Borracha natural – Plantio no país desponta no cenário global – Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial

Plástico Moderno, Carlos Raimundo Mattos, agrônomo e responsável técnico pelo centro de pesquisa das Plantações Michelin da Bahia, Borracha natural - Plantio no país desponta no cenário global - Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial
Mattos: fungo prejudica ascensão do País em borracha natural

Um século e trinta anos depois de Henry Wickham, súdito da rainha Vitória, levar do Amazonas as 70 mil sementes de seringueira de onde saíram os enxertos que vicejaram nas colônias inglesas da Ásia e arruinaram os seringais do eldorado extrativista brasileiro, o Brasil é apontado como o país onde estão as melhores condições para o plantio dos pés de seringueira que evitarão acentuado déficit na produção global de borracha natural.

Por conta principalmente da incontrolável demanda chinesa, o consumo de borracha natural tende a ultrapassar 12 milhões de toneladas em 2020, volume preocupante porque a produção, hoje no patamar de 8,6 milhões de t, pouco tende a ser esticada.

Em 2020, estará entre 9 e 10 milhões de t. No centro das previsões está a impossibilidade de os três produtores de mais de 70% do suprimento global – Malásia, Tailândia e Indonésia – aumentarem suficientemente a produção, em razão da escassez de terra disponível e dos custos crescentes na agricultura. Depois de 2020, o déficit tende a agravar-se, indica também a simulação. Na Malásia, a produção já é aceleradamente declinante, está em queda livre.

Plástico Moderno, Paulo Roberto Bonfim, agrônomo da Michelin, Borracha natural - Plantio no país desponta no cenário global - Previsão de aumento da produção brasileira poderá evitar déficit no abastecimento mundial
Bonfim: na Ásia, clones não resistem ao mal-das-folhas

O principal fator imaginado para reverter o déficit previsto é um ambicioso salto na produção brasileira, hoje no modesto patamar de 110 mil t/ano, correspondente a menos de 1,5% da produção global e insuficiente até para abastecer metade do também crescente consumo interno.

Só nos dois primeiros meses deste ano as importações somaram 30,9 mil toneladas, 28,7% a mais do que no mesmo período do ano passado – e aumentarão ainda mais se a japonesa Yokohama, sétima maior fabricante de pneus, eleger mesmo o Brasil para sua fábrica na América do Sul, e não a Argentina, a outra possível localização.

O cenário da estagnação e do potencial brasileiro, traçado pela entidade que mais pesquisa o ambiente das borrachas natural e sintética, o International Rubber Study Group (IRSG), já animou os centros de pesquisa e produtores brasileiros a empreenderem o almejado salto na produção. A escala ascendente dos preços da borracha natural, iniciada em 2002, é indício do bom tempo que os produtores nacionais esperam.
O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) mapeou, só em São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso, 25 milhões de hectares para seringais. Uma enormidade da crosta terrestre que, se fosse inteiramente plantada e rendesse simples 1.500 quilos/hectare, produziria 37,5 milhões de t/ano de borracha seca, mais de três vezes o consumo projetado para 2020. No mundo inteiro, os seringais ocupam 8 milhões de hectares.

Os produtores de látex e borracha de São Paulo entraram na onda. Com recursos próprios e a liderança da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor), executam o Plano Estadual de Expansão da Cultura Seringueira – plantam 250 mil hectares, cada hectare com 500 seringueiras. Serão 50 mil hectares até 2010; mais 75 mil hectares, de 2011 a 2015; e 125 mil hectares, de 2016 a 2020 – no total, seringueira suficiente para mais de 400 mil t/ano. Em São Paulo, os seringais hoje ocupam 38,2 mil hectares, de onde saem 62 mil t/ano, aproximadamente 55% da produção nacional. “O ritmo é crescente”, vibra o presidente da Apabor, Jayme Vazquez Cortez, referindo-se ao plantio dos 250 mil hectares. Ele calcula que já no fim de 2008, dois anos antes do prazo estabelecido, os primeiros 50 mil hectares estarão florestados. “O Brasil é a bola da vez. Ao contrário da Ásia, tem espaço, mão-de-obra e tecnologia de alto padrão, tanto no campo como na indústria”, comemora. Cortez põe fé nas previsões do IRSG: “O futuro indica que, depois de 2020, a curva do consumo será mais forte que a curva da produção. Teremos preços cada vez mais altos.”

Os 250 mil hectares formarão o Pólo da Borracha, com três núcleos: o primeiro reunindo os municípios de São José do Rio Preto, Votuporanga, Fernandópolis, Jales e General Salgado; o segundo, Andradina, Araçatuba, Buritama, Lins, Catanduva e Barretos; o terceiro, Dracena, Tupã e Marília.
Os paulistas estão plantando com o próprio dinheiro, pois não há como recorrer à única linha de financiamento, a do Programa de Plantio Comercial de Florestas (Propflora), que por intermédio do BNDES oferece doze anos com carência de oito, apenas um ano a mais que o tempo necessário para a seringueira começar a dar látex. A impossibilidade, revela Cortez, decorre da exigência de preservar na propriedade 20% da Mata Atlântica, reminiscência que nunca é constatada. No quesito financiamento, a expectativa da Apabor é a ONU aprovar a solicitação, lá protocolada há três anos, para a seringueira ser credenciada no Programa de Seqüestro do Carbono, condição para os novos seringais obterem financiamento internacional, a custo zero.

Na Bahia, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) elaborou o Programa de Desenvolvimento do Agronegócio Borracha na Bahia e no Espírito Santo (Prodabes), que prevê a formação de sistemas agroflorestais – na Bahia, preferencialmente, consorciando seringueira e cacaueiro; e, no Espírito Santo, seringueira e cafeeiro conilon. A Ceplac propõe que em dez anos seja acrescentados 100 mil hectares consorciados – 80 mil aos 22.500 hectares da Bahia e 20 mil aos 8.600 hectares do Espírito Santo. O investimento previsto é de R$ 730 milhões – R$ 531 milhões na Bahia e R$ 199 milhões no Espírito Santo. Na Bahia, a produção passará das declinantes 11.800 t de borracha seca para 73.730 t; no Espírito Santo, das emergentes 5.772 t para 37.920 t.

Para a execução do Prodabes, a Ceplac quer a ação conjunta de ministérios, dos dois governos estaduais e das prefeituras, nas áreas de pesquisa, assistência técnica e extensão, crédito, e organização da cadeia agroindustrial da borracha. No âmbito da agricultura familiar, sugere que o Pronaf financie módulos de três hectares por dezesseis anos, com oito de carência – sugestão que considera o fato de a seringueira começar a produzir aos sete anos aproximadamente e estender a produção por cerca de trinta anos.

O agrônomo da Ceplac Adonias de Castro ressalta que o Prodabes também recomenda a substituição da eritrina, a leguminosa que dá sombreamento ao cacaueiro, por seringueira. “Mas na renovação dos cacauais e no plantio dos novos, recomenda-se o plantio simultâneo do cacaueiro e da seringueira.” Adonias explica que o sistema agroflorestal antecipa e incrementa a receita por hectare e melhora o caixa, aumentando a competitividade de ambas as culturas. “O cacau enxertado começa a produzir três anos antes da seringueira”, esclarece. São também vantagens do sistema agroflorestal: maior lucro por superfície cultivada; uso mais racional do espaço e da luz; maior reciclagem de nutrientes; e melhor aproveitamento residual de fertilizantes. No sudeste da Bahia já há mais de 8 mil hectares de seringueira e cacaueiros consorciados.

O interesse pela borracha natural na Bahia está sendo reanimado também pela recente instalação de duas novas fábricas de pneus na Grande Salvador, a Bridgestone/Firestone e a Continental, e também pela ampliação da Pirelli, em Feira de Santana. Em instalação, há ainda: em Feira de Santana, a Muller Bahia, fabricante de pneus para empilhadeiras, reboques e veículos de carga para portos e aeroportos; e em Camaçari a fábrica de negro-de-fumo da Columbian Chemicals Company.

Esses empreendimentos concentraram na Bahia mais da metade da produção de pneus, a maior parte para exportação. “O Brasil é um paradoxo, importa borracha e exporta pneus”, ironiza Cortez.
No Mato Grosso, um produtor apontado como modelo, o Grupo OMB, dono de 3 mil hectares de seringais, anuncia expansões. “Nos próximos anos, só no plantio vamos investir R$ 24 milhões e suprir a ociosidade de nossa fábrica”, anuncia o diretor Airton Reviglio. O OMB é dono também de 500 hectares no Espírito Santo.

A Natural Consultoria, gestora do Projeto Borracha Natural Brasileira, revela que o clima favorável aos negócios da borracha está motivando municípios como Frutal-MG, Prata-MG e Nova Crixás-GO a se tornarem pólos produtores. Estão apregoando clima e solo favoráveis e terras mais baratas do que em São Paulo. O Projeto Borracha Natural, sediado em Piracicaba-SP, foi criado “para suprir a crescente demanda por informações sócio-econômicas e técnico-científicas fidedignas sobre a heveicultura brasileira”, revela o agrônomo Heiko Rossmann. Ele e o colega Augusto Hauber Gameiro são os criadores do Projeto. “Estamos lançando um informativo mensal em inglês para atender à demanda externa por informações sobre heveicultura no Brasil”, anuncia Rossmann.

Diferentemente do passado, quando o setor reivindicava medidas protecionistas como contingenciamento nas importações – praticado até 1997 – e subsídio – entre 1997 e 2002 –, a borracha hoje é regida pela lei do mercado, em condições que Jayme Cortez classifica de “altamente competitivas”. Ele não apresenta uma explicação precisa para a mudança. “Simplesmente houve uma evolução muito forte para cima do mercado internacional”, arrisca. A evolução do preço pago às usinas desde 2001 atesta com mais precisão a razão do otimismo: em janeiro de 2001, constatou a Natural Consultoria, o valor pelo quilo da melhor borracha para pneus, o granulado GEB 1, alcançou R$ 1,53. Nos janeiros seguintes descreveu a seguinte trajetória: 2002, R$ 1,57; 2003, R$ 3,42; 2004, R$ 3,90; 2005, R$ 3,90; 2006, R$ 4,25; 2007, R$ 4,06 – gradual variação de 158% entre janeiro de 2002 e 2007. A ascensão continua. Em março, o preço bateu em R$ 4,80/kg.

Mal-das-folhas – O desenvolvimento dos primeiros clones de seringueira resistentes a um fungo marcantemente presente na história do Brasil, o Microcyclus ulei, também está influenciando o sentimento empreendedor. O fungo é o causador do mal-das-folhas, a doença que desaconselha a plantação de seringais nas áreas mais úmidas, justamente as que, sem a ocorrência desta doença, seriam as mais produtivas. Essas áreas, caracterizadas por chuva nas quatro estações, possibilitam a sangria no decorrer dos doze meses, um a dois a mais do que nas chamadas áreas de escape, onde a chuva sempre escasseia em alguns meses.

No Brasil, para proteger-se do mal-das-folhas, a heveicultura tem se dirigido para as áreas de escape, as que apresentam, combinadamente, as condições de temperatura, solo e principalmente precipitações que assegurem, pelo menos na maior parte do ano, o elevado suprimento de água exigido pela seringueira – chuvas entre 1.400 mm e 1.600 mm – sem reter umidade suficiente para dar boa vida ao M. ulei. São geralmente áreas com altitude inferior a 800 metros. O planalto paulista, o extremo sul da Bahia e o Espírito Santo são áreas de escape.

O mal-das-folhas retarda o crescimento da seringueira mediante redução da folhagem. Nos seringais adultos, o fungo causa devastador desfolhamento e acentuado desfalque na produção. É a doença que no fim dos anos 20, no ambiente hostil do Pará, causou danos fatais a Fordlândia, frustrada colônia seringalista de um milhão de hectares e 70 milhões de mudas de onde deveriam sair 300 mil t/ano, metade da então produção mundial de borracha natural, mas que gerou, principalmente, enorme prejuízo para o empreendedor, o histórico Henry Ford. “O Microcyclus ulei e o conseqüente mal-das-folhas são a razão de o Brasil não ser o principal produtor de borracha natural”, enfatiza o agrônomo e responsável técnico pelo centro de pesquisa das Plantações Michelin da Bahia, Carlos Raimundo Mattos.

No sudeste da Bahia e em parceria com o Centre de Coopération Internationale en Recherche Agrono­mique pour le Développement (Cirad) da França, o centro de pesquisa da Michelin executa diversificado programa em busca de tecnologia e clones de elevada produção – acima de 5 kg/ano – com elevados níveis de tolerância ao M.ulei. “Estamos estudando mais de 20 mil genótipos, muitos deles serão as seringueiras de amanhã”, revela Mattos. Anualmente são feitas no centro de pesquisa da Michelin mais de 50 mil polinizações entre clones de alta produção, procedentes da Ásia, e clones de alta resistência ao M.ulei, estes procedentes da América do Sul, em busca de “filhos” que herdem os genes desejados de ambas.

Três clones resultantes deste programa de pesquisa já foram selecionados e estão sendo recomendados para o plantio, em escala industrial, na Bahia e Espírito Santo. São os FDR 5788, CDC 312 e PMB1. Em parceria com o Banco do Nordeste, a Ceplac e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), 400 mil mudas estão sendo transferidas a agricultores baianos, no âmbito de programas de agricultura familiar. Um comunicado da Michelin à imprensa comemora: “São o resultado de um longo trabalho de seleção e representam uma real esperança para a heveicultura mundial e para as 10 milhões de pessoas que dela dependem, direta ou indiretamente.” O comunicado lembra que “são necessários vinte anos para criar e selecionar uma nova variedade de seringueira”.

Além de viabilizar o plantio de seringueiras em áreas superúmidas do continente americano, os três clones são uma prevenção ao risco de uma possível chegada do M.ulei aos continentes africano e asiático, que respondem por mais de 90% da produção. Na Ásia, esclarece outro agrônomo da Michelin, Paulo Roberto Bonfim, “os clones foram desenvolvidos com características de elevada produtividade, mas nenhum apresenta resistência ao mal das folhas”.

A Michelin também anuncia, no âmbito das “biotecnologias de ponta”, que desenvolveu e está testando duas técnicas de multiplicação in vitro, que resultam em plântulas para povoar os seus viveiros e depois as lavouras.
A primeira é a micropropagação, multiplicação dos caules de um broto posto em um meio de cultura para formar vários brotos, “que iniciam um sistema de raízes independentes”. A outra é a embriogênese somática, que possibilita a cultura de tecidos cujas células contêm todo o patrimônio genético da árvore e “postos sucessivamente em meios nutritivos adaptados formam calos (agrupamento de células) que se transformam em jovens plântulas”. Anuncia também que em parceria com os franceses identificou os genes que respondem pela ação devastadora do M. ulei.
Também a Ceplac, revela o pesquisador José Raimundo Bonadie, executa desde 1972 um programa de melhoramento genético almejando “a seleção de clones produtivos, vigorosos e tolerantes ao M.ulei”. O principal clone resultante deste esforço é o SIAL 1005, “clone com características de alta produção, precocidade e tolerância às principais doenças foliares. “Foi selecionado nas condições ambientais da bastante úmida zona do cacau, no sudeste baiano”, afiança o pesquisador.

Outro agrônomo da Ceplac, Adonias de Castro, pondera que a disponibilidade de clones produtivos e tolerantes ao mal-das-folhas realmente possibilita a convivência com esta doença fora das áreas de escape, como a própria região do cacau. Mas em qualquer área, pondera também, é indispensável o bom manejo – coisas como o emprego adequado das técnicas de sangria e competência nos métodos de organização e exploração do seringal. “São fatores que têm a ver com o sucesso ou fracasso do seringal, com o maior ou menor escoamento do látex e o tempo de vida útil da seringueira, enfim com a produção e a renda.”
No Brasil, a borracha natural para pneu é o Granulado Escuro Brasileiro (GEB), que resulta do beneficiamento do látex extraído da seringueira, coagulado com ácido acético a 5%, granulado na usina, secado em estufa (110o C a 120o C) – tudo isto conforme descrição das normas ABNT NBR 11.597 – e, finalmente, prensado e embalado em fardos de 25 a 35 quilos. Quimicamente, é o polímero de isopreno cis-poli-isopreno. Dependendo da qualidade, é classificado em GEB 1, 2, e 3. O GEB 1 corresponde aos premiados Standard Malaysian Rubber 20 (SMR 20), da Malásia, e ao STR20 Standard Thai Rubber 20 (STR20), da Tailândia, referências mundiais de qualidade.

Quando, em vez de coagulado, o látex sai do seringal líquido, por força da ação de anticoagulantes, é a matéria-prima do Crepe Claro Brasileiro (CCB) e do Granulado Claro Brasileiro (GCB), borrachas de valor unitário mais alto do que o do GEB, destinadas a usos específicos, como solados de sapatos e elásticos. Para ser transformado no CCB, o látex líquido é diluído em água, coagulado e secado em mantas. Para ser o GCB, depois de coagulado segue a mesma seqüência da produção do GEB: é granulado e secado.

Há também o Látex Centrifugado (LC), látex líquido contendo 66% de borracha seca acondicionado em tambores – matéria-prima de balões, luvas e camisinhas.

Indústria exige qualidade – Airton Reviglio, diretor da OMB de Mato Grosso, revela que é regra as indústrias pneumáticas homologarem as empresas fabricantes e fornecedoras de borracha natural e para isso exigem amostras, testam a qualidade dos lotes adquiridos e algumas vezes fazem auditorias nas usinas, com base na norma TS, específica da indústria automobilística. “É condição essencial para o fornecimento à indústria pneumática a certificação ISO 9001:2000”, enfatiza.

A norma ABNT 11.597 define as especificações para a borracha natural,  mas as indústrias pneumáticas costumam adotar especificações próprias, que incluem pequenas variações em relação à norma oficial. “Com base nestas especificações e na capacidade de fornecimento, as indústrias pneumáticas homologam seus fornecedores”, esclarece.Com a exigência da ISO 9001:2000, o fornecedor de borracha natural foi obri­gado a alcançar melhorias contínuas.  “Hoje acreditamos que o produto nacional  nada deve em qualidade ao importado”, assegura.

O executivo explica que a necessária qualidade da borracha procede tanto do seringal quanto do processo industrial. No seringal, a exposição ao sol,  o uso exagerado de coagulantes, a demora na coleta e outros procedimentos incorretos degradam o látex. Na indústria, é importante o zelo referente à granulação adequada, à temperatura na estufa, e ao armazenamento. “É importante sobretudo uma monitoração constante, para assegurar a qualidade do produto final”, recomenda.

A variedade dos clones também tem a ver com a capacidade de produção e com a qualidade do látex. Alguns são conhecidos pela baixa retenção de plasticidade (PRI) na borracha que produzem, característica que favorece a sua degradação, quando submetida a temperaturas. A PRI é medida com o plastímetro, em duas situações: no estado normal da borracha e depois de submetida à degradação em estufa (140o C por 30 minutos).

Outro fator de qualidade é a viscosidade, que indica a elasticidade quando a borracha é submetida a determinado torque. Sujidade, presença de nitrogênio e de teores de cinzas e voláteis também desqualificam a borracha, esclarece o executivo do Grupo OMB.

[toggle_simple title=”Pneu: limitação técnica define tipo de composto” width=”Width of toggle box”]

Aproximados três quartos da borracha natural produzida no mundo são destinados aos compostos de borrachas natural e sintética, a matéria-prima da indústria de pneus – a borracha natural equivale na média a 40% do composto. Tal percentual tem sido crescente, entre 1980 e 1990 ganhou dez pontos e assim está se mantendo, apesar da forte alta das cotações da borracha natural entre 1994 e 1997 e agora, desde 2002. Os restantes 60% correspondem à borracha sintética, precisamente o copolímero de estireno e butadieno (SBR). “Os tipos de utilização e exigência do pneumático a uma determinada condição definem a fórmula do composto”, esclarece a Associação Nacional da Indústria de Pneus (Anip).

É a Anip que esclarece: a borracha natural atende mais aos requisitos relacionados à tração, compressão, cisalhamento, histerese (capacidade de dissipar calor), grip (atrito com o solo) e aderência. A borracha sintética oferece mais resistências à abrasão e ao corte, e aumenta o módulo (dureza do composto).

Em princípio, quanto mais pesado o veículo, mais borracha natural há no pneu: automóvel, 16%; caminhonete, 20%; caminhão e ônibus, 40%; avião, devido à maior resistência requerida no impacto com o solo, 100%. A Anip afiança: os percentuais decorrem de conclusões essencialmente técnicas. Não há margem para alterações significativas no volume das duas borrachas ditadas por variações de ordem econômica.

“A substituição de uma borracha por outra pode ser feita respeitando os detalhes do projeto e os limites de segurança e performance”, pondera. “Mas, em regra, o projeto obedece a limitações técnicas que impedem substituições significativas”, conclui. Nos projetos, o que importa é a melhoria da performance – coisas como maior velocidade de resposta em curvas (deriva), frenagem, aderência no molhado e resposta segura em derivas bruscas. “Para obter a homologação, o pneu deve atender aos requisitos estabelecidos pelas indústrias automotiva e da aviação.”

A Yokohama Rubber, que está decidindo se constrói a nova fábrica no Brasil ou na Argentina, anunciou que desenvolveu um novo composto, que combina óleo de frutas cítricas com borracha natural e assim reduz em 80% a presença da borracha sintética em pneus de passeio. O composto é o Super Nanopower Rubber (SNR), matéria-prima do seu Decibel Super E-Spec.

Em 2006, a produção brasileira total de todos os pneumáticos automotivos alcançou precisas 54.476.793 unidades, das quais 18.720.204 (34,36%) foram exportadas para mais de cem países. Os cinco maiores fabricantes têm fábricas no País: Continental (Camaçari-BA); Bridgestone/Firestone (Ca­­maçari-BA e Santo André-SP); Goodyear (Americana-SP e São Paulo-SP); Michelin (Campo Grande-RJ e Itatiaia-RJ); e Pirelli (Santo André-SP, Campinas-SP, Feira de Santana-BA e Gravataí-RS). Há ainda as fábricas da Levorin e Maggion (Guarulhos-SP) e Rinaldi (Bento Gonçalves-RS).

[/toggle_simple] [toggle_simple title=”Produção dos líderes não deve crescer mais” width=”Width of toggle box”]

Em 2005, os três países que respondem por mais de 70% da produção, Tailândia, Indonésia e Malásia, produziram conjuntamente 6,3 milhões de t/ano de borracha natural – e em 2020 produzirão cerca de 7 milhões de t, concluiu o IRSG. Nos três países, o principal fator limitante, mas não o único, é o esgotamento do estoque de terras.

Na Malásia, dona da liderança por três quartos de século, a produção já está despencando – caiu de 1,6 milhão de t/ano, volume alcançado em 1985, para o patamar de 1,1 milhão em 2005. Em 2020, estará abaixo de 700 mil t. Além da limitação de terras, há problemas causados pela monocultura e estrutura fundiária excessivamente fragmentada. Pouco mais de 420 mil pequenos agricultores, os smallholders, respondem por 80% da produção em um ambiente marcado por produtividade baixa e decrescente; custo de produção crescente; e falta de mão-de-obra, conseqüência do êxodo campo-cidade e da industrialização acelerada.

Entre as soluções remediadoras apontadas pela Bolsa da Malásia, que elaborou a Rubber Revised Strategy, estão: a exploração conjunta das glebas; a integração com outras culturas como cacau e dendê; a adoção de novos métodos baseados em tecnologias inovadoras, principalmente para aumentar a sangria nas seringueiras maduras.

A propagação do Latex Timber Clone, que além de látex apresenta um tronco de maior diâmetro, valorizado na indústria moveleira, faz parte do esforço para assegurar a renda familiar do smallholder e mantê-lo na propriedade. O consultor Heiko Rossmann revela que o governo da Malásia sinalizou que pretende estabilizar a produção em 1 milhão de t/ano.

Na palestra que fez em Piracicaba-SP, em setembro de 2005, o secretário geral do IRSG, Hidde Smith, demonstrou que na Tailândia, agora o país líder, a produção tende a estabilizar-se no atual patamar, e na Indonésia, o segundo colocado, tende ainda a uma moderada evolução. Em 2005, a Tailândia e a Indonésia alcançaram os patamares de 2,9 milhões e 2,3 milhões de t. Nos dois países a produção de borracha natural enfrenta em menor grau os mesmos problemas limitantes da Malásia, agravados pela industrialização acelerada e pela opção estratégica de plantar dendê para reduzir a dependência energética.

A produção também não deverá evoluir na Índia, produtora em 2005 de 770 mil t, e na China, que no mesmo ano produziu 430 mil t e não tem terra para produzir mais. Será crescente no Vietnã – passará do patamar de 450 mil t para 650 mil; e nas Filipinas, onde evoluirá de 100 mil t para 170 mil. E acentuadamente decrescente no Sri Lanka – cairá de 150 mil t para 40 mil.

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