Custo baixo do poliestireno ajuda a resina disputar mercado

Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado

O poliestireno tem aplicações bem consolidadas, agrupadas em três grandes mercados: descartáveis, como pratos, copos e talheres; linha branca, principalmente refrigeradores; XPS, o poliestireno extrudado de bandejas para alimentos e descartáveis. Em volumes menores, tem ainda utilizações em brinquedos e utilidades domésticas, entre outros produtos.

Foi bastante demandado durante a pandemia, pela expansão do uso de XPS em embalagens de delivery, e também das vendas de eletrodomésticos (sem contar o boom na construção civil, que utiliza EPS, o poliestireno expandido, modalidade de PS produzida por outro processo de expansão, ver box). Mas suas vendas se mostram hoje bem mais contidas, e no futuro talvez até ameaçadas em um de seus principais mercados: os descartáveis, questionados mundialmente por seus impactos ambientais.

No decorrer deste ano, projeta Marcelo Natal, diretor-executivo comercial de químicos da Unigel, pode até haver uma queda no volume total de PS comercializado no Brasil, que baixaria de aproximadamente 400 mil toneladas em 2022 para algo entre 370 mil a 380 mil t (sem contar o EPS).

Nos meses iniciais, foi registrado um volume até interessante de negócios, mas em junho e junho – meses de vendas tradicionalmente mais fracas, pois o inverno inibe a realização de eventos com alto consumo de descartáveis – as vendas caíram cerca de 20% em comparação ao mesmo período de 2022.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Natal: inverno derruba a venda de produtos descartáveis

“Foi uma queda mais acentuada que em anos anteriores”, compara Natal.

Problemas de inadimplência contribuem para essa queda nos volumes comercializados. “Ouvimos clientes falando muito em inadimplência, inclusive na área dos descartáveis, cujas vendas são feitas por atacadistas e distribuidores”, relata o diretor da Unigel, que para readequar seus estoques à demanda pouco aquecida até interrompeu por cerca de dois meses a operação – agora retomada – da unidade produtiva de estireno em Cubatão-SP (a Unigel mantém linhas de polimerização no Guarujá-SP e em São José dos Campos-SP).

Bruno Menini, editor de PE, PP e PS Latam da consultoria global Icis, projeta que a demanda total por poliestireno no Brasil deve ser neste ano similar à registrada em 2022. No primeiro semestre, ele detalha, essa demanda foi “bem fraca”, impactada por questões econômicas, como altas taxas de inflação e de juros e redução do poder de consumo, além do fato de historicamente o segundo trimestre ser um período de menor consumo dessa resina.

Há, ele observa, perspectiva de melhora na segunda metade do ano, quando tradicionalmente aumentam as vendas de PS, pois aumenta o uso de descartáveis durante o calor, e crescem as vendas de eletroeletrônicos na Black Friday e no Natal, bem como de brinquedos no dia das crianças, além dessas datas.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Menini: questões econômicas prejudicam retomada do consumo

“Mas as questões econômicas ainda deverão seguir pressionando a demanda e, quando comparada com a de 2022, ela deve ficar praticamente estável”, ressalta Menini.

O poliestireno, ele ressalta, tem diferenciais favoráveis em quesitos especificamente técnicos, como fácil processamento, elevada transparência e fácil coloração; porém, apesar do custo relativamente baixo do poliestireno, sofre hoje com a concorrência de resinas com custo inferior: por exemplo, com o PP no mercado dos descartáveis, com o PET nas embalagens de lácteos, e no mercado de peças injetadas para eletro/eletrônicos até com o ABS, resina de preço tradicionalmente mais elevado, mas hoje bem mais competitivo. “Mas existe um potencial de crescimento no uso de XPS na parte de isolamento na área de construção”, observa o profissional da Icis.

Distribuidores e Innova

Ao menos entre os associados da Adirplast (Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins), as vendas de PS vêm, porém, se expandindo bastante: mais exatamente, 28% nos primeiros oito meses deste ano, relativamente ao mesmo período de 2022.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Gonçalves: concorrência com PP está cada vez mais acirrada

“Acho que esses associados estão ganhando share de mercado”, justifica Laercio Gonçalves, presidente da entidade.

“Creio que no total do ano o crescimento de nossas vendas de PS devem se manter nesse patamar de 28%”, acrescenta.

Intensificaram-se mais acentuadamente, especifica Gonçalves, os negócios com o segmento de embalagens alimentícias e de outros produtos, hoje favorecido pelo aumento das vendas por e-commerce e aplicativos de entrega. Também surgiram aplicações como a prototipagem e modelagem, e o uso em impressoras 3D.

Na indústria automobilística, prossegue Gonçalves, embora não tenha presença relevante em comparação com outras resinas, o HIPS (poliestireno de alto impacto) já é matéria-prima de aplicações como revestimentos, bandejas de cargas, suportes e espaçadores. “Com sua combinação de leveza e resistência, pode encontrar novas aplicações e expansão nesse mercado”, comenta.

Mas em aplicações como as próprias autopeças e utilidades domésticas, linha branca, entre outras, o PP, diz o presidente da Adirplast, hoje concorre “duramente” com o PS. O mesmo se verifica na produção de copos descartáveis. “Grandes fabricantes de copos ajustaram suas máquinas para trabalhar tanto com PS quanto com PP, e vão para uma dessas resinas de acordo com o preço”, diz. “E em algumas embalagens há concorrência com o PET, um material de alta transparência, resistência e propriedades de barreira”, acrescenta.

Andreia Ossig, gerente de pesquisa, desenvolvimento e sustentabilidade da Innova, vê “claro potencial de expansão para o poliestireno” em segmentos como laticínios, linha branca, produtos eletroeletrônicos, construção civil e utensílios domésticos.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Andreia: PS voltou a crescer nos utensílios domésticos

“Outro mercado em franco crescimento é o da impressão 3D, para o qual a Innova desenvolveu uma linha específica (PS-3D) que consiste de dois grades com diferentes acabamentos superficiais”, explica.

“Houve, recentemente, uma retomada do uso do poliestireno no segmento de utensílios domésticos”, acrescenta Andreia.

E o poliestireno de alto impacto, destaca a profissional da Innova, possui atributos ainda não explorados – vantagens de processabilidade e produtividade, aliados à resistência química a óleos e gorduras – no segmento de embalagens de produtos alimentícios, como manteigas e margarinas. “O poliestireno de uso geral (GPPS), ou cristal, tem possibilitado a retomada de aplicações que exigem elevada transparência e brilho no segmento de utensílios domésticos”, complementa.

Demanda e custo baixo do poliestireno – Ameaças futuras

Em âmbito global, estima Menini, da Icis, a demanda por poliestireno deve se expandir a taxas médias anuais de 2% a 3% neste ano e também em 2024. Mas, no longo prazo, essa demanda decrescerá, principalmente pela redução de uso da resina em produtos de uso único, como copos, talheres e pratos, e também em embalagens, em consequência de uma percepção do PS como resina de difícil reciclabilidade. “É uma percepção errônea; nesse quesito da reciclabilidade, acredito que as maiores dificuldades estão na conscientização para o descarte correto e o processo de coleta e separação, pois muitos materiais acabam indo parar em aterros”, pondera Menini.

Natal, da Unigel, também crê na possibilidade de redução de PS em descartáveis, que ele estima representar perto de 33% desse mercado (vêm a seguir a linha branca com 30%, XPS com uns 25%, e depois aplicações menores, como utilidades domésticas e barbeadores descartáveis). “Acho que as restrições não devem afetar muito o XPS, cuja função é embalar os alimentos, e que cresceu muito a partir da pandemia. Os descartáveis de PS devem sofrer mais”, projeta o diretor da Unigel, cujo portifólio inclui, na linha Ecogel, PS com conteúdo reciclado.

A Innova também disponibiliza um PS com conteúdo reciclado: o ECO-PS. E trabalha, diz Andreia, na possibilidade de aperfeiçoamentos da reciclagem mecânica, de uso de matérias-primas de fonte renovável e de alternativas de reciclagem química, bem como no desenvolvimento de grades para aplicações em alto brilho e alto impacto, visando a substituição de ABS.

A especialista da Innova lista, entre as “grandes virtudes” do poliestireno, a facilidade de processamento aliada à alta produtividade, especialmente nos processos de extrusão e termoformagem, com menor consumo de energia. O PS também oferece excelente balanço de rigidez e resistência, capaz de permitir, em determinadas aplicações, a diminuição do consumo de material mediante a redução da espessura. “Por fim, e não menos importante, os valorizados brilho e transparência do poliestireno são oferecidos a um custo muito baixo em comparação com outras resinas”, complementa.

Gonçalves, da Adirplast, aponta mais um diferencial: a disponibilidade, decorrente em grande parte da existência de produtores locais. “Isso contribui para uma ampla gama de aplicações em diferentes setores da indústria”, argumenta.

O PS, enfatiza Gonçalves, é material perfeitamente reciclável, mas a cadeia na qual ele é produzido e circula precisará investir ainda mais para inseri-lo mais decididamente nas opções propostas pela economia circular, até porque há uma tendência global de restrição de seu uso, especialmente em itens descartáveis. Algo que já vem sendo feito, como comprovam a atual disponibilidade de blendas combinando PS virgem e reciclado, sem perda de desempenho, e os estudos para o desenvolvimento de versões oriundas de fontes renováveis, como amido de milho e cana-de-açúcar.

Essa resina, ressalta o presidente da Adirplast, mantém seus pontos fortes como “material acessível e reciclável”, mas preocupações com restrições regulatórias e a concorrência de alternativas mais avançadas a longo prazo podem impactar sua posição no mercado. “Felizmente, temos visto um ciclo positivo de sustentabilidade acontecendo nessa cadeia, inclusive com os produtores locais da resina”, finaliza.

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Polimerização

O EPS (poliestireno expandido), não provém do PS, mas de um processo diferente de polimerização do mesmo monômero (estireno) com a adição de um agente expansor, o pentano. Obtém-se, assim, as ‘pérolas expansíveis’ que, por ação do vapor, no processo de transformação podem ter seu tamanho aumentado até cinquenta vezes.

Um mercado no qual hoje apostam bastante os produtores desse material é a construção civil, onde ele já é utilizado em aplicações como enchimento de lajes e telhas, e pode ganhar ainda mais relevância com o geofoam, um geossintético fornecido na forma de grandes blocos de EPS de alta densidade, capazes de substituir aterros tradicionais feitas de terra e pedras em obras de rodovias, pontes, pavimentos (especialmente em solos moles).

No Brasil, o uso mais intenso dessa solução ainda depende de normatização.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Débora: blocos geossintéticos de EPS já têm norma da ABNT

“Já há na ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, aguardando publicação, uma norma sobre geossintéticos, incluindo o geofoam, ali denominado bloco geossintético”, relata Débora Rizzo Cervenka, gerente comercial da Styropek, fabricante de EPS com fábricas em vários países latino-americanos (no Brasil, está em Guaratinguetá-SP).

Em outros países, informa Albano Schmidt, presidente da Termotécnica, o geofoam já é bastante utilizado. “Ele tem excelentes propriedades mecânicas, com baixo peso”, ressalta. A Termotécnica produz EPS e algumas de suas aplicações em Joinville-SC, além de manter seis plantas localizadas em diferentes regiões.

Poliestireno: Custo baixo e facilidade de processamento ajudam resina a disputar mercado ©QD Foto: Divulgação
Schmidt: Termotécnica mantém programa de reciclagem de EPS

“A construção civil se destaca entre os segmentos que hoje mais impulsionam a indústria do EPS. Agro e alimentos também vêm se destacando”, acrescenta.

Recentemente, como relata Débora, da Styropek, o EPS passou a ser utilizado em colchões, substituindo materiais como poliuretano e madeira. “Essa utilização nem existia há quatro ou cinco anos, mas hoje representa 10% do mercado”, diz. “O maior mercado é a construção civil e infraestrutura, com 50% do total, vindo a seguir embalagens, com 35%”, complementa a profissional da Styropek, que no Brasil produz apenas o EPS (no Chile, tem também algumas plantas de transformação desse material).

O EPS, pondera Débora, pode ainda substituir outros materiais, tais como tijolos na construção civil, gesso em molduras, papelão em calços e embalagens, poliuretano e poliisocianurato (PIR) em painéis e telhas, plásticos em automóveis.

Apesar dessas várias possibilidades, ela projeta que, “sendo otimista”, a demanda nacional por EPS, bastante aquecida durante a pandemia, deve neste ano registrar desempenho similar ao de 2022, quando somou cerca de 120 mil toneladas. “Comparando o primeiro semestre de 2023 com o do ano anterior, tivemos uma leve redução na demanda no mercado brasileiro. De modo geral, o segundo semestre de cada ano tem um desempenho um pouco melhor, e essa é a expectativa para 2023”, avalia.

Schmidt, da Termotécnica, fala em demanda “retraída”, em decorrência de fatores como queda no movimento do comércio, altas taxas de juros e crescente endividamento da população brasileira. “Os segmentos que têm avançado são o agronegócio e alimentação”, especifica.

Além de desenvolver novas aplicações para o setor automotivo, e para acondicionamento para produtos frágeis – principalmente para o e-commerce –, a Termotécnica trabalha para realizar mais negócios com sua linha Repor, de PS proveniente de um programa próprio de reciclagem de EPS, e de um processo de logística reversa de seus resíduos operacionalizado em parceria com cooperativas, gestores de resíduos, clientes da indústria e do varejo. “O EPS é um material 100% reciclável, tem excelente moldabilidade, resistência mecânica e apresenta ótimas características físico-químicas”, ressalta.

Mas esse material tem também, pondera Débora, pontos desfavoráveis, como seu longo ciclo de vida: quinhentos anos, aproximadamente, para a degradação. “Estamos desenvolvendo e já testando nos Estados Unidos um EPS biodegradável, que se degrada totalmente em menos de três anos, e deve ser lançado no Brasil no próximo ano. Ele utiliza a mesma matéria-prima, mudam apenas as formulações”, explica a profissional da Styropek.

Custo baixo do poliestireno: Alguns números do atual mercado de poliestireno

Bruno Menini, da consultoria ICIS, prevê que a demanda total por poliestireno no Brasil deve ser este ano similar à registrada em 2022; globalmente essa demanda pode crescer algo entre 2% e 3% ao ano em 2023 e em 2024,

Atingindo um total de aproximadamente 400 mil toneladas no ano passado, o volume total de PS comercializado no Brasil deve baixar este ano para algo entre 370 a 380 mil toneladas, projeta Marcelo Natal, da Unigel

No primeiro semestre deste ano os associados da Adirplast comercializaram cerca de 34,8 mil toneladas: volume 38% superior às 25,1 mil toneladas do mesmo período de 2022, ano no qual esses associados venderam 53,4 mil toneladas dessa resina

Para Débora Cervenka, da Styropek, a demanda nacional por EPS pode igualar-se às cerca 120 mil toneladas de 2022; mas há também a perspectiva de uma pequena queda

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