Economia circular – Conceito protege ambiente e ajuda a reduzir custos

Plástico Moderno - Iniciativa Plasticolab, do PICPlast, impactou mais de 37 mil pessoas
Iniciativa Plasticolab, do PICPlast, impactou mais de 37 mil pessoas

Buscando associar as atividades produtivas ao próprio ritmo da natureza terrestre, o conceito da ‘economia circular’ tornou-se quase obrigatório na indústria do plástico, aparecendo frequentemente em suas feiras setoriais, palestras, relatórios empresariais. Difícil não vincular tamanho interesse a uma conjuntura na qual essa indústria é submetida a contestações que, calcadas em alegações ambientais, geram restrições a seus produtos, e ganham formas dramáticas em imagens de plásticos deteriorando habitats e prejudicando seres vivos.

Na realidade, a exposição do engajamento na causa do respeito ao meio ambiente se tornou fator de competitividade em qualquer ramo da atividade econômica. No caso indústria do plástico, ela pode apresentar desafios específicos. Um deles: os resíduos da transformação de resinas têm valor mercadológico inferior ao de outros materiais, proporcionando menor estímulo econômico à reciclagem. Talvez fosse o caso de se trabalhar outras possibilidades de aproveitamento desses resíduos, entre elas a chamada ‘reciclagem energética’, que gera energia pela incineração dos resíduos sólidos urbanos, modalidade praticamente inexistente no Brasil.

De qualquer forma, o plástico ainda é dos materiais menos reciclados no país, como apontam os dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), que avalia em pouco mais de 8% o índice de reciclagem desses materiais no país. Para papel/papelão e alumínio esse índice sobe, respectivamente, para 52,3% e 87,2%.

Deve-se ressaltar que esses dados abrangem apenas os resíduos do material recolhido pelas empresas de coleta e limpeza pública, desconsiderando as informações relativas a sobras e rejeitos destinados à reciclagem pela própria indústria. Mesmo assim, sua exposição parece pouco interessante para um setor que precisa mostrar empenho na sustentabilidade.

Plástico Moderno - Coelho: transformação deve usar resinas mais ‘circulares’
Coelho: transformação deve usar resinas mais ‘circulares’

A indústria do plástico, ressaltam dirigentes de entidades do setor, já investe significativamente no fortalecimento e até no aprimoramento não apenas da reciclagem, mas também das demais práticas da economia circular. Mas a evolução desse processo decorrerá também de medidas que devem envolver outros agentes, como poder público, comércio e consumidores. “Esse compartilhamento de responsabilidades está, inclusive, previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)”, aponta José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), referindo-se à legislação promulgada em 2010, marcante no processo de adoção no Brasil dos preceitos da economia circular.

A própria indústria, especifica Coelho, pode desenvolver produtos “mais circulares”, ou seja, que retornem mais facilmente ao processo produtivo; mas, para isso, necessita de acesso competitivo a materiais que contribuam para a inovação. Outras medidas, ele prossegue, também dependem do poder público e de outros agentes da atividade econômica, casos, por exemplo, dos incentivos tributários para a indústria da reciclagem, da ampliação da coleta seletiva, e de novos modelos de logística reversa. “Pelo lado dos consumidores, é importante a destinação correta de resíduos”, acrescenta Coelho.

Miguel Bahiense, presidente do Instituto Plastivida, endossa essa tese que associa a melhoria dos índices de reciclagem do plástico a um rol de ações que não competem exclusivamente à indústria dedicada a essa matéria-prima: sistemas mais elaborados de logística reversa e de coleta seletiva, incentivos à reciclagem, educação ambiental, são algumas delas. “Temos hoje na indústria brasileira de reciclagem cerca de 60% de capacidade ociosa. E temos coleta seletiva em menos de 20% dos municípios do país, e, mesmo nesses municípios, atingindo pequena parte da população”, observa.

Mas Bahiense credita parte da responsabilidade pelas críticas hoje feitas à sustentabilidade ambiental do plástico à concorrência de materiais que ele substituiu ou vem substituindo como matéria-prima. Os plásticos, ele salienta, entre outras coisas permitiram produzir mais carros – e carros menos poluentes –, propiciaram avanços no saneamento, na medicina, no lazer, em indústrias de ponta. Também conferiram escala muito maior à indústria de produtos de uso único. “Eles, assim, deslocaram outros materiais que, não podendo contestar seus benefícios, apelam para a sustentabilidade”, critica.

Porém, assim como ampliam as possibilidades de consumo, as vantagens do plástico também o tornam mais sujeito aos questionamentos ambientalistas, em grande parte dirigidos ao consumo excessivo, ou ao menos feito sem a necessária consciência de sustentabilidade. “Aliando o consumo mais amplo a fatores como a falta de educação ambiental, carência de coleta seletiva, ausência de estimulo à reciclagem, cresce o espaço para as críticas”, reconhece o presidente do Plastivida.

Um setor, várias iniciativas – Diversos projetos vêm sendo implementados pela indústria do plástico para materializar seu esforço em prol da economia circular. Alguns têm cunho institucional, como é o caso da Rede de Cooperação para o Plástico. Criada em 2018, essa rede já integra mais de quarenta empresas de todos os elos da cadeia. “Ela trabalha em projetos que visam aumentar a reciclabilidade de embalagens plásticas e a disponibilidade de resíduos plásticos para a reciclagem”, relata Coelho, da Abiplast.

E há iniciativas bem recentes, como o acordo de cooperação técnica assinado em dezembro último pela Abiplast e pela ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), focado no aumento da disponibilidade de resíduos para reinserção no ciclo produtivo. “Este ano a Abiplast promoverá o Summit de Economia Circular, cujos detalhes serão divulgados em breve”, adianta o presidente da entidade.

As empresas do setor também investem em ações associadas à economia circular. Entre elas, Fernanda Maluf, coordenadora do Movimento Plástico Transforma, cita o estabelecimento de um ciclo fechado para as embalagens plásticas de defensivos agrícolas; a fabricação de embalagens plásticas para sabão em pó, xampus e condicionadores com material reciclado de embalagens pós-consumo; a reciclagem bottle to bottle de embalagens PET para refrigerante e leite.

A transição em direção à economia circular, nota Fernanda, exige políticas públicas, linhas de financiamento e novos modelos de negócio. Mas requer também novas atitudes frente a paradigmas hoje estabelecidos: “Perde-se muito valor no descarte inadequado de resíduos, que pode ser associado à falta de percepção de valor desses recursos”, pondera a profissional do Movimento Plástico Transforma (esse movimento é uma iniciativa focada em ações educativas e de inovação do PICPlast – Plano de Incentivo à Cadeia do Plástico, parceria entre a Braskem e a Abiplast destinada a promover o desenvolvimento da indústria do plástico).

Desafios e oportunidades – Em linhas gerais, a economia circular propõe processos produtivos estruturados de forma a minimizar os impactos ambientais, realimentados pelos materiais e recursos já alocados em seus produtos (daí o termo ‘circular’, correspondente a um ciclo fechado, sem início nem fim delimitados). Contrapõe-se assim ao modelo tradicional da ‘economia linear’, que ignora as etapas posteriores ao consumo e exige consumir mais dos finitos recursos do planeta.

Mas ela vai além da reciclagem e dos famosos 3 Rs que até há pouco tempo buscavam resumir os processos sustentáveis: Reduzir, Reutilizar, Reciclar. Quer atuar já no desenvolvimento dos produtos, que devem ter design e materiais capazes de minimizar desperdícios e facilitar o posterior reaproveitamento e a reciclagem, e chega até à proposta de novas possibilidades de utilização e consumo.

Além do redesenho dos produtos e da otimização dos recursos neles alocados – não apenas matérias-primas, mas também insumos como energia é agua –, isso pode incluir o prolongamento de sua vida útil, facilidade de manutenção, compartilhamento, comercialização como serviços, entre outras medidas.

E o respeito ao meio ambiente nem é seu único benefício, há outros, também poderosos. Um deles: a redução de desperdícios e o reaproveitamento de materiais podem constituir medidas saudáveis também do ponto de vista financeiro (em seu sentido mais amplo, o conceito da ‘sustentabilidade’, aliás, vincula diretamente as questões ambientais às econômicas e sociais).

Assim abrangente, o conceito certamente propõe desafios. Mas ele pode também gerar oportunidades, crê Fernanda, do Movimento Plástico Transforma: “Ao apoiar a economia circular, a empresa atua em prol da sustentabilidade e da responsabilidade social, e isso diz respeito a sua postura e a seus valores éticos”, justifica.

No caso específico do plástico, as oportunidades podem ser ainda maiores: “As propriedades do plástico permitem sua recuperação e utilização por mais tempo”, argumenta Coelho, da Abiplast. “Além disso, o caráter de inovação e adaptação está no DNA do setor, favorecendo sua readequação a esse novo modelo”, acrescenta.

Plástico Moderno - Colocado em supermercado, coletor ajuda a reciclar EPS
Colocado em supermercado, coletor ajuda a reciclar EPS

Bahiense, do Plastívida, vê o setor já muito atento à necessidade da economia circular: “Ele sabe que, sem isso, não sobreviverá”, justifica. Mas, para ele, além de muitas vezes oriundas de indústrias concorrentes, as atuais contestações ambientais ao plástico podem até conduzir à consolidação de alternativas mais prejudiciais ao meio ambiente do que as resinas plásticas atuais.

Para referendar essa afirmação, ele aponta que, em São Paulo, as recentes restrições aos canudos plásticos geraram o surgimento ou a disseminação de pelo menos oito tipos de canudos possivelmente menos sustentáveis ambientalmente. “Os canudos de papel, além de não poderem ser utilizados mais de uma vez – algo que pode ser feito com o plástico –, deveriam ser separados e enviados para plantas de compostagem para degradar-se. Mas sequer temos plantas de compostagem no Brasil”, exemplifica. “Também virou moda o canudo de macarrão, que é comida sendo descartada, e os canudos de bambu, porosos, não são limpos adequadamente”, acrescenta.

Na opinião de Bahiense, educar para o consumo consciente dos diversos tipos de produtos constitui alternativa mais interessante que a obrigatoriedade de mudanças em seu uso. “Pense no que se pode esperar do banimento de pratos e copos descartáveis de plástico: talvez pratos de papel com uma camada de plástico, que nem se prestam à reciclagem”, pondera. “Com certeza, essas opções aos plásticos são desvantajosas do ponto de vista ambiental”, finaliza Bahiense.

Iniciativas da indústria do plástico para a economia circular

Representantes de todos os elos da cadeia do plástico atualmente reúnem-se na Rede de Cooperação para o Plástico para discutir e desenvolver a economia circular no setor. Ver: http://www.abiplast.org.br/rede-empresarial-de-cooperacao-para-o-plastico/

Abiplast e ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), ¬-assinaram um acordo de cooperação para incrementar a logística reversa no setor

Através da Câmara Nacional dos Recicladores de Materiais Plásticos, a Abiplast certifica empresas recicladoras que atuam dentro dos necessários critérios sociais, ambientais e econômicos, e certifica a resina plástica reciclada em quesitos como densidade, índice de fluidez, temperatura de amolecimento ou fusão e/ou módulo de flexão

A Abiplast lançou diversas publicações sobre o tema; entre elas: Economia Circular -, da Teoria à Prática; Perguntas e Respostas Sobre Reciclagem de Plástico; Cartilha de Reciclabilidade de Materiais Plásticos Pós-consumo. Informações em www.abiplast.org.br

Juntamente com outras entidades setoriais, a Abiplast integrou a Coalizão Empresarial que assinou com o Ministério do Meio Ambiente o Acordo Setorial de Embalagens em Geral, para implementação das ações de logística reversa exigidas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. A primeira fase desse programa encerrou-se em 2017; a segunda está em discussão

No final de 2018, a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), lançou o Compromisso Voluntário com a Economia Circular dos Plásticos. Assumido pelos produtores de resinas termoplásticas associados à entidade, ele pretende que até 2040 todas as embalagens de plástico do país sejam reutilizadas, recicladas ou revalorizadas (até 2030, índice deve chegar a 50%)

O Instituto Plastivida mantém com a prefeitura de São Paulo um acordo de cooperação técnica que vem oferecendo a professores e alunos de CEUs (Centros de Educação Unificada), programas de educação e capacitação em temas como descarte correto e consumo consciente. Recentemente, a mesma entidade integrou o projeto Plástico do Bem, que ofereceu esse mesmo gênero de conteúdo a cerca de 40 mil alunos e professores de escolas de municípios gaúchos

Plástico Moderno - Alunos do CEU Heliópolis aprendem com plásticos
Alunos do CEU Heliópolis aprendem com plásticos

O PICPlast, pelo Movimento Plástico Transforma, desde janeiro do ano passado, mantém no parque infantil paulistano KidZania um espaço no qual transmite às crianças, de forma lúdica e recreativa, conceitos relacionados à economia circular do plástico. O mesmo PICPlast montou a instalação interativa PlastCoLab, que apresenta diferentes projetos ligados ao chamado ‘movimento maker’, à inovação e à tecnologia que têm o plástico como matéria-prima principal, e já impactou mais de 37 mil pessoas de quatro capitais do país

Números do plástico na economia circular

Plástico Moderno - Economia-Circular---TABELA

Em 2016, foi reciclado cerca de 26% do total de embalagens plásticas produzidas no Brasil: isso equivaleu a 550,4 mil toneladas (aumento de 10 % comparativamente ao ano anterior). No caso das latas de alumínio destinadas a bebidas, em 2017, esse índice superou 97%. E já se recicla mais de 66% do total de papel consumido no país passível de reciclagem**

Plásticos correspondem a 13,5% da composição gravimétrica (em peso) do lixo coletado no país. Excluindo-se a chamada ‘fração molhada’, com 51,4%, é o item com maior relevância nessa composição, vindo a seguir: papel e papelão, 13,1%; metais, 2,9%; vidro, 2,4%; o item outros atinge 16,7%***

Restringindo a análise à coleta seletiva, plásticos correspondem a 17% da composição gravimétrica total, ficando atrás do papel/papelão, com 21%, e à frente do alumínio, metais ferrosos e vidro (respectivamente, com 10% e com 8%). Entre os plásticos, há a seguinte subdivisão: 32% para o PET; 18% para o PEAD; 16% para o PP; 6% para o PEBD; 3% para o PS; 1% para o PVC (24% são atribuídos aos plásticos Mistos)****

Em 2018, tiveram destinação correta 94% das embalagens primárias comercializadas com defensivos agrícolas. Isso equivaleu a 44,7 mil toneladas, das quais 93% recicladas, e o restante incinerado*****

Fontes:
* Abrelpe,
** Abiplast / Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio / Indústria Brasileira de Árvores (entidade representativa da indústria de produtos florestais e seus derivados)
*** Acordo Setorial de Embalagens em Geral, dados de 2017
**** Acordo Setorial de Embalagens em Geral, dados de 2018
*****inpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias)

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