Biopolímeros prometem ganhos ambientais

Biopolímeros prometem ganhos ambientais, mas preço é limite

Reduzindo a emissão de gases geradores de efeito estufa e, no caso dos biodegradáveis, decompondo-se rapidamente sem deixar resíduos não naturais, os biopolímeros entraram nas estratégias de sustentabilidade da cadeia do plástico.

Têm participação ainda pequena nesse mercado e sua produção escassa contribui para manter os preços elevados, desestimulando a demanda.

Mas essa produção se expande e avança a oferta de biopolímeros, oferecidos por quantidade também crescente de fornecedores.

Incluindo tanto os biodegradáveis quanto os de outra natureza, os bioplásticos atualmente representam cerca de 0,5% das mais de 400 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente no mundo, estima a European Bioplastics, importante referência desse mercado, que projetou a retomada do crescimento produtivo em 2023 depois de algum tempo de estagnação e, impulsionado pelo aumento da procura e pelo surgimento de aplicações e produtos mais sofisticados, mais que triplicará até 2028 (ver tabelas).

No Brasil, informa estudo deste ano da consultoria MaxiQuim, eles representam cerca de 1% do mercado (esse percentual considera o PE verde da Braskem, um biopolímero não biodegradável).

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
Marta: produção instável e preço alto limitam demanda

“O principal limitante à expansão do uso de biopolímeros é o preço; pela baixa escala, ele é alto, e desencoraja alguns projetos”, pondera Marta Loss Drummond, analista de mercado de termoplásticos da MaxiQuim.

Globalmente, entre 2023 e 2030, o mercado de bioplásticos deve registrar crescimento médio anual de 18,8%, informa a diretoria da Abicom – Associação Brasileira de Biopolímeros Compostáveis e Compostagem, citando como fonte dessa estimativa a empresa de pesquisas e consultoria Grand Review Research. “Estimamos algo semelhante no Brasil”, diz.

“A demanda por bioplásticos, sejam de fonte renovável ou biodegradáveis e/ou compostáveis, ou ambos, no Brasil tem mostrado crescimento significativo nos últimos anos, impulsionada por preocupações ambientais e por iniciativas pontuais, como o banimento de sacolas não compostáveis em municípios como Brasília-DF e Bombinhas-SC”, acrescenta.

Biopolímeros novatos e consolidados

Um dos mais novos players do mercado brasileiro de biopolímeros é a Biofibre, integrante do grupo alemão Steinl (que controla também a fabricante de injetoras LWB, presente no Brasil com uma filial com área comercial, assistência técnica e peças de reposição).

Seu foco, diz Rodrigo Olivetto, diretor geral do grupo Steinl no Brasil e diretor da Biofibre na região das Américas, é utilizar fibras e aditivos naturais para melhorar a processabilidade dos bioplásticos em injeção, extrusão, termoformagem, sopro e impressão 3D.

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
Olivetto: fibras e aditivos naturais substituem os usuais

“Também podemos substituir cargas convencionais, como fibras de vidro e talco, por cargas naturais, como fibras de madeira”, acrescenta.

A Biofibre, complementa Olivetto, desenvolve compostos com todos os bioplásticos biodegradáveis e não biodegradáveis – PLA, PHA, PHB, PBS, PP e PP verdes, entre outros –, além do PBAT que, embora seja de origem fóssil, é biodegradável. Na Europa, seus produtos já são usados em embalagens rígidas, peças do interior de automóveis, material escolar, brinquedos, entre outras aplicações. “Temos alguns materiais sendo testados no Brasil”, ressalta.

Há também operações já consolidadas nesse mercado, como a ERT – Earth Renewable Technologies, produtora de compostos de PLA (poliácido láctico), resina biodegradável obtida por fermentação (nesse caso, de sacarose de cana-de-açúcar). Ainda este ano, provavelmente no primeiro semestre, a ERT inaugurará uma unidade em Manaus-AM, duplicando sua capacidade produtiva no Brasil, hoje de 3 mil t/ano e concentrada em Curitiba-PR. A empresa tem também uma planta nos Estados Unidos.

Em Manaus, destaca o CEO Kim Fabri, a ERT terá incentivos fiscais que lhe permitirão reduzir ainda mais os preços de seus compostos, nos quais o PLA importado da Tailândia é reforçado com materiais como fibras celulósicas e amido. Preços, segundo ele, cada dia são mais competitivos: “Hoje o preço de nosso PLA é 50% ou 60% superior ao do PE verde, já chegou a ser duas, três vezes maior”, coteja Fabri.

Descartáveis (copinhos, talheres, canudos e outros), sacos e sacolas são as aplicações hoje mais usuais dos compostos da ERT. Mas começam a surgir algumas demandas para injeção: por exemplo, de potes para cosméticos. E não há, afirma Fabri, problemas de utilização desse material nas aplicações que exigem maior tempo de vida: “Estamos lançando um filme para embalagens de chocolates que garante shelf life de um ano para o produto”, informa.

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
PROJEÇÃO DAS PARTICIPAÇÕES DOS BIOPLÁSTICOS NA CAPACIDADE GLOBAL DE PRODUÇÃO

Petroquímicas aderem aos biopolímeros

No portfólio da Basf, há uma linha à base de PBAT – polímero de origem não renovável, porém biodegradável – e blendas dessa resina com PLA oriundo principalmente do milho, mas também de mandioca e cana-de açúcar. Embalagens, especialmente sacolas e filmes, copos, talheres e pratos descartáveis, filmes de mulching e outros usos agrícolas são listados por Thiago Spedo, coordenador de negócios de Materiais de Performance da Basf na América do Sul, entre as principais aplicações desses produtos.

Por questões ambientais e legislações que começam a banir sacolas não compostáveis, cresce a demanda por bioplásticos no Brasil, diz Spedo, que credita a fatores como tecnologia da origem biológica e certificação da compostabilidade, aliados à escala de produção ainda pequena, como justificativas para o preço mais elevado dos bioplásticos. Mas, considerando a capacidade produtiva instalada e os investimentos destinados à ampliação da produção de bioplásticos, ele afirma:

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
Spedo: oferta de bioplásticos já é maior do que a demanda

“A disponibilidade atualmente é bastante superior à demanda”.

Por sua vez, a Dow oferece praticamente todo o seu portfólio também em versão proveniente de base renovável, pois em plantas da Europa e da América do Norte certificadas para a oferta de biopolímeros pelo conceito de balanço de massa, além nafta petrolífera, hoje utiliza também materiais como óleo de cozinha usado, resíduos da indústria de papel e celulose, e palha de milho como matéria-prima para obter eteno. Para diferenciar esses produtos dos equivalentes de origem fóssil, agrega a seus nomes comerciais o termo REN.

Resinas elastoméricas com base renovável fornecidas pela Dow já são utilizadas pelos fabricantes de calçados, e a indústria de cosméticos emprega a versão REN de sua resina Surlyn (muito utilizada em tampas de perfumes).

“Esses produtos têm a mesma performance dos similares de origem fóssil, podem ser processados nas mesmas máquinas e utilizados nas mesmas aplicações”, ressalta Sabine Rossi, diretora de Sustentabilidade para Embalagens e Especialidades Plásticas na Dow América Latina, destacando que também resinas de PE destinadas a aplicações de consumo mais massivo, como filmes para embalagens, estão disponíveis na versão REN.

Bioplásticos técnicos

Joint venture que agrega as posições de Lanxess e DSM no mercado de resinas de engenharia e especialidades, a Envalior disponibiliza diversos materiais de base biológica (alguns pelo conceito de balanço de massa). Entre eles, diferentes poliamidas e TPC (elastômero termoplástico). Todos, como afirma Anderson Maróstica, gerente técnico da Envalior, têm o mesmo desempenho dos materiais de origem fóssil e não exigem mudanças no maquinário de transformação. E despertam interesse no Brasil, mas as negociações esbarram no preço.

“Há quem queira pagar o mesmo preço dos produtos de origem fóssil, e aí a conta não fecha”, diz Maróstica, citando embalagens de embutidos e medidores de água como aplicações que utilizam essas biorresinas em outros países.

Carcaça de hidrômetro feita de PA 5.6 de biomassa de milho
Carcaça de hidrômetro feita de PA 5.6 de biomassa de milho

No Brasil, medidores de água – cujas carcaças são injetadas – utilizam também a poliamida 5.6, trazida ao Brasil pela Veelore e produzida pela chinesa Cathay Biotech, contendo 47% de biomassa de palha de milho. No universo das poliamidas, explica Josimar Fazolare, sócio-diretor da Veelore, a PA 5.6 é aquela com propriedades mais semelhantes às da PA 6.6, e pode ser utilizada nas mesmas aplicações. Já é comercializada no Brasil para mais aplicações, além dos medidores de água, como cabos de talheres, coletores de admissão de ar e peças próximas ao motor de autoveículos.

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
Fazolare: PA 5.6 de origem natural é durável como a 6.6

“Vejo potencial de uso também em eletroeletrônicos, em monofilamentos e nas embalagens”, ressalta Fazolare.

Seu preço não é superior ao da similar de origem fóssil, e tem a vantagem de não estar totalmente sujeito às oscilações do preço do petróleo. Mas sua aceitação no mercado brasileiro, onde começou a ser oferecida há cerca de três anos, enfrentou alguns contratempos.

“Havia quem achasse que ela pudesse ser biodegradável, mas é um plástico de engenharia com a mesma vida útil do concorrente de origem fóssil”, afirma Fazolare. “Estamos agora apresentando a PA 5.6T, com ponto de fusão muito elevado, até 308ºC, que nenhuma poliamida atinge. Isso lhe permite substituir materiais de alta performance, muito mais caros, como o PPA”, complementa.

Na Mitsubishi, a oferta de produtos de base biológica inclui resinas compostáveis e outras sem essa característica. Neste último grupo está a linha Durabio, com até 50% de conteúdo oriundo de fonte renovável, proveniente de milho, destinada a peças internas, grades e retrovisores de autoveículos, entre outras aplicações. Ela combina, destaca Waldir Vianna Junior, diretor da Mitsubishi Chemical Group Brasil, a transparência do acrílico com a resistência do policarbonato.

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
Vianna: Durabio combina alta resistência com transparência

“Ela tem vantagens sobre o ABS, pois não exige pintura, já a fornecemos na cor desejada, e resistência a riscos superior, está na família dos policarbonatos”, compara.

O portifólio da Mitsubishi tem ainda o PBS de origem biológica e biodegradável, cuja aplicação mais consolidada é o revestimento de papéis.

“No Brasil, há quem use PBS para essa aplicação; mas lá fora há usos também em sacolas, sacos e cápsulas de café”, diz Vianna. Segundo ele, o PBS entrega as mesmas propriedades de barreira do PE, e não tem nenhuma barreira de processamento (no paper coating, por exemplo, é processado na mesma máquina que usa PE). E sua biodegradação ocorre apenas na presença de micro-organismos, mantendo-se estável em condições adequadas de armazenamento.

Queixas e estímulos

Embalagens, descartáveis, filmes de mulching, embalagens de sementes: essas são as principais aplicações atuais de bioplásticos biodegradáveis, relata a diretoria da Abicom, que vê potencial para a expansão desse uso nas indústrias automobilística, de eletrônicos e na construção civil.

Em tramitação no Legislativo, o Projeto de Lei 2524/2022, cujo objetivo é instituir “regras relativas à economia circular do plástico”, poderá impulsionar a demanda por esses materiais. Afinal, justifica a diretoria da Abicom, “ele visa estabelecer metas claras para o uso sustentável de materiais compostáveis na produção de plásticos, alinhando-se com as práticas globais da bioeconomia”.

Marta Drummond, da MaxiQuim, também cita as iniciativas regulatórias como estímulos para o mercado de biopolímeros; mas vê o preço como um dos grandes responsáveis por não haver ainda, nesse mercado, uma demanda estável, e sim um aproveitamento de oportunidades pontuais. “Não é uma produção regular”, enfatiza Marta.

Economia circular: Biopolímeros prometem ganhos ambientais
PROJEÇÃO DA CAPACIDADE GLOBAL DE PRODUÇÃO DE BIOPLÁSTICOS (MILHÕES DE TONELADAS)

Do ponto de vista do desempenho, afirma Spedo, da Basf, “há atualmente uma variedade de biopolímeros disponíveis no mercado, que cobrem uma ampla faixa de aplicações e propriedades”.

Mas há quem constate uma “concorrência desleal” no mercado dos bioplásticos, proveniente de empresas que agregam um aditivo oxibiodegradável ao PE, e vendem esse produto como compostável. “Mas ele não é compostável e isso prejudica todo o mercado”, observa Fabri, da ERT.

Vianna Junior, da Mitsubishi, também qualifica os aditivos oxibiodegradáveis como prejudiciais ao mercado dos bioplásticos. “Mas certamente o mundo vai evoluir para os produtos verdes, não há outro caminho”, ressalta.

PBS da Mitsubishi se degrada por ação biológica no ambiente
PBS da Mitsubishi se degrada por ação biológica no ambiente

A Cathay Biotech, diz Fazolare, ainda este ano, ou no máximo no início de 2025, ampliará das atuais100 mil t/ano para um milhão de t/ano a capacidade de produção das poliamidas de base biológica que a Veelore comercializa no Brasil. Também explorará o mercado das poliamidas de cadeia longa, nas quais já disponibiliza, a partir de materiais de base biológica, produtos como as poliamidas 5.10, 5.12, 5.13, com as mesmas propriedades das versões 6.10, 6.12, 6.13, de origem fóssil.

A PA5.10, especifica, é 100% de origem renovável, pois têm origem vegetal os seus dois ingredientes: a PMD (pentametilenodiamina), com cinco carbonos, oriunda da palha de milho, que substitui a HMD (hexametilenodiamina) usada nas poliamidas de origem fóssil, e o ácido sebácico (de óleo de mamona), utilizado no lugar do ácido adípico da formulação da PA 6.6 e de outras poliamidas. “Ela já está sendo utilizada em aplicações técnicas e têxteis em diversas parte do mundo”, afirma Fazolare.

Sabine, da Dow, vê potencial de uso dos bioplásticos também na indústria da mobilidade – automóveis e afins –, hoje muito atenta à questão da descarbonização. Ela justifica o custo ainda superior dos bioplásticos por fatores como a logística mais complexa.

“Imagine o custo de recolher óleo usado em redes de restaurantes e fast foods”, detalha, referindo-se a uma das matérias-primas dos bioplásticos de sua empresa. Mas esse preço, ela lembra, baixará com o aumento da escala de produção. “E crescerá a demanda por esses produtos, pois a descarbonização é uma tendência sem volta e os bioplásticos constituem um dos caminhos para ela”, finaliza.

Leia Mais:

Braskem ampliará a capacidade produtiva de biopolímeros
Biopolímeros usam fontes naturais e biotecnologia – Economia circular
Consumo global de biopolímeros avança – Economia circular

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios