CAD – Programas se sofisticam, preços caem, mas uso amplo esbarra na pulverização

 

O impressionante avanço da informática nos últimos anos tem uma característica marcante. Ao mesmo tempo em que os produtos se sofisticam, tornam-se populares. A teoria vale para computadores, games, outros Plástico, Softwares sofisticados como o Autodesk, ajudam a projetar o molde desde a captura do design da peçaitens do gênero e ainda para os softwares de CAD. Quando surgiram, há quase três décadas, eles tinham recursos limitados, algo comparável à versão eletrônica da combinação prancheta, lápis e borracha. Custavam quantias proibitivas.

Hoje contam com versões complexas, com imagens em três dimensões e recursos outrora inimagináveis. Com esses aplicativos, projetos de moldes intrincados, desenvolvidos após dias de trabalho, podem ser realizados em poucas horas. E as empresas de informática garantem preços hoje bem mais acessíveis quando comparados com os do passado.

Quando somamos ao cenário o incrível desenvolvimento da indústria do plástico nas últimas décadas, percebemos uma convergência de interesses. Por um lado, os fornecedores de softwares procuram disseminar na indústria de injeção de plásticos o uso de soluções modernas, específicas para esse mercado, lançadas depois de exaustivos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento. São os casos, por exemplo, das multinacionais Autodesk, PTC e SolidWorks. Por outro lado, transformadores e ferramenteiros estão ávidos por recursos voltados para tornar mais rápidos os lançamentos de produtos. O mercado exige o desenvolvimento do projeto dos moldes em prazos cada vez mais apertados.

Nos países avançados, a aproximação entre fornecedores e usuários já é realidade. No Brasil, as características do mercado são distintas. O setor de ferramentarias é muito pulverizado, estima-se existirem mais de duas mil empresas do ramo. Dessas, muitas ainda estão na época dos softwares de CAD de duas dimensões e não demonstram tanta disposição para investir em soluções atualizadas. Mesmo estando o setor de plásticos mais avançado nessa evolução do que os usuários de outros segmentos da economia.

Os maiores e/ou mais sofisticados fabricantes de matrizes brasileiros já perceberam as vantagens proporcionadas pela tecnologia. Estão atentos à realidade do mercado e investem em aplicativos para garantir a sobrevivência, em um ramo no qual o futuro se avizinha cada vez mais competitivo. Mas o potencial das vendas ainda é enorme. Para os fornecedores de programas, persiste o desafio de disseminar o uso dos recursos de ponta da informática nesse mercado.

Sob medida – Considerada uma das empresas especializadas em softwares de CAD mais conhecidas do mundo, a Autodesk há quatro anos vem se preparando para investir com força na indústria de injeção de plástico.

“O mundo cada dia está usando mais plásticos, esse mercado para nós representa uma grande oportunidade de

Plástico, CAD - Programas se sofisticam, preços caem, mas uso amplo esbarra na pulverização
Inventor atende os emergentes, diz Stutz

negócios”, justifica Jéferson Stutz, executivo de manufatura industrial da empresa para a América Latina. Para citar um exemplo, ele recorre às montadoras. “Na busca por veículos mais leves, elas têm usado o plástico para substituir muitas peças antes feitas em outros materiais”, lembra.

Para atingir esse mercado com sucesso, a empresa resolveu investir em projeto ambicioso. A Autodesk começou com a aquisição de duas grandes empresas multinacionais: a Alias, reconhecida em todo o mundo como grande especialista em soluções para design, e a Moldflow, líder mundial em softwares de CAE, voltados para simular em computadores as operações de preenchimento de moldes de injeção.

Faltava desenvolver um CAD com características específicas para atender às demandas da indústria do plástico, em especial para as ferramentarias especializadas em moldes de injeção. Além de propriedades tecnológicas adequadas, o produto precisava apresentar custo acessível. “Queríamos democratizar o uso de soluções avançadas de CAD”, explica o executivo.

Depois de dois anos de estudos e testes, o projeto ficou pronto. O software, batizado de Autodesk Inventor Tooling, foi lançado em caráter mundial no último mês de maio. “É o primeiro que atende a todas as necessidades das economias emergentes, em especial o mercado brasileiro”, garante Stutz. Ele justifica sua afirmação: “O projeto foi desenvolvido com base nas características de duas economias promissoras e em expansão, a do Brasil e a da China.”

De acordo com Stutz, as empresas concorrentes oferecem programas de CAD genéricos, usados nas mais diversas atividades, e módulos opcionais, com funções voltadas para a indústria do plástico. “O nosso é completo, específico para moldes. Traz soluções para as três funções que se espera dos softwares de CAD, as de design, projeto da ferramenta e avaliação do processo de injeção”, garante.

Baseado no desenho da peça, o aplicativo executa todas as operações necessárias para o desenvolvimento do projeto do molde. Uma primeira análise é voltada para encontrar o melhor ângulo de extração da peça. Em seguida, o usuário pesquisa qual matéria-prima se mostra mais adequada para ser utilizada. “No software há um banco de dados importado do Moldflow com análises e simulações do desempenho de inúmeros materiais. O objetivo é trazer essa análise já para a etapa de desenvolvimento da peça”, revela o executivo. São calculadas, por exemplo, a energia a ser gasta com o uso de determinada resina e a possibilidade de a peça vir a ser reciclada.

Em seguida, os usuários avaliam o melhor ponto de injeção. “Até pouco tempo, essa análise era feita de acordo com a experiência do projetista ou por meio da realização de testes”, observa. Feito isso, também com dados retirados do Moldflow, pode-se fazer a avaliação preliminar do preenchimento do molde, onde são calculadas informações como tempo do ciclo e fluxo do plástico, entre outras.

As próximas etapas são as de selecionar o projeto do macho e da cavidade, levando em conta a contração da peça, a definição dos postiços, a geração da superfície de fechamento e os projetos de gavetas, pinos extratores e outros componentes. Um acordo permitiu a inclusão no software das informações sobre os milhares de porta-moldes oferecidos ao mercado pela Polimold, empresa líder no ramo no mercado nacional. Dessa forma, se quiser, o usuário pode selecionar o modelo de porta-molde mais adequado para realizar seu projeto. Em tempo: as medidas usadas pela Polimold são seguidas por outras empresas nacionais e internacionais. Dessa forma, é possível para os projetistas selecionar porta-moldes de outros fabricantes.

“Com todos esses recursos, o tempo de desenvolvimento de um projeto de molde, em média de quatro a cinco dias, é reduzido para algumas horas”, garante Stutz. A empresa agora luta para aproveitar o promissor potencial de mercado do produto. Várias iniciativas estão sendo realizadas para divulgar o Inventor Tooling aos potenciais compradores. Entre os públicos-alvo se encontram as grandes corporações, como as automobilísticas e as de eletrodomésticos, grupos com poder multiplicador das vendas por exigir de seus fornecedores a aquisição de recursos sofisticados.

Uma das iniciativas de marketing é a organização de eventos direcionados aos públicos de interesse, nos quais são mostrados os recursos do produto. A Autodesk também tem fechado parcerias estratégicas com várias instituições, universidades e cursos técnicos. De quebra, foi criada uma comunidade na internet de usuários e estudantes. “Qualquer estudante pode se cadastrar e ter acesso gratuito ao software”, ressalta Stutz.

“Pechincha” – US$ 20 mil. Por esse módico preço, os interessados podem adquirir o CAD Pro/Engineer (Pro/E) e os dois módulos específicos para o desenvolvimento de projetos de moldes de injeção oferecidos pela PTC. Para quem acha o preço “salgado”, Hélio Samora, diretor para a América Latina da multinacional, lembra: “O software torna a empresa muito competitiva e exige investimentos muito menores do que as máquinas presentes nas ferramentarias. Um centro de usinagem CNC chega a custar perto de R$ 500 mil.”

De acordo com Samora, uma das vantagens de se usar os produtos oferecidos pela PTC se encontra na possibilidade de se fazer avaliações da estrutura da peça, como análises sobre deformações provocadas pelo efeito da fadiga, entre outras. Dessa forma, calcula-se quando a peça pode prescindir de uma nervura ou se ela pode ter a parede mais fina em determinado local, o que proporciona economia de matéria-prima quando o molde estiver em produção. Caso ocorra alguma alteração no design da peça com a operação em curso, é feita a correção, de forma instantânea, de todos os desenhos relativos ao projeto do molde. “Quem trabalha com ferramentarias sabe como é comum ocorrerem alterações ou correções nos projetos e quanto tempo é necessário para corrigi-las”, ressalta.

Eduardo Falcari, engenheiro de aplicações da PTC, destaca os constantes aperfeiçoamentos feitos no software, a maior parte voltada para atender às solicitações feitas pelos clientes. “Sempre ouvimos nossos usuários para realizar os desenvolvimentos”, assegura. Falcari garante que o Pro/E, cuja versão WildFire 5.0 foi lançada em agosto, é bastante simples de operar e dotado de recursos valiosos.

Quando opera em conjunto com os módulos opcionais oferecidos, o programa permite executar de forma rápida todas as etapas do projeto de um molde obtido de um desenho em três dimensões da peça. Entre outros parâmetros, calcula o número ideal das cavidades e o melhor posicionamento do ponto ou dos pontos de injeção. Também ajuda a se chegar ao design ideal das cavidades – macho e fêmea – e dos componentes móveis, como postiços e gavetas. Avalia o melhor formato dos canais de injeção ou, se for o caso, o melhor posicionamento das câmaras quentes, além de ajudar o projetista a desenhar as linhas de refrigeração.

A padronização também é contemplada. O software contém informações detalhadas sobre modelos de porta-moldes oferecidos por quinze diferentes fabricantes mundiais. Também conta com biblioteca na qual se encontram componentes diversos, como parafusos, buchas, guias e pinos extratores, entre outros. Além disso, fornece desenhos para componentes auxiliares da usinagem, caso dos eletrodos empregados em máquinas de eletroerosão usados para produzir cavidades. Para quem se interessar, a PTC conta com acordo com a Moldflow e oferece programas de análise virtual de preenchimento do molde. Em tempo: os produtos Moldflow não estão incluídos no pacote de US$ 20 mil.

Outra propriedade valorizada pelo engenheiro de aplicativos da PTC se encontra no recurso batizado em português de “doutor dos dados importados”, voltado para a leitura de informações vindas de softwares diversos. O técnico também destaca as soluções de CAM oferecidas, totalmente integradas com as características do CAD.

Samora informa que a PTC conta com quase 90 usuários dos softwares Pro/E em todo o Brasil no universo de plástico. Para ele, trata-se de um número significativo, mediante o atual estágio tecnológico da transformação brasileira. Falcari fala sobre o poder de pressão dos grandes grupos industriais sobre seus fornecedores. Para ele, se uma indústria adquire programas CAD de determinado fornecedor, exige da indústria de autopeças que esta se equipe com produtos similares. “A Motorola só aceita quem trabalha com PTC”, exemplifica.

Para divulgar suas soluções, a PTC organiza vários seminários Brasil afora. A empresa também promove treinamentos básicos para os clientes aprenderem a lidar de forma produtiva com seus produtos. É fácil aprender, em onze dias as pessoas estão familiarizadas com todos os recursos, segundo Samora.

Versão 2010 – O mercado de plásticos também está na mira de outra multinacional de renome do mundo da informática, a Dassault Systèmes SolidWorks. “É uma vertical extremamente importante para a empresa”, garante Oscar Siqueira, gerente da operação da empresa no Brasil. O inverso também é verdadeiro. “As empresas de plástico têm acompanhado de perto as novidades e estão cientes das melhorias em produtividade e qualidade propiciadas por nossas ferramentas”, afirma. O raciocínio não vale apenas para grandes corporações. “Temos um grande volume de clientes de pequeno e médio porte na área de moldes e ferramentaria”, informa.

A empresa acaba de lançar no Brasil a linha de softwares SolidWorks 2010, dotada com vários aprimoramentos em

Plástico, Oscar Siqueira, CAD - Programas se sofisticam, preços caem, mas uso amplo esbarra na pulverização
Siqueira vê mercado do plástico atento ao CAD

relação à série anterior. O produto, oferecido nas versões standard, professional e premium, não é voltado apenas para a indústria do plástico. Tem inúmeras utilizações. A empresa, no entanto, oferece módulos opcionais com soluções específicas para o setor.

De acordo com Siqueira, a nova versão é a mais sofisticada de todas as lançadas pela empresa. Uma novidade presente em todas as versões é o recurso Sustainability, cujo objetivo é medir o impacto ambiental de cada peça projetada, durante todo o seu ciclo de vida útil. Ele ajuda os usuários, entre outros aspectos, a determinar a carga de carbono, o consumo de energia e os impactos no ar e na água durante o fornecimento, a fabricação, a utilização e o descarte da matéria-prima do projeto de um produto.

Plástico, Timoteo Müller, gerente técnico, CAD - Programas se sofisticam, preços caem, mas uso amplo esbarra na pulverização
Müller: SolidWorks oferece opções para interessados em CAM e CAE

Quando a utilização do software é voltada para a injeção de plásticos, Timoteo Müller, gerente técnico da empresa, informa que os clientes contam com completo leque de ferramentas úteis para todos os momentos do desenvolvimento do design da peça e do projeto do molde. O sistema é compatível com informações prestadas por outros programas. “Eles são dotados com recursos para eliminar barreiras de comunicação, fazem de maneira eficiente a conversão de dados das peças importadas”, diz. O gerente também garante a precisão dos dados ao longo de todo o projeto e a distribuição simultânea de informações em todos os computadores ligados ao projeto.

Em relação ao design da peça, o aplicativo permite, em peças de formatos complexos, avaliações variadas. A ideia é evitar problemas de preenchimento correto ou de extração da peça do molde. Podem ser examinados, por exemplo, o arredondamento adequado dos cantos ou a verificação dos ângulos do desenho original.

O produto também contém extenso banco de dados com informações sobre vários materiais. Ainda é possível avaliar o desempenho mecânico da peça, fazendo cálculos tais quais se uma parede pode ter espessura menor do que a projetada inicialmente, proporcionando economia de matéria-prima na produção em escala da peça.

No projeto do molde, o aplicativo verifica todos os aspectos relevantes, como a linha de partição recomendada para a divisão das cavidades, desenho de insertos e gavetas, projeto do conjunto de extração. Ele contém uma biblioteca de soluções para canais de refrigeração, além de amplo conjunto de informações sobre porta-moldes e todos os componentes padronizados, como parafusos, buchas, pinos etc. Faz a análise de tolerâncias das medidas e conta com outros recursos valiosos para os projetistas. “Temos várias opções para os interessados em adquirir softwares de CAM e CAE”, acrescenta Müller.

A exemplo das concorrentes, a SolidWorks se utiliza da organização de eventos e de convênios com instituições de ensino para tentar disseminar o uso de seus programas. A multinacional também tem acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), pelo qual pode divulgar seus produtos e efetuar vendas diretas aos associados da entidade.

 

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Os usuários confirmam os bons resultados obtidos com o uso de sofisticados softwares de CAD. A Fast Tools, instalada em Jundiaí – SP, fabrica moldes de injeção de plástico para peças de precisão. Ela conta em seu parque fabril com equipamentos de última geração, como centros de usinagem, máquinas de eletroerosão e tornos CNC. Seu principal cliente é a indústria automobilística. A empresa já produziu moldes bem complexos, como os de componentes de painéis, peças presentes em sistemas de alimentação de combustível ou nos aparelhos de ar-condicionado dos veículos, entre outros.

Há cinco anos, a empresa decidiu migrar sua estrutura de CAD de soluções de duas para três dimensões. “No passado, os projetos dos moldes eram feitos parcialmente, somente para atender às nossas necessidades de usinagem”, lembra Carlos Wilson da Silva, gerente de ferramentaria. Hoje, os projetos podem ser totalmente desenvolvidos na própria empresa. “Além de automatizar todas as fases com um número mínimo de erros, nosso tempo de produção ficou bem mais curto”, garante. De acordo com o gerente, o ganho de produtividade supera a casa dos 30%.

Opinião similar tem Luís Carlos Bueno de Camargo, diretor da Tasco, fabricante de acessórios para montagens mecânicas e eletroeletrônicas. A empresa verticaliza a produção de peças em plástico. Conta com centro de usinagem, ferramentaria e oito máquinas injetoras de pequena capacidade. Há oito anos, a empresa utiliza soluções de CAD em três dimensões.

Há muito tempo no ramo, Camargo lembra sem saudades da trabalheira que tinha quando desenvolvia projetos de moldes nas pranchetas. Para ele, a economia de tempo proporcionada pela tecnologia é imensa. “O melhor é a correção imediata de todas as etapas quando efetuamos alguma alteração no design da peça”, revela. As correções são comuns. Em alguns projetos, chega-se a efetuar cinco alterações por dia e as modificações são repassadas dos computadores do projeto para as máquinas de usinagem de forma automática.

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