Distribuição de resinas: Câmbio favorece produto nacional, mas demanda dá sinais de enfraquecimento

Plástico Moderno, Distribuição de resinas: Câmbio favorece produto nacional, mas demanda dá sinais de enfraquecimento

O mercado nacional, sabem todos, segue difícil – especialmente para a atividade industrial – os indicadores econômicos permanecem muito ruins, o dólar subiu rápida e intensamente, e não se sabe qual será, ou se haverá, um patamar de estabilidade, as questões políticas parecem emperrar qualquer possibilidade de medidas mais incisivas. E no horizonte ainda não se nota nenhum sinal de melhora. Há um possível alento causado pela redução da concorrência de produtos prontos importados, desfavorecidos pelas atuais taxas cambiais, e pelo incremento das exportações: alternativas, porém, insuficientes para contrabalançar as enormes dificuldades citadas.

Tal conjuntura também afeta os negócios dos distribuidores de resinas, hoje impactados não apenas pela queda no ritmo de atividade de vários de seus clientes, mas também pela disparada do dólar, moeda que precifica os vários componentes importados integrantes de seus portfolios e é parâmetro relevante na formação dos preços cobrados pelos fornecedores nacionais. Natural, então, que os desempenhos relatados por eles não sejam nada satisfatórios, especialmente quando apresentados em termos de volumes comercializados (nos faturamentos em reais as quedas foram menos drásticas, pois o dólar alto também significou preços mais altos na moeda brasileira).

Plástico Moderno, Gonçalves: agronegócios e cosméticos seguem comprando
Gonçalves: agronegócios e cosméticos seguem comprando

Na Activas, por exemplo, o volume comercializado no decorrer deste ano deve ser aproximadamente 20% inferior ao atingido em 2014, conta Laércio Gonçalves, diretor-geral dessa distribuidora e presidente da Adirplast (Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins). “No faturamento em reais podemos ter até um leve aumento”, acrescenta.

Os clientes da Activas, prossegue Gonçalves, relatam quedas de até 50% de em seus faturamentos; mostram-se, portanto, pouco interessados em investir em matérias-primas (ou então, sequer têm capacidade de investimento). “Creio que nas demais distribuidoras a situação não deve ser muito diferente da nossa”, pondera o presidente da Adirplast.

Essa generalização das dificuldades do setor é referendada pelas palavras e Marcos Prando, diretor da Replas (distribuidora cujo portfólio inclui PS e PSAI da Videolar /Innova, BOPP da Videolar e resinas importadas de PP,PE,ABS,PVC). “Em volume, nossas vendas caíram cerca 25%”, aponta. “Trabalharemos para, em 2016, manter o mesmo volume de vendas deste ano”, ressalta Prando.

Menos importação – O câmbio é apenas um dos influenciadores dos preços das resinas no mercado brasileiro. Há outros, como sua cotação internacional. Há alguns meses ela registrava queda e aliviava um pouco os efeitos da alta do dólar, mas ao menos momentaneamente a movimentação desses preços internacionais parece ter ingressado, se não em trajetória ascendente, ao menos em um patamar de maior constância.

A cotação do PE, por exemplo, caiu durante a primeira metade deste ano, mas agora parece ter se estabilizado na faixa de US$ 1,2 mil por tonelada, conta James Tavares, diretor da operação brasileira da SM Resinas, distribuidora sediada na Espanha que aqui comercializa, entre outros produtos, PE e especialidades da Dow, e PE para fios e cabos da Borealis (nesses dois casos, produtos importados, porém adquiridos também de operações locais dessas empresas).

Tavares prevê: em decorrência da desvalorização da moeda brasileira, neste mês de outubro será novamente reajustado o preço do PE no mercado nacional. Na atual conjuntura, ele reconhece, não é possível repassar de uma única vez a valorização do dólar frente o real – que neste ano, até setembro último, já chegava a cerca de 50% – para os preços em reais das resinas. Resultado: “confirmada essa dificuldade de repasse, vemos uma redução dos volumes de resinas importadas e o crescimento da participação no mercado da matéria-prima produzida localmente”, pondera Tavares. Ele estima em cerca de 34% o peso da resina importada na demanda brasileira por PE.

Sidnei Costa, gerente comercial da Fortymil, também fala em queda da participação do PE importado no mercado nacional, mas não porque os produtos fornecidos pelas petroquímicas brasileiras fiquem imunes ao câmbio. Como explicou, essas petroquímicas têm muito de seus insumos atrelados à moeda norte-americana, cujo encarecimento significa elevação também dos preços de seus produtos. “Mas com os fornecedores nacionais pode-se estabelecer uma política de preços que perdura um pouco mais – talvez um mês –, enquanto nas resinas importadas o impacto do câmbio é imediato”, argumenta.

De acordo com Costa, a Fortmyl – cujo portfolio é composto por PE e PP da Braskem –, trabalha para obter este ano um volume de vendas que perfaça pelo menos 90% do volume de vendas realizado em 2014. “Não será fácil atingir essa meta”, reconhece.

Plástico Moderno, Balbino: resinas recicladas vendem mais que as virgens
Balbino: resinas recicladas vendem mais que as virgens

Menos compras, novos cálculos – Algumas fórmulas vêm sendo tentadas pelos distribuidores para ao menos mitigarem os impactos da alta do dólar em suas negociações. Uma delas é exposta por Cláudio Balbino, sócio-diretor da Polibalbino, que importa várias das resinas de seu portfolio (inclusive o PP, carro-chefe de sua oferta). “Tento comprar uma quantidade um pouco maior de resina para manter algum estoque, e faço uma média entre o preço da resina remanescente e o de uma nova compra”, conta.

Mas, com a atual velocidade de encarecimento do dólar, mesmo essa fórmula se torna problemática, e Balbino afirma já ter reduzido o ritmo de compra de resinas importadas, buscando novas alternativas para se manter abastecido a exemplo de uma parceria com uma trade company. “Caso o câmbio continue subindo, a distribuição de resinas importadas está com os dias contados”, projeta.

Em contrapartida, a Polibalbino vem ampliando significativamente seus negócios com resinas recicladas. Mensalmente recicla, em média, entre 300 e 400 t de resinas como PP, PE e PS, entre outras. Graças aos negócios nesse segmento, adianta Bablino, a empresa até registrará este ano um incremento de receita de aproximadamente 15% sobre 2014. “Nos nove primeiros meses deste ano, nossos negócios com reciclados faturaram o dobro do mesmo período do ano passado”, calcula.

Balbino credita a expansão do interesse por resinas recicladas à busca de muitas empresas por alternativas de competitividade mais adequadas à difícil conjuntura atual. “O reciclados geralmente têm preço cerca de 30% inferior ao de uma resina nova”, justifica. “As resinas novas sofreram grandes baixas, principalmente nos mercados automobilístico e de bens duráveis”, contrapõe Balbino.

Há, porém, destaca Gonçalves, da Activas, dois setores nos quais a demanda por resinas vem se mantendo estável ou até crescendo: agronegócios e cosméticos. “De modo geral, empresas que exportam também estão tendo algum incremento em suas vendas”, complementa. E a Activas, especifica o diretor da empresa, vem obtendo bons resultados com uma linha incluída mais recentemente em seu portfolio: grades de poliestireno da Innova / Videolar. “São produtos de altíssima qualidade, preços competitivos e ótima aceitação, proporcionaram a alavancagem de nossas vendas”, enfatiza.

Foco na gestão – Os problemas das distribuidoras não se esgotam na economia recessiva, ou nas intensas variações cambiais: elas precisam enfrentar ainda a crescente inadimplência, causa, inclusive, da adoção de processos de concessão de crédito aos clientes muito mais seletivos e criteriosos.

Este ano, estima Costa, da Fortymil, o montante de atrasos nos pagamentos já é algo entre 40% e 50% maior que o existente em 2014. E na SM, relata Tavares, a inadimplência já gerou uma redução de sete dias nos prazos concedidos para as vendas. “A indústria de transformação plástica sofre com as dificuldades de competitividade brasileira, como impostos elevados, falta de infraestrutura, custo de capital”, justifica Tavares. Ele crê, porém que, apesar das atuais dificuldades, o mercado brasileiro manterá um espaço cativo para as resinas provenientes de outros países: inclusive para o PE (aqui produzido apenas pela Braskem). “As empresas não querem ficar nas mãos de um único fornecedor”, argumenta.

A SM, prossegue Tavares, desde 2009 implementa uma política de diversificação de sua oferta. A Dow ainda é sua principal fornecedora, mas a ela hoje se alinha também à Borealis, NatPet e ao grupo GCR. Comercializa os produtos dessas duas últimas para clientes de todos os portes, enquanto na distribuição da Dow e da Borealis – que mantêm estruturas comerciais próprias no país –, foca principalmente as empresas médias e pequenas. “No Brasil temos centros de distribuição em três estados – São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul – e podemos atender clientes do Sul e Sudeste em até 24 horas”, ressalta. “E este ano deveremos realizar um montante de negócios, em reais, muito similar ao de 2015.”

Já Gonçalves, da Activas, considera diferencial mercadológico hoje relevante um sistema de gestão de indicadores táticos e estratégicos – estoques e prazos médios das compras, entre vários outros –, capaz de subsidiar a tomada de decisões. “Com a avaliação mensal desses indicadores e com ações rápidas, reduzimos drasticamente os custos operacionais, ganhamos produtividade, reduzimos a inadimplência, aumentamos o nosso market share, entre muitos outros ganhos”, afirma. “Empresas que não concedem foco à gestão, não se prepararam e nem se remodelaram para atravessar a crise com certeza passarão por momentos muito difíceis, e poucas sobreviverão”, vaticina.
Prando, da Replas, também cita uma ação relacionada a sistemas de gestão – no caso, a atualização de um sistema ERP – como um dos pilares da atual estratégia de competitividade de sua empresa. A ela, somam-se o processo de qualificação da equipe de colaboradores e de representantes, e o investimento, concluído há cerca de dois anos, em uma instalação localizada na cidade de São Paulo onde a empresa corta o BOPP que recebe em bobinas. “Acreditamos que deste modo enfrentaremos esse momento difícil da economia e colheremos benefícios para a Replas, nossos clientes e parceiros”.

Balbino, da Polibalbino, mantém sua aposta na reciclagem, mercado no qual oferece os serviços da completa logística reversa: vai até um cliente retirar o plástico proveniente de perdas, recicla-o e o devolve em condições de reutilização. “Já tenho parcerias desse gênero com cerca de dez grandes empresas”, revela.

Possibilidades logísticas – Qualificada como ferramenta quase indispensável na atual conjuntura do mercado de distribuição de resinas, a correta gestão das informações se torna ainda mais relevante no contexto de crescente fragmentação do processo das compras realizadas pelos clientes do setor, que não mais querem – ou nem podem – manter grandes estoques. “Para eles, é hoje mais interessante pagar por mais viagens que manter inventários”, pondera Costa, da Fortymil. “Também nossa empresa, que há algum tempo trabalhava com mais estoques, agora só faz novo pedido quando parte dele já estiver vendida”, acrescenta.

Essa realidade de compras menores, realizadas mais vezes, já se refletiu na configuração da frota de veículos da Fortymil. “Antes trabalhávamos apenas com caminhões que comportam até 13 toneladas, mas hoje temos também caminhões para até oito toneladas”, descreve Costa. Segundo ele, visando gerar negócios na complexa situação atual, a Fortymil desenvolve um processo de intensa busca por novos clientes: “Ele vem dando resultados, este ano nossa carteira de clientes aumentou algo entre 25% e 30%, relativamente a 2015”, afirma.

Mas essa busca pela ampliação da carteira ocorre em um contexto no qual, de acordo com Tavares, estabeleceu-se nesse mercado uma concorrência muito intensa, proveniente não apenas dos distribuidores regulares, mas também pela presença de empresas de outros gêneros, como traders, importadores, revendedores, entre outros. Essa concorrência, diz o profissional da SM, algumas vezes acontece sem a devida formalização, e sem o respeito às obrigações tributárias. “No Estado de São Paulo, devido ao ICMS de 18% – a maior alíquota para esse tipo de material no país –, ainda enxergamos muita informalidade”, relata Tavares.

Ele acredita que, apesar de eventuais distorções decorrentes de informalidade e desrespeito à legislação tributária por parte de outros gêneros de competidores, prevalecerão as distribuidoras, que mantêm contratos com petroquímicas, atuam como seus braços comerciais e contam com a garantia de marcas estabelecidas. “Quem compra por oportunidade não têm a estrutura de uma petroquímica dando suporte às suas operações; tampouco pode oferecer continuidade de fornecimento”, compara Tavares.

Futuramente, as distribuidoras deverão ampliar seu share no mercado nacional de resinas, como prevê Gonçalves, da Activas e da Adirplast. Isso porque a tendência de realização de maiores quantidades de compras por parte dos clientes – ainda que em pedidos fragmentados –, logo fará as petroquímicas considerarem mais interessante delegar a elas os negócios com alguns volumes hoje vendidos e entregues sem intermediação. “Creio que a participação da distribuição no mercado nacional, hoje de 10%, possa tranquilamente chegar a 15%”, especifica. “E, com a atual cotação cambial, não há mais espaço para aventureiros que fazem compras esporádicas, aproveitando oportunidades: a coisa agora é para quem realmente é profissional”, complementa.

Mas ao menos no curto prazo, Gonçalves não vislumbra horizonte muito animador no mercado no qual atua. “Não vemos melhora para 2016, a crise ainda não chegou no seu pior estágio “, finaliza.

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