Economia circular – BOPP é reciclável, mas enfrenta problemas

Problemas são logísticos e técnicos

O polipropileno biorientado (BOPP) se tornou muito comum em nosso dia a dia, especialmente na forma de filmes para embalar produtos alimentícios de consumo massivo: snacks, biscoitos, massas, cafés, chocolates, pet food, entre outros, além de rótulos, etiquetas, fitas adesivas.

São filmes estirados nos sentidos longitudinal e transversal – daí a denominação de biaxialmente orientados –, com relação bastante favorável entre o custo e os benefícios que conferem às aplicações: alto rendimento, elevada resistência mecânica, transparência, flexibilidade, barreira a agentes externos e facilidade de impressão, por exemplo.

A biorientação desses filmes exige equipamentos específicos, sendo hoje realizada no Brasil por poucas empresas. Mas o mercado nacional, estima a consultoria Maxiquim, movimenta anualmente perto de 170 mil toneladas de BOPP, equivalentes a cerca de 2,4% do total de transformados plásticos produzidos no país que, de acordo com os dados da Abiplast, somou 7,1 milhões de t em 2019.

O BOPP, ressalte-se, é perfeitamente reciclável: seja nos filmes transparentes, nos metalizados, nos perolados – às vezes referidos como “BOPP branco” –, nos filmes com efeito matte (fosco).

São recicláveis também os laminados feitos apenas com esse material, utilizados, por exemplo, nas embalagens de snacks, que muitas vezes combinam uma camada de BOPP transparente e outra de BOPP metalizado (além de adesivo e tinta de impressão).

Ou até com pequenos percentuais de polietileno, como acontece em embalagens de macarrão e de outros produtos. Até existe uma estrutura razoavelmente consolidada de reciclagem dos resíduos industriais desses filmes, o que não existe nos resíduos de pós-consumo (PCR).

É verdade que embalagens flexíveis são sempre menos recicladas, seja pela maior complexidade da logística reversa, seja porque o processo pode demandar tecnologias adicionais, como a alimentação forçada para introduzir o material na extrusora.

Mas, talvez por falta de informações sobre a reciclabilidade, parecem mais frequentes, nos discursos dos ambientalistas, as queixas relativas aos resíduos de BOPP.

A demanda por resíduos pós-consumo de BOPP para reciclagem parece ser inferior à de outros resíduos plásticos.

Plástico Moderno - Economia circular - BOPP é reciclável, mas enfrenta problemas ©QD Foto: iStockPhoto
Roberto Rocha, presidente da Ancat (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis) e coordenador da rede Cata Sampa

“É bem mais fácil encontrar compradores para outros tipos de resíduos plásticos flexíveis, de polietileno, por exemplo”, compara Roberto Rocha, presidente da Ancat (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis) e coordenador da rede Cata Sampa, que integra 22 cooperativas e associações de catadores da Grande São Paulo e do litoral paulista.

Os resíduos de filmes metalizados de BOPP, por exemplo, geram um reciclado mais escuro, pela presença de contaminantes, a exemplo dos resíduos da metalização, que diminuem o leque de suas aplicações.

Outros plásticos, como o PET, também podem ser metalizados; e a maioria das embalagens flexíveis tem componentes, entre eles tintas e adesivos, que deixam contaminantes; a enorme visibilidade do BOPP nesse tipo de aplicação, em inúmeros produtos cujas embalagens são rapidamente descartadas, talvez aumente as críticas.

Seja qual for o motivo, mesmo quando coletados, resíduos pós-consumo de BOPP são muitas vezes descartados; no melhor dos casos, ficam armazenados nas cooperativas, relata Rocha.

“Orientamos as cooperativas a não destinarem os resíduos a aterros, mantendo esse material estocado se não houver quem o compre.

Mas isso gera custo, há cooperativas com grandes quantidades de BOPP armazenado, já processado e enfardado”, observa Rocha.

O BOPP, ressalta, tem participação expressiva no material coletado pelas cooperativas, sendo ainda difícil encontrar quem se interesse por esses resíduos.

“Estamos buscando alternativas e parece que elas começam a surgir: recentemente, tivemos conversas com uma indústria de bom porte que mostrou interesse nos resíduos de BOPP para produzir tubos e outros tipos de peças”, relata.

Essa percepção na melhora da demanda por resíduos pós-consumo de BOPP é endossada por uma informação de Anderson Nassif, sócio-fundador da Cooperlol, cooperativa responsável pela coleta seletiva no município paulista de Orlândia, que recentemente encontrou um comprador para esse material: uma empresa recém-instalada na região que agora o utiliza para produzir hélices de ventiladores, capas para óculos, caixas e vasos, entre outros itens.

“Começamos a vender esse material há cerca de seis meses, por um preço até superior ao do plástico misto; antes disso, não tínhamos o que fazer com ele”, diz Nassif (plástico misto é o conjunto de resíduos de plásticos de várias cores).

Alternativas sustentáveis – Atentos à necessidade de responder aos questionamentos relacionados à sustentabilidade de seus produtos, os fabricantes de filmes de BOPP investem no desenvolvimento de tecnologias e soluções capazes de associar suas práticas aos pressupostos da economia circular.

A Vitopel, por exemplo, lançou no ano passado uma solução que, devido à maior resistência ao impacto e resistência de selagem, permite substituir, apenas por BOPP, algumas estruturas multicamadas, cuja reciclagem é mais difícil ou até inviável.

Denomizada V.360, ela já está sendo utilizada em um cereal matinal da Nestlé, antes acondicionado em uma embalagem feita com um laminado de poliéster, BOPP e polietileno.

Plástico Moderno - Economia circular - BOPP é reciclável, mas enfrenta problemas ©QD Foto: iStockPhoto
Mônica Telfser, gerente de Desenvolvimento & Inovação da Vitopel

“O BOPP proporciona uma grande oportunidade para a economia circular, pois permite gerar estruturas 100% BOPP, ou ao menos 100% poliolefinas”, ressalta Mônica Telfser, gerente de Desenvolvimento & Inovação da empresa.

“Pode-se substituir apenas por BOPP também laminados de PE e poliéster, atualmente utilizados em alimentos como café e condimentos, dentre outras possibilidades”, acrescenta.

Agora, a Vitopel busca parceiros que lhe forneçam resinas recicladas passíveis de serem inseridas em seus processos de produção de filmes.

Esse material, enfatiza Mônica, não pode ter contaminantes, pois a produção de BOPP é uma aplicação crítica, de filmes muito finos, que a presença de qualquer contaminante pode romper.

“Já encontramos um parceiro capaz de nos fornecer esse reciclado, montamos uma linha piloto para testá-lo, já chegamos até a gerar material com reciclado em nossa linha comercial”, relata.

Também na Polo o uso de resinas recicladas de BOPP é uma das vertentes da estratégia de sustentabilidade.

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Antônio Jou, CEO da Polo Films

“Estamos cientes de que a logística reversa para esses materiais é um grande desafio mundial. Apesar desta complexidade, estamos desenvolvendo, em conjunto com alguns fornecedores e clientes, um trabalho para implementação de um programa piloto para recuperação de filme de BOPP pós-consumo, para sua reciclagem e reutilização”, afirma Antônio Jou, CEO da Polo Films.

Algumas dificuldades devem ser consideradas quando se avalia a possibilidade de uso de BOPP reciclado. Uma delas, aponta Lilian Aparecida Mod, gerente de Qualidade e P&D da Polo, é a impossibilidade de seu uso em embalagens de alimentos.

“Além disso, a disponibilidade deste material ainda é muito limitada no mundo e há poucos fornecedores certificados. Ainda assim, esperamos produzir os primeiros filmes contendo resina PCR no primeiro semestre do próximo ano”, diz Lilian.

Mas a estratégia da Polo para associar mais categoricamente o BOPP aos preceitos da economia circular não se resume ao uso de resinas recicladas.

Recentemente, ela lançou a linha b-flex, composta de “filmes de BOPP biodegradáveis, capazes assegurar, durante todo o tempo de vida da embalagem, a preservação das propriedades físicas, mecânicas e ópticas com a mesma eficiência nos processos de impressão, laminação, envase e empacotamento aos quais o produto pode ser submetido”.

De acordo com Lilian, “o laudo de um laboratório norte-americano independente mostra que, em um ambiente equivalente a um aterro sanitário, a amostra da linha b-flex monitorada desde 2014 já se degradou mais de 70%”.

A Braskem, fabricante de resinas de PP que servem de matéria-prima de filmes biorientados, informa estar desenvolvendo um grade no qual haverá resina reciclada – proveniente de resíduos PCR –, em fase de avaliação pelos clientes produtores de filmes.

“O filme BOPP foi introduzido há cerca de quarenta anos como um produto complementar ao celofane, tendo se tornado posteriormente o material preferido para embalagens flexíveis funcionais. Hoje, o mercado de BOPP representa cerca de 12% da venda de PP da empresa no Brasil”, informa a Braskem.

Movimentos promissores – Aliada à evolução das tecnologias de reciclagem, a conjuntura hoje mais favorável às resinas recicladas – tanto pelo aumento do custo das resinas virgens, quanto pelo crescente interesse que elas despertam nas grandes marcas – parece estimular o reaproveitamento do BOPP pós-consumo.

Assim, a empresa Ecological está novamente recebendo resíduos pós-consumo de BOPP para reciclagem.

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Fábio Arcaro Kühl, diretor-executivo da Ecological

“Já reciclamos esses resíduos no passado, paramos por questões comerciais e técnicas; com os novos investimentos que realizamos em nossa estrutura física, e com parcerias para captação de matéria-prima de alguns parceiros e de cooperativas, agora retomamos o processamento da reciclagem do BOPP pós-consumo para produção de uma resina PCR de qualidade”, relata Fábio Arcaro Kühl, diretor-executivo da Ecological.

Instalada em Cerqueira César-SP, sua fábrica pode processar 400 t/mês de materiais, e a Ecological segue também reciclando, como já fazia, resíduos industriais dos diversos tipos de filmes de BOPP: metalizados com tinta, perolados, com efeito matte, sem nenhum tipo de impressão; as exceções são os filmes laminados com materiais incompatíveis com sua reciclagem mecânica, como alumínio, papel ou poliéster.

Envia o produto dessa reciclagem para processos de injeção, nos quais ele será aproveitado em vasos, utilidades domésticas, autopeças, entre outras aplicações. “Metalizado, perolado, matte, o BOPP é 100% reciclável e segue os conceitos de economia circular design for recycling (design pensado para a reciclagem)”, enfatiza Kühl.

Fornecedores de outros componentes das aplicações de BOPP também buscam soluções capazes de ampliar a circularidade desse material: entre eles, a fabricante de tintas de embalagens Sigwerk, que desenvolveu um primer cuja aplicação, antes da impressão, permite a posterior remoção da tinta em um banho alcalino, valorizando a resina que resultará da reciclagem.

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Renato Jardim, diretor comercial da Siegwerk no Brasil

“Utilizando-se a solução alcalina recomendada por nós, o filme impresso volta a ser totalmente transparente”, afirma Renato Jardim, diretor comercial da Siegwerk no Brasil.

Essa solução já está disponível em versões para filmes de BOPP, poliéster, PE, e mesmo laminados: nesse último caso, promove a delaminação do filme. Já está sendo testada, inclusive no Brasil, por fabricantes de embalagens e pelos brand owners que utilizarão essas embalagens.

“Não necessariamente o uso desse primer exige uma etapa adicional do processo, se houver disponibilidade de uma estação ele pode ser feito em linha com o próprio processo de impressão”, observa Jardim.

Caminhos da circularidade – A inserção mais decisiva das aplicações de BOPP nos preceitos da economia circular depende também, obviamente, de iniciativas que não estão restritas ao âmbito dos integrantes dessa cadeia, por exemplo, da ampliação da coleta seletiva e da educação para a correta destinação dos resíduos.

Mas a total reciclabilidade dos resíduos de BOPP é comprovada pelo fato de já serem normalmente reciclados seus resíduos industriais, enfatiza Eduardo Yugue, diretor de P&D da fabricante de embalagens Zaraplast, que no ano passado apresentou uma tese de mestrado na qual mapeou as tecnologias hoje disponíveis para a reciclagem de embalagens flexíveis.

“Agora, empresas de gestão de resíduos estão formando parcerias com cooperativas, com empresas usuárias de embalagens e mesmo com convertedores para promover a logística reversa também dos resíduos pós-consumo”, salienta.

As tecnologias, prossegue Yugue, evoluem rapidamente, tanto em sua capacidade de ampliar o potencial de reciclagem dos diferentes materiais, quanto no sentido de valorizar o material reciclado, inclusive do BOPP.

Algumas dessas tecnologias – como aquela que promove a remoção das tintas de impressão das embalagens – já estão disponíveis em escala industrial.

“Mas, para potencializar a reciclagem, as empresas donas das marcas também devem buscar simplificar ao máximo as estruturas dos filmes das embalagens, utilizando materiais compatíveis e, se possível, adotar um único material”, recomenda Yugue.

A necessidade de desenvolvimento de embalagens com estruturas mais simples é referendada por Leonardo Rost Machado, gerente de vendas da Limer-Cart, distribuidora especializada em filmes de BOPP e poliéster

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Leonardo Rost Machado, gerente de vendas da Limer-Cart

“Em cafés, em vez das usuais embalagens do tipo almofada feitas com PET transparente, metalização, impressão e PEBD, pode-se ter somente BOPP transparente e metalizado, ou com uma camada de PE (além da impressão). Isso confere a mesma proteção e mantém a estrutura perfeitamente reciclável”, exemplifica.

O profissional da Limer-Cart sugere ainda investimentos na qualificação de catadores e recicladores, explicando a eles que BOPP metalizado é reciclável, ensinando como separar corretamente esse material e como reciclá-lo da maneira mais adequada.

“Muitas cooperativas simplesmente descartam o BOPP metalizado juntamente com laminados com outros materiais, achando que ele não tem valor, mas isso não é verdade”, enfatiza.

A Polo, afirma Jou, juntamente com parceiros trabalha tanto no desenvolvimento de estruturas monocamadas capazes de substituir embalagens compostas por vários materiais, quanto para diminuir a espessura dos filmes e assim reduzir o uso de plástico.

“Ambas as iniciativas, no entanto, precisam ser desenvolvidas de forma a garantir que as propriedades originais da embalagem não sejam alteradas, e que a durabilidade e a qualidade dos produtos embalados sejam preservadas”, ele ressalta.

“Mas são inegáveis os benefícios dos plásticos, entre eles o BOPP, e eles estão associados à melhoria da saúde e bem-estar da população”, acrescenta o CEO da Polo.

Plástico Moderno - Economia circular - BOPP é reciclável, mas enfrenta problemas ©QD Foto: iStockPhoto
Aldo Mortara, diretor comercial da Vitopel

“O BOPP, como segundo material mais utilizado nas embalagens flexíveis, perdendo apenas para o polietileno, gera uma volume de resíduos que justifica um interesse maior por sua reciclagem”, aponta Aldo Mortara, diretor comercial da Vitopel.

Se o produto dessa reciclagem não pode ser utilizado novamente em embalagens que terão contato com alimentos – justamente, sua aplicação mais usual –, existem vários outros usos para o BOPP reciclado, como fitas adesivas e rótulos de produtos de higiene pessoal e limpeza.

“Mesmo o BOPP metalizado é perfeitamente reciclável, pois nele o conteúdo metálico não representa nem 1% do total da matéria-prima”, finaliza Mortara.

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