Economia circular: Metas fazem reciclagem avançar

Metas corporativas de ESG fazem reciclagem avançar mais depressa

A metamorfose da crisálida em borboleta, ou a história do patinho feio que depois se revelou um belo cisne, talvez sirvam como analogias para ilustrar o que acontece na indústria da reciclagem.

Até há não muito tempo restrita a empresas menores, dedicadas apenas a quem queria reduzir custos, e agora disputado por quantidade crescente de grandes organizações, petroquímicas, inclusive, e por investidores profissionais.

Preocupações com o meio ambiente e a demanda por soluções e atitudes mais sustentáveis, constituem o pano de fundo desse cenário, no qual pode-se prever produtos de maior qualidade, mais associáveis às marcas das empresas de maior porte, e às tecnologias que elas podem adquirir.

Mas, como causa ou como consequência da presença dessas empresas, o certo é que as projeções indicam crescimento bem acentuado, em todo o mundo, da relevância das resinas recicladas: mecanicamente, em um primeiro momento, e logo depois também pelo avanço da reciclagem química (ver Tabela).

Esse interesse de grandes empresas e de investidores pela indústria da reciclagem – mecânica e química – tem âmbito global, ressalta Robin Waters, diretor de serviços de circularidade do plástico da consultoria global CMA (Chemical Market Analytics, da Opsis, empresa do grupo Dow Jones).

E decorre, ele observa, principalmente da conjugação das questões ambientais com a necessidade de atender às regulamentações relacionadas a resíduos.

Mas tem também motivações mercadológicas. “Grandes marcas usuárias de produtos plásticos estimulam esse movimento.

Economia circular: Metas corporativas de ESG fazem reciclagem avançar mais depressa ©QD Foto: Divulgação
Tabela 1 – Evolução global da reciclagem e da destinação dos resíduos plásticos (em % no total)

Muitas delas têm metas e políticas de ESG, e necessitam de resinas recicladas para implementá-las”, pondera Waters. “Resinas e materiais provenientes de fontes renováveis também são favorecidos por esse movimento”, acrescenta.

Braskem, Exxon, Total, Lyondell Basell, especifica Waters, são algumas das grandes petroquímicas que hoje implementam projetos consistentes de investimento em reciclagem, ou de estímulo a ela.

Nesse processo, elas são acompanhas por outros gêneros de empresas, como os gestores de resíduos sólidos e os brand owners (os donos das marcas comerciais).

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Waters: marcas buscam resinas recicladas e de fonte renovável

“A reciclagem certamente se consolidará como uma indústria muito relevante”, projeta.

Um indicador do avanço do uso de resinas recicladas aparece no Compromisso Global da Fundação Ellen MacArthur: em 2018, as marcas signatárias desse documento – que pelos cálculos da entidade respondem por mais de 20% das embalagens plásticas colocadas no mercado global – dispuseram-se a ter, até 2025, média de 25% de conteúdo reciclado em seus portfólios.

Coca-Cola, Pepsico, Unilever, Nestlé e Danone são algumas dessas signatárias, que se comprometeram ainda a reduzir 20%, em média, seu consumo de resinas virgens, não apenas usando mais material reciclado, mas também com iniciativas que reduzam a própria produção de embalagens de uso único, além de reduzir o consumo de plásticos nas embalagens e adotando modelos alternativos de operação, como o reuso e o refil.

Houve progresso, observa Thais Vojvodic, gerente da iniciativa Nova Economia do Plástico na Fundação Ellen MacArthur, no quesito utilização de plásticos reciclados, que no ano passado já atingia o patamar de 10%. Mas a projeção de redução no uso de resinas virgens provavelmente não será atingida.

“As empresas estão utilizando mais resinas recicladas, mas suas vendas aumentaram ainda mais e seus negócios seguem majoritariamente dependentes de plásticos de uso único, e a quantidade plástico virgem utilizado continua nos mesmos níveis de 2018”, explica Thais, que também destaca: “a reciclagem definitivamente faz parte da economia circular dos plásticos, mas não é a única solução”.

Petroquímicas recicladoras – Exemplo de petroquímica se inserindo incisivamente no mercado da reciclagem é a Braskem, que no ano passado aportou R$ 121 milhões na aquisição de 61% das ações da Wise, cujas poliolefinas recicladas são utilizadas por marcas líderes como Comfort, Omo, Dove, Natura, entre outras.

Parte significativa desse aporte se destina à ampliação da capacidade de produção da Wise das atuais 25 mil toneladas para o dobro disso em 2026.

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Unidade de reciclagem da Braskem, em Indaiatuba-SP

Pouco antes, a Braskem inaugurou em Indaiatuba-SP uma unidade própria de reciclagem que ainda este ano ocupará sua capacidade total, de 14 mil toneladas anuais, e é operada pela desenvolvedora de tecnologia e gestora de resíduos Valoren, numa parceria que envolve ainda a construção de uma planta de reciclagem química (por pirólise), com capacidade inicial de 6 mil t/ano e previsão de inauguração também em 2023.

No exterior, a Braskem já anunciou, entre outras iniciativas, uma parceria com a norte-americana Nexus, que lhe fornecerá produtos provenientes de reciclagem química.

E em seu portifólio já disponibiliza mais de trinta grades com conteúdos reciclados, provenientes tanto de operações próprias quanto de recicladores credenciados.

A meta da Braskem é fornecer 300 mil toneladas de resinas recicladas até 2025, e um milhão de toneladas até 2030. Meta factível, diz Fabiana Quiroga, diretora de economia circular da empresa na América do Sul.

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Fabiana: portfólio inclui mais de 30 grades de reciclados

“A cada ano temos dobrado essa oferta: foram 22 mil t em 2021, 54 mil t no ano passado, este ano dobrará novamente”, relata.

“A reciclagem é fundamental para a economia circular do plástico, um produto sustentável, cujo descarte incorreto é, porém, um problema.

O reconhecimento desse problema pela cadeia é uma grande mudança”, acrescenta.

Resinas recicladas devem ganhar ainda mais espaço com o aumento da possibilidade de uso em aplicações alimentícias.

A própria Braskem, nas operações do México e dos Estados Unidos, já conduz processos de obtenção de autorização pelo FDA para uso de PE e de PP mecanicamente reciclados para contato com alimentos.

Mas esse gênero de utilização deve ganhar maior ímpeto com a reciclagem química, pois a utilização de reciclados mecanicamente em aplicações alimentícias, ao menos no caso de poliolefinas, entre outras coisas exige controle muito rígido do processo de coleta e logística dos materiais, para evitar a presença de contaminantes indesejáveis (embalagens de agroquímicos, por exemplo).

Essa possiblidade de uso de reciclados em aplicações alimentícias deu grande impulso à reciclagem do PET.

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Seção de prototipagem do hub de inovação Cazoolo ©QD Foto: Divulgação/BraSkem/João José carniel

No Brasil, informa a Abipet (Associação Brasileira da Indústria do PET), em 2021 foram recicladas 56,4% das embalagens feitas com essa resina, e o principal destino desse reciclado, cerca de 29% do total, foi a produção de embalagens para alimentos.

Grande produtor global de PET, a Indorama hoje mantém 21 plantas de reciclagem em diversos países. No Brasil, adquiriu há cerca de três anos uma planta de reciclagem na cidade mineira de Juiz de Fora-MG, então denominada AG Resinas, cuja capacidade deve logo subir das atuais 25 mil t/ano para a 90 mil t/ano.

O objetivo é ter, até 2025, capacidade global de reciclagem de 750 mil t/ano, e de 3 milhões de t/ano até 2030.

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Renata: reciclagem química de PET está em fase de estudos

“No ano passado, essa capacidade atingiu 690 mil toneladas”, informa Renata May, gerente comercial da empresa. “Estudos de investimentos na reciclagem química estão em curso”, acrescenta.

O interesse da Indorama pela reciclagem não se limita às aplicações bottle to bottle (garrafa para garrafa, de bebidas).

Há também, destaca Renata, o financiamento de projetos desenvolvidos pela empresa holandesa Ioniqa, que pode processar material mais sujo ou com aditivos; pela canadense Loop, que recicla qualquer forma de PET de volta aos constituintes básicos DMT (dimetil tereftalato) e MEG (monoetileno glicol); e no processo enzimático da francesa Carbios.

Tudo isso, enfatiza Renata, “se reflete no compromisso de investimentos de US$ 3,7 bilhões em iniciativas que contribuam para o fortalecimento da infraestrutura global necessária para viabilização de uma economia mais circular”.

Outros big players – Além das petroquímicas, outras grandes empresas também destinam mais recursos à cadeia da reciclagem. Uma delas, a Valgroup, que no Brasil e em cinco outros países produz filmes diversos, pré-formas, frascos, compostos, masterbatches, entre outros itens.

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Unidade da Indorama em Juiz de Fora-MG recicla PET

E que atua também na reciclagem, uma presença tradicional – ela nasceu como recicladora, há quase meio século – e já relevante, mas ainda em expansão, pela aquisição, nos últimos dois anos, de plantas de reciclagem de PET no Brasil e na Itália, e da operação nacional da Deink, detentora de uma tecnologia para remover tintas de filmes que serão reciclados.

A Valgroup recicla PET no Brasil, México, Espanha e Itália, e poliolefinas em plantas em Minas Gerais e no Amazonas, bem como em unidades menores em algumas de suas operações.

Pode produzir anualmente 130 mil t/ano de resinas recicladas, sendo 100 mil de PET, o restante de poliolefinas.

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Berkovitz: entrada de grandes players reforça a qualidade

“Nossa meta é chegar a 2040 reciclando a mesma quantidade de plástico que colocamos no mercado, além de nos tornarmos uma empresa Carbono Zero”, diz Eduardo Berkovitz, diretor de relações institucionais e compliance da Valgroup.

Embora se disponha também a comercializá-la, a Valgroup hoje aproveita sua resina reciclada basicamente nas aplicações que ela própria transforma.

“A demanda está muito aquecida”, justifica Berkovitz. Segundo ele, resinas recicladas são a cada dia mais percebidas como produtos com valor próprio, que deve ser bem remunerado, e não como algo que deve custar menos.

“A chegada de petroquímicas e de outras grandes empresas contribui com esse processo, elas garantem a qualidade do produto, sinalizam que isso veio para ficar”, pondera Berkovitz.

Consolidam-se também grandes grupos focados na reciclagem, entre eles, o Clean Plastic, controlador de nove plantas de reciclagem instaladas em quatro estados, que lhe permitem comercializar anualmente mais de 110 mil t de PP e PE reciclado.

Empresas do porte da Unilever aparecem entre os compradores dessas resinas.

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Tanaka: concorrência forte exige investir em tecnologia

“Também fornecemos bastante para as indústrias automobilística e de eletrodomésticos”, ressalta Adriano Tanaka, diretor comercial e de marketing do Clean Plastic.

Sediado no Paraná, o grupo tem entre seus sócios os controladores da Raposo Plásticos, tradicional recicladora sediada em Cotia-SP (uma das nove unidades do grupo).

“Teremos mais uma unidade no próximo ano, na região Norte; ela ampliará nossa capacidade em 12%”, afirma Tanaka.

“O mercado vai crescer muito nos próximos anos, assim como a concorrência. Por isso, são muito importantes investimentos em tecnologia e parcerias com fornecedores e clientes”, ressalta.

Também impulsiona o parque brasileiro de reciclagem a chegada de investidores como a gestora de investimento eB Capital, que tem recursos alocados em setores como comunicação por fibra óptica e no ano passado anunciou a destinação de um total de R$ 200 milhões para adquirir 60% do capital da recicladora de PET Green PCR, e ampliar a capacidade dessa recicladora.

Há, observa Luciana Ribeiro, co-fundadora da eB Capital, possibilidade de acentuado crescimento dos negócios vinculados aos conceitos de Economia Circular e Economia Verde, entre eles, a reciclagem de plásticos, que além de registrar elevada demanda por seus produtos ainda é composta principalmente por operações de médio porte, que podem se beneficiar de parceiros com experiência em gestão e profissionalização de empresas (como a eB Capital).

Luciana vê um potencial “muito grande” de expansão do mercado da reciclagem e da economia circular do plástico de maneira geral.

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Luciana: mercado do setor pode se tornar bilionário em 10 anos

“Uma projeção interna aponta que esse mercado pode chegar a algumas dezenas de bilhões de reais nos próximos dez anos”, relata.

A eB Capital, diz o sócio Tiago Wigman, já dispõe de capital para mais aquisições nesse setor, inclusive de recicladoras de outras resinas, além do PET.

“Nossa ambição é criar a maior plataforma de reciclagem de plástico do Brasil”, revela.

Com cinco plantas de reciclagem espalhadas pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraíba, a Green PCR já utiliza parte dos recursos oriundos da eB para dobrar, até o próximo ano, sua atual capacidade produtiva, de 3 mil t/mês.

A chegada de um investidor, afirma Renato Caruso, CEO da empresa, resulta também em uma organização mais estruturada e mais profissional.

“Já éramos auditados pelos brand owners, que analisam nossos produtos, processos, documentações. Também audito meus fornecedores – normalmente cooperativas –, em quesitos como governança, segurança no trabalho, qualidade”, comenta.

“Antes, precisávamos dar descontos para a resina reciclada; agora, elas tendem a custar até mais que a virgem”, complementa Caruso.

Escala e necessidades – A expansão da demanda por resinas recicladas, e o maior interesse das grandes empresas por esse mercado, inevitavelmente conduzirão ao aumento da escala das plantas e das tecnologias de reciclagem, impulsionando o que Anthony Palmer, vice-presidente de Plásticos Circulares e de Sustentabilidade de Químicos da CMA, denomina de “mega-sites de reciclagem”, que em um mesmo local reúnem processos de reciclagem mecânica e química, contando com parceiros – como empresas que coletam o suprimento de matéria-prima.

Projetos desse gênero já operam, ou se preparam para operar, em locais como Perthsire, na Escócia, e Walles, nos Estados Unidos.

Mas, mesmo se ampliando o uso das resinas recicladas e daquelas provenientes de fontes renováveis, seguirá crescendo também a demanda por resinas virgens de origem fóssil.

Até mesmo, ele justifica, para atender às necessidades geradas pelo desenvolvimento econômico e pelo aumento da população mundial.

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Pátio de recebimento de materiais da fábrica da Green PCR, em Itobi-SP

“Mas haverá um equilíbrio cada dia maior entre a oferta de resina virgem e reciclada, química e mecanicamente”, diz o profissional da CMA, consultoria global para vários setores de atividade econômica, incluindo petróleo e petroquímica, com escritório instalado em São Paulo e comandado por Pedro Luiz Fortes, para melhor atendimento aos clientes da América do Sul.

No Brasil, o avanço mais rápido da indústria da reciclagem depende, porém, de algumas medidas. Uma delas, ressalta Berkovitz, da Valgroup, é a expansão da coleta seletiva, para incrementar o suprimento de matéria-prima para reciclagem.

“É preciso pensar também na questão dos impostos, que precisam ser justos, para que o capital seja remunerado e as empresas possam cumprir também seu papel ambiental e social”, ressalta.

A questão tributária é enfatizada também por Thais, da Fundação Ellen MacArthur, que advoga a necessidade de adoção do sistema REP (Responsabilidade Estendida do Produtor), já utilizado em países europeus, que angaria recursos dos fabricantes de aplicações plásticas para subsidiar a coleta e a reciclagem.

“Sozinha, a reciclagem não será um negócio rentável, seu processo é mais oneroso que o da resina virgem”, justifica.

“O REP pode ser interessante também para o Brasil, já começa a ser aplicado em outros países em desenvolvimento, como Colômbia, Chile e África do Sul”, acrescenta Thais.

Fabiana, da Braskem, destaca a importância de engajar o consumidor nesse processo, objetivo de sua empresa com ações com o recente patrocínio do programa Big Brother Brasil.

“Nossos investimentos apontam para a inclusão de mais resinas recicladas em nossa oferta, bem como de mais materiais de fontes renováveis”, finaliza.

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