Economia circular : Logística reversa de eletroeletrônicos

Decreto exige ampliar logística reversa

A partir deste ano, a cadeia brasileira de fabricação e comercialização de eletroeletrônicos precisa cumprir metas mínimas de logística reversa de seus produtos.

Metas ainda modestas, mas importantes por diversos fatores.

Um deles, por impactarem uma espécie de símbolo da vida moderna: a contínua proliferação de equipamentos que, embora formalmente qualificados como ‘bens de consumo durável’, parecem concebidos para o descarte cada vez mais rápido.

Essa indústria movimenta quantidades relevantes e crescentes de matérias-primas: plásticos, em grande parte.

Muitas delas, combinando elevado valor econômico com potencial para agredir o meio ambiente; e que, ao menos na vertente pós-consumo, são ainda pouco aproveitadas pelas práticas da economia circular, como a logística reversa e a posterior reciclagem.

O Brasil, como informa a mais recente edição do relatório The Global E-waste Monitor, elaborado pela Universidade das Nações Unidas, é o quinto maior gerador de resíduos de eletroeletrônicos (ver quadro) e recicla, dizem as estimativas, menos de 3% de sua matéria-prima.

Mesmo globalmente, esse índice ainda parece pouco satisfatório, pois, segundo esse mesmo estudo, do total de 53,6 milhões de toneladas de eletroeletrônicos descartados em 2019 em todo o mundo, só 17,4% retornou à condição de matéria-prima para novos produtos (ao menos de forma documentada, há muita reciclagem informal que, feita de maneira inadequada, pode prejudicar ainda mais o meio ambiente).

Pela nova legislação (ver box), a cadeia nacional de eletroeletrônicos deve este ano coletar 1% do volume total de produtos disponibilizados para os consumidores em 2018; referente apenas aos produtos pós-consumo, esse índice deve chegar a 17% em 2025.

E, como preconiza a Política Nacional de Resíduos Sólidos, base dessa legislação, a responsabilidade por atingi-lo é compartilhada por todos os elos dessa cadeia: indústria, comércio, distribuidores, importadores e varejo, que devem disponibilizar pontos para recebimento dos eletroeletrônicos descartados, financiar o transporte para seu desmonte e reciclagem, e divulgar a necessidade da correta destinação desses resíduos.

Plástico Moderno - Economia circular - Decreto exige ampliar logística reversa de eletroeletrônicos ©QD Foto: iStockPhoto
Início da reciclagem de geladeiras descartadas feita pela Fox

Para se desincumbirem de sua parte, os fabricantes se integram a entidades como a Green Eletron, estruturada pela Abinee (Associação Brasileira da Industria Elétrica e Eletrônica), para criar e gerir um sistema coletivo de logística reversa.

E que, para implementá-lo, mantém cerca de oitocentos locais para recebimento de produtos já utilizados – os PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) –, enviando o material coletado para operadores homologados que realizam a manufatura reversa. Eles podem reciclar por si mesmos os materiais, ou destinarem-nos a recicladores especializados.

Com cerca de cem associados, muitos deles dedicados a segmentos como celulares e informática, a Green Eletron divulga ter coletado, em 2019, mais de 330 t de eletrônicos, das quais foram recuperadas 270 t de matérias-primas.

A diferença entre esses dois valores, explica Gustavo Acra, coordenador de Sustentabilidade da entidade, deve-se tanto às perdas naturais dos processos quanto à impossibilidade de reutilização de materiais que, pelo baixo valor comercial ou por estarem contaminados, são destinados à reciclagem energética e, em último caso, a aterros.

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Gustavo Acra, coordenador de Sustentabilidade da Green Eletron

“Projetando os dados de 2019 para a atualidade, já recuperamos mais de 600 toneladas de matéria-prima de eletrônicos”, estima Acra.

Por sua vez, a Abree (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos), reúne 52 fabricantes de refrigeradores, máquinas de lavar, celulares, chuveiros, televisores, entre outros itens.

Em seu programa de logística reversa, mantém atualmente mais de 3 mil PEVs distribuídos por todo o país; grande parte deles em operações de varejo, como o Magazine Luiza, que recentemente assinou com a entidade uma parceria pela qual ainda este ano adaptará quinhentas lojas para recebê-los.

Assim como a Green Eletron, também a Abree homologa parceiros para a coleta de materiais nos pontos de venda, manufatura reversa e posterior reciclagem.

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Sergio Mauricio, presidente da Abree

“Ao final do processo, recebemos dos recicladores documentos que comprovam a destinação final adequada do material recuperado”, diz Sergio Mauricio, presidente da Abree.

Tecnologias e materiais – Designados pela sigla REEE, resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos contêm diversos materiais passíveis de recuperação. Os mais valorizados, as placas de circuito impressos, onde há metais como ouro, prata e paládio, cuja extração exige escala muito grande e é feita por poucas empresas, nenhuma no Brasil, que exporta essas placas.

Outros metais ferrosos e não-ferrosos, bem como o vidro, também fazem parte da composição dos REEEs.

Eles contêm também vários materiais plásticos: muito ABS, muito poliestireno, além de PP, poliamidas e PC, entre outras resinas. Recuperar esses plásticos pode exigir tecnologias muito específicas: por exemplo, no caso dos refrigeradores há gases que não podem ser liberados na atmosfera, pois agridem a camada de ozônio.

Geralmente compostos por um gabinete externo metálico e um gabinete interno termoformado de PS de alto impacto, entre os quais há uma camada de poliuretano para promover o isolamento térmico, os refrigeradores que chegam à Fox passam inicialmente por um triturador dotado de um sistema para extração e captura dos gases refrigerantes (direcionados para uma unidade na qual serão destruídos).

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Aparelhos eletrônicos descartados são desmontados e reciclados para gerar resina de qualidade

Depois, processos eletromagnéticos apartam o ferro, e um processo denominado eddy current (ou contracorrente) separa os metais não-ferrosos do plástico; esse último grupo segue então para um processo que, por densidade, individualiza as diferentes resinas.

O PS, especifica Marcelo Souza, CEO da Fox, representa cerca de 95% do plástico de um refrigerador e, na forma de flakes, é enviado por sua empresa para a produção de itens como chapas extrudadas que depois viram bandejas termoformadas. “O PU, após a degaseificação, segue para a reciclagem energética em empresas como cimenteiras e siderúrgicas”, diz.

Sediada em Cabreúva-SP, a Fox já reciclou mais de um milhão de refrigeradores, oriundos de residências e de estabelecimentos industriais e de varejo. Recicla também outros produtos, como lavadoras de roupas, nas quais é relevante a presença de polipropileno, utilizado em componentes como os tambores.

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Marcelo Souza, CEO da Fox

“Mas muitas vezes esse PP vem com carga, que aproxima sua densidade à do PS, dificultando a separação. Ou então, é reforçado com fibra. Isso pode restringir esse material à reciclagem térmica”, pondera Souza.

Multinacional que em mais de trinta países fabrica eletroeletrônicos depois comercializados com outras marcas – de informática e telecomunicação, de uso doméstico, painéis solares, autopeças, equipamentos médicos, entre outros –, a Flex (antiga Flextronics) montou no Brasil uma unidade focada na inserção desses produtos na economia circular.

Denominada Sinctronics, está situada em Sorocaba-SP – onde a empresa tem também uma fábrica – e atua em todas as etapas desse processo, começando pela coleta dos produtos descartados e prosseguindo na posterior manufatura reversa.

Após a separação, metais e outros materiais são destinados pela Sinctronics a outras empresas; os plásticos são reciclados internamente, e parte do produto dessa reciclagem é reutilizado na injeção de componentes de novos eletrônicos: entre eles, impressoras que a Flex produz para a HP. “ABS e PS são os plásticos predominantes nesses eletrônicos, mas também reciclamos resinas como PC/ABS”, especifica André Silveira, gerente de negócios e operações do Sinctronics.

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Países que mais geram resíduos eletrônicos

Em 2020, a Sinctronics recuperou quase 626 t de plásticos (aproximadamente metade do volume total de materiais recuperados pela empresa). “Utilizamos resinas recicladas também para produzir, com aditivos, o PS antiestático utilizado em algumas bandejas”, enfatiza Silveira.

Dificuldades e possibilidades – A integração dos eletroeletrônicos às práticas da economia circular se fortalece como o uso de resinas recicladas em sua produção por diversas grandes empresas. Entre elas, a Electrolux, que recentemente anunciou o início da utilização, em novos refrigeradores, da linha Ecogel, da Unigel, na qual há até 30% de poliestireno reciclado.

Mas para as operações que não dispõem das tecnologias de separação em grande escala, viabilizar o reaproveitamento desses plásticos pode ser tarefa mais complexa, ou mais onerosa.

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Alex Luiz Pereira, diretor presidente da Coopermiti (cooperativa especializada na coleta de eletroeletrônicos localizada na zona norte da cidade de São Paulo)

“É comum encontrarmos, em uma mesma peça de um eletroeletrônico, diferentes tipos de plásticos, cuja triagem é dispendiosa, mas que se não for feita desvalorizará bastante o material a ser comercializado para reciclagem”, relata Alex Luiz Pereira, diretor presidente da Coopermiti (cooperativa especializada na coleta de eletroeletrônicos localizada na zona norte da cidade de São Paulo).

“Já uma embalagem geralmente é feita de um único material, a sua triagem é menos dispendiosa”, compara.

Fundada em 2010, a Coopermiti tem cinquenta cooperados e três modalidades de coleta dos eletroeletrônicos: retirada em domicílios e empresas; pontos próprios de recebimento; e pontos instalados em locais como shopping centers e condomínios. Este ano, abriu uma unidade dedicada à recuperação de embalagens e outros produtos, para a qual encaminha o vidro que separa dos eletroeletrônicos.

“Mas a quantidade de vidro nesses produtos é hoje desprezível, a grande maioria é realmente plástico e metal”, destaca Pereira.

As cooperativas constituem um dos canais de implementação do programa de logística reversa da fabricante de eletroeletrônicos HP, que já credenciou quatro delas no Estado de São Paulo.

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Jessica Teixeira, analista de sustentabilidade da HP

“Entre 95% e 97% dos materiais utilizados na produção de eletroeletrônicos são possíveis de reaproveitamento”, destaca Jessica Teixeira, analista de sustentabilidade da HP.

Denominado Planet Partner, o programa de logística reversa da HP já abrange mais de setenta países; no Brasil, além das cooperativas, inclui a retirada gratuita, em domicílios e empresas, dos equipamentos descartados: impressoras, notebooks, monitores, entre outros.

Para a coleta de quantidades menores de cartuchos das impressoras, a empresa mantém pontos de entrega, além de parcerias com gráficas que utilizam embalagens maiores.

O material assim coletado segue para a operação de economia circular da Flex, que recicla seus plásticos para a reutilização em novos produtos, até mesmo novas impressoras da HP.

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Diego Mutta, gerente de logística reversa e soluções de ciclo fechado da HP

“No caso dos cartuchos, a espuma interna que tem tinta vai para reciclagem energética. O restante, a exemplo dos circuitos e plásticos, segue para reciclagem”, relata Diego Mutta, gerente de logística reversa e soluções de ciclo fechado da HP.

Segundo ele, desde 2012 o programa recuperou no Brasil mais de 6,8 mil t de produtos, e gerou a produção de aproximadamente 10 milhões de impressoras com conteúdo reciclado.

A fabricante de equipamentos de linha branca Whirlpool, destaca Douglas Reis, diretor de ESG da empresa, participou em 2011 da fundação da Abree.

Assim como outras empresas associadas a essa entidade, conta com ela para a correta destinação dos produtos e de seus componentes ao fim de sua vida útil. No Brasil, observa Reis, a logística reversa constitui tema relativamente novo.

“Para ela evoluir, é necessário um trabalho que envolva todos: empresas, visando processos e produtos cada vez mais sustentáveis; consumidores, para que consumam de forma responsável, saibam quais quesitos considerar no momento da escolha do produto e o que fazer com ele ao fim da vida útil; poder público, no sentido de potencializar iniciativas que tenham esse compromisso com o meio ambiente”, pondera o profissional da Whirlpool.

No Brasil, a logística reversa de eletroeletrônicos ainda está em fase “bastante preliminar de implementação”, na avalição de Sergio Mauricio, da Abree. Ele aponta como um dos principais obstáculos à evolução dessa logística a escassez na entrega, por parte dos consumidores, dos produtos já utilizados.

“Existe tecnologia para separação, reciclagem e reutilização de seus materiais, como plásticos, metais, vidros, hoje reciclados e reutilizados normalmente”, observa.

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Linha de desmontagem de eletrônicos operada pela Sinctronics

“Temos também logística para a coleta e o transporte desses materiais; o principal entrave é mesmo o recebimento dos produtos”, enfatiza o dirigente.

A superação desse obstáculo pode, porém, exigir o confronto com hábitos muito arraigados. Pesquisa divulgada em outubro último pela Green Eletron mostra que, por algum motivo, até por acreditar que no futuro ele possa ter algum valor, a maioria dos brasileiros (87%, precisamente) guarda em casa algum tipo de eletroeletrônico sem utilidade.

Existem, reconhece Agra, muitos desafios para a estruturação do sistema brasileiro de logística reversa de eletroeletrônicos, que está apenas em seus primórdios, e precisa ser montado a partir de uma base praticamente inexistente.

“Mas se as pessoas não descartarem os equipamentos que não possuem mais utilidade, a logística reversa não tem como acontecer”, pondera.

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