Distribuição de Resinas Termoplásticas: Competição no comércio de resinas fica mais acirrada

O começo foi promissor, mas o agravamento da crise política nacional fez 2017 se tornar um ano complicado para as distribuidoras de resinas plásticas instaladas no país.

 

Elas até registraram algum crescimento no primeiro semestre, porém pouco relevante e aparentemente restrito aos volumes comercializados, não se refletindo no faturamento.

Isso resulta em margens de lucro mais achatadas, próprias de uma situação de competitividade acirrada, na qual a entidade representativa do setor se queixa da incômoda concorrência de empresas que deveriam ser apenas clientes das distribuidoras: os transformadores.

Laércio Gonçalves, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast) e diretor-geral da Activas, até credita à concorrência oriunda de transformadores parte relevante da responsabilidade pela redução do share das distribuidoras formais no comércio brasileiro de resinas plásticas que, nos últimos cinco anos, baixou de 70% para 45%.

Essa concorrência, ele explica, acontece porque transformadores – alguns de grande porte – compram diretamente da indústria quantidades de resinas superiores às necessárias para suas atividades, e transferem os volumes excedentes para revendas que se dedicarão a comercializá-las sem informar a procedência.

Plástico Moderno, Gonçalves: planos para crescer nos plásticos de engenharia
Gonçalves: planos para crescer nos plásticos de engenharia

Muitas vezes, esses transformadores se valem de benefícios fiscais na compra de resinas.

“Isso é concorrência desleal”, critica Gonçalves.

“Ela acontece em maiores quantidade nos mercados de polietileno (PE) e polipropileno (PP), muito maiores que os de outras resinas; mas também aparece no poliestireno (PS), ABS e, atualmente, também com filme de BOPP”, detalha o presidente da Adirplast.

Ele também ressalta: essas vendas realizadas sem a presença das distribuidoras se fundamentam apenas no preço, não oferecendo atendimento adequado nem contribuindo para o desenvolvimento do setor de transformação de plásticos.

“É a rede de distribuição formal que garante a capilaridade do negócio de resinas no Brasil, permitindo a 80% das quase 11,5 mil indústrias transformadoras de plásticos do país acesso a resinas e serviços de pós-vendas de qualidade”, aponta.

“No caso das associadas da Adirplast, podemos afirmar que todas dedicam constante esforço na prestação de serviços exemplares e na valorização dos produtos e marcas das empresas fabricantes.”

Institucionalizada pela Adirplast, essa reclamação contra concorrentes informais se desmembra nas vozes individuais dos dirigentes das próprias distribuidoras.

Entre eles Marcelo Prando, sócio-diretor da Replas, para quem a revenda paralela – incluindo aquela implementada em parceria com transformadores – hoje prejudica significativamente os negócios das distribuidoras formalizadas como tais.

“Se houvesse apenas distribuidores com responsabilidade e conhecimento de mercado, certamente todos estaríamos mais confiantes”, destaca Marcelo Prando.

Local versus estrangeiro

Além dessa concorrência, outros problemas agravam a conjuntura já bastante difícil na qual devem hoje atuar as distribuidoras de resinas.

Entre eles, Paulo Garnica, diretor comercial da FG Resinas, cita a importação de PE near prime, posteriormente vendido como prime (resinas prime e near prime têm características diferenciadas em itens como fluidez e possibilidade de variações em suas especificações, e preços também preços distintos, sendo a primeira categoria, obviamente, aquela dos produtos mais caros).

“Essa prática não chega a ser comum, mas já foi feita por alguns revendedores picaretas”, ressalta Garnica.

E permanece incólume a já tradicional queixa contra o sistema fiscal brasileiro, que entre outras coisas possibilita o desembarque de resinas em estados nos quais as alíquotas de importação são mais baixas, e sua posterior revenda em locais onde os impostos são mais elevados.

Plástico Moderno, Cataldi: distribuição reduz margens para manter posição
Wilson Cataldi

“Há resinas importadas, com similares produzidas no Brasil, que nas operações interestaduais pagam 4% de ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação), enquanto o distribuidor de produtos nacionais deve arcar com uma tributação de 12%”,

relata Wilson Cataldi, diretor da distribuidora Piramidal.

Valendo-se ou não dos desvãos abertos pelo intrincado sistema tributário do país, as resinas importadas parecem ter possibilidades para expandir sua presença no mercado brasileiro. Inclusive porque, lembra Garnica, da FG, mudou bastante a percepção sobre elas, bem como a intensidade de seu uso.

Plástico Moderno, Garnica: consumo de compostos cresce nas linhas de injeção
Garnica: consumo de compostos cresce nas linhas de injeção

“Há dez ou quinze anos, achava-se que elas não tinham qualidade, mas hoje praticamente não há no Brasil transformador, de qualquer porte, que já não tenha pelo menos experimentado alguma resina importada”, diz.

“Por preço e por opção estratégica, o transformador não quer ficar refém de uma única opção de petroquímica local”,

justifica Garnica.

Resultados já obtidos

Na primeira metade deste ano, mostram as estatísticas da Adirplast, o volume de resinas comercializado no Brasil pelas distribuidoras foi 2,5% superior ao registrado no mesmo período do ano passado.

O primeiro trimestre, relata Gonçalves, foi favorável para os negócios dessas empresas, mas a partir de abril aumentaram as dificuldades, decorrentes tanto do agravamento dos problemas internos do país quanto de influências globais, como a disparada dos preços de algumas resinas, casos de PE e PS que se elevaram em mais de 10%. “Em uma conjuntura recessiva, fica difícil repassar esses aumentos para os clientes”, ressalta Gonçalves.

No caso do polietileno, houve no primeiro semestre do ano queda superior a 3% no volume comercializado, havendo simultaneamente elevação – até acentuada, em alguns casos – dos volumes de venda dos plásticos de engenharia (ver Tabela 1).

Importante ressaltar: embora parte desse crescimento dos plásticos de engenharia possa ser creditada ao reaquecimento dos negócios em alguns segmentos do mercado – especialmente com a indústria automobilística –, também contribuiu para ele, de maneira muito significativa, a inclusão no quadro de associados da Adirplast de distribuidores dedicados justamente a esse gênero de produtos (a entidade computa exatamente os números de seus associados).

Plástico Moderno, Tabela 1 – Distribuição de resinas no Brasil (em t)
Tabela 1 – Distribuição de resinas no Brasil (em tonelada)

Um desses novos associados da Adirplast é a Apta, que além de distribuir desde o ano passado os polietilenos da ExxonMobil (ver box), trabalha também com produtos da Basf, Lotte, Styrolution e Radici Plastics.

Marcelo Berghahn, diretor comercial da Apta, afirma não ter notado aumento significativo da demanda por resinas no primeiro semestre, nem mesmo no segmento dos plásticos de engenharia, embora tenha sido possível observar algum reaquecimento dos negócios com alguns setores, como a indústria automobilística.

“Foi um semestre regular, na realidade eu esperava mais”, comenta. “Dado o atual cenário do país, não vejo perspectivas mais favoráveis para a segunda metade do ano”, acrescenta Berghahn.

Por sua vez, Fernando Tadiotto, diretor de outra das novas associadas da Adirplast focadas em plásticos de engenharia, a Petropol, mostra-se mais otimista quando avalia as perspectivas para a segunda metade deste ano:

“Acredito que o setor de construção civil deve se manter estável, temos boas notícias de nossos clientes do setor automotivo – no qual os projetos evoluem bem – e deveremos ter crescimento no segmento das embalagens com a nossa nova linha de poliamida 6 (PA 6) de alta viscosidade”, detalha.

Na Petropol, conta Tadiotto, a distribuição de resinas fornecidas por empresas como Covestro, Babyland, Desmopan e Makroblend, entre outras, responde por cerca de 20% dos negócios; o restante das vendas da empresa se fundamenta em compostos, nos quais há cores, aditivos, cargas, entre outros ingredientes, atuando com diversas resinas, a exemplo de PA, ABS, poliacetal (POM), policarbonato, politereftalato de butileno (PBT), e blendas poliméricas.

Plástico Moderno, Operar com estoque próprio garante atendimento mais rápido
Operar com estoque próprio garante atendimento mais rápido

De acordo com Tadiotto, no primeiro semestre deste ano houve “ligeiro aumento” na demanda por plásticos de engenharia em comparação com igual período de 2016.

Na Petropol, porém, a expansão dos negócios no decorrer desse período chegou a 22%, computando-se tanto os produtos distribuídos quanto aqueles de produção própria (neste caso, o índice chegou a 37%).

“Os principais crescimentos ocorreram, respectivamente, nos negócios com os setores de aplicações elétricas, hidráulicas, agronegócios e indústria automotiva”, especifica.

Em fevereiro último, a Petropol integrou um novo componente ao seu portfólio: a linha Aegis, da AdvanSix, composta por resina de PA 6 de alta viscosidade, indicada para aplicações de extrusão, como embalagens alimentícias, perfis e tubos, entre outras.

A Activas reestruturou há cerca de um ano uma área dedicada a especialidades de engenharia, na qual atuam um coordenador e dois representantes comerciais, que já trabalham com produtos de fornecedores como Covestro, Unigel, Eastman, ChemTrend, Kolon e Ineos Styrolution. “Nossa meta é fazer esse segmento gerar 25% de nossos negócios em um prazo de três anos”, projeta Gonçalves.

O que vem pela frente

A se confirmarem as perspectivas do presidente da Adirplast, neste ano os volumes de resinas comercializados no Brasil pelas distribuidoras devem superar em cerca de 5% aqueles computados em 2016 (conforme mostra a Tabela 2, no ano passado esse índice atingiu pouco mais de 3%).

Deve se manter, prevê Gonçalves, o movimento de evolução dos negócios com os plásticos de engenharia e voltará a se expandir a demanda pelas resinas mais commoditizadas, como PE e PP. “O desemprego não aumentou nos últimos seis meses, há mais dinheiro circulando por causa dos saques do FGTS, e o brasileiro parece ter percebido que, apesar da crise política, precisa continuar realizando negócios”, pondera Gonçalves.

Plástico Moderno, Tabela 2 – Distribuição de resinas no Brasil em 2016 e 2015 (em t)
Tabela 2 – Distribuição de resinas no Brasil em 2016 e 2015 (em t)

 

Na Replas, como projeta o sócio-diretor Marcos Prando, no decorrer deste ano deverá ser realizado volume de negócios similar ao de 2016. No primeiro semestre, aliás, foram mantidos os mesmos níveis verificados no mesmo período do ano anterior. “Aumentamos nosso portfólio de resinas, buscando suprir nossos clientes com novas possibilidades de fornecimento. Acreditamos que isso tenha sido um diferencial para mantermos nossos números”, pondera.

Aliados aos atuais problemas da economia local, observa Marcos Prando, fatores como a possibilidade de elevação acentuada do dólar, nociva para quem trabalha principalmente com importados, podem impactar diretamente os negócios desse setor. “Estamos confiantes nos mercados de BOPP, PVC, SAN e ABS”, enfatiza o diretor da Replas, empresa cujo portfólio inclui PE, PP, PS, PVC, policarbonato (PC), EVA e BOPP, entre outras resinas provenientes de fornecedores como Sabic, Petroken, Lotte, Repsol e Innova.

Na Piramidal, o portfólio inclui diversos produtos da Braskem (PE, PP, PVC e EVA), PS e acrílico da Unigel, PET da PQS, e outras especialidades, provenientes de fabricantes como DSM, Styrolution, Kep, Sabic e AdvanSix. Nessa distribuidora, conta Cataldi, o volume de resinas comercializado na primeira metade deste ano foi 1,5% superior ao do mesmo período de 2016. “Percebemos que as distribuidoras têm conseguido manter seu market share, porém com muito sacrifício e perda de margens”, ressalta.

O diretor da Piramidal crê que na segunda metade deste ano os negócios se manterão no mesmo patamar daquele realizado nos seis primeiros meses. “Infelizmente, não temos nenhum indicador positivo de melhoria da economia brasileira para esse segundo semestre e nesse período não existe projeção de crescimento para a Piramidal. O desafio será manter os números atuais”, afirma.

Na FG, o primeiro semestre foi “até bom, com algum crescimento”, avalia Garnica. Porém, o produto cujas vendas mais crescem atualmente não são as resinas, mas os compostos com carbonato de cálcio e talco, cujo objetivo é reduzir custos com resinas como PE, PP, PS, PET e ABS. “Relativamente ao mesmo período do ano passado nossas vendas desses compostos cresceram na faixa de dois dígitos”, diz o diretor comercial da empresa.

Ele crê na continuidade da expansão do uso desses compostos.

“No Brasil, no segmento da injeção, esse uso é conhecido apenas em peças maiores, mas quase ninguém o aplica em peças técnicas menores, nas quais esses produtos também podem ser utilizados”, prossegue o profissional da FG, empresa que, além de fornecer masterbatches, aditivos e compostos de carbonato de cálcio e talco, também distribui PE, PE e PS (mantém na cidade norte-americana de Houston uma trading company, responsável pela aquisição dessas resinas em vários países).

“A partir de Taiwan – onde está localizada nossa fábrica de masterbatches e compostos –, exportamos para vários países da América Latina”, finaliza Garnica.

 

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