que utilizaremos nessa planta é da Valoren. Nós entramos com o downstream, a separação da fração nafta do óleo”, detalha Falcon. “Ainda avaliamos o que fazer com os cortes mais pesados, que são também utilizados por algumas petroquímicas para a produção de outros produtos químicos”, complementa.

Dentro de determinados limites, diz o especialista da Braskem, praticamente todos os plásticos poderão ser incorporados ao processo dessa planta; especialmente, em formatos hoje menos aproveitados pela reciclagem mecânica. “A grande maioria dos fardos que estamos recebendo para os testes é de aplicações flexíveis, mais complexos de reciclar pela reciclagem mecânica”, relata.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Tabela 1: Evolução global da reciclagem e da destinação dos plásticos
Fonte: consultoria NexantECA (fornecido pela Braskem)
Tabela 2: Evolução das participações na demanda global por resina virgem e reciclada
Fonte: consultoria McKinsey

Ainda na vertente da reciclagem química, a Braskem tem outras iniciativas, como um investimento na empresa norte-americana Nexus – que lhe fornecerá matéria-prima para a produção de PP – e projetos em parceria com instituições de ensino e pesquisa. “Nossa intenção é não ficarmos restritos à pirólise, que é uma opção de curto prazo”, ressalta.

A Braskem atua também na reciclagem mecânica, com ações como a manutenção de uma planta operada pela mesma Valoren, e a aquisição do controle acionário da recicladora Wise. “A reciclagem química e a mecânica são complementares”, qualifica Falcon. “A mecânica ainda tem limitações tanto na qualidade quanto em questões regulatórias, que inibem seu uso em aplicações alimentícias. A química complementa isso, gera material com qualidade idêntica à da virgem, e lida bem com flexíveis”, compara.

Reciclagem e tecnologia: Matéria-prima versus estrutura

Em sua linha de poliamidas Ultramid Ccycled, a Basf já disponibiliza resinas com conteúdo quimicamente reciclado (advindo de pneus usados e de outros resíduos).

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Viñas: as três modalidades de reciclagem são necessárias

“Esse material já é utilizado em calças pela marca Vaude”, relata Rafael Viñas, gerente de projetos para negócios na área de Químicos e Produtos de Performance da empresa.

A própria Basf, enfatiza Viñas, faz essa reciclagem química na Alemanha, utilizando processos termoquímicos que permitem converter os resíduos plásticos em gás de síntese ou em óleo de pirólise.

Viñas visualiza utilidade para as três modalidades de reciclagem no processo de correta destinação dos resíduos plásticos. A mecânica, mantendo seu já bem estabelecido papel na reciclagem de embalagens rígidas e componentes monomateriais, como poliolefinas, PET, poliamidas e poliestireno, enquanto para a química podem ser destinadas mais aplicações flexíveis e resíduos multimateriais. “E, quando o contexto socioeconômico permitir, a energética pode ser uma alternativa, pois evita o uso de um combustível virgem fóssil exclusivamente para gerar energia, e tal destinação pode ser melhor que aterros para resíduos hoje de difícil reciclagem, como aqueles muito contaminados e os compósitos”, acrescenta.

O espaço concedido a essas diferentes modalidades, pondera Viñas, dependerá sempre da análise de um binômio composto, de um lado, pela disponibilidade de matéria-prima na qualidade e na quantidade demandadas por cada uma delas, e de outro pela existência de uma infraestrutura capaz de processar esse material. “Um pressuposto é a logística reversa e a separação. Disseminando-se mais as melhores tecnologias de separação, aumenta a quantidade de material para a reciclagem”, ressalta. “Há hoje um grande esforço da cadeia em prol de um design ambientalmente correto e isso também amplia a oferta de material para a reciclagem”, enfatiza o profissional da Basf.

O design como instrumento que fortaleça a reciclagem, especialmente na vertente mecânica, é postulado também por Fábio Kühl, diretor-executivo da Ecological, empresa recicladora de BOPP. “Caso não seja viável alterar o design, devemos viabilizar a estruturação de uma cadeia de reciclagem química que se sustente sem canibalizar os materiais que já são reciclados pela cadeia mecânica”, pleiteia.

A reciclagem mecânica, lembra Kühl, atinge números expressivos no reaproveitamento de resíduos de materiais como PE, PP, PET e PS, entre outros. “Tem também investido em tecnologia para aumento de capacidade, e disponibiliza resinas recicladas para aplicações cada vez mais nobres, como o botte-to-bottle, embalagens primárias e secundárias, bens duráveis”, enfatiza.

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Reciclagem e tecnologia: Outros critérios

No Brasil, as três modalidades de reciclagem são importantes porque aqui ainda são muito baixos os índices de reciclagem, argumenta Augusto Dornelles, diretor de auditoria da empresa certificadora de processos de reciclagem Aceplas.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Dornelles: qualidade dos reciclados locais melhorou

“Na Europa, onde o consumo per capita de plásticos é muito maior, recicla-se algo entre 30% e 35%; aqui, reciclamos 24% das embalagens”, compara.

Ao menos no médio prazo, crê Dornelles, seguirá predominante a reciclagem mecânica, que exige um tempo menor de implementação e é mais acessível financeiramente (apesar de existirem hoje equipamentos de reciclagem mecânica com preços na casa do milhão de dólares). E, embora no Brasil ainda não seja permitido seu contato com alimentos, exceto no caso do PET, segue melhorando a qualidade dos reciclados nacionais, avalia o profissional da Aceplas. “No passado observávamos a manutenção de uma média de 40% a 50% das propriedades dos plásticos virgens, hoje encontramos índices superiores a 80% nos grandes e médios recicladores, e, em alguns casos, compostos reciclados de PCR com propriedades muito similares às dos materiais plásticos de primeira linha”, ressalta.

A reciclagem mecânica, prossegue Dornelles, de certa forma já é praticada pela grande maioria dos transformadores quando reaproveitam seus rejeitos; agregando-se a esse processo uma extrusora e um sistema de lavagem e secagem, têm-se uma planta de reciclagem mecânica. Por sua vez, a reciclagem química faz parte de um universo totalmente diferente: a indústria química, que exige plantas também totalmente distintas e envolve questões mais complexas, como a segurança de processos e pessoas; razões pelas quais não deve interessar a quem atua com reciclagem mecânica.

Para ele, mesmo exigindo investimentos mais altos e de ser criticada por destruir a matéria-prima, a recuperação energética também tem função importante como destino de resíduos plásticos. “Sem ela, o que fazer, por exemplo, com pás eólicas, que logo comporão um enorme cemitério?”, indaga Dornelles.

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Braskem opera planta própria de reciclagem mecânica

Paula, da Icis, lembra que mesmo a reciclagem química requer um bom processo de coleta e triagem, pois a qualidade do que ingressa na planta pode tanto interferir na qualidade do produto, quanto reduzir seu rendimento. “E algo que precisa evoluir muito é a comunicação entre marcas e consumidores, que ainda não aceitam bem um visual algo diferente pelo uso de reciclados”, recomenda.

Montagnani, da Dow, defende a reciclagem mecânica também por envolver uma cadeia, muito consolidada, que integra catadores, cooperativas, recicladores, recicladores. Mas suas limitações, ele ressalva, expõem-se até mesmo na grande quantidade de materiais ainda rejeitados pelas cooperativas. “Mas haverá resíduos para as três modalidades e acho que os limites entre elas daqui para a frente estarão bem estabelecidos”, prevê o profissional da Dow.

Abren

“É utopia pensar em reciclar todos os resíduos. O Brasil ainda recicla muito pouco, a maioria das pessoas não separa, há pouca coleta seletiva. Mesmo as cooperativas, que recebem o material já separado, reciclam cerca de 40% do que recebem e descartam o resto em aterros”, diz Yuri Tisi, presidente-executivo da Abren (Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos), defendendo o consumo dos resíduos para a geração de energia.

Economia circular: Reciclagem do plástico exige combinação de tecnologias ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Tisi: recuperação de energia não compete com reciclagem

“Na Europa, recicla-se cerca de 25% dos RSU (resíduos sólidos urbanos). E, por lá, a fração orgânica corresponde a apenas uns 20% a 25% do total de RSU, o resto é material teoricamente reciclável”, acrescenta.

No Brasil, a recuperação energética ainda se restringe à queima de resíduos em fornos de cimenteiras, não há usinas dedicadas a esse processo. A primeira delas deve ser inaugurada em 2026, em Barueri-SP, e processará 300 mil t de resíduos sólidos por ano, gerando energia para suprir a demanda de 320 mil pessoas. “Até na África já há usinas; na China, existem 622”, destaca Tisi.

A recuperação energética, ele afirma, não concorre com a reciclagem, pois estatísticas mostram que quanto mais uma região recupera energia de resíduos, mais ela também recicla. “E quanto maior a participação de aterros e do destino final incorreto de resíduos, menor a taxa de reciclagem: é o caso do Brasil, que destina 96% dos RSU a aterros e lixões”, enfatiza. “A maioria dos plásticos não pode ser reciclada e no Brasil a legislação proíbe que se incinere o que pode ser reciclado”, complementa, referindo-se à PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos.

E, se gera CO2, a recuperação energética, argumenta Tisi, evita a geração, em aterros, de metano, gás ainda mais nocivo como agente de aquecimento global. Inclusive, ele enfatiza, os aterros podem dispor de sistemas de captura do metano. “Nesse caso, há uma redução de oito vezes nas emissões de gases de efeito estufa, pois os aterros capturam apenas 50% do metano”, compara, ressaltando que as modernas usinas de recuperação energética dispõem de sistemas de controle de poluição do ar, com os quais emitem praticamente apenas vapor d’água.

Não se trata, como admite, uma alternativa barata, pois fundamentada na tecnologia hoje predominante – denominada mass burning com grelhas móveis –, sua implantação exige no mínimo R$ 800 milhões, requerendo prazos longos de concessão e garantia de compra da energia pelo poder público, entre outros requisitos. Também demanda grandes quantidades de resíduos, pelo menos 700 t/dia, volume gerado por uma cidade com cerca de 800 mil habitantes. “É mais barato enterrar o resíduo. Mas depois o custo e o dano ambiental são muito maiores. Para cada real investido em recuperação energética, poupam-se R$ 3 com a gestão dos resíduos e com a saúde pública”, pondera Tisi.

Mas ele também defende o respeito ao que denomina ‘Hierarquia de Resíduos’, na qual opções como reciclagem e recuperação estão acima da incineração (ordem de prioridades inclusive definida na PNRS). “Se há possibilidade de plástico, papel e vidro serem reciclados ou reaproveitados, a preferência é sempre pelo que está acima nessa hierarquia”, finaliza.

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