Calçados de poliuretano – predominante em soladosm a resina pode usada com vantagens também em outros componentes

O Brasil é apontado como o terceiro maior produtor mundial de calçados. Especialistas estimam que sejam fabricados no país entre 850 milhões e 900 milhões de pares por ano. Um filão e tanto para os fabricantes de poliuretano. Entre eles, podemos citar Basf, Coim, FCC, Dow e Huntsman. Também é um nicho atraente para as “casas de sistemas”, nome dado às empresas que não fabricam a matériaprima, mas a utilizam para desenvolver formulações variadas com a adição de aditivos, pigmentos, retardantes de chamas e outras substâncias. Podem ser citadas, desse mercado, a Poliresinas e a Purcom.

Plástico, Calçados de poliuretano - predominante em soladosm a resina pode usada com vantagens também em outros componentes
Todo de PU, Pure absorve mais de dez formulações

Por suas características, os poliuretanos são aproveitados em várias aplicações nos calçados. Eles apresentam excelente resistência mecânica, densidades compatíveis para diferentes funções e outras propriedades bastante apropriadas para a indústria. Entre os componentes, os solados representam o maior mercado. O uso da matéria-prima em palmilhas encontra-se em significativa evolução.

O material também é aproveitado de outras formas. Em algumas, é bastante competitivo. É o caso, por exemplo, dos solados para calçados de segurança. Pode se transformar em tecidos sintéticos similares ao couro e em espumas usadas para “rechear” linguetas, entre outros usos. A disputa com outras matérias-primas nas diferentes aplicações é ferrenha. PVC, EVA e couro são alguns dos materiais a disputar a preferência dos consumidores.

A situação podia ser melhor. A indústria calçadista, tradicional exportadora, vem sofrendo bastante com a valorização do dólar ocorrida nos últimos anos. Ela perdeu participação em vários mercados internacionais. A insegurança provocada pelos problemas enfrentados pela economia europeia também atrapalhou. Isso afetou de maneira particular o nicho de calçados nobres, no qual o poliuretano conta com participação destacada. A melhora do poder aquisitivo da população brasileira compensou um pouco o prejuízo. No mercado interno, no entanto, a forte concorrência dos produtos chineses, conhecidos pelos seus preços para lá de competitivos, é problema a ser superado.

As consequências do cenário para os fornecedores de poliuretano são diretas. Eles acusam retração nas vendas no primeiro semestre deste ano, depois de experimentarem resultados positivos em 2011. A partir de julho houve retomada. A expectativa é fechar o ano no azul. Ninguém, no entanto, arrisca dar palpites sobre números.

Um fator de forte influência sobre as vendas é a moda. De acordo com as tendências, o uso de poliuretano ou de outras

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Huntsman tem dureza intermediária para esportivos

matérias-primas pode ser incentivado ou reprimido. É uma variável complicada para as empresas do setor. Não há como prever os ditames vindos das mentes dos estilistas. Uma certeza é a necessidade de se investir em pesquisa e desenvolvimento. A variedade de design obriga a isso. Conforme o modelo, torna-se necessária a adoção de diferentes formulações.

Um quesito também importante é a resistência do produto final, diferenciada de acordo com os diversos nichos de mercado aos quais são destinados. No caso dos calçados femininos, por exemplo, as exigências são muitas. As mulheres trocam de modelo em períodos menores, a resistência dos solados nem sempre é fator primordial. Os homens usam sapatos por períodos maiores e querem produtos mais duradouros. Há casos específicos, como os dos calçados de segurança, mercado em que o poliuretano, por suas características, se mostra bastante competitivo. Como tendências, os clientes cobram por materiais mais leves, que proporcionam conforto aos usuários. Soluções ecologicamente corretas também são muito bem-vindas.

Linha completa – A Basf é uma gigante ligada ao mundo químico que dispensa maiores apresentações. Em sua vasta linha de produtos, o poliuretano ocupa papel importante. No Brasil, a empresa se encontra entre os maiores fornecedores da matéria-prima. “A Basf oferece soluções de poliuretanos, poliéster, poliéter e TPU, ou seja, temos a linha mais completa”, garante Rudnei Assis, representante técnico e comercial da empresa.

Entre os compradores da matéria-prima, a indústria calçadista merece destaque. “Podemos dizer que desde o início da nossa planta no Brasil o setor sempre foi nosso cliente.

Esse mercado é muito importante para nós”, diz. De acordo com o representante, esse nicho de mercado tem sido crescente e 2011 foi particularmente positivo. Depois de muitos anos de tímida evolução, no ano passado as vendas cresceram em todos os segmentos. Este ano, para a empresa, continua bom. “Os números de 2012 estão confirmando essa tendência”, informa.

Plástico, Rudnei Assis, representante técnico e comercial, Calçados de poliuretano - predominante em soladosm a resina pode usada com vantagens também em outros componentes
Assis: Leveza do PU supera o EVA na entressola

De acordo com o executivo, propriedades como boa resistência mecânica, leveza e o excelente leque de durezas das diferentes formulações tornam o material excelente opção para os profissionais de criação e para a indústria de componentes. “Podemos dizer que os poliuretanos são cada vez mais usados à medida que o consumidor conhece melhor os componentes, exigem mais calçados com apelo de conforto, sem esquecer a durabilidade.”

Para se manter competitiva nesse mercado, a multinacional investe bastante em pesquisa e desenvolvimento. “Todos os anos lançamos muitos produtos novos”, diz Assis. Para ele, prova disso é o lançamento da terceira geração do calçado Pure, feito inteiramente de poliuretanos. Para o modelo, foram desenvolvidas mais de dez formulações, voltadas para diferentes componentes.

Uma das novidades da Basf destacada pelo profissional é o poliuretano Grip Tec, material com características da borracha de toque, resistência ao escorregamento e peso 30% inferior em relação aos produtos voltados para aplicações similares. “Lançamos também um sistema de entressola para competir com o EVA no mercado esportivo. O lançamento permite reduções de peso significativas e ganho de desempenho”, emenda.

Dezenas de fórmulas – O grupo Coim, de origem italiana, conta no Brasil com fábrica em Valinhos e produz, além de poliuretano, adesivos, elastômeros, resinas poliéster e resinas para tintas. O poliuretano é o carro-chefe. “Ele representa em torno de 50% de nossas vendas”, revela Alexandre Maia Birolim, gerente técnico. Entre os clientes do poliuretano, a indústria de calçados é a mais importante, em especial os fabricantes de solados. “Somos um dos principais fornecedores do Brasil”, diz sem qualquer falsa modéstia.

Para atender o mercado, a empresa conta com centros de desenvolvimento em suas fábricas na Itália, em Cingapura e também no Brasil. Todos promovem estudos de acordo com as necessidades de cada região e dialogam para trocar experiências. A estratégia visa a atender às diferentes necessidades de cada cliente. “O sapato de salto alto, por exemplo, precisa de material diferente do que o de segurança”, diz.

Mesmo entre os de salto alto, as soluções são distintas, variam de acordo com o design e o processo de transformação utilizado. “Por isso temos uma linha bastante diversificada, oferecemos várias soluções.” A demanda, nos últimos tempos, tem sido no sentido de chegar a formulações de menor densidade, custo competitivo e capacidade de obter um produto final com visual capaz de atender os ditames da moda.

Birolim estima o consumo nacional de poliuretano para a fabricação de solados em torno de 35 mil toneladas por ano. Nos últimos dois ou três anos, as vendas da Coim para esse nicho não evoluíram conforme o desejado. O real valorizado explica em parte os resultados. A moda também. “Nos últimos dois ou três anos, os calçados femininos estavam privilegiando solas mais baixas, nas quais o poliuretano não é muito competitivo”, avalia. Neste ano, as solas mais altas, propícias para o material, voltaram a ser usadas com maior intensidade. Com isso, cresce a esperança de recuperação. A empresa tem capacidade de produção de 3,6 mil toneladas por mês da matéria-prima.

Muito importante – O negócio de resinas poliuretânicas é estratégico para a FCC, empresa com instalações em quatro países e três unidades de produção no território brasileiro – nos estados do Rio Grande do Sul, Bahia e Ceará. “A indústria de calçados, da qual somos líderes, é especialmente importante para a empresa”, afirma Julio Schmitt, diretor de termoplásticos.

Para o executivo, o poliuretano termoplástico vem ganhando cada vez mais espaço no setor graças à sua versatilidade e

Plástico, Julio Schmitt, diretor de termoplásticos, Calçados de poliuretano - predominante em soladosm a resina pode usada com vantagens também em outros componentes
Julio Schmitt: anuncia PU termoplástico sem plastificante e com 50 Shore

durabilidade. “Ele é largamente empregado em peças especiais de calçados esportivos, como estabilizadores e amortecedores, por apresentar excelentes propriedades mecânicas aliadas à versatilidade de processamento e design. Outra importante aplicação é em solados, cuja principal característica é a resistência ao desgaste, o que confere grande durabilidade ao calçado”, defende.

Schmitt lembra outro fator positivo. “É a crise do butadieno que provoca dificuldades de fornecimento de borracha”, acrescenta, referindo-se a um importante concorrente do material fornecido pela empresa. Ele faz uma ressalva. “Apesar de todas as vantagens, o poliuretano termoplástico não apresenta maior crescimento por conta de fatores limitantes estruturais existentes no parque de processamento. Injetar a matéria-prima requer equipamentos e cuidados especiais”, explica.

Produtos especiais para o mercado brasileiro são sistematicamente criados pelo departamento de pesquisa e desenvolvimento da empresa. Os mais procurados são os voltados para ciclos curtos de injeção por empresas com estrutura de processos adaptada à realidade nacional. Uma novidade a chegar ao mercado em breve é uma formulação isenta de plastificante e com maciez inédita no mercado, com dureza 50 na escala Shore A. “Atualmente os materiais puros disponíveis apresentam durezas superiores a 70 Shore A”, revela.

Estudo realizado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) no longínquo ano de 2005 mostrou que das 315 mil toneladas de poliuretano consumidas no Brasil na época, cerca de 9% eram destinadas à indústria calçadista. De lá para cá, não surgiu nenhuma outra pesquisa oficial. Profissionais do mercado calculam o consumo atual do material no mercado interno em 550 mil toneladas por ano e a fatia relativa ao setor entre 8% e 10% desse total.

Tecnologia europeia – Outro gigante do mundo químico também destaca a importância desse setor. “A indústria de calçados é um dos grandes mercados dos poliuretanos. Atuamos globalmente nesse mercado com soluções inovadoras e produtos de alta qualidade atendendo às necessidades e expectativas dos clientes”, orgulha-se André Fernandes, representante técnico comercial da divisão de sistemas formulados da Dow Brasil. De acordo com Fernandes, a empresa possui um centro de pesquisa para desenvolvimento de novos produtos no Velho Continente. “Os produtos utilizados no Brasil são os mesmos usados na Europa”, emenda.

Para ele, os sistemas de polióis poliésteres são os mais procurados no mercado brasileiro voltado para os calçados femininos. Esses produtos apresentam excelentes propriedades mecânicas, tais como resistência à abrasão, flexão e leveza e proporcionam conforto, pois possuem baixas densidades aplicadas. Para os sistemas de palmilhas e para os sapatos masculinos, são utilizados os polióis poliésteres, de elevada resistência à hidrólise e que mantêm as características iniciais por períodos mais longos de uso. Os poliuretanos mais vendidos pela Dow para a indústria calçadista são os à base de poliéster, voltados para o mercado feminino.

Um lançamento recente da empresa se destina ao segmento de calçados de segurança. Trata-se de um novo sistema à base de poliéster com alta resistência à hidrólise. Para Fernandes, o produto proporciona melhor qualidade e durabilidade aos solados, atende integralmente às normas para esse tipo de calçado e elimina a necessidade de uso de certos aditivos ao poliol.

Em relação ao andamento dos negócios, a situação da empresa acompanha as tendências. Depois de um período difícil causado pela desvalorização do dólar, as vendas, como um todo, vêm se recuperando. “Os números de 2012 acompanham os dos outros mercados, por conta da crise global”, diz. Com a melhora dos negócios no segundo semestre, a expectativa é fechar o ano com pequeno crescimento em relação a 2011.

Crescimento à vista – Entre os segmentos usuários de poliuretano termoplástico, o de calçados é o que apresenta maior volume e é de extrema importância para a Huntsman, outra multinacional fabricante do material. “Sempre mantivemos foco nessa indústria, temos linha completa de produtos com excelente desempenho, consistentes em termos de processabilidade”, garante Paola Palma Faoro, gerente regional de marketing.

Paola explica que, no Brasil, as vendas para o setor apresentaram queda nos primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado, considerado como excelente. “Dependemos muito da moda, a utilização do poliuretano é cíclica”, justifica. Em termos mundiais, no entanto, os níveis de crescimento estão expressivos, em especial na Ásia, onde a indústria se aprimora e busca utilizar materiais voltados para proporcionar a qualidade final dos sapatos e sandálias. “Nossa expectativa é de forte crescimento no Brasil em 2013, com o advento da Copa do Mundo”, diz. O campeonato de futebol deve impulsionar o nicho de esportivos.

Além de leveza e resistência, a gerente destaca a busca dos clientes por produtos não prejudiciais ao meio ambiente. Por suas propriedades mecânicas e de abrasão superiores, os poliuretanos permitem a produção de componentes de menor espessura e recicláveis, lembra. Além disso, não contam em sua composição com componentes nocivos à natureza e à saúde.

O investimento em soluções inovadoras é preocupação constante da Huntsman. A ideia é diminuir as limitações de fatores como design e processos de produção, de forma que isso instigue a criatividade dos estilistas. Entre os nichos atendidos pela empresa, três são destacados por Paola: o de matéria-prima com dureza intermediária para calçados esportivos, o de baixa dureza para calçados de segurança e o de alta dureza para tacos.

“Lançamos três linhas de produtos recentemente”, informa. A Avalon ABR, com durezas de 85 a 95 shA, apresentam melhoria de até 25% na resistência à abrasão, quando comparada com outros materiais de alto desempenho. A Avalon AHT, com dureza de 90 a 95 shA, permite componentes de elevada transparência, resistência aos raios ultravioleta e à flexão. A Avalon 60AB-ESD, com dureza de 65 shA, foi desenvolvida para utilização em equipamentos rotativos usados para produzir calçados de segurança com característica antiestática.

“Ainda em 2012 vamos lançar produtos para complementar nossa linha smartLite, de poliuretanos termoplásticos expandidos. Outras novidades estão sendo desenvolvidas em nossos laboratórios na Alemanha, Bélgica, Estados Unidos e China”, complementa.

Casas de sistemas – A Poliresinas é uma casa de sistemas argentina com escritório de representação comercial no Rio Grande do Sul. A indústria de calçados representa entre 25% e 30% dos negócios no Brasil. A especialidade da empresa é desenvolver formulações voltadas para a necessidade dos usuários, em especial materiais para solados. “Cada cliente tem sua formulação”, explica Conrado Barbosa dos Santos, gerente técnico e comercial da área de poliuretanos. Para por em prática essa estratégia, a empresa conta com dois centros de pesquisa e desenvolvimento no país vizinho.

O volume de vendas da empresa no Brasil é estimado em de 200 a 300 toneladas por mês. “A queda nas exportações por causa do real valorizado prejudicou as nossas vendas. O poliuretano é usado principalmente nos modelos mais nobres, voltados para o mercado externo”, explica o executivo. A melhora do mercado interno nos últimos tempos por conta do aumento aquisitivo da população amenizou o problema. “Mas não voltamos aos patamares anteriores das vendas”, revela. De qualquer forma, o ano vem mostrando alguma recuperação. “De julho a novembro há uma alta de demanda sazonal para os fabricantes de calçados.”

Outra empresa do gênero, a brasileira Purcom, faz dez anos em 2012. Com fábrica em Barueri-SP, tem capacidade instalada de 1,2 mil toneladas por mês, conta com dois mil clientes em carteira e mais de 800 diferentes fórmulas. “Somos a maior casa de sistemas da América Latina”, orgulha-se Giuseppe Santanche, diretor comercial.

Os números expressivos refletem a boa atuação da empresa em diferentes nichos de atuação. O segmento de calçados não é dos mais expressivos, corresponde a menos de 5% dos negócios da empresa. “Não atuamos com produtos para solados, principal produto para esse nicho”, justifica. Para o setor, a empresa se destaca pelos materiais desenvolvidos para as palmilhas, nicho considerado bastante promissor.

Um dos desafios atuais do centro de pesquisas e desenvolvimento da Purcom é criar um poliuretano gel apropriado para a fabricação de palmilhas especiais. “Essas palmilhas são comercializadas em farmácias e quase sempre importadas”, diz. É um nicho atraente, esse produto apresenta elevado valor agregado. “Estamos desenvolvendo um projeto para uma grande empresa”, diz Santanche, que prefere manter em sigilo o nome do cliente.

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