É a hora e a vez da indústria nacional?

Simplás

No Brasil, a manufatura industrial está vivenciando uma reprise de crises anteriores, tais como as de 2008 e 2014, e outras de antes, porém agora muito mais acentuada devido à profunda perda de renda de boa parte dos consumidores.

O desemprego é uma realidade que poderá se estender por alguns anos até atingir patamares aceitáveis para uma economia moderna; por conseguinte, persistirá a retração do consumo em especial dos bens não essenciais e dos bens de consumo duráveis.

Mas as dimensões do impacto são atenuadas pela expectativa sobre a possível substituição de importações já que as taxas cambiais estão favoráveis a competitividade dos produtos nacionais.

Sem esquecer também que pode ocorrer uma influência nacionalista, procurando bens produzidos localmente ou ainda por reflexos de novas ondas de Pandemia Sanitária dificultando a logística internacional. Até mesmo uma revisão de conceitos de sustentabilidade poderá provocar a transformação de cadeias de fornecimento em mais curtas e geograficamente mais próximas.

Mas então, essa é a hora “da virada”, onde nossa indústria nacional pode “mostrar a que veio”?

Alavancar de uma vez por todas seus projetos tecnologicamente impactantes ?

Até seria o caso, mas enquanto a manufatura no mundo tem caminhado pela trilha da inovação e tecnologia baseada em ciência e design em conceito ampliado, no Brasil tudo é mais lento e de difícil execução.

Ocorre que nossas limitações de competências e capacidades tecnológicas nos impedem de dar um salto significativo para o futuro.

Plástico Moderno - Leocadio Antonio Nonemacher é diretor do Simplás e diretor geral da Sulbras
Leocadio Antonio Nonemacher é diretor do Simplás e diretor geral da Sulbras

Houvesse um ambiente onde a indústria nacional estivesse na ponta da pesquisa e desenvolvimento tecnológico, no nível “high-end”, prototipando ou testando em modo “beta” algumas inovações não localizadas em outras partes do mundo, para ilustrar: algo do tipo “um novo reator de energia limpa a partir da areia”, ou ainda “uma máquina de moldar plástico sem necessidade de aquecimento de suas moléculas”; houvesse esses casos “exóticos” de pesquisa, o quanto então estaria a pesquisa na indústria nacional avançada?

Certamente muito mais.

Sem esquecer da capacidade de renovação de design que ainda é precária em nosso país, por exemplo: basta entrar no site do ebay ou outro do gênero e perceber que por lá estão milhares de variantes para um mesmo produto, sem a mudança de sua funcionalidade mas, sim, de seu design ou apresentação. Tudo fácil e prático.

Aqui, em nossa indústria, ainda temos mãos (e mentes) presas, não investimos senão em algo muito seguro e com pay-back minimamente garantido.

E não é assim que se faz indústria de ponta. Penso que para estar adiante na indústria, é necessário fortalecer a criatividade, a imaginação de possibilidades, o teste sem compromisso, o aprendizado sobre o erro. E isso custa muito dinheiro, contradizendo com nosso hábito de que por aqui não pode haver desperdício em ideias malucas.

Penso que criatividade “extrema” – alguns delírios – associada à ciência é muito necessária para inovar!

Isso, sem esquecer de nossas mazelas políticas e protecionistas para o corporativismo e fisiologismo burocrático, cujo ambiente não se inscreve mais em nações que realmente queiram avançar e prosperar para melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos, gerando regras, burocracia, corrupção e atraso nas inovações.

Pois, em termos educacionais, tecnológicos e científicos, somos tão atrasados que a indústria da manufatura nacional se arrasta sempre em busca de seguir estratégias e conceitos desenvolvidos em outros países, como, por exemplo, a abordagem da Indústria 4.0 – não que isso seja um mal em si.

Quero dizer: raramente existe um protagonismo de criação genuína na indústria local. Sim, sempre surgem inovações em nossas empresas, algo que é fundamental à sobrevivência e à competitividade e isso se destaca em subsidiárias das indústrias multinacionais ou grandes empresas nacionais capitalizadas.

É incrível que, embora já tenhamos uma infraestrutura nacional mínima que permite nosso real desenvolvimento tecnológico, tais como centros de pesquisas de universidades, institutos, Embrapi, Senai, dentre outros, tais projetos normalmente tem conexão com a indústria no Brasil por efeitos de renúncias fiscais e não por genuinidade de projetos em busca de conhecimentos novos, custe o que custar. É questão cultural.


E, quanto ao ensino, seria nosso primeiro aliado para nosso avanço tecnológico, sabemos a preparação básica para o conhecimento, que poderia instigar nossos jovens para a ciência e tecnologia, como estamos?

Com raras exceções, as redes públicas de ensino convivem com a crise (desde sempre) em que as escolas do ensino fundamental e médio são na grande maioria escassas de recursos e organização institucional mínimos para o bom aprendizado.

As escolas técnicas, revigoradas nos últimos tempos, poderiam gerar também conhecimento novo, entretanto, por ora, conseguem tão somente reproduzir conhecimento – de fato, algo que também é seu papel essencial.

E sabemos que lá fora nos países desenvolvidos, o avanço da ciência e do design é brutal, e por lá a ciência se converte em produtos, serviços e processos vendáveis bem rapidamente. Onde indústria, redes de ensino, universidades, institutos, escolas técnicas, etc. tudo converge para o lugar do desenvolvimento tecnológico. Claro, também preparam para outros campos da nossa vida tais como áreas humanas e sociais.

Como indústria local então, o que fazer? É duro admitir, mas temos poucas chances a curto prazo de mudar a realidade, mas temos que arriscar mais em “inventividade”. E a médio e longo prazo, temos que confiar em políticas públicas de educação, ciência e tecnologia – que ainda são fracas e desconexas.

Para além disso, contemos com a coragem de iniciativas locais não incentivadas em âmbito fiscal, tomemos como exemplo a tecnologia Bio Safe da empresa Marcopolo, de Caxias do Sul-RS, destinada a não somente equipar ônibus de passageiros mas também a ser usada em outros ambientes, algo diferenciado, genuíno e criativo, criada com rapidez de resposta para a necessidade sanitária do momento.

As lições que a pandemia vai nos deixar na indústria nacional, provavelmente serão rapidamente esquecidas como é de hábito. As oportunidades também.

Mas resta, portanto, que a indústria nacional se torne mais corajosa em criar e inovar, e também que continue a perseguir objetivos mínimos de desenvolvimento, pelo menos, de atualização tecnológica.

E aqueles empreendedores sonhadores para uma indústria de impacto e fortalecida em competências não se deixem abater por mais uma crise, porque acreditamos que suor, imaginação e colaboração ainda vão dar certo um dia neste país.

Plástico Moderno -

Simplás

A necessidade de troca de informações técnicas e de mercado impulsionaram a criação, em 24 de agosto de 1989, do Simplás – Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Nordeste Gaúcho.

Atualmente, a entidade está instalada em sede própria, localizada junto a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul, representando mais de 430 empresas, de 8 municípios da região, responsáveis por aproximadamente 11 mil empregos diretos.

Desde a criação do Simplás, a região presenciou exuberante desenvolvimento industrial, tendo se tornado o principal pólo plástico do Estado e um dos mais destacados do país.

Durante todos esses anos, o Sindicato tem focado sempre o crescimento da indústria de terceira geração, não medindo esforços para proporcionar aos associados qualificação técnica e bons indicadores de negócios, bem como tem sido porta-voz, junto ao poder público, das reivindicações da categoria econômica que representa.

Mais informações: https://www.simplas.com.br/home


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