Borracha natural – Plantio no país desponta no cenário global – Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial

No sudeste da Bahia e em parceria com o Centre de Coopération Internationale en Recherche Agrono­mique pour le Développement (Cirad) da França, o centro de pesquisa da Michelin executa diversificado programa em busca de tecnologia e clones de elevada produção – acima de 5 kg/ano – com elevados níveis de tolerância ao M.ulei. “Estamos estudando mais de 20 mil genótipos, muitos deles serão as seringueiras de amanhã”, revela Mattos. Anualmente são feitas no centro de pesquisa da Michelin mais de 50 mil polinizações entre clones de alta produção, procedentes da Ásia, e clones de alta resistência ao M.ulei, estes procedentes da América do Sul, em busca de “filhos” que herdem os genes desejados de ambas.

Três clones resultantes deste programa de pesquisa já foram selecionados e estão sendo recomendados para o plantio, em escala industrial, na Bahia e Espírito Santo. São os FDR 5788, CDC 312 e PMB1. Em parceria com o Banco do Nordeste, a Ceplac e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), 400 mil mudas estão sendo transferidas a agricultores baianos, no âmbito de programas de agricultura familiar. Um comunicado da Michelin à imprensa comemora: “São o resultado de um longo trabalho de seleção e representam uma real esperança para a heveicultura mundial e para as 10 milhões de pessoas que dela dependem, direta ou indiretamente.” O comunicado lembra que “são necessários vinte anos para criar e selecionar uma nova variedade de seringueira”.

Além de viabilizar o plantio de seringueiras em áreas superúmidas do continente americano, os três clones são uma prevenção ao risco de uma possível chegada do M.ulei aos continentes africano e asiático, que respondem por mais de 90% da produção. Na Ásia, esclarece outro agrônomo da Michelin, Paulo Roberto Bonfim, “os clones foram desenvolvidos com características de elevada produtividade, mas nenhum apresenta resistência ao mal das folhas”.

A Michelin também anuncia, no âmbito das “biotecnologias de ponta”, que desenvolveu e está testando duas técnicas de multiplicação in vitro, que resultam em plântulas para povoar os seus viveiros e depois as lavouras.
A primeira é a micropropagação, multiplicação dos caules de um broto posto em um meio de cultura para formar vários brotos, “que iniciam um sistema de raízes independentes”. A outra é a embriogênese somática, que possibilita a cultura de tecidos cujas células contêm todo o patrimônio genético da árvore e “postos sucessivamente em meios nutritivos adaptados formam calos (agrupamento de células) que se transformam em jovens plântulas”. Anuncia também que em parceria com os franceses identificou os genes que respondem pela ação devastadora do M. ulei.
Também a Ceplac, revela o pesquisador José Raimundo Bonadie, executa desde 1972 um programa de melhoramento genético almejando “a seleção de clones produtivos, vigorosos e tolerantes ao M.ulei”. O principal clone resultante deste esforço é o SIAL 1005, “clone com características de alta produção, precocidade e tolerância às principais doenças foliares. “Foi selecionado nas condições ambientais da bastante úmida zona do cacau, no sudeste baiano”, afiança o pesquisador.

Outro agrônomo da Ceplac, Adonias de Castro, pondera que a disponibilidade de clones produtivos e tolerantes ao mal-das-folhas realmente possibilita a convivência com esta doença fora das áreas de escape, como a própria região do cacau. Mas em qualquer área, pondera também, é indispensável o bom manejo – coisas como o emprego adequado das técnicas de sangria e competência nos métodos de organização e exploração do seringal. “São fatores que têm a ver com o sucesso ou fracasso do seringal, com o maior ou menor escoamento do látex e o tempo de vida útil da seringueira, enfim com a produção e a renda.”
No Brasil, a borracha natural para pneu é o Granulado Escuro Brasileiro (GEB), que resulta do beneficiamento do látex extraído da seringueira, coagulado com ácido acético a 5%, granulado na usina, secado em estufa (110o C a 120o C) – tudo isto conforme descrição das normas ABNT NBR 11.597 – e, finalmente, prensado e embalado em fardos de 25 a 35 quilos. Quimicamente, é o polímero de isopreno cis-poli-isopreno. Dependendo da qualidade, é classificado em GEB 1, 2, e 3. O GEB 1 corresponde aos premiados Standard Malaysian Rubber 20 (SMR 20), da Malásia, e ao STR20 Standard Thai Rubber 20 (STR20), da Tailândia, referências mundiais de qualidade.

Quando, em vez de coagulado, o látex sai do seringal líquido, por força da ação de anticoagulantes, é a matéria-prima do Crepe Claro Brasileiro (CCB) e do Granulado Claro Brasileiro (GCB), borrachas de valor unitário mais alto do que o do GEB, destinadas a usos específicos, como solados de sapatos e elásticos. Para ser transformado no CCB, o látex líquido é diluído em água, coagulado e secado em mantas. Para ser o GCB, depois de coagulado segue a mesma seqüência da produção do GEB: é granulado e secado.

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