Borracha

Borracha natural – Plantio no país desponta no cenário global – Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial

Jose Valverde
5 de maio de 2007
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    Plástico Moderno, Carlos Raimundo Mattos, agrônomo e responsável técnico pelo centro de pesquisa das Plantações Michelin da Bahia, Borracha natural - Plantio no país desponta no cenário global - Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial

    Mattos: fungo prejudica ascensão do País em borracha natural

    Um século e trinta anos depois de Henry Wickham, súdito da rainha Vitória, levar do Amazonas as 70 mil sementes de seringueira de onde saíram os enxertos que vicejaram nas colônias inglesas da Ásia e arruinaram os seringais do eldorado extrativista brasileiro, o Brasil é apontado como o país onde estão as melhores condições para o plantio dos pés de seringueira que evitarão acentuado déficit na produção global de borracha natural.

    Por conta principalmente da incontrolável demanda chinesa, o consumo de borracha natural tende a ultrapassar 12 milhões de toneladas em 2020, volume preocupante porque a produção, hoje no patamar de 8,6 milhões de t, pouco tende a ser esticada.

    Em 2020, estará entre 9 e 10 milhões de t. No centro das previsões está a impossibilidade de os três produtores de mais de 70% do suprimento global – Malásia, Tailândia e Indonésia – aumentarem suficientemente a produção, em razão da escassez de terra disponível e dos custos crescentes na agricultura. Depois de 2020, o déficit tende a agravar-se, indica também a simulação. Na Malásia, a produção já é aceleradamente declinante, está em queda livre.

    Plástico Moderno, Paulo Roberto Bonfim, agrônomo da Michelin, Borracha natural - Plantio no país desponta no cenário global - Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial

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    O principal fator imaginado para reverter o déficit previsto é um ambicioso salto na produção brasileira, hoje no modesto patamar de 110 mil t/ano, correspondente a menos de 1,5% da produção global e insuficiente até para abastecer metade do também crescente consumo interno.

    Só nos dois primeiros meses deste ano as importações somaram 30,9 mil toneladas, 28,7% a mais do que no mesmo período do ano passado – e aumentarão ainda mais se a japonesa Yokohama, sétima maior fabricante de pneus, eleger mesmo o Brasil para sua fábrica na América do Sul, e não a Argentina, a outra possível localização.

    O cenário da estagnação e do potencial brasileiro, traçado pela entidade que mais pesquisa o ambiente das borrachas natural e sintética, o International Rubber Study Group (IRSG), já animou os centros de pesquisa e produtores brasileiros a empreenderem o almejado salto na produção. A escala ascendente dos preços da borracha natural, iniciada em 2002, é indício do bom tempo que os produtores nacionais esperam.
    O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) mapeou, só em São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso, 25 milhões de hectares para seringais. Uma enormidade da crosta terrestre que, se fosse inteiramente plantada e rendesse simples 1.500 quilos/hectare, produziria 37,5 milhões de t/ano de borracha seca, mais de três vezes o consumo projetado para 2020. No mundo inteiro, os seringais ocupam 8 milhões de hectares.

    Os produtores de látex e borracha de São Paulo entraram na onda. Com recursos próprios e a liderança da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor), executam o Plano Estadual de Expansão da Cultura Seringueira – plantam 250 mil hectares, cada hectare com 500 seringueiras. Serão 50 mil hectares até 2010; mais 75 mil hectares, de 2011 a 2015; e 125 mil hectares, de 2016 a 2020 – no total, seringueira suficiente para mais de 400 mil t/ano. Em São Paulo, os seringais hoje ocupam 38,2 mil hectares, de onde saem 62 mil t/ano, aproximadamente 55% da produção nacional. “O ritmo é crescente”, vibra o presidente da Apabor, Jayme Vazquez Cortez, referindo-se ao plantio dos 250 mil hectares. Ele calcula que já no fim de 2008, dois anos antes do prazo estabelecido, os primeiros 50 mil hectares estarão florestados. “O Brasil é a bola da vez. Ao contrário da Ásia, tem espaço, mão-de-obra e tecnologia de alto padrão, tanto no campo como na indústria”, comemora. Cortez põe fé nas previsões do IRSG: “O futuro indica que, depois de 2020, a curva do consumo será mais forte que a curva da produção. Teremos preços cada vez mais altos.”

    Os 250 mil hectares formarão o Pólo da Borracha, com três núcleos: o primeiro reunindo os municípios de São José do Rio Preto, Votuporanga, Fernandópolis, Jales e General Salgado; o segundo, Andradina, Araçatuba, Buritama, Lins, Catanduva e Barretos; o terceiro, Dracena, Tupã e Marília.
    Os paulistas estão plantando com o próprio dinheiro, pois não há como recorrer à única linha de financiamento, a do Programa de Plantio Comercial de Florestas (Propflora), que por intermédio do BNDES oferece doze anos com carência de oito, apenas um ano a mais que o tempo necessário para a seringueira começar a dar látex. A impossibilidade, revela Cortez, decorre da exigência de preservar na propriedade 20% da Mata Atlântica, reminiscência que nunca é constatada. No quesito financiamento, a expectativa da Apabor é a ONU aprovar a solicitação, lá protocolada há três anos, para a seringueira ser credenciada no Programa de Seqüestro do Carbono, condição para os novos seringais obterem financiamento internacional, a custo zero.

    Na Bahia, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) elaborou o Programa de Desenvolvimento do Agronegócio Borracha na Bahia e no Espírito Santo (Prodabes), que prevê a formação de sistemas agroflorestais – na Bahia, preferencialmente, consorciando seringueira e cacaueiro; e, no Espírito Santo, seringueira e cafeeiro conilon. A Ceplac propõe que em dez anos seja acrescentados 100 mil hectares consorciados – 80 mil aos 22.500 hectares da Bahia e 20 mil aos 8.600 hectares do Espírito Santo. O investimento previsto é de R$ 730 milhões – R$ 531 milhões na Bahia e R$ 199 milhões no Espírito Santo. Na Bahia, a produção passará das declinantes 11.800 t de borracha seca para 73.730 t; no Espírito Santo, das emergentes 5.772 t para 37.920 t.



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