Economia circular – Aumento de escala estimula seleção automática

Plástico Moderno - Napolitano: unidade da Flórida (acima) tem sistema completo de seleção de materiais
Napolitano: unidade da Flórida (acima) tem sistema completo de seleção de materiais

Valorização dos reciclados e aumento de escala estimulam seleção automática de resíduos

Predomina amplamente no Brasil a separação e classificação manual dos materiais destinados à reciclagem. No caso dos plásticos, de maneira ainda mais acentuada na separação dos resíduos PCR (sigla referente às resinas que permanecem após o consumo de um produto). Várias razões justificam a hegemonia desse método rudimentar em uma época na qual resíduos de manufaturados são gerados em proporções colossais; uma delas é a associação da reciclagem à geração de trabalho para pessoas de baixa renda, claramente percebida nas legiões de catadores que perambulam pelas ruas do país.

Plástico Moderno - Napolitano: unidade da Flórida (acima) tem sistema completo de seleção de materiais
Napolitano: unidade da Flórida (acima) tem sistema completo de seleção de materiais

A legislação sobre a destinação desses materiais – a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) – vincula expressamente a reciclagem a essa função social, definindo resíduo reciclável como “bem econômico e de valor social, gerador de trabalho e renda e promotor de cidadania”. Também determina a prioridade de cooperativas e outras formas de associação de catadores nos sistemas de coleta seletiva e de logística reversa.

Deve-se também considerar que ainda é relativamente pequena no país a atividade de reciclagem de plásticos, cujos produtos até recentemente eram pouco valorizados. Mas essa situação está mudando gradativamente, até porque, por motivações de marketing e metas de sustentabilidade, grandes fabricantes de produtos de consumo agora exigem resinas recicladas nas embalagens de seus produtos. E requerem qualidade dessas resinas, mesmo precisando pagar um pouco mais por elas.

[adrotate banner=”151″]

Consolida-se um mercado mais competitivo para as resinas recicladas. E nele cresce o apelo dos equipamentos de automação, capazes de conferir escala verdadeiramente industrial, além de maior segurança, ao processo de classificação e separação dos materiais. Há vários desses equipamentos, e alguns permitem até separar os plásticos não apenas de outras matérias-primas, mas também por tipos e cores de resinas (ver quadro).

Plástico Moderno - Equipamentos para separação e classificação automatizada de plásticos e outros materiais
Equipamentos para separação e classificação automatizada de plásticos e outros materiais

Existem recicladoras brasileiras em avançado estágio de automação do processo de separação e classificação dos materiais recicláveis: caso da Tepx, que em cinco plantas produz flakes e resina reciclada de PET. Uma delas, em Cotia-SP, usa um separador magnético para retirar metais, trommel, sistema óptico que além de extrair contaminantes separa o PET cristal do colorido. Nessa planta são anualmente processadas 4,5 mil toneladas de garrafas, que originam flakes destinados a outra unidade, em Osasco-SP, na qual a empresa produz 15 mil toneladas de resina reciclada de PET (essa unidade também recebe flakes de terceiros, e conta com seus próprios equipamentos de leitura óptica para separá-los).

Em uma fábrica instalada na cidade norte-americana de Jacksonville, na Flórida, onde produz 14 mil toneladas de flakes por ano, a Tepx implementou um processo que, além dos equipamentos existentes na operação brasileira, inclui também sistema balístico para a separação de materiais de duas ou três dimensões, e equipamentos para retirada dos rótulos das garrafas.

No mercado norte-americano, diz Mauro Napolitano, diretor-geral do Grupo Tepx, a automação da separação já é imprescindível. E não apenas porque lá a mão de obra é mais cara que a brasileira, ou pela existência de plantas de reciclagem muito grandes, inviáveis sem recursos mecanizados, mas pelas próprias características do material que os recicladores recebem.

No Brasil, relata Napolitano, mais de 90% do PET que a Tepx recicla provém de uma cadeia que começa com os catadores, passa por pequenos sucateiros e daí vai para o reciclador. E os sucateiros fazem uma boa triagem, que a Tepx refina com sistemas automatizados na unidade de Cotia (e manual, na planta localizada em Maceió-AL). Nos Estados Unidos, a grande maioria dos resíduos provém de empresas coletoras. “Essas empresas trabalham com volumes muito grandes, e mesmo utilizando sistemas automatizados para separação, os materiais que nos enviam têm mais contaminantes que aqueles provenientes de sucateiros. Isso torna mais importante o uso de equipamentos para fazer uma seleção mais refinada”, ressalta.

Importante lembrar: essa realidade do mercado norte-americano já se estabelece em algumas grandes cidades brasileiras, como acontece em São Paulo, onde as duas concessionárias responsáveis pela coleta de resíduos mantêm seus próprios centros de triagem, nos quais, por exigência de legislação, combinam automação com trabalho de manual (ver box).

Mas também na indústria brasileira de plástico reciclado, a automação dos processos de separação e classificação dos resíduos recicláveis constitui um “caminho natural”, crê Napolitano: “Certamente vai aumentar a demanda por resina reciclada e isso vai exigir das empresas mais investimento em produtividade e qualidade”, justifica.

[adrotate banner=”151″]

Vantagens e considerações – Automatizar a separação dos resíduos recicláveis significa ampliar a capacidade de produção, elevar a produtividade e simultaneamente promover a qualidade das resinas recicladas, permitindo inclusive concorrer com resinas virgens, ressalta Sergio Atienza, diretor na América Latina da Stadler, multinacional de origem alemã fabricante de equipamentos de separação e reciclagem de resíduos – separadores balísticos, tambores de triagem e removedores de etiquetas, entre outros –, e também integradora que desenvolve e implementa plantas de reciclagem nas quais pode incluir equipamentos de outros fabricantes.

Plástico Moderno - Linha completa de reciclagem fornecida pela Stadler integra várias tecnologias
Linha completa de reciclagem fornecida pela Stadler integra várias tecnologias

Vários fatores, ressalta o profissional da Stadler, devem ser considerados em um projeto de automação da separação e classificação de resíduos para reciclagem: “Há a capacidade da planta, o material que ela receberá, materiais que pretende separar, qualidade do produto final para atingir o mercado pretendido, entre outros”, detalha.

Plástico Moderno - Atienza: automatizar permite ampliar produção e qualidade
Atienza: automatizar permite ampliar produção e qualidade

A própria possibilidade dessa automação deve ser cuidadosamente avaliada, recomenda Angelo Milani, diretor comercial para a América do Sul da Amut, empresa de origem italiana e atuação internacional. Ela é vantajosa, pondera Milani, porque possibilita, entre outras coisas, processar mais rapidamente maiores quantidades. Por outro lado, uma planta automatizada requer uma contínua provisão de grandes quantidades de materiais, que devem ser mantidos sempre nos mesmos parâmetros. “Se uma planta foi desenhada para receber materiais de coleta seletiva, mas recebe também madeira e concreto em grandes quantidades, ou orgânicos em quantidades superiores às esperadas, seu rendimento diminui”, exemplifica Milani. “Pode-se ter uma planta mais flexível, mas a flexibilidade tem um custo elevado”, acrescenta.

A separação manual, observa o profissional da Amut, pode ser tão precisa quanto a óptica, mas terá custo superior na separação de grandes quantidades. “A leitura óptica, por sua vez, para justificar o investimento, exige suprimento contínuo de grandes de grandes quantidades de materiais de boa qualidade”, destaca Milani. Por meio da sua unidade Ecotech, a Amut desenvolve plantas de processamento de resíduos sólidos urbanos e produz sistemas de separação balística, trommels, sistemas aeráulicos, além de esteiras e sistemas de armazenagem. “Para os plásticos, temos também sistemas de lavagem de várias resinas”, complementa Milani.

Distinguindo resinas – Benefícios não diretamente relacionados à produtividade ou à qualidade do produto também podem advir da automação da separação. Um deles: “melhora a qualidade do trabalho das pessoas que atuam na triagem, que em vez de manusear um material misturado, contaminado e perigoso, passam a realizar apenas o controle de qualidade”, ressalta Carina Arita, gerente de vendas no Brasil da Tomra, multinacional fabricante de um dos mais sofisticados entre os equipamentos destinados a essa automação: os separadores ópticos.

Plástico Moderno - Planta da Amut para classificação de plásticos pós-consumo
Planta da Amut para classificação de plásticos pós-consumo

Neste mês de junho, a Tomra lança a “nova geração” de sua linha de equipamentos de seleção óptica Autosort, que, aplicando recursos como identificação do espectro de luz de infravermelho e laser, identificam os diferentes tipos de polímeros, suas cores, a presença de vidro ou de metal dentro das garrafas e frascos, entre outras informações.

Plástico Moderno - Milani: separação manual não é viável para grandes plantas
Milani: separação manual não é viável para grandes plantas

Nessa nova geração, os equipamentos dispõem de um recurso denominado Deep Laser, que através de emissão de laser aumenta o grau de precisão de identificação de materiais como borrachas e plásticos pretos, mais dificilmente identificáveis pelas tecnologias anteriores por não refletirem luz.

Esse recurso pode ser associado a processos de Inteligência Artificial. Um uso dessa possibilidade: “Recicladores de PP muitas vezes não querem receber bisnagas de silicone que, embora feitas com essa resina, prejudicam a reciclagem. A inteligência artificial pode mapear os formatos de bisnagas de silicone e qualificá-los como rejeitos”, exemplifica Carina.

Segundo ela, os equipamentos da Tomra identificam e separam não apenas os plásticos commoditizados, mas também resinas como PS, ABS e PC. “Seu índice de precisão varia entre 95% a 98%; até mais, no caso de flakes. E a maior parte dos erros ocorre não por falha do equipamento, e sim do processo, como no caso de uma peça da qual não foi retirado o rótulo”, enfatiza Carina.

A Torma, ela ressalta, embora tenha equipamentos instalados em recicladores – tanto para a classificação inicial dos materiais quanto para flakes –, no Brasil hoje foca principalmente os sistemas de coleta e destinação de lixo urbano, que com eles podem reaproveitar melhor as enormes quantidades de resíduos destinadas a aterros e lixões. Nesse caso, o investimento em tecnologia é plenamente justificável em plantas que precisam separar pelo menos 500 t/dia de resíduos. “Mas também estamos presentes em plantas menores, a partir de 200 ou 300 t/dia”, destaca a profissional da Tomra. “Em recicladores, nossos sistemas são instalados em clientes que processam a partir de 1.000 kg por hora”, acrescenta.

Plástico Moderno - Sistema Autosort, da Tomra, opera em recicladora espanhola
Sistema Autosort, da Tomra, opera em recicladora espanhola

Por sua vez, Napolitano, da Tepx, crê que em um reciclador de plástico instalado no Brasil, considerando o custo da mão-de-obra, o uso de separação óptica se torna interessante para capacidades a partir de aproximadamente mil toneladas mensais de materiais a serem separados. “Esse equipamento deve ser pensado como um investimento com retorno a médio prazo”, enfatiza.

[adrotate banner=”151″]
Plástico Moderno - Carina: sistema a laser separa materiais com 98% de precisão
Carina: sistema a laser separa materiais com 98% de precisão

Demanda ainda pequena– No Brasil, a automação da separação e classificação dos materiais recicláveis constitui diferencial valorizado pelos próprios usuários de resinas recicladas, afirma Marcos Aurélio Andriolo, gerente de operações da Tepx. “Ela já conta pontos nos processos de homologação para o fornecimento de resinas recicladas para os grandes clientes”, informa.

Mas deveria ser maior a demanda por equipamentos para reciclagem no Brasil, observa Milani. “As coisas podem, porém, mudar muito rapidamente. A Inglaterra até há pouco tempo reciclava menos que outros países europeus, mas hoje investe bastante em reciclagem. E o mesmo pode acontecer no Brasil, que tem um mercado muito grande”, avalia o profissional da Amut, empresa cuja atuação no mercado brasileiro é feita em parceria com a Wortex, fabricante nacional de extrusoras e de outros equipamentos destinados à indústria do plástico.

Também para Atienza, da Stadler, no Brasil e na América Latina, de maneira geral, ainda há muito por fazer para desenvolver a reciclagem. “Mas é imprescindível investir em tecnologia para automatizá-la, esse mercado se tornou muito competitivo, e a automação propicia maior eficiência, processos mais ágeis e produtos de melhor qualidade”, enfatiza.

A Tomra, informa Carina, já instalou cerca de 70 sistemas de seleção no mercado brasileiro, no qual a empresa atua há nove anos. Quantidade, ela reconhece, pequena para a relevância do país e de sua atividade econômica. “Temos 12 mil sistemas instalados no mundo. Na China, onde chegamos um pouco antes do Brasil, são cerca de quinhentos”, compara.

Plástico Moderno - Vianna: população deixa pouca quantidade de resíduos para coleta seletiva em São Paulo
Vianna: população deixa pouca quantidade de resíduos para coleta seletiva em São Paulo

Separar e classificar – Para separar e classificar materiais com valor comercial provenientes da coleta seletiva realizada na cidade de São Paulo – plásticos, vidros, metais, papel e papelão –, a empresa Loga mantém uma central de triagem capaz de processar 250 t/dia, onde combina sistemas mecanizados com o trabalho de 50 a 60 integrantes de uma cooperativa.

Na vertente da automação, essa central tem um trommel, peneiras rotativas para extração de partículas finas, separador balístico que aparta as peças tridimensionais daquelas feitas com duas dimensões. “Esse material 2D passa então por uma bomba de sucção, que separa os filmes plásticos do papel”, relata Francisco Vianna, responsável pelo Planejamento e Operação da Loga.

Para o plástico, há um equipamento de leitura óptica que separa três resinas: polietileno, polipropileno e PET. Nas esteiras destinadas a cada uma delas, profissionais da cooperativa realizam a separação por cores, juntamente com um controle de qualidade e uma separação mais acurada, que retira materiais como XPS (poliestireno expandido), também reciclável.

Atualmente, a Loga é responsável não apenas pela coleta seletiva, mas também pela coleta domiciliar e dos resíduos dos serviços de saúde em metade da capital paulista (a outra metade fica com a concessionária Ecourbis, que também tem uma central de triagem). Processa, a cada dia, entre 130 t e 140 t de resíduos provenientes de coleta seletiva.

[adrotate banner=”151″]

A capacidade total da central de triagem, de 250 t/dia, não é ainda preenchida, explica Vianna, em decorrência de um conjunto de fatores. Um deles, a quantidade ainda insuficiente de materiais destinados pela população à coleta seletiva. Outro, a enorme concorrência de catadores informais, que recolhem muitos materiais antes da passagem dos veículos da Loga. Além disso, por enquanto a empresa só realiza a coleta seletiva em 65% do território sob sua responsabilidade.

Plástico Moderno - Vianna: população deixa pouca quantidade de resíduos para coleta seletiva em São Paulo
Vianna: população deixa pouca quantidade de resíduos para coleta seletiva em São Paulo

O material que a empresa recolhe na coleta domiciliar (não-seletiva) vai diretamente para aterros, sem nenhum trabalho para o reaproveitamento de seus materiais. Um enorme desperdício. “Nossa coleta domiciliar recolhe diariamente 5,5 mil toneladas de resíduos, não dá para confrontar diretamente esse volume com o da coleta seletiva, pois ele é molhado. Mas creio que algo entre 30% e 40% desse material poderia ser reciclado”, estima Vianna.

Assim, pelo menos 4 mil das 11 mil toneladas totais de resíduos coletados diariamente em São Paulo, ele calcula, poderiam ser reciclados. “Reciclamos cerca de 300 t/dia”, especifica o profissional da Loga.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios