Economia circular: Procura crescente por reciclados

Procura crescente por reciclados aquece a venda de equipamentos

Como não poderia deixar de acontecer, também o mercado dos equipamentos para reciclagem se fortalece com a expansão do interesse pelas resinas recicladas.

Que, alçadas à condição de instrumentos indispensáveis para as metas de sustentabilidade de várias grandes marcas, impulsionam tanto a sua demanda quanto a evolução tecnológica, hoje focada no desenvolvimento de soluções que combinem a oferta de resinas recicladas com a qualidade requerida por essas marcas, com a produtividade e a capacidade de produção exigidas por um parque de recicladores que também precisa atender a uma demanda crescente.

Esse desenvolvimento impulsiona também a oferta não apenas de equipamentos individuais, mas de linhas completas de reciclagem, como aquelas recém-lançadas pela Gneuss, multinacional de origem alemã tradicionalmente conhecida por suas extrusoras que, durante a recente edição da feira K’, exibiu linhas completas para a reciclagem de PET, poliestireno, polipropileno e polietileno, que possibilitam até a reutilização do material reciclado pós-consumo em aplicações com contato direto com alimentos.

Concebidas com um conceito denominado OMNI, essas linhas dispõem de uma extrusão com múltiplas roscas e de um sistema de extração de voláteis, que, como explica Andres Grunewald, diretor da Gneuss América Latina, garantem a possibilidade de uso do material reciclado em aplicações alimentícias.

Na Colômbia, já são utilizadas para processar embalagens pós-consumo de PS para reutilização em novas embalagens que terão contato com derivados lácteos.

E despertam interesse também em outros países latino-americanos.

Economia circular: Procura crescente por reciclados ©QD Foto: Divulação
Linha OMNI, da Gneuss, foi apresentada durante a feira K’

“Representantes de cerca setenta empresas da região, do Brasil, inclusive, visitaram nossa fábrica por ocasião da K’”, relata Grunewald.

Esses visitantes puderam conhecer ainda versões mais específicas dessa tecnologia, como OMNImax, que permite que bandejas e embalagens de PET pós-industrial e pós-consumo sejam recicladas e convertidas em novas bandejas e embalagens, sem a necessidade de adição de flakes de PET de garrafa, ou de PET virgem.

“Cada vez mais as garrafas PET tendem a voltar em ciclo fechado à sua forma original; mas outros rejeitos de PET, como as embalagens, também precisam ser reciclados”, aponta Grunewald.

Ainda para PET, a empresa mostrou a linha de processamento OMNIboost, que eleva a viscosidade de reciclados provenientes de materiais com baixa viscosidade – resíduos têxteis, embalagens e filmes orientados –, permitindo sua posterior reutilização em novas aplicações (inclusive embalagens).

“Trata-se de um processo contínuo, rápido, preciso e econômico para obtenção de matérias-primas de alta viscosidade e valor agregado a partir de rejeitos de baixo valor”, enfatiza Grunewald.

Também a austríaca Erema disponibiliza equipamentos que permitem o uso de plásticos reciclados pós-consumo em produtos que terão contato com alimentos: sua linha Intarema TVE, quando acoplada ao Refresh – módulo antiodor da mesma empresa –, tem aval da FDA para reciclar PEAD posteriormente reaproveitado em aplicações alimentícias. E pode reciclar, além de PE, também resinas como PP, PET e PS.

Essa linha, afirma Oliver Venezia, diretor-executivo da Intermarketing, representante da Erema no Brasil, tem um sistema de degasagem tão eficiente que permite a reciclagem mesmo de resíduos com alta carga de impressão, como embalagens de snacks e rótulos de refrigerantes (o sistema de degasagem extrai os voláteis emitidos pelas tintas).

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Moinho Rapid Raptor Duo permite economizar energia

Durante a K’, a Erema apresentou uma tecnologia denominada laser filter, que extrai contaminantes que não se derretem na extrusora, como papel e celulose.

“Se não forem removidos esses contaminantes, eles entopem a extrusora”, ressalta Venezia.

No Brasil, a Intermarketing representa também a Sorema, fabricante italiana de sistemas de lavagem que, de acordo com Venezia, assim como a Erema, alia tecnologia avançada a equipamentos capazes atender à necessidade de grandes volumes de produção.

“No México, há um sistema lavando 8 toneladas de PET por hora”, diz. “Cresce bastante a demanda por equipamentos para grandes volumes de reciclagem.”

A demanda por equipamentos de reciclagem com maior capacidade é confirmada por Evandro Didone, diretor comercial da Kie, empresa sediada em Louveira-SP que fornece tanto equipamentos individuais quanto linhas completas de reciclagem, da moagem e trituração à extrusão.

“Há alguns anos, uma planta para 50 t/mês seria considerada de médio porte; hoje, qualquer novo projeto começa com pelo menos 200 t/mês”, pondera.

“Além de maiores capacidades, o mercado da reciclagem também demanda automação, por exemplo, sistemas automáticos de lavagem dos tanques e de classificação dos materiais”, detalha.

Mais lavagem, melhores moinhos – Também a Seibt entrega linhas completas de reciclagem, tanto de plásticos pós-consumo, quanto pós-industrial (podendo eventualmente incluir produtos de empresas parceiras, como separadores ópticos e extratores magnéticos).

Adão Braga Pinto, gerente comercial da Seibt, relata expansão da demanda pela inclusão, nas linhas de reciclagem de poliolefinas, de uma etapa adicional de lavagem, feita a quente, até mesmo por exigência das grandes marcas usuárias de reciclados, pois essa etapa promove maior descontaminação.

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Pinto: lavagem a quente eleva a qualidade das poliolefinas

“Em PET, que geralmente terá grau alimentício, a lavagem a quente é hoje praticamente padrão; mas em poliolefinas não era comum”, considera.

“Também recicladores de ráfia começam a usar mais a lavagem a quente; a ráfia pós-consumo provém de aplicações muito distintas, de mineração a alimentos, daí a importância dessa etapa”, acrescenta.

Componentes de linhas de reciclagem mais sujeitos a desgaste – e, consequentemente, a paradas –, moinhos também constam do portfólio da Seibt, que desenvolveu a linha A2, dotada de sistema que deixa um kit de facas pronto para ser colocado no lugar das facas retiradas para afiação.

“Conforme o porte da máquina, em versões tradicionais, leva-se até três horas para trocar e regular as facas; em um moinho A2, esse processo todo demora apenas 45 minutos”, compara Pinto.

Outro diferencial é o sistema de insertos para a fixação de facas, que nesses moinhos são encaixados e podem ser rapidamente substituídos caso necessário, enquanto nos equipamentos convencionais a troca de um inserto espanado pode demorar dias.

“Moinhos A2 estão hoje praticamente todas as novas linhas”, relata Pinto.

A tecnologia dos moinhos evolui em outras vertentes, entre elas, ressalta Rafael Cerri, engenheiro da Rone, na redução do consumo energético mediante o uso de motores mais eficientes. Mas avança também na proteção aos operadores.

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Linha C da Rone tem proteção contra ruídos

“Nossos moinhos atualmente seguem tanto a NR-12 quanto a norma NBR 15.107, que é específica para moinhos”, destaca Cerri.

Cresce muito a demanda por moinhos, tanto por parte de recicladores quanto dos transformadores que querem reaproveitar possíveis sobras e rejeitos.

“Mas os transformadores hoje investem mais na atualização de seus moinhos, buscando opções que consomem menos energia, ou têm cabine acústica para reduzir a emissão de ruídos. Alguns recicladores também buscam essas opções, mas em menor quantidade”, observa Cerri, cuja empresa, além de moinhos de lâminas capazes de moer entre 50 kg e 3 t por hora, produz sistemas de transporte e peneiras vibratórias, entre outros itens utilizados na reciclagem.

A constatação de transformadores investindo em moinhos mais tecnológicos é referendada por Arnaldo Nunes, diretor comercial da Plast-Equip/RAX, representante local da Rapid, uma das mais renomadas marcas do mercado mundial, no Brasil ainda utilizada basicamente por transformadores.

Mas os moinhos Rapid, pondera Nunes, podem ser interessantes também em plantas de reciclagem.

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Nunes: clientes querem moinhos dotados de tecnologia avançada

“Sei de empresas que reciclam PET, um material muito abrasivo, e precisam trocar as facas dos moinhos a cada turno de 8 horas; com moinhos Rapid, esse tempo entre trocas subiria para 15 dias”, argumenta.

Na feira K’, relata Nunes, a Rapid lançou um equipamento, denominado Raptor Duo, que integra em um único conjunto um shredder e um moinho, proporcionando ganhos em quesitos como consumo de energia – há um único motor – e tempo, pois se elimina o transporte do material que sai do shredder para o moinho.

“Esse equipamento aceita autopeças, componentes de eletrodomésticos, bombonas, entre outras peças de grande porte”, detalha.

Além de representar a Rapid, a Plast Equip/RAX fabrica equipamentos para reciclagem; entre eles, Nunes cita uma linha de transporte pneumático para facilitar a inserção no processo de materiais cujo transporte é complexo, como flakes de PET e termoformados.

“Estamos participando do projeto de uma planta de reciclagem de plásticos pós-consumo, fornecendo, além de sistemas de transporte pneumático, dosadores e sistemas de desumidificação”, relata.

Expandindo perspectivas – Atentos a seu potencial, os fornecedores de equipamentos também buscam ampliar seus horizontes no mercado da reciclagem.

Caso da Piovan, que tem atuação estabelecida no segmento da reciclagem do PET, mas que na última K’ apresentou tecnologias dedicadas à reciclagem de poliolefinas.

Uma delas, um desodorizador que, com calor, evapora os voláteis geradores de odores e pode ser utilizado tanto por recicladores quanto por transformadores que desejam retirar o cheiro dos pellets de reciclados.

Outra, um equipamento que, de acordo com Ricardo Prado, CEO da empresa na América do Sul, “mede os níveis dos voláteis geradores de odores, garantindo sua permanência nos parâmetros desejados”.

Para o segmento do PET, a Piovan tem produtos tanto para a reciclagem quanto para o uso de reciclados, como medidores de teores de substâncias como acetaldeído, benzeno, e outros VOCs indesejáveis no caso de reuso em aplicações alimentícias.

O PET reciclado, ressalta Prado, também influi nos processos dos transformadores; para minimizar essa influência, a Piovan lançou a tecnologia Soft Boost, na qual a desumidificação é feita, em uma primeira etapa, em temperatura até 120ºC, posteriormente elevada, em um período de 45 minutos, até 180ºC.

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Prado: desodorizador lançado na K’ tira o cheiro da resina

“Isso reduz o choque térmico inicial, que prejudica o processamento de r-PET”, afirma Prado.

O portfólio da empresa inclui os equipamentos mais usuais de reciclagem, como moinhos e sistemas de secagem e desumidificação.

Prado cita, como equipamento a cada dia mais demandado na indústria da reciclagem e dos transformadores de resinas recicladas, o dosador gravimétrico, que além de permitir a dosagem correta dos índices de reciclados registra esses índices.

“Muitos clientes querem esse registro, seja para garantir que as resinas tenham os percentuais mínimos de reciclados estabelecidos em suas metas, quanto, no caso de peças técnicas, para que não se ultrapasse os percentuais especificados”, observa o executivo da Piovan.

Multinacional de origem alemã, a Pallmann fornece equipamentos para diversas etapas da reciclagem, do recebimento dos resíduos até a produção dos flakes, passando pela retirada de rótulos, lavagem, micronização, entre outros processos.

Seu atual carro-chefe é o sistema PFV, que permite a reciclagem e o reaproveitamento da matéria-prima de peças flexíveis – filmes, fitas, carpetes, tecidos – feitas de poliamidas, PET, polietileno, polipropileno, entre outras resinas.

O material que ingressa nesse sistema é inicialmente moído e depois aglomerado por um processo de aquecimento por fricção, podendo então seguir dois caminhos distintos: a micronização (para o uso como ingrediente em formulações), ou a extrusão (para a produção de novos pellets).

Essa tecnologia, explica Marcelo Moura, gerente comercial da Palmmann, é hoje bastante demandada, por exemplo, para produção de WPC (Wood Plastic Composite), também conhecido como madeira plástica, que combina esses dois matreriais.

Uma versão da linha PFV permite até o reaproveitamento de filmes de PVDC, de difícil reciclagem devido à elevada presença do cloro, que além de gerar problemas de saúde para os operadores oxida os metais das máquinas (e, por isso, é muitas vezes enviado a aterros).

“Desenvolvemos uma versão que permite a aglomeração e micronização desses filmes, já utilizada por uma empresa para inserir esse material na composição de lajotas, substituindo parte da areia. E aplicações similares estão sendo estudadas”, diz Moura.

Desempenhos comemorados – Em trajetória ascendente há algum tempo, a demanda por tecnologias para reciclagem e para uso de resinas recicladas vai se expandir ainda mais, prevê Prado, da Piovan.

Os transformadores ainda buscam avidamente as mais modernas entre essas tecnologias, embora os recicladores de PET, especificamente, já utilizem praticamente todo o aparato hoje disponível, incluindo os medidores de voláteis e contaminantes.

“Também os recicladores de poliolefinas apostarão cada vez mais em soluções que lhes permitam fornecer resinas recicladas de melhor qualidade”, projeta Prado.

Na Pallmann, diz Moura, no segmento da reciclagem de PET, o volume de negócios realizado este ano deve ser cerca de 30% superior ao de 2021.

Mas as vendas dos fabricantes de equipamentos para reciclagem, ele ressalta, já não dependem apenas dos recicladores.

“Cooperativas de recolhedores também investem mais, especialmente em moinhos de facas, pois ao granular os materiais plásticos elas conseguem agregar valor ao seu produto em relação aos fardos convencionais”, destaca.

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SoftBoost desumidifica sem dar choque térmico no material

Cerri afirma estar “bem contente” com o desempenho da Rone no decorrer de 2022. “Neste final de ano, estamos realizando um volume de negócios até superior ao que projetávamos”, ressalta.

A Seibt, avalia Pinto, está registrando este ano um desempenho considerado excelente, com vendas evoluindo não apenas no Brasil, mas também nas exportações, que já ultrapassam as fronteiras da América Latina. “Estamos produzindo algumas linhas que no início de 2023 serão embarcadas para os Estados Unidos”, relata.

Como outra tecnologia em alta no universo das tecnologias de reciclagem de plásticos, o profissional da Seibt cita as soluções para o processamento de filmes, que apresentam dificuldades adicionais na secagem, pois atritam menos que os materiais rígidos e o atrito é componente fundamental nos sistemas convencionais de secagem, realizados por centrifugação, além de se dobrarem, retendo ainda mais a umidade.

“Em materiais provenientes da moagem de rígidos, conseguimos garantir umidade inferior a 1%; no caso dos filmes, um padrão usual é de cerca de 5% de umidade. Pode-se então realizar uma secagem térmica, como forma complementar de extração de umidade”, recomenda.

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