Tecnologia da informação deu suporte aos distribuidores para superar a pandemia

A capacidade de adaptação e a flexibilidade operacional permitiram à distribuição de produtos químicos no Brasil superar os desafios impostos pela pandemia da Covid-19 e seus reflexos nas cadeias produtivas – Tecnologia da Informação – Porém, isso foi o resultado de muitos esforços, alguns iniciados há anos, como a digitalização dos procedimentos internos do negócio.

Por sua vez, 2021 começou ainda sob o signo da incerteza, pois a doença ainda não foi controlada e coloca todas as atividades produtivas em posição de expectativa, evitando movimentos mais drásticos.

Essa doença afeta todos os aspectos do comércio: política de estoques, logística, formação de caixa, posição financeira e muito mais; considerou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

Ele apontou que a questão sanitária gera muita insegurança e afeta os negócios. “Os clientes não querem formar estoques porque não sabem se terão compradores nos próximos meses, então fazem compras cada vez mais picadas ao longo de cada mês”, comentou.

Isso significa que cabe aos distribuidores arcar com a manutenção de estoques suficientes até para suprir picos de demanda, embora isso signifique pressionar o caixa das empresas.

“Os juros estão baixos, é verdade, mas manter um caixa robusto é fundamental para a distribuição”, salientou.

No ano passado, as empresas do comércio químico assumiram duas prioridades: a segurança de todo o pessoal e a confirmação da essencialidade das suas atividades, de modo a evitar paralisação.

“É a distribuição que supre os fabricantes de produtos de higiene pessoal e de limpeza, fundamentais durante a pandemia”, explicou.guia de produtos químicos

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Uma parte das empresas associadas à Associquim informou ter colocado suas equipes administrativas e comerciais no regime de trabalho em casa (home office) no início da pandemia.

“Com o tempo, parte dessas equipes voltou aos escritórios, seguindo protocolos de higiene e distanciamento, hoje não sabemos como isso ficará em 2021, até porque há quem prefira trabalhar de casa”, considerou.

Há casos de empresas que retomaram totalmente o trabalho presencial.

O pessoal da área operacional foi mantido no sistema normal, porém com várias adaptações e cuidados para evitar contaminações.

Medrano comenta que as distribuidoras de maior porte conseguiram se adaptar com mais facilidade ao sistema de trabalho remoto por terem investido ao longo de vários anos em sistemas de tecnologia da informação que apoiam essa alternativa. “Empresas de menor porte sofreram mais com isso”, comentou.

Como reflexo, ele acredita que os investimentos do setor em digitalização, comunicação e automação sejam acelerados nas empresas do ramo a partir de 2021.

“Quem já tinha esses sistemas levou vantagem na crise, quem ainda não está bem posicionado vai investir pesado daqui para frente, é uma tendência irreversível, como evidenciamos durante o mais recente Encontro Brasileiro da Distribuição Química, o EBDQuim, realizado em março do ano passado, antes da pandemia estourar por aqui”, ressaltou.

Há anos divulgando a importância de o setor adotar sistemas de Tecnologia da Informação mais robustos e eficientes, Medrano considera que essas técnicas hoje são fundamentais, tanto na comunicação comercial – entre clientes e vendedores, ou entre vendedores e a empresa –, quanto nas operações de suporte (back office) que incluem análise de crédito, verificação de certificados, logística, câmbio e suprimentos.

“Porém, não vejo como fazer a venda automática de produtos químicos mediante marketplaces, por exemplo, uma vez que se trata de produtos sujeitos a vários tipos de controles”, afirmou.

“E a entrega é física, com muitos requerimentos de segurança e de meio ambiente, não é o mesmo de vender um livro ou músicas que são baixadas diretamente pela internet.” Ao mesmo tempo, vendas do tipo B2B com gestão de estoques de clientes são possíveis, ainda que pouco utilizadas por aqui.

O uso mais intensivo de sistemas de TI – Tecnologia da Informação muda um pouco o perfil dos profissionais do ramo.

O dirigente setorial aponta que é preciso contar com gente qualificada para analisar as informações geradas em grande quantidade pelos sistemas. Isso também requer investimento.

 

Resultados positivos – Associquim

Embora ainda não tenha os dados definitivos da pesquisa que a Associquim realiza anualmente com seus associados, Medrano acredita que 2020 tenha se encerrado com ampliação do faturamento do setor, mesmo com redução dos volumes transacionados.

Isso se explica pelo aumento dos preços dos produtos verificado ao redor do mundo, somado à desvalorização do real frente ao dólar (cerca de 30%). “Podemos dizer que o setor teve um resultado favorável, apenas”, avaliou.

O maior entrave encontrado pelos distribuidores no ano passado se refere às operações logísticas internacionais. “O problema começou na Ásia e se espalhou por todos os lugares, as companhias de navegação mudaram as rotas e frequências, complicando as operações comerciais”, informou.

Nesse ambiente, os estoques da distribuição evitaram escassez ainda maior de insumos químicos. “Ainda hoje, persiste uma falta generalizada dos derivados de propeno, bem como de intermediários para química fina, estes muito dependentes da China e da Índia”, apontou.

As complicações logísticas diminuíram, mas ainda persistirão por algum tempo.

Como explicou o presidente da Associquim, todas as cadeias produtivas globais estão desalinhadas e esse ajuste tomará algum tempo, podendo sofrer impactos de uma segunda (ou terceira) onda do coronavírus.

Segmentos consumidores como as indústrias de alimentos, produtos de limpeza, cosméticos e farmacêuticos ampliaram suas atividades durante a pandemia, aumentando as compras junto aos distribuidores especializados.

Em compensação, produtos têxteis, calçados e bens duráveis registraram forte queda de vendas. “Como a distribuição é multiproduto e multissegmento, é possível promover uma adaptação rápida às variações de mercado”, considerou.

“A crise reforçou o papel da distribuição nas cadeias produtivas e até ampliou nossa relevância, pois passamos a gerenciar estoques para a indústria e para os clientes.” Além disso, a oferta de serviços está se diferenciando, atendendo aos requerimentos dos clientes.

Como relatou, em 2020, até as grandes indústrias aumentaram suas compras dos distribuidores químicos, porque estavam rodando com baixa ocupação de capacidades e isso inviabilizava a importação direta de insumos. Nessa situação, era mais econômico comprar da distribuição local.

O encerramento das atividades fabris da Ford no Brasil é visto como um sinal de alerta para o Brasil.

“A distribuição fornece muitos insumos para a indústria de transformação, caso esse fechamento de unidades se intensifique, vamos perder mercado; é preciso ter uma indústria de transformação forte não só para alavancar a distribuição química, mas para o crescimento do país”, advertiu Medrano.

Uma preocupação reside nos procedimentos que aliviam a carga tributária de produtos finais antes de afrouxar o laço das matérias-primas, comprometendo a competitividade da produção local.

Do ponto de vista operacional alfandegário, Medrano elogia os avanços na informatização que se refletem na celeridade das liberações de mercadorias. “Na parte de exportações, o sistema já opera muito bem; nas importações ainda há avanços a fazer, mas está no prazo prometido”, considerou.

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Além da pandemia, Medrano salientou que os problemas fundamentais de longa data do Brasil persistem. “Vivemos num manicômio tributário, o ICMS, por exemplo, precisa ser reformulado com urgência, está defasado, suas alíquotas são muito altas e prejudicam demais a atividade produtiva”, criticou.

Além disso, há o Custo Brasil, conjunto formado por dificuldades logísticas, burocráticas e jurídicas que multiplicam os custos das empresas.

De positivo, ele aponta a condução da política cambial, que se tornou mais transparente e previsível, reduzindo o risco das operações comerciais. “Para a distribuição, a flutuação constante da taxa de câmbio é mortal”, disse.

Pós-pandemia – Profundo conhecedor do comércio internacional, Medrano vê algumas mudanças no cenário global pós-pandemia.

A vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos iniciará uma nova abordagem das relações entre países. “Biden deve mudar a forma do relacionamento com a China, por exemplo, mas não o conteúdo, uma vez que a China se tornou um forte concorrente comercial e estratégico”, afirmou.

A nova administração dos EUA tende a voltar ao multilateralismo, abandonado no período Trump. “De modo geral, a tendência é de melhorar o ambiente comercial, afastando as questões ideológicas que atrapalham demais”, considerou. Além disso, a sua expectativa é de que o setor privado recupere a relevância nas discussões globais.

Quanto ao Brasil, Medrano entende que será preciso melhorar o desempenho nas questões ambientais, consideradas prioritárias pela administração Biden. “As cobranças nesse tema tendem a ficar mais fortes, mas podemos nos beneficiar disso se soubermos nos posicionar adequadamente”, comentou.

Um ponto crítico que merece melhor acompanhamento é a questão educacional.

A pandemia fechou escolas e prejudicou crianças e jovens, especialmente os de mais baixa renda. “Cada vez mais, o desenvolvimento do país dependerá da educação e da capacitação dos jovens, a pandemia provocou mais um atraso na evolução do Brasil”, lamentou.

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