Cadeia produtiva avançou no conceito – Economia circular

Questões da reciclagem - Cadeia produtiva avançou no conceito, apesar da pandemia

A pandemia fez de 2020 um ano inusitado, repleto de distorções e exigindo novos modelos de atividade e relacionamento em todas as vertentes da vida humana.

Até na produção industrial, que após as enormes preocupações iniciais, imergiu em uma conjuntura de desequilíbrios e desproporções nos mais diversos mercados, com problemas de abastecimento de matérias-primas, insumos e equipamentos.

Cenário, como não poderia deixar de ser, materializado também na cadeia produtiva do plástico que, a despeito das dificuldades atuais, procurou se aproximar um pouco mais dos preceitos da economia circular.

Houve, é claro, contratempos e obstáculos adicionais ao avanço desse processo: por exemplo, na reciclagem, duramente afetada pela quase total paralisação por razões sanitárias das atividades de catadores e cooperativas.

Além disso, se no início da pandemia os projetos para o desenvolvimento de produtos e processos mais afeitos ao conceito da circularidade foram prejudicados pelas necessidades de isolamento social, seguiu difícil realizá-los também depois, quando foi preciso atender a uma demanda em rápida expansão.


Economia circular - Cadeia produtiva avançou no conceito, apesar da pandemia ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Paulo Teixeira: cooperação técnica para aprimorar gestão

Foram, no entanto, surgindo projetos para vincular ainda mais o setor à economia circular.

Um deles, anunciado em agosto pela Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico): o início de implementação de um acordo de cooperação técnica desenvolvido em parceria com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), focado em métodos eficazes de gestão de resíduos e logística reversa.

“Ele tem duração de um ano, e seu primeiro relatório deve ser apresentado em dezembro”, diz Paulo Teixeira, diretor-superintendente da Abiplast

(veja adiante quadro com informações sobre programas institucionais recentes de economia circular da indústria do plástico).

Pouco antes, em junho, a Plastivida (Instituto Socioambiental dos Plásticos) lançou oficialmente o programa Pellet Zero – OCS, destinado a certificar empresas comprometidas com a redução da perda na forma de pellets, cuja base são os parâmetros estabelecidos no programa internacional OCS (Operation Clean Sweep), adaptados para a realidade brasileira

Braskem, Dow, Innova, Unigel, e outras vinte empresas – entre transformadores, distribuidores e transportadoras – já obtiveram diferentes estágios dessa certificação.

“Até o final deste ano, a Braskem será a primeira empresa da América Latina a receber a certificação Blue, a máxima concedida pela OCS”, destaca Miguel Bahiense, presidente da Plastivida. “Outras empresas estão em processo de obtenção da certificação”, acrescenta.

A pandemia, pondera Bahiense, não poderia deixar de afetar o avanço da adoção da economia circular pela indústria do plástico, pois impactou toda a vida humana. “Mas ela não diminuiu o interesse do setor por esse tema, aliás, esse interesse é crescente”, enfatiza.

Questões da reciclagem

Grandes empresas da cadeia do plástico também anunciaram projetos focados em economia circular.

Caso da Dow, que em outubro comunicou o início da produção, em parceria com a recicladora Boomera, de sua primeira resina feita com materiais PCR (reciclados pós-consumo) produzida no Brasil.

Quase simultaneamente, a Braskem divulgou uma parceria com a empresa Tecipar para a montagem de uma usina de triagem que permitirá a recuperação, a cada ano, de material correspondente a cerca de 36 milhões de embalagens de PE e PP, equivalentes a 2 mil t de resina, obtidas pela coleta pública dos municípios paulistas de Barueri e Santana do Parnaíba.

Essa parceria amplia o acesso da Braskem a suprimentos para a produção de resinas recicladas, hoje presentes em seu portfólio em nove grades de PE e PP.

Economia circular - Cadeia produtiva avançou no conceito, apesar da pandemia ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Fabiana: parceria amplia em 2 mil t a oferta de resinas

“Nossa oferta global de resinas recicladas, de 2 mil toneladas em 2019, chegará este ano a 10 mil toneladas”, ressalta Fabiana Quiroga, diretora de Economia Circular da empresa na América do Sul. “Antes da pandemia, prevíamos uma expansão ainda maior dessa oferta.”

Empresas do porte de Johnson & Johnson, Natura e Tramontina utilizam resinas recicladas da Braskem, que delega sua produção a cinco recicladores homologados. Mas a Covid-19 conteve um pouco a expansão desse uso.

“Um dos impactos da pandemia foi atrasar a homologação no uso dessas resinas por parte dos clientes, primeiramente, pela paralisação dos processos; depois, pela intensa demanda”, destaca Fabiana.


Diminuiu também a oferta de matéria-prima para reciclagem, afinal, justifica Anderson da Silva Nassif, integrante da equipe técnica da Ancat (Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis), diferentemente da coleta de lixo público, a atividade dos catadores não foi qualificada como serviço essencial quando teve início a pandemia, e muitas cooperativas interromperam suas atividades.

Economia circular - Cadeia produtiva avançou no conceito, apesar da pandemia ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Anderson da Silva Nassif: sem catadores, preço dos reciclados disparou

Resultado: o preço de material para reciclagem “chegou a níveis nunca antes vistos”, relata Nassif. “Há um ano, um quilo de PET era vendido pelas cooperativas por R$ 1,60; agora, esse valor chega a R$ 3,60”, exemplifica.

Tal situação, prevê Nassif, deve se normalizar brevemente, pois cerca de 90% dos catadores brasileiros organizados em cooperativas e associações já retomaram suas atividades. E, provavelmente, haverá agora mais catadores nas ruas do país.

“Tanto o crescimento do desemprego, quanto a valorização dos resíduos recicláveis estão atraindo mais gente para a atividade”, relata o representante da Ancat, que atualmente congrega cerca de 180 cooperativas, compostas por aproximadamente 6 mil catadores de vários estados do país, no ano passado responsáveis pela coleta de aproximadamente 130 mil toneladas de material para reciclagem.

Economia circular - Cadeia produtiva avançou no conceito, apesar da pandemia ©QD Foto: Divulgação/Braskem
Jaroski: metas de reciclagem foram mantidas, porém adiadas

Possibilidades e prioridades

A rápida normalização da oferta de materiais para a reciclagem, provavelmente no final deste ano, é projetada também por Maurício Jaroski, diretor de química sustentável, reciclagem e economia circular na consultoria Maxiquim.

“Haverá mais gente nas ruas, e provavelmente mais consumo”, prevê.

Também Jaroski não crê que a pandemia tenha refreado o processo de associação da indústria do plástico ao conceito da economia circular, tendo havido no máximo “uma postergação”, inevitável em uma conjuntura na qual o mundo todo conteve grande parte de suas atividades.

“Mas nenhuma empresa reduziu suas metas de uso de resinas recicladas”, observa o profissional da Maxiquim.

Bahiense, da Plastivida, vê a indústria do plástico decididamente inserida nesse processo, embora, obviamente, sempre haja a possibilidade de avanços adicionais, por exemplo, na vertente relacionada à educação.

“Cada vez mais a sociedade como um todo precisa compreender seu papel nesse processo”, diz. “Também é preciso maior envolvimento do setor público com a coleta seletiva.”

Para Teixeira, da Abiplast, o plástico é material naturalmente associado à economia circular, pois é durável, reutilizável, reciclável, e o design dos produtos feitos com ele pode ser redesenhado para padrões mais afins ao conceito.

“A economia circular é uma construção coletiva, precisa envolver indústria, usuários, poder público, todos em colaboração”, ressalta o diretor da Abiplast.

Na Braskem, especifica Fabiana, uma das diretrizes da trajetória que conduz à economia circular é o investimento em tecnologias capazes de conferir maior escala à produção de resinas recicladas de qualidade. Até porque há um desafio a ser superado.

“Apesar de seus custos e da dificuldade de obtenção de matéria-prima, resina reciclada ainda é muitas vezes buscada como uma alternativa mais barata”.


Esse investimento, ressalta Fabiana, não se restringe aos métodos mecânicos: abrange também a reciclagem química, na qual a Braskem anunciou, em setembro, a inclusão da FCC – Fábrica Carioca de Catalisadores na continuidade de um estudo que mantém em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras, com o objetivo de desenvolver um catalisador de pirólise (um dos caminhos para reciclagem química de resinas).

No começo de novembro, a Braskem divulgou um amplo conjunto de novas metas relacionadas à economia circular. Entre elas, a ampliação de seu portfólio I’m Green, de produtos reciclados ou de origem renovável, que até 2025 deve conter pelo menos 300 mil toneladas de resinas e produtos químicos em cuja formulação haja algum conteúdo reciclado. Além disso, a empresa trabalhará para que nos próximos dez anos haja o descarte adequado de 1,5 milhão de toneladas de resíduos plásticos, devendo ainda, nesse mesmo período, diminuir em 15% suas emissões de gases causadores de efeito estufa.

No ano passado, a Braskem aderiu à AEPW (Alliance to End Plastic Waste), aliança global de grandes empresas de todos os elos da cadeia, focada na redução do desperdício de plásticos.

“A AEPW conta com uma regional em cada país onde tem representação; no Brasil, as atividades foram iniciadas em outubro último”, diz Fabiana.

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